Armandinho celebra criação de Dodô e Osmar: 'Carnaval da Bahia é feito por trios elétricos'
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Das fobicas aos caminhões que hoje arrastam multidões ao som de gêneros musicais dos mais ecléticos, os 70 anos do Trio Elétrico são tema do carnaval do governo da Bahia em 2020. Para contar detalhes desta história, Armandinho Macêdo conversou com o Bahia Notícias e lembrou de alguns episódios interessantes sobre a invenção de seu pai, Osmar, e do amigo Dodô.


O Trio Elétrico, que na verdade era o nome de um conjunto musical e não do equipamento, surgiu em 1950, após os criadores presenciarem um desfile de uma orquestra de frevo pernambucana pelas ruas de Salvador. “Meu pai já gostava de frevo, e quando ele viu o povo enlouquecer com aquele Vassourinha, ele: ‘olha, essa é a música que vai detonar aqui!’”, recorda Armandinho. “Meu pai tinha uma [fobica] que ele dizia que usava no começo da metalúrgica dele para carregar as ferragens dele. E aí ele abriu o fundo, ampliou, fez meio caminhonete para carregar as ferragens dele, aí ele fez isso. Disse: ‘Olha, Dodô, já tenho meu carrinho, já tem um fundo aberto, vai eu e você ali, a percussão vai andando pelo chão e a gente sai tocando’. Rapaz, o negócio fez um sucesso! Quando saiu tocando aquele cavaquinho, aquelas cornetas, o povo enlouqueceu. E ele foi para a Castro Alves porque ele sabia que ali não tinha carnaval oficial e ficava sempre uma galera fazendo batucada, tinha uma concentração de um povão mais pobre que não tinha clube, que não participava daquele corso, daquele desfile de carros alegóricos e tal. E aí ele levou pra lá”, conta o músico, lembrando ainda que a novidade provocou euforia e confusão ao encontrar o Carnaval oficial. “Foi aí que deu um problema danado, porque na frente do Carnaval vinham uns homens na cavalaria, anunciando os que iam na frente. Quando eles chegaram perto do negócio, que viram ‘terenrenren’, diz que os cavalos empinaram, um caiu, se machucou, aí veio a polícia. Prende, não prende, leva e tal, mas o povo todo ‘solta, solta!’”, conta Armandinho.


Criador da guitarra baiana, o multi-instrumentista falou com o BN sobre a evolução da festa, a inclusão dos vocais nos trios elétricos a partir de Moraes Moreira, além da importância da valorização e continuidade do “que representa a cultura baiana”, a exemplo dos blocos afro e afoxés. 


Armandinho destaca ainda que considera mais do que justa a homenagem aos 70 anos do Trio Elétrico e diz que não existe tema mais democrático. “Veio uma conversa de ‘ah, é que o pessoal está querendo uma coisa mais genérica, pra não favorecer a um e a outro’. E eu ainda falei: ‘mais genérico que o trio elétrico…’ (risos). Todo mundo, é bloco afro, axé, pagode, sertanejo, está todo mundo em cima do trio elétrico. Então, tá todo mundo utilizando o veículo, o carnaval da Bahia é feito por trios elétricos”, defende o artista, que subiu pela primeira vez no trio ainda criança, aos 10 anos, e permanece até hoje, junto com seus irmãos. 

 

Esse ano o tema do Carnaval da Bahia é sobre os 70 anos do Trio Elétrico, tradição que se confunde com a história de sua família. Quando você subiu no trio pela primeira vez e como foi? 
Com 10 anos de idade eu comecei a tocar. Eles fizeram o Trio Elétrico, porque não era Dodô e Osmar, o Trio Elétrico era o nome do conjunto deles. É muito interessante quando eu conto isso, e as pessoas até se espantam. Eles botaram lá o Trio Elétrico, e no quinto ano, em 1955 mais ou menos, eles começaram a fazer a estrutura maior e tal, com iluminação, aí começa a vender. Eles vendem a um, a outro, e os outros começam a fazer e aí vai surgindo o Conjunto Atlas, Conjunto Cinco Irmãos, mas como eles escreviam na lateral, o povo dizia “lá vem um trio elétrico”. E eles diziam, nos 10 ou 11 anos em que atuaram, em entrevistas eles falavam “não, Trio Elétrico é o nome do nosso conjunto, nós somos os originais, o Trio Elétrico original. Os outros não são Trio Elétricos, são outra coisa!”. Mas eles não conseguiram, o povo passou a chamar tudo de trio elétrico… 


Bom, eu nasci já vendo essa história dentro de casa. Com 10 anos, em 1964, meu pai já tinha três anos que não saía mais com Dodô e tal, mas ele adorava. Dodô é que não tinha esse espírito de querer fazer trio, ir pra rua, de ser artista, como meu pai tinha. Então, meu pai estava sempre no pé de Dodô e em 1964 ele não queria mais fazer trio e meu pai falou “meu filho, Dodô gosta muito de você, vá pedir você a ele”. E eu com 10 aninhos saí lá: “seu Dodô, faça um trio”. Era ele que montava o som, porque era uma época que não tinha equipamento de som, de trio elétrico, pra alugar aqui e ali. Quem construía isso tinha que construir toda essa sonorização do mesmo jeito que o Dodô fazia. Eles seguiram aquilo ali até a gente voltar em 1974, quando a gente começa a mudar essa estrutura. 


Mas com 10 anos meu pai fez um trio pequenininho numa caminhonete. Ele disse: “oh, vou fazer um trio mirim para você sair tocando com seus irmãos, seus primos e tal”. E aí pronto, saiu aquela galerinha, a garotada. A partir daí, com 10 anos eu já fui emparelhar com o Tapajós, que era o grande trio na época. Porque o Orlando meu pai dizia que foi o continuador da história, quando eles pararam. Então eu começo aí. Em 1969 eu fui tocar na Grande Chance, ganhei um programa da Rede Tupi de Televisão, acabei indo para o Rio de Janeiro e fiz uma apresentação no Teatro Municipal, uma coisa assim apoteótica. Eu era um menino e toquei um pout pourri que levantou a plateia toda. E aí foi um sucesso danado, gravei três discos nessa época, vendeu muito e era um programa que tinha Rio de Janeiro até Norte e Nordeste, pegava Brasília… Passei a viajar, né, passei por Recife, Brasília e Salvador era minha matriz.


Aí eu começo a incrementar mais a coisa de sair nos trios elétricos tocando. Tocava no Saborosa, Jacaré… Então, comecei essa atividade, mas querendo botar o meu trio na rua. E foi muito engraçado, porque a gente tem uma história que meu pai via que eu era o que estava despontando ali na família tocando. Então, quando a gente falava de trio elétrico meu pai chegava a desenhar o “trio de Armandinho”, mas eu dizia: “não, é o trio elétrico de Dodô e Osmar!”. 


Quando a gente fez o primeiro disco, “Jubileu de Prata”, quando arrumei com Moraes [Moreira] para fazer o disco, eu chamei meus irmãos pra gravar. A gente entrou no estúdio e eu chamei meu pai e Dodô, mas ele não queria, estava trabalhando na metalúrgica. Meu pai sempre queria… Mas aí fiz a homenagem para os dois, fizemos o disco pra eles, mas era a gente que tocava. No segundo disco, aí veio meu pai de novo: “Agora, meu filho, é você e seus irmãos, é o trio de Armandinho”. Tanto é, que ele disse: “Olha, o trio quem faz sou eu na metalúrgica e vou botar seu nome bem grande. Não quero Dodô e Osmar, vou botar pequenininho lá”. E ele fez isso no trio elétrico, eu ficava até com vergonha, porque era um acrílico enorme com meu nome bem grandão. E no disco, ele falou “Não vou permitir botar Dodô e Osmar se não botar o seu”. E o Rogério Duarte fez a capa e acabou ficando trio elétrico “Armandinho, Dodô e Osmar” e nunca tiramos o Dodô e Osmar, porque senão ia sumir.


Eu desde pequeno falava na escola. Às vezes passava um trio elétrico e eu dizia que meu pai inventou e ninguém acreditava. No Rio de Janeiro, quando fui pra lá para A Grande Chance, no pessoal da Rede Tupi, da produção do Flávio Cavalcante, eu falei uma vez, e estava até com meu pai: “Olha, a gente quer fazer um número sobre trio elétrico aqui, e meu pai que inventou o trio elétrico”. E eles não acreditavam, diziam que o trio elétrico fazia parte do folclore baiano, que já era uma coisa antiga. E meu pai: “Mas como, se não tinha instrumento elétrico? Como pode ser coisa de antigamente, se em 1930 não tinha nada disso?”. 

 


Armandinho começou a tocar em trio elétrico ainda criança | Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

 

Então você acha importante o carnaval resgatar os 70 anos do trio? Sua família foi consultada e conversou sobre o tema?
Na verdade, a gente já vem falando isso em reuniões. Que são 70 anos de trio elétrico e que a gente gostaria muito, até porque veio uma conversa de “ah, é que o pessoal está querendo uma coisa mais genérica, pra não favorecer a um e a outro”. E eu ainda falei: “mais genérico que o trio elétrico…” (risos). Todo mundo, é bloco afro, axé, pagode, sertanejo, está todo mundo em cima do trio elétrico. Então, tá todo mundo utilizando o veículo, o carnaval da Bahia é feito por trios elétricos.

 

Vocês preparam alguma coisa especial para marcar a data?
Na verdade, a gente fez encontro com o BaianaSystem pra preparar uma música em função dos 70 anos de trio, o Waltinho Queiroz fez uma, o Moraes Moreira, mas a música que a gente tem é uma homenagem que é da minha produtora, Surama Albuquerque, que é uma homenagem que ela fez pra mim. É a música que a gente tem gravada agora e estamos divulgando como a música comemorativa. A música fala do pau elétrico, Dodô e Osmar, mas é uma homenagem direta pra mim, que ela chamou de “Dedos de Ouro”, que é essa coisa de tocar o bandolim, a guitarra baiana… 

 

Para esse Carnaval como está a programação de vocês?
A gente sai no Furdunço, no dia 16. Sai abrindo o Carnaval na quinta-feira, no Campo Grande; domingo, segunda e terça na Barra - Ondina, que são os dias oficiais há anos, desde quando a gente fez aquela fila de blocos, que não botou os trios independentes, ficou só de blocos e nunca conseguiu entrar então conseguimos na Barra, que era nova ainda, estavam preparando o circuito, e conseguimos. E assim a gente manteve até hoje. E a Barra é um circuito que cresceu muito. 


No Campo Grande a gente saia no sábado, mas a gente está mudando. É importante a gente divulgar isso, porque a gente já levava um público, a pipoca da gente, no sábado à tarde lá para o Campo Grande, e agora a gente quer levar na quinta-feira. 


Então a gente faz um show no Pelourinho na sexta-feira de noite, faz o show no pranchão parado na sexta-feira, no Pelourinho, no palco; na terça-feira, além das saídas de trio a gente de tarde faz no pranchão na Praça Castro Alves.
Esse pranchão vai estar durante todos os dias de carnaval. Vai ter Baby, Moraes, a gente, é bom que resgata esse pessoal que tem essa história do carnaval. Porque uma coisa é certa, a gente tem uma história musical no carnaval que predomina como a música do carnaval, a música “trioeletrizada”, isso é uma característica que ficou sendo nossa e de alguns poucos outros que mantêm. 


Eu digo isso não que limite, isso entra até por algumas coisas do axé, você vê que o Luiz Caldas tem uma característica “trioeletrizável”,  a própria Daniela Mercury,  e alguns dos novos também,  como Ivete, Claudia Leitte,  que já descamba um pouco,  mas traz uma escola  dessa música “trioeletrizada”.  O próprio Saulo,  que é o mais novo dessa geração…

 

Você destacou essa coisa da geração, ao longo desses 70 anos de trio muita coisa mudou, inclusive em estrutura econômica. Teve o auge dos blocos com abadás caros, depois boom de camarote, agora os trios sem corda estão voltando. Como você avalia o atual momento do Carnaval de Salvador?
Eu acho que a gente precisa priorizar o que representa a Bahia,  desde os blocos afro.  Eu vejo que precisava ter mais valorização nos espaços,  acho que até para manter essa coisa do baiano criativo,  do baiano artista, isso nunca deixou de existir. Tudo isso vem do trio elétrico, os novos que foram surgindo,  se você pegar aí o Carlinhos Brown,  Daniela,  Luiz Caldas…  ele é um Marco na história do trio elétrico,  que entrou com uma linguagem própria,  um cara que é um grande músico. Então, eu acho que tem que ser prestigiada  essa galera toda para eles não saírem daqui, como estão saindo né.  Margareth [Menezes],  o próprio Carlinhos mesmo,  porque fica perdendo espaço até para quem vem de fora…

 

Você é contrário à vinda de artistas de fora?
Olha, ser contrário é um negócio, eu não gosto de bater assim.  Eu acho que os artistas todos que participam dessa festa é porque gostam, é porque querem,  e por que é um negócio. Mas  tem que ter uma visão do que representa a Bahia,  como Recife segura suas tradições,  mantém  o frevo de metais,  o Maracatu,  uma história,  e não perde a essência do carnaval,  até as alegorias carnavalescas,  o homem da meia-noite que está vindo aí e vai vir com a gente,  inclusive. A gente está fazendo uma parceria com o carnaval do Galo da Madrugada,  eu toco lá no sábado com eles,  com a Bia Villa Chan, que é uma menina que toca…

 

Essa parceria remonta até o início da criação do trio, que vem do contato da cultura pernambucana chegando por aqui, não é?
É, foi baseado numa orquestra de frevo, Vassorinha, 20 dias  antes do carnaval sair nas ruas aqui em Salvador,  a pedido do governo do Estado. Meu pai e Dodô, quando viram aquilo... Meu pai já gostava de frevo, e quando ele viu  o povo enlouquecer com aquele Vassourinha, ele: “olha, essa é a música que vai detonar aqui!”.  Como o Dodô já ligava na bateria, pra sair, levava a bateria pra ilha de Itaparica, para os lugares que não tinha luz, e ligava aqueles amplificadorezinhos dele, aí meu pai com aquelas ideias dele falou “vamos botar já no carro e vamos sair tocando”. Como tinha o corso já com várias fobicas, a gente vê nas filmagens antigas, tem vários carros que saem no desfile que ia pelas ruas, pela Avenida 7, que são iguais à fobica do trio elétrico. Então, meu pai tinha uma que ele dizia que usava no começo da metalúrgica dele para carregar as ferragens dele. E aí ele  abriu o fundo, ampliou, fez meio caminhonete para carregar as ferragens dele, aí ele fez isso. Disse: “Olha, Dodô, já tenho meu carrinho, já tem um fundo aberto, vai eu e você ali,  a percussão vai andando pelo chão e a gente sai tocando”. Rapaz, o negócio fez um sucesso, quando saiu tocando aquele cavaquinho, aquelas cornetas, o povo enlouqueceu. E ele foi para a Castro Alves porque ele sabia que ali não tinha carnaval oficial e ficava sempre uma galera fazendo batucada, tinha uma concentração de um povão mais pobre que não tinha clube, que não participava daquele corso, daquele desfile de carros alegóricos e tal. E aí, ele levou pra lá. 


Eu sei que como o carrinho andava, foi muito engraçado. Ele foi arrastando aquele povão todo, todo mundo atrás, e foi de encontro ao Carnaval oficial. Foi aí que deu um problema danado, porque na frente do Carnaval vinham uns homens na cavalaria, anunciando os que iam na frente. Quando eles chegaram perto do negócio, que viram “terenrenren”, disse que os cavalos empinaram, um caiu, se machucou, aí veio a política. Prende, não prende, leva e tal, mas o povo todo “solta, solta!”. Então a polícia falou: “Olha, pegue essa geringonça de vocês e leve pro outro lado, pra outra rua. Aqui não pode, senão vou prender todo mundo”. Aí eles saíram, demorou um pouquinho, e arrastou um monte de gente que estava nesse corso. Quando eles viram isso, viram que tinham que aumentar. 


O pessoal da percussão ficou cansado, aí meu pai pensou em aumentar. Ele pegou uma caminhonete, botou os percussionistas em cima. Era muito engraçado, porque ficava todo mundo reunido, se você ver a foto desse carrinho, dessa caminhonete, tem o Rupiara até com maraca, aquele afoxé, né, coisa que nem se ouve, não tem muita projeção de som, mas era o regional deles, ainda não tinha essa ideia do trio elétrico, daquela coisa toda. 


Eu sei que é no terceiro ano que ele resolve partir para um caminhão. Aí entra Fratelli Vita, que era coisa de guaraná, e tal, e resolvem ir ampliando, começa a entrar iluminação, e o negócio passa a virar o povo todo já esperando aquele carro que no segundo ano já tinha escrito Trio Elétrico. No terceiro ano também o Trio Elétrico era o nome do conjunto que eles queriam divulgar, mas só tocava dois, era Dodô e Osmar, porque no trio o som bagunçava. No regional, fora, é que eles tinham outro que entrava tocando, tanto que eles deram o nome são três elétricos, que eram o tempo que o elétrico era novidade.


Eu sempre conto isso nos shows. Estava surgindo o ferro elétrico, torradeira elétrica, enceradeira elétrica, aí que eu comparo. Hoje ninguém fala que o computador é elétrico, que a televisão é elétrica, perdeu o sentido. Mas na época, o que era elétrico era um negócio… E eles eram elétricos, era uma coisa que era novidade. Um violão elétrico, um cavaquinho elétrico. Primeiro foi a dupla, depois quando entrou mais um no conjunto, então não era mais dupla, era um trio elétrico, aí deu o nome do conjunto. 


Eu sei que eles montaram essa base, porque meu pai era um grande músico, ele articulava tudo, se baseava pela história do frevo, das marchinhas de carnaval, ia misturando música clássica naquilo ali, e montou a percussão, que vinha mais rebaixada, e a gente fica em cima, porque o som é projetado pra fora. Essa forma de trio elétrico, todos outros que chegaram seguiram. O Orlando [Tapajós] mesmo, quando chegou, em 1957, ele falava: “Osmar e Dodô é que sabem fazer”. Ele era empresário, não era música, então ele seguiu essa forma. Até em 1974, quando a gente volta, era dessa forma. 


Mas em 1975 a gente começa a mudar. A gente começa a colocar o contrabaixo… Porque a minha ideia era de banda. Na semana passada me ligaram perguntando se os Beatles influenciaram o trio elétrico, aí eu parei assim, e disse não. Mas depois eu falei “Ué, influenciaram sim!”, assim como eles influenciaram toda coisa de banda no mundo inteiro. E aí que eu caí na real. Eu queria ser uma banda igual Beatles, de rock, eu não queria que meu trio fosse uma charanga carnavalesca não. E começo a montar o nosso trio elétrico como uma banda. Aí, no terceiro ano nós colocamos a bateria, em 1975 o contrabaixo… E aí foi dando a formação de banda, até que em 1976 subimos toda a percussão e começamos a eletrificar. Como a gente já tinha bateria, fomos reduzindo a percussão. De 12, caímos pra oi, seis, até que chegamos a três ou quatro percussionistas e a bateria. 


E nessa, a gente gravando os discos, era todo instrumental. E o Moraes tinha uma música cantada, que era a primeira que meu pai tinha preparado pra comemorar o jubileu de prata, os 25 anos, aí o Moraes falou “Eu canto”. E nessa dele cantar, quando a gente veio pra Bahia com disco, com tudo, ele veio junto com a gente, na época que ele tinha saído dos Novos Baianos e a carreira dele ainda não tinha encaminhado. E aí é como ele diz, ele saiu de uma família pra outra. Dos Novos Baianos para a família Dodô e Osmar. E no trio não tinha som de voz, era tudo de corneta, aí ficava difícil pra ele. Como ele fala, “o som não era bom mas o povo me ajudava”. A música já era sucesso, principalmente como “Pombo Correio”, que ele botou a letra na música de Dodô e Osmar. E aí a multidão toda cantando ajudava, mesmo o som não sendo bom de voz.


E aí o trio começou a ter cantor. Quando os Novos Baianos botaram o trio deles na rua eles não eram tão instrumentistas, Pepeu [Gomes] não tinha o repertório de trio elétrico, Baby [do Brasil] e Paulinho [Boca de Cantor] eram cantores, eles ficaram “pô, o que a gente vai fazer aqui? Ficar tocando percussão?”. Baby tocava bumbo, ficavam tocando percussão enquanto Pepeu e Jorginho ficavam ali no repertório instrumental. Eu sei que quando eles viram Moraes cantando foi engraçado. Eu me lembro de Baby no microfone que usava pra dar um boa noite e tal. E ela disse: “Oh, Osmar, pode cantar no trio?”. E aí meu pai: “O trio é de vocês! Vocês que mandam, vocês fazem o que vocês quiserem…”. Meu pai tinha essa coisa assim, bem aberto a tudo que rolava. E aí eles começam a cantar e o povo começa a ver o trio com voz. A voz é a comunicação maior. 


Eu sei que a partir dessas modificações que a gente faz, de formar banda, de mostrar o cavaquinho como uma guitarra… Porque eu começo a levar o meu cavaquinho pra banda de Moraes Moreira, começamos a formar A Cor do Som, como guitarra. Comecei a incrementar como guitarra, botei uma quinta corda pra chegar mais perto do timbre de guitarra, mais peso, e aí dei o nome: guitarra baiana. Eu que batizei com esse nome. E começo a escrever. Eu achava que ninguém ia chamar. Eu pensava que o povo ia chamar de cavaquinho mesmo, mas a minha vai chamar guitarra baiana. 


E eu comecei a escrever isso e hoje está aí o BaianaSystem, né, seguindo. O Robertinho, Roberto Barreto, era meu vizinho, morava na minha rua lá na João Pondé. E ele ficava sempre nos ensaios. Com 12, 13, 14 anos ele ia e ficava em pé lá no canto só olhando. Aí a gente começou a travar um relacionamento e tal, e ele interessado na guitarra baiana, já tocava o guitarrão. Eu sei que não deu outra, e eu acho que a continuidade é por aí. Porque eles associam a outras coisas, tem o rap, hip hop, pagode, tá tudo ali de uma forma eletrônica…

 


O músico diz não ser contra a presença de artistas de fora no Carnaval baiano, mas defende a valorização da cultura local | Foto: Paulo Victor Nadal

 

Então você acha que é possível conciliar tradição e renovação?
Nosso trio sempre fez isso. Quando a gente começou, já fazíamos isso. Caetano [Veloso] uma vez falou. Porque nos anos 1990, quando começou É o Tchan em trio elétrico, eu questionei: “Poxa, como você vê isso? Samba nunca deu certo no trio elétrico e o povo está invadindo o trio”. E ele: “Ué, vocês que começaram a fazer isso. Quando era naquele estilo que seu pai e Dodô faziam, só vocês faziam daquele jeito, ninguém mais fazia. A gente subia no trio e não cantava, não tinha nada disso. Mas vocês mudaram, botaram bateria, cantor, abriram. Virou uma banda ao alcance de todos, agora vocês têm que segurar. Vem o pagode…” (risos).

 

Você falou da importância de ter o espaço para os blocos, e na última semana o Ilê Aiyê ficou de fora do Carnaval Ouro Negro, por problemas na apresentação de um documento. Diante desse acontecimento o presidente dos Filhos de Gandhy sugeriu que esses blocos tradicionais não precisassem se submeter a editais e fossem contratados como outros artistas de fora são. Você apoia essa ideia?
De ser valorizada a cultura baiana. Não que a gente não receba os convidados, a gente tem que ser aberto para os outros que também querem subir no trio elétrico e cantar, eu acho que todos têm direito, mas eu acho que tem que ser valorizado principalmente o que representa a cultura baiana, a arte baiana. E isso parte desde os afoxés, o Gandhy, Olodum, Cortejo Afro, Ilê Aiyê. Poxa, são expressões bonitas mesmo…


Sobre a questão do edital, ser já uma coisa oficial, poxa… Tranquilamente eu acho que já devia ser uma coisa oficializada, como você tem no Rio de Janeiro as escolas de samba. Quem vai mudar aquilo alí? Quem vai dizer que a Mangueira precisa de edital pra sair? Eu acho que deveria ser oficializado o apoio, como devia ser oficializado, por exemplo, o espaço do nosso trio na rua...


Nós temos aqui expressões do Carnaval. Caetano fez tanta coisa pelo Carnaval, é que ele nunca quis ter trio elétrico, não foi como Gil. Gil também foi um cara que deu tanta música pra gente. Moraes Moreira é um dos mais importantes, e culminou que uma parceria minha e dele, “Chame Gente”, é uma música que eu vejo até o pessoal de pagode cantar. 


É muito engraçado isso, porque quando estava comemorando os 30 anos de axé, em 2014, perguntaram a Aline Rosa numa entrevista da Globo: “Nessa festa dos 30 anos de axé, diga uma música importante do axé”. E aí ela cantou “Chame Gente” (risos). Aí o Moraes: “Mas Armando, nós não somos axé! A gente veio antes disso, a gente preparou esse caminho pra eles e tal”. E eu: “É, é verdade…”. E ele: “É, eles não têm uma música tão importante!” (risos). Mas é por aí, quer cantar uma música bonita, uma coisa que represente, um hino, uma letra que fala do sagrado e profano, “o baiano é Carnaval”. 

 

E ainda tem essa questão da disputa do lugar na fila dos blocos, como você vê isso?
Existe uma coisa no Carnaval, que se estabeleceu uma fila, então alguns empresários passaram a ser donos, como se fosse um lote da rua, da fila. E vendem isso, é caríssimo aquele espaço. E eu acho que esses espaços deveriam ser dos carnavalescos, das entidades carnavalescas, que realmente fazem, atuam e representam o Carnaval. Porque o empresário visa um lucro com aquilo alí e ele quer botar ali às vezes quem não tem nada a ver com nada, mas vai vender abadá, vai ter patrocínio. Então, isso é uma coisa que ainda precisa ser remanejada, pra que a gente tenha um Carnaval mais autêntico, mais baiano. 


Agora, a respeito desses apoios aí, a gente tem que falar e agradecer, porque a gente tem sido mantido já há alguns anos pelo governo do estado. É claro que a gente tem que ter outros apoios pra poder complementar a nossa estrutura, os trabalhos que a gente faz, inclusive quero aqui divulgar esse trabalho que é super importante, que é o Abadado. 

 

Como funciona esse sistema?
A gente faz umas camisetas que a gente troca por lata de leite. Foi muito interessante, porque nos primeiros anos meu irmão fez com feijão, arroz, e de repente as creches, os dirigentes falaram: ‘olha, peça leite, a gente precisa muito de leite’. Ele aí estabeleceu que seria uma lata de leite trocada pela camisa. E a gente tem feito isso por alguns anos e tem sido um trabalho muito gratificante, porque quando acaba o Carnaval a gente tem cerca de 1500, 2 mil latas de leite ou mais pra distribuir.


 Isso tem sido muito bom e a gente continua mantendo o que a gente considera um Abadado, porque você troca por uma lata de leite e ganha uma camiseta com a estampa Dodô e Osmar. Esse ano a estampa é sobre os 70 anos de trio. Então essas coisas eu acho que são bacanas e fazem a gente ser colaborador de alguma coisa extra a folia e a música. 

 

Na semana passada conversei com Vovô do Ilê e ele destacou a necessidade de que a iniciativa privada também apoie o Carnaval dos blocos tradicionais. Como é para vocês essa relação com os patrocinadores, vocês têm dificuldade de conseguir apoio?
Olha, a gente passou um período que foi muito satisfatório, anos atrás, onde a gente tinha apoio de bancos, de empresas... Mas de repente, nesses últimos dois, três anos, a coisa veio caindo. Caiu o patrocínio da escola de guitarra baiana, a Escola de Música Irmãos Macêdo. A gente vem mantendo a banda da escola, os meninos que aprenderam a tocar a música trioeletrizada, nesse formato que a gente desenvolveu. E essas coisas caíram de repente. Eu não sei porque que a cultura vem sendo tão sacrificada, principalmente essa coisa de escolaridade, que é a coisa mais importante. 


A gente tem meninos de escola pública que não tinham recursos pra essas coisas. A escolinha chegou a ter 160 alunos interessados em aprender. Hoje acabou esse apoio, foi tudo embora e estamos na maior dificuldade. Não podemos manter a escola, só a banda. Os meninos vêm fazendo todo mês uma apresentação lá no Pelourinho, mostrando o que eles aprenderam e estão tocando muito bonito. É emocionante ver e saber que eles aprenderam isso por minha causa, espelhados no que a gente fez aqui, no que a gente toca. E tem uma autenticidade nessa música. Apesar das influências, mas é uma música, um instrumento, uma história criada por nós mesmos. Isso já vem de Dodô e Osmar, com a criação dos instrumentos maciços. 


Uma coisa que eu gosto sempre de lembrar, eles foram muito juntos os dois. Eles trabalharam sempre numa parceria muito bonita, muito bacana. O Dodô morreu mais cedo, em 1978, e meu pai carregava o nome dele, “Dodô, meu inesquecível amigo, meu parceiro”. Eles se integraram. “Nós fizemos o trio, nós fizemos as músicas”. 
Inclusive, o Dodô era eletrotécnico, e quando houve a falência dele da parte de oficina meu pai disse: “Dodô, venha comigo na metalúrgica”. E Dodô entrou com meu pai. Então era uma parceria bonita, que a gente, como já houve uma propaganda em Salvador, quando quiseram dividir a Bahia: “Não podemos dividir isso daqui e nem um Dodô de Osmar”. Essa parceria é tão bonita e sempre motivou a gente, os Irmãos Macêdo, a manter o nome Dodô e Osmar e a história, porque é isso que faz sobreviver tudo isso que foi feito. Tem que ser mostrado, tem que ser contado. Até no trio a gente às vezes conta um pouco, porque o povo tem que saber, tem que lembrar. E vem muita gente de fora que não sabe. 


É engraçado, porque no aniversário do axé music uma apresentadora de televisão de São Paulo falou: “Ah, vocês que começaram isso tudo, como é que foi há 30 anos?”. Quer dizer, 30 anos de axé! (risos). Eu falei: “Como assim, 30 anos atrás? Essa banda aqui tem 40. E a gente traz uma história que vem desde 1950. O trio elétrico não foi inventado há 30 anos pelo axé music”. O pessoal perde essa noção, porque o axé teve tanta projeção dos artistas, que o pessoal que vem acha que foi e mistura tudo. 


É bom a gente lembrar, e a gente faz esse Irmãos Macêdo lá na Casa do Comércio, que vamos fazer o último agora na sexta-feira, justamente pra contar a história que é anterior e o que a gente está fazendo até hoje. Então, é importante que se conte que o axé está dentro desse histórico todo. E como eu falei, o trio elétrico é de todos, é pra todos comemorarem que estamos fazendo 70 anos de trio elétrico, que é a razão de ser desse Carnaval e por isso nós estamos aqui. 

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