Terça, 22 de Outubro de 2019 - 11:10

'Estamos vivendo momentos estranhos', desabafa Dado Villa-Lobos sobre atualidade

por Lara Teixeira

'Estamos vivendo momentos estranhos', desabafa Dado Villa-Lobos sobre atualidade
Foto: Divulgação/Fernando Schlaepfer
Legião Urbana é um grupo que marcou uma geração nos anos 1980 e ainda consegue passar mensagens importantes nos dias de hoje, já que suas músicas são atemporais e conversam com os acontecimentos da atualidade. A banda encerra em Salvador, neste domingo (27), sua turnê de 30 anos dos álbuns "Dois" e "Que País é Este?", lançados, respectivamente, em 1986 e 1987. Com músicas como "Faroeste Caboclo", "Índios", "Tempo Perdido" e "Eduardo e Mônica", Dado Villa-Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria) se juntam a André Frateschi no vocal, à guitarra e violão de Lucas Vasconcellos, aos teclados e programações de Roberto Pollo e ao baixo de Mauro Berman para se apresentar na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, às 19h.
 
"Salvador tem um astral muito específico, é muito Salvador, é muito bom chegar aí, e espero que isso que eu estou mentalizando aconteça tudo de novo, porque é uma experiência muito boa!", destaca Dado Villa-Lobos ao Bahia Notícias. 
 
Apesar de estar feliz com a resposta do público em relação ao show e de voltar mais consciência ao palco para tocar as músicas dos dois álbuns, o guitarrista confessou ficar triste por interpretar "Que País é Este?", já que é uma canção que vem sendo utilizada por manifestações de diferentes vertentes aqui no Brasil. Um exemplo é a utilização pela extrema direita ao buscar uma ruptura da democracia.
 
"Eu sinceramente acho patético, enfim, eu fico muito triste até de cantar essa música, porque já deu. Mas a extrema direita com seu discurso homofóbico, extremamente violento, partidário e exclusivista, não tem valor pra mim. Quer dizer, não tem nada a dizer, esses caras só pensam em gerar notícias, e notícias sem argumentos, não há mais argumentos, como: ‘vamos buscar então um argumento, canta aí Que País é Este?’, entende? Porque ali não existe ideia e argumentação válida que diga e fale pra pessoas esclarecidas. É triste. Estamos vivendo momentos estranhos, no mundo todo.". 
 
Na entrevista, o artista ainda fez uma análise sobre a atemporalidade da Legião, o amadurecimento do grupo com o passar dos anos e ainda deu esperanças aos fãs sobre uma nova turnê para celebrar o álbum "As Quatro Estações (1989)". "É um disco que tem uma força muito grande pra gente, foi o começo de um novo ciclo da Legião [...] ele abriu novas portas, novas percepções musicais, então a ideia seria fazer".

 

Vocês fizeram em 2015 uma turnê celebrando o primeiro álbum da banda. Queria que você me falasse um pouco de como surgiu a ideia de continuar a turnê, desta vez celebrando os álbuns "Dois" e "Que país é este?".  
Foi uma surpresa tão boa, tão gratificante, tão bacana ter esse reencontro com o público, na verdade com as canções também, com as músicas, com o nosso repertório, tocando do jeito que a gente fez, até conhecendo lugares do Brasil que a gente nunca tinha ido. Rolou uma vontade de realmente fazer, de levar isso ao público, lugares que a gente ainda não tinha chegado. Mas claro que Salvador é sempre uma grande referência pra gente desde sempre, desde 1985. A gente tocou no Toca de Segredo, foi uma doideira. E aí, estamos ali tendo esse reencontro com o público maravilhoso e é um momento especial, especial que eu digo para o Brasil, porque essas canções continuam fazendo um grande sentido pra todo mundo e acho que isso desperta um certo interesse também. Então a gente vai lutando, vai levando na resistência e guerrilha sempre. 

 

No dia 27 de outubro vocês vão encerrar a turnê aqui em Salvador Como foram esses shows, a troca com o público?
Foi maravilhoso, a gente tá com “Dois (1986)” e “Que País É Este (1987)”, que nós tocamos junto e misturado ali. Dividimos o repertório em alguns blocos que fazem sentido. Nós tocamos grandes canções desses discos, De “Eduardo e Mônica”, “Faroeste Caboclo”, “Índios”, “Tempo Perdido” e por aí vai. Tem também músicas tipo “Plantas Embaixo do Aquário”, “Metrópole”. É muito emocionante estar ali tocando essas canções de novo. E a resposta do público sempre muito intensa e muito positiva. A gente realmente vibra. Nós só estamos ali, nos alimentamos daquilo e jogamos de volta para a plateia, e é como tem que ser. É um ato político, estamos em cima do palco, é isso.

 

Como segurar a emoção de trazer novamente essas músicas?
É muito incrível, o público canta de cabo a rabo, essas 2h30 que a gente fica no palco. É muito intenso mesmo e vários momentos incríveis. São momentos especiais nessa vida com certeza. E da última vez que a gente se apresentou na Concha Acústica foi memorável, que lugar maravilhoso, tocar cedo, 19h, é muito lindo.

 

 

Qual a grande diferença entre o “fazer show” com a Legião agora, e o “fazer show” com a Legião, de 30 anos atrás (fora a ausência do Renato Russo)?
O Renato não está aqui, mas com certeza ele está aprovando o que estamos fazendo pelas nossas canções, pelas nossas vidas, reacendendo a chama da Legião. Mas eu acho que hoje em dia, nós temos mais a percepção, compreensão e o entendimento do que é realmente esse repertório, o que ele representa pra gente e para o público. Depois de 30 anos você consegue ver como existe uma força intrínseca das músicas com o público e com a gente. Então eu acho que estamos mais concentrados, mais perceptivo e receptivos a tudo que acontece ali em cima do palco. Antigamente a gente chegava era só doidera, a gente perdia um pouco os sentidos, digamos assim, e hoje não, hoje eu consigo perceber como as coisas andam, como que um solo funciona, como que as pessoas estão se portando, como que estamos. E cada show é realmente um diferente do outro. E a banda tem esse espírito colaborativo e respeitoso com tudo isso. Então, o André é um grande cantor intérprete, pessoal que está tocando, está sendo super bom mesmo.

 

Há fãs que só conhecem o Legião Urbana depois do fim da banda, que nem chegaram a ver a formação original ao vivo. Vocês percebem nos shows esse novo público? E a que você atribui esse caráter atemporal da banda?
Eu acho que a gente enquanto Legião Urbana, até a partida do Renato em 1996, fez muito pouco show. A verdade é que circulamos pouco, então foram poucas as pessoas que viram a gente tocando até o (álbum) “Descobrimento do Brasil (1993)”. Então hoje, eu vejo que existe um interesse das pessoas que não viram, mas também de um público que se renovou talvez. Eu vejo muitos jovens e até crianças que estão lá por conta do repertório, das canções, eu acho que tudo isso fala intimamente com as pessoas, de uma forma universal.

 

A maioria das letras da Legião é atemporal, mas o repertório dos dois álbuns que vocês trazem neste show está bem relacionado com a atual realidade do país. A que você atribui essa atualidade das composições? 
É, em diversas formas é atemporal e universal. Músicas como “Tempo Perdido” que fala de uma relação entre as pessoas, com o seu lugar, os seus próximos, você tem “Fábrica” que fala sobre superar, fala sobre o meio ambiente que está aí over... ‘o céu já foi azul, mas agora é cinza’. São temáticas atuais, você tem “Índios”, que também estamos aí com essa questão toda. E para falar também chega essa canção fantasma que assombra a todos nós há 40 anos que é “Que País É Este?”, e que é isso, ‘nas favelas, no senado, sujeira pra todo lado’. Isso é muito simples e não é só nosso, é uma questão mundial mesmo. Você percebe que por conta disso nós estamos nos palcos, voltando a Salvador mais uma vez, pela terceira vez desde que projeto 30 anos começou e acho que é só por isso, essas canções tem muito ainda o que despertar nas pessoas, e as pessoas estão ali para se emocionar, cantar e pensar junto.

 

 

 

Algumas manifestações de extrema direita que pedem a ruptura da democracia utilizando a música 'Que País é Este?'. Como você vê essa utilização?
Eu vejo que essas ações da extrema direita só pensam, na verdade, elas são ações puras e simplesmente de mídia. ‘Como a gente vai fazer alguma coisa acontecer? Eu vou usar meu Twitter, meu Instagram, meu Facebook, e por aí vai, e vamos lá vamos tocar Que País é Este?, ela está servindo…’.  É uma triste verdade que cabe para qualquer discurso, mas que no fundo, no fundo de nós, quando essa música foi feita no Aborto Elétrico com Renato Russo, éramos jovens anarquistas, digamos assim. Eu sinceramente acho patético, enfim, eu fico muito triste até de cantar essa música, porque já deu. Mas a extrema direita com seu discurso homofóbico, extremamente violento, partidário e exclusivista, não tem valor pra mim. Quer dizer, não tem nada a dizer, esses caras só pensam em gerar notícias, e notícias sem argumentos, não há mais argumentos, como: ‘vamos buscar então um argumento, canta aí Que País é Este?’, entende? Porque ali não existe ideia e argumentação válida que diga e fale pra pessoas esclarecidas. É triste. Estamos vivendo momentos estranhos, no mundo todo. Mas é isso aí.

 

Sobre o show em Salvador, queria que você me falasse um pouco da relação de vocês com o público daqui. 
É como eu falei, desde a troca de segredos, antes das eleições, em outubro na Concha um ano atrás, sempre maravilhoso. Salvador tem um astral muito específico, é muito salvador, é muito bom chegar aí, e espero que isso que eu estou mentalizando aconteça tudo de novo, porque é uma experiência muito boa! Tô lembrando aqui do Toca de Segredo, do bailão de tênis, da Dinha do acarajé lá no Rio Vermelho, essas coisas todas que vem e voltam e que chegam com muita força, e Salvador é um lugar muito querido mesmo. 

 

Vocês já pensam em realizar uma nova turnê? Os fãs podem esperar apresentações de outros álbuns da Legião?
"Existe quem sabe a possibilidade ainda, não está fechado, mas de fazer uma turnê do “As Quatro Estações”, para encerrar aí esse ciclo de 30 anos. Um disco que tem uma força muito grande pra gente, foi o começo de um novo ciclo da Legião, porque o “Dois” e “Que País é Este” a gente fecha um ciclo de Brasília, candango digamos assim, e o “Quatro Estações” abriu novas portas, novas percepções musicais, então a ideia seria fazer. Eu acho que ano que vem não, mas 2021, talvez, vamos ver!". 

 

SERVIÇO
O QUÊ: Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá – “Dois” e “Que País é Este”
QUANDO: Domingo, 27 de outubro, às 19h
ONDE: Concha Acústica do Teatro Castro Alves – Salvador (BA)
VALOR: Plateia – R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia) | Camarote – R$ 240 (inteira) e R$ 120 (meia)

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