Sexta, 22 de Novembro de 2019 - 11:10

Milton Nascimento lembra censura da ditadura a disco: ‘Passamos a mensagem sem letra’

por Lara Teixeira / Rebeca Menezes

Milton Nascimento lembra censura da ditadura a disco: ‘Passamos a mensagem sem letra’
Foto: João Couto / Divulgação
Aos 77 anos, Milton Nascimento tem muito a contar e cantar. Com show da turnê Clube da Esquina marcado para este domingo (24), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, o artista contou ao Bahia Notícias que tem vivido “momentos maravilhosos” na estrada, ao mesmo tempo que recorda momentos intensos que viveu antes, durante e depois da gravação do disco.
 
Grande parte dos álbuns Clube da Esquina 1 e 2, lançados em 1972 e 1978, respectivamente, foi escrita em pleno regime militar. Mesmo com a censura a um disco praticamente inteiro, foi um dos poucos a não ir para o exílio. Na entrevista, o artista explica sua decisão de permanecer no Brasil e como resistiu ao regime: “passamos a mensagem mesmo sem letra”.

Milton resumiu ainda o que acha da nova geração da música brasileira. O cantor recentemente se envolveu em polêmica após dizer, em uma entrevista, que “a música brasileira tá uma merda” (relembre aqui). Depois da repercussão, ele explicou em suas redes sociais que se referiu “exclusivamente à música feita no mainstream do mercado nacional”.
Como está sendo para você até agora celebrar com a turnê os dois discos do Clube da Esquina?
Eu realmente não esperava ter vivido coisas tão marcantes como tem acontecido nessa turnê. A gente viveu momentos maravilhosos na estrada. E além de quase todos os estados do Brasil, a gente ainda conseguiu percorrer nove países. O carinho das pessoas mexeu muito com a gente, por isso essa turnê tem sido tão importante. 
 
Quais são as principais recordações da sua vida que estão surgindo a partir da turnê? 
Ao longo da turnê a gente começa a lembrar de várias coisas, principalmente daquela época. Por exemplo, semana passada a gente fez um show em Niterói, e quando eu já estava em cima do palco me veio um monte de lembranças. Em 1972, pouco antes de gravarmos o primeiro Clube da Esquina, Lô Borges, Beto Guedes e eu, alugamos uma casa em Mar Azul, na Praia de Piratininga, em Niterói. E foi onde fizemos praticamente todas as músicas que entraram no Clube 1. Então sempre acontece de recordar alguma história…
 
No show da turnê, as canções dos dois álbuns se misturam ou são apresentadas em blocos separados?
 A gente toca as músicas dos dois discos sem nenhuma ordem cronológica. Esse é um show que celebra o Clube, então a coisa vai acontecendo naturalmente no palco. Mas, de certa forma, todas elas têm uma ligação. 
 
As letras das suas músicas são atemporais e muitos jovens passaram a te escutar por influência dos pais. Você percebe nos shows a presença deste público mais jovem?
E sabe que isso tem me deixado muito feliz? Por onde a gente passa a rapaziada aparece sempre. 

 

A maioria das canções dos álbuns da turnê foi criada em uma época mais dura do regime militar, quando vários artistas decidiram sair do país. Você foi um dos poucos que continuou no Brasil. Como foi enfrentar este momento de censura e ainda criar músicas de alta qualidade?
Realmente foi muito difícil, mas eu decidi desde o começo que eu não sairia do Brasil jamais. Foi muito complicado...
 
Tiverem canções que não foram liberadas por causa da censura ou que tiveram que ser modificadas?
Em 1973, a gente estava gravando o disco Milagre dos Peixes, e das onze faixas acho que eles censuraram nove. Cortaram praticamente 90% das letras. Mesmo assim não abrimos mão, e passamos a mensagem mesmo sem letra. E essa é apenas uma das histórias.
 
Nos últimos anos você fez parceria com Criolo, Tiago Iorc e já elogiou também outros artistas. O que você tem achado da nova geração do cenário musical brasileiro? 
É uma coisa impressionante, todo dia surge alguém fazendo música no Brasil. E isso nunca vai parar. 
 
Há cerca de um ano você se apresentou na Concha Acústica também. Como está a expectativa em retornar a Salvador e se apresentar neste local?
A Bahia é uma verdadeira paixão pra mim. Já vivi tantas coisas em Salvador, são tantas histórias, tantos amigos, que poucos lugares me deixam tão emocionado. Tocar na Concha, então, é o ápice de emoção pra qualquer artista. 
 
Quais são os planos após a turnê? Pensa em criar um novo álbum?
Por enquanto ainda quero aproveitar ao máximo essa turnê, e depois a gente vê o que vem pela frente…
 
SERVIÇO
O QUÊ:
Milton Nascimento - Turnê Clube da Esquina
QUANDO: Domingo, 24 de novembro - 17:30 (abertura dos portões) / 19hs (início do show)
ONDE: Concha Acústica do Teatro Castro Alves
QUANTO: Plateia: 120,00 (inteira) / 60,00 (meia) | Camarote: 240,00 (inteira) / 120,00 (meia) - Site Ingresso Rápido, bilheteria do Teatro Castro Alves e SACs dos Shoppings Barra e Bela Vista

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