Quinta, 25 de Julho de 2019 - 11:10

'Contipurânia', Nara Couto evoca ancestralidade em show de novo CD no TCA

por Jamile Amine

'Contipurânia', Nara Couto evoca ancestralidade em show de novo CD no TCA
Foto: Divulgação

Cerca de um ano após lançar seu primeiro EP em carreira solo (clique aqui), a cantora, dançarina e pesquisadora baiana Nara Couto sobe ao palco do Teatro Castro Alves neste sábado (27), a partir das 21h, para apresentar o show de lançamento de “Contipurânia”, seu disco de estreia, com forte referência à ancestralidade e suas raízes. Dirigido por Elísio Lopes Jr e dividido em três partes, o espetáculo contará com a participação de convidados que possuem alguma conexão com a cantora: Lazzo Matumbi, Ilê Aiyê – com quem ela vai cantar uma música de Moa do Katendê –, a rapper Preta Rara e Mario Cooper, músico de Guiné Bissau. “Acho que é o tempo certo, um tempo de amadurecimento pra chegar nesse lugar com todo embasamento, toda essa carga de todos esses anos enquanto artista, enquanto pesquisadora. Me sinto muito feliz nessa nova etapa e com todo processo”, conta Nara, que há duas décadas se apresenta no TCA, seja como integrante da Orquestra Afrosinfônica, do Balé Folclórico da Bahia ou como backing vocal de outros artistas. 


Em entrevista ao Bahia Notícias, Nara contou sobre sua trajetória, desde criança nas ruas do Curuzu, encantada com a musicalidade e a carga cultural do Ilê Aiyê; passando pela construção da sua identidade artística e como pessoa; até o novo projeto, que resulta em show, CD e DVD. “Eu quis fechar um ciclo com um trabalho bonito, que foi o EP, que reverbera até hoje, e agora iniciando o CD ‘Contipurânia’ com uma provocação e outro entendimento desse novo ciclo de mim”, explica Nara, revelando que, enquanto o EP teve bastante influência da Orquestra Afrocinfônica, o novo trabalho vem com um toque de Letieres Leite, que assina a produção do disco, os arranjos do show, direção musical do DVD, e com quem ela viveu uma imersão de duas semanas. “O maestro foi super gentil e dedicado. Ele estava produzindo o CD de Maria Bethânia, tinha terminado de produzir a primeira parte do CD e nós entramos na imersão no estúdio com os músicos pra pesquisar a sonoridade, então ele trouxe tecnologia para as canções. Eu tenho o eletrônico em uma porcentagem um pouco menor, mas a tecnologia dos tambores, a tecnologia da junção dos elementos, isso foi construído com Letieres”, lembra.


Na entrevista Nara Couto comenta também a situação do país, destacando a necessidade da coletividade e solidariedade para passar pelas turbulências de uma sociedade "doente". “A gente tem que vir com amor mesmo, eu sempre trago o amor como palavra de ordem e sororidade mesmo. Nós precisamos estar juntos, precisamos olhar uns nos olhos dos outros, precisamos trazer [para perto]”, diz a cantora, que falou ainda sobre a nova cena da música baiana e a presença de mulheres e negros em destaque. “Eu torço muito para que não sejam só em evidência Larissa [Larissa Luz], Luedji, Xênia, Josyara, eu, mas que isso multiplique cada vez mais e que a gente tenha suporte, que as pessoas assistam ao nosso show”, pontua, acrescentando que fica “sentida dessa necessidade de ter que sair de Salvador para retornar e ter esse reconhecimento, já que a nossa pesquisa e nossa existência parte daqui”. 

 


Primeiro gostaria de falar sobre o seu contato com as artes. Tendo nascido no Curuzu, foi um caminho natural você se aproximar do Ilê Aiyê?
Eu nunca integrei o Ilê. Ele faz parte do meu processo porque eu nasci no Curuzu, as minhas tias e minha mãe dançaram para algumas ramificações do Ilê, mas eu nunca adentrei, de fato. Essa conexão é por conta do meu bairro mesmo, onde eu morei, então há uma identificação, faz parte da minha construção enquanto artista, enquanto mulher e militante. Eu infelizmente nunca fiz parte como eu gostaria, ser uma rainha do Ilê, mas trabalhei junto com eles durante alguns anos na Beleza Negra, cantando. Mas a minha conexão é um pouquinho mais da infância, tenho muitas memórias de ver o Ilê, assistindo os ensaios dentro do portão de casa, porque até os 12 anos de idade eu não saía de casa sozinha. Então, tem toda essa memória afetiva. Mas eu sempre dancei. Como os mais velhos falam, eu sempre arremedei o Ilê dançando, cantando as músicas, mas eu não ia pros ensaios porque eu era pequena e naquela época a gente não podia sair de casa tão nova assim. 

 


Nara Couto com os colegas de escola na infância, quando vivia na Suíça com sua família | Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal


Falando dessas memórias, foi ali que você começou a se interessar pela dança e pela pesquisa sobre a cultura afrobrasileira?
Na verdade não foi nesse momento. Eu vivia no Curuzu e aí nós nos mudamos, fomos morar na Suíça. Então eu tive uma infância bem movimentada. E aí, quando eu voltei para Salvador que eu comecei a dançar mesmo profissionalmente. Eu dancei pelo Balé Folclórico, comecei lá, e foi ali que eu fui me entendendo, percebendo quem eu era e para onde eu tinha que ir, qual caminho seria. Posteriormente eu comecei a viajar pelo mundo, comecei a conhecer outros países. Quando eu fui conhecer o continente africano, aí sim eu tive esse disparo de entendimento de que tinha esses dois universos que eram um só e faziam parte de mim. Então eu pensei: “nossa, eu me identifico muito com esse lugar!”. Comecei a pesquisar os ritmos de Cabo Verde, de Angola, de Togo, e eu tinha uma identificação muito grande. E quando você se identifica com algo que não está no seu convívio na sua história... eu entrei em conflito e dizia: “meu Deus, eu me identifico com isso. E daqui o que é que eu identifico?”. Aí já estava tudo junto, já estava tudo construído internamente.  

 

A minha religiosidade também faz parte dessa construção. Eu sou de Iemanjá, então tudo que eu faço tem uma conexão, tem um registro com água. Os elementos que são usados na capa do CD, no cartaz e no show têm a ver com essa conexão ancestral mesmo, com esse religar que a gente tem. E eu sempre trago isso como meu cartão de visita, é a minha verdade, sem tanto rebuscar, talvez algo que não fosse pertencente de mim. Então, quando eu subo no palco, quando eu estou em casa, quando eu estou na rua, é a mesma pessoa. Essa essência tem que ser a mesma. 

 

O Balé Folclórico, a dança é minha base. Eu sou da dança, e o canto veio depois. Essa construção com o Balé Folclórico, com a Orquestra Afrosinfônica, essa construção fazendo backing vocal pra Magary Lord, e as minhas pesquisas... eu sou uma pesquisadora não acadêmica, mas acabo fazendo em casa. Eu vivia tudo isso na rua, de viajar pelo mundo todo, e tinha essa pesquisa que eu fazia paralela também sobre esses ritmos, a musicalidade das décadas de 1950, 1960, 1970 na África...

 


Nara Couto no Togo, África, no ano de 2009, durante uma cerimônia de purificação e reconciliação, no Festival de Divindade Negras | Foto: Arquivo Pessoal


A pesquisa começou com a Nara dançarina, ou já na parte da música?
Começou com Nara dançarina. Eu não sabia por que, mas eu já fazia aula de canto, eu já pesquisava ritmos. Quando comecei a fazer backing vocal, aí sim foi solidificando, foi se moldando.  Mas eu já fazia aula de canto, já pesquisava, já pegava a letra para tirar música, enfim, tinha todo esse incômodo da formiguinha que estava ali.


Voltando um pouco. Com que idade você foi morar na Suíça?
Eu fui com 12. Até os 12 eu morei no Curuzu e depois eu fui para a Suíça. Quando eu voltei para Salvador, com 17 anos, entrei na escolinha do Balé Folclórico Junior. Fiz parte da primeira turma dessa escolinha, que está ativa até hoje. Depois disso eu fui gradualmente, como uma bailarina de uma companhia de dança: passei para o segundo elenco, fui para o primeiro, e depois disso comecei a dançar com vários artistas de Salvador. Depois eu saí do axé, porque eu já sabia o que queria, queria cantar. Eu digo que sou aposentada do axé (risos). Só voltaria a dançar se fosse com Psirico, porque eu amo demais. Mas eu aposentei…

 

Fica aí o convite…
Não! Não tenho mais idade! (gargalhada). Mas eu parei de dançar em 2010, se não me engano, e aí eu me dediquei a voltar a fazer aula mesmo de dança para ativar o meu corpo já com essa conexão afro e comecei a cantar. Quer dizer, eu já cantava, também sou uma das fundadoras da Orquestra Afrosinfônica, mas não era tão ativa. Fiquei mais ativa depois que eu saí dessas viagens todas que eu fazia [acompanhando outros artistas] e comecei a me dedicar mais à música.


Essa sua vivência na Europa também estimulou o desejo de mergulhar em suas raízes e identidade? Esse tempo distante despertou em você alguma inquietação? 
Nos primeiros anos não. Acho que no início era como adolescente deslumbrada de estar vivendo esse universo de várias viagens. Mas a viagem que me marcou e foi muito intensa  eu não era mais do Balé Folclórico da Bahia, mas sempre era convidada e voltava pra dançar de alguma forma, e depois voltei pra cantar , foi um Festival de Divindades Negras, que acontecia em Togo. Já estava no mundo dançando com outros artistas, mas eles me chamaram e, quando o balé chama, é uma convocação e a gente vai. Fui para esse festival, que é totalmente mágico, e quando eu cheguei lá  se não me engano foi minha primeira viagem para a África , eu entendi muita coisa. E não foi nenhuma conversa, não aconteceu nada de tão especial, no sentido de uma ação naquele momento. Só a viagem, estar lá, conhecer aquelas pessoas, entender que aquelas pessoas são as minhas pessoas, e perceber como eles nos tratavam. Era como nossos parentes. Dizíamos que éramos os parentes do interior que chegaram pra visitar, então eles sempre queriam estar junto, a gente ia almoçar, passávamos o dia todo juntos, era cansativo, mas era isso, quando você tem parente em casa você quer levar para todos os lugares. E aí, estar ali me fez entender muitas coisas. Me fez fortalecer, porque o Balé Folclórico me deu esse embasamento de quem eu era. Fortaleceu minha religiosidade, a minha negritude, a minha arte. Eu acho que nós somos a soma de várias vivências. Então, cada vivência dessa foi somando, até as que a gente acha que não fazem diferença, mas fazem. 


Com relação a esse seu primeiro disco solo, seu disco, com sua identidade. Ele tem o nome “Contipurânia”, por que esse título?
Primeiro, o “Contipurânia” é essa referência à ancestralidade, às raízes. Eu sempre falo, quando as pessoas dizem: “Contipurânia”, mas como se escreve? Aí eu digo: como “acadimia” (risos), é como “atrevessar”... então tem essa provocação da forma de falar que não é uma forma errada, mas porque muitas letras do português não se aplicam a algumas línguas africanas que vieram para cá, os mais velhos falavam dessa forma por resistência linguística mesmo. Nos outros países eles têm dialetos, entre aspas, mas a gente aqui acabou sendo colonizado de outra forma, e que não sobrou muito. Só nos terreiros que a gente fala em yorubá, mas, fora disso, a gente não tem essa vivência fora da religiosidade. E aí eu fiz essa provocação, foi uma conversa que a gente foi tocando com Elísio [Elísio Lopes Jr]. Na verdade o “Contipurânia” vem com o fim de uma trajetória e o início de uma outra.  Tudo isso é um projeto só. Eu lancei ano passado o EP “Contipurânia”, que foi esse trabalho finalizando um ciclo bem grande, de 10 anos com a Orquestra Afrosinfônica. Então os arranjos são mais sinfônicos, o maestro Ubiratan Marques que fez a direção. 

 

Eu rabisquei essa semana sobre a palavra: “Contipurânia” simboliza a ancestralidade e faz menção à reverência aos mais sábios, mas também à mistura do diálogo com o novo e com o desejo de afro transcender. E como os mais novos entendem a importância de uma base constituída pelos antepassados, que alimentam os mais novos. Eu sempre trago essa responsabilidade, acho que é uma missão. Traduzir que a ancestralidade não está só nesse campo onde existe uma caixinha que a gente não possa mexer. A gente pode afro transcender, a gente pode contemporaneizar sem perder essa base existente. 

 

Então, esse show está proporcionando muitas provocações. Eu fiz esse projeto há uns três anos. Ele foi feito a partir de imagens, em cima desses dois movimentos, tanto o afrofuturismo, quanto o afropunk. Eu fui juntando esses dois movimentos pra entender, pra traduzir essa caixinha, que eu acho que nós podemos modificar sem perder sua essência. Então vai ter um trabalho estético também bastante provocativo. E o “Contipurânia” vem em CD, show e DVD. Ainda tem um DVD pra lançar esse ano…

 

Já tem previsão de data de lançamento?
Está previsto para novembro.

 

Esse show de agora será gravado para o DVD?
Parte do DVD vai ter cenas desse show e as outras serão em formato de clipes musicais. 

 

Já começou a gravar?
Já, a gente tem o primeiro clipe, que é “Brilho do Mar”, que já está no forno, já gravamos bastante cenas. Começando pelas águas, né… 

 

Nada mais justo e coerente…
(risos) É, depois disso tem o show, o CD e o DVD. O “Contipurânia” já vem com a minha provocação de trazer toda essa inquietação minha mesmo. O projeto em si celebra tudo a partir do movimento do corpo, dessa memória que tá presa. Então eu uso bastante da dança nesse show. O show está dividido em três blocos: o sagrado, o encontro e o profano. O sagrado é porque cultua a ancestralidade, a partir do culto aos orixás, em canções que louvam os arquétipos negros. Essa é a primeira parte. Eu sempre trago essa referência, de forma contemporânea, de forma afrofuturista, eu trago essas canções louvando os orixás. O segundo momento, que é o encontro, é o embate, o esbarro dessa matriz minha com o olhar novo e inquieto. 

 


Lazzo é um dos convidados do show do disco "Contipurânia" no TCA | Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

E a terceira, o profano?
É a multiplicação do que foi produzido a partir dessa matriz. É o momento de celebração, em que as pessoas vão ouvir com o corpo. 

 

O show também vai ter participações especiais. Onde é que elas entram nessas três etapas, como vão se dar essas participações?
Eu vou ter a participação do bloco afro Ilê Aiyê, de Lazzo Matumbi e Preta Rara. Cada um tem uma canção especial. Eu estou regravando uma canção de Moa do Katendê, do Ilê. Às vezes a gente só vê o Ilê, mas depois fui ver que era de Moa. Eu regravei essa canção e convidei o Ilê pra gravar. Então está gravado, com a participação de Iracema como representante da ala dos cantores, e nós vamos cantar essa canção e mais algumas surpresas.

 

Qual é a música?
É surpresa também! (risos)

 

E os demais convidados?
Com Lazzo eu estou fazendo uma provocação de um compositor de Guiné Bissau, que eu conversei, gravei uma canção dele e chamei Lazzo pra cantar comigo. E eu chamei a Preta Rara pra fazer um momento muito especial, que também é super surpresa. 

 

Esses artistas eu não os trouxe como convidados como estamos acostumados a ver. Eu trouxe eles por fazerem parte de uma trajetória. O Ilê Aiyê é o primeiro movimento artístico cultural e militante que eu me deparei na minha vida, de identificação, de referência. Lazzo é um dos artistas responsáveis pela minha existência, por passar anos e anos provocando, estimulando que eu fizesse meu próprio trabalho, meu próprio projeto. Ele sempre foi esse pai, né, essa referência. Além da musicalidade, ele foi essa pessoa da conversa, do “venha!”, “vamos!”, “vai!”. E a Preta Rara vem com a provocação de que talvez seja esse momento do embate, do esbarro, e tem uma cena muito bonita que Elísio está preparando. 

 

O que você vai incluir no setlist? Só as músicas do disco, ou vão entrar outras?
Eu estou colocando as músicas do CD, com arranjos de Letieres Leite. Ele que produziu o CD “Contipurânia”. E eu tenho a direção musical de Fábio Leandro. Então, vão ser as músicas do CD e mais algumas canções que não entraram no CD, mas são músicas que já fazem parte do meu repertório. 

 

Dentre os autores, quais entrariam no repertório?
Seu Mateus Aleluia; Bia Ferreira e Caru, vai ter uma canção das duas; Mario Cooper, que é o de Guiné Bissau; Moa do Katendê; tem mais, mas a memória está aqui puxando…

 


Nara Couto se reuniu com equipe, em Boipeba, para capturar imagens da parte gráfica do projeto | Foto: Reprodução / Facebook


Agora você de volta ao palco do TCA, que você já passou diversas vezes dançando ou acompanhando outros artistas, mas estará com um projeto seu, com sua identidade, sua cara. Como é para você essa nova experiência?
Pois é, eu tenho 38 anos, não nego mais a idade, não (risos), e subo no palco desde os 18 anos. Então são 20 anos subindo nesse palco. São 20 anos também nos bastidores, que vêm me dando um embasamento diferencial enquanto artista, de entendimento de uma estrutura. E acho que vai ser muito emocionante estar com os meus, tem uma plateia muito bonita que está se preparando pra assistir também, eu recebo muitas mensagens de fortalecimento. Acho que é o tempo certo, um tempo de amadurecimento pra chegar nesse lugar com todo embasamento, toda essa carga de todos esses anos enquanto artista, enquanto pesquisadora, pra estar ali. Me sinto muito feliz nessa nova etapa e com todo processo. 

 

A equipe ficou totalmente emocionada quando o cartaz ficou pronto, nós fizemos um trabalho de imagem lá em Boipeba. Fomos, passamos dois dias sem saber o que ia acontecer, levamos figurinos... Eu tinha uma ideia, sabia qual era a capa que eu queria, mas deixei livre pra que a equipe pudesse trabalhar também, tocar a arte dela, que eu acredito também que a gente só realiza bons projetos quando estamos no coletivo. As pessoas que estão no projeto estão somando, estão dando seu 100%. E nós fomos pra Boipeba, passamos dois dias em imersão mesmo, de entendimento, de “vamos colocar isso aqui”, todo mundo dando palpite, todo mundo intervindo, somando com a área do outro pra poder trazer esses resultados estéticos. 

 

Tive também uma imersão com Letieres de duas semanas. O maestro foi super gentil e dedicado. Ele estava produzindo o CD de Maria Bethânia, tinha terminado de produzir a primeira parte do CD e nós entramos na imersão no estúdio com os músicos pra pesquisar a sonoridade, então ele trouxe tecnologia para as canções. Eu tenho o eletrônico em uma porcentagem um pouco menor, mas a tecnologia dos tambores, a tecnologia da junção dos elementos, isso foi construído com Letieres. Então eu tive essa honra de ter o maestro Letieres como produtor do disco e arranjador do show. A musicalidade está bem provocativa também e muito diferente do EP. Como eu disse, era o início do fim de uma trajetória. Eu estava finalizando todo um formato, uma musicalidade, não quis pular etapas. Eu quis fechar um ciclo com um trabalho bonito, que foi o EP, que reverbera até hoje, e agora iniciando o CD “Contipurânia” com uma provocação e com outro entendimento desse novo ciclo de mim.

 


A artista viveu uma imersão de duas semanas com o maestro Letieres Leites | Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal


Você falou da questão do coletivo. No carnaval você concedeu uma entrevista e já havia tocado nesse ponto, do trabalho conjunto e da importância de respeitar a diversidade. Você acredita que essa mensagem tem encontrado mais apoio ou mais oposição hoje no Brasil? 
Olha, no Brasil é bem amplo (risos). Eu tenho falado e tenho visto que essa é uma fala que as pessoas se identificam. Acredito que estamos adoecendo, para começar, então é sempre bom você olhar para o lado, não só no campo artístico, mas você olhar para aquele vizinho, aquele amigo, que talvez ele esteja fingindo estar em uma situação, mas na verdade não esteja tão bem. A corrente de ninguém largar a mão de ninguém é real, pelo menos a minha volta ela existe de verdade, e eu acho que a gente precisa ter essa atenção mesmo e perceber o outro,  porque nós estamos adoecendo. Não entrando no campo político, mas acabando entrando, por nós estarmos vivendo essa situação no Brasil que só piora, a violência é a palavra de ordem hoje em dia, o ódio.  Então a gente tem que vir com amor mesmo, eu sempre trago o amor como palavra de ordem e sororidade mesmo. Nós precisamos estar juntos, precisamos olhar uns nos olhos dos outros, precisamos trazer [para perto]. Eu digo que gosto de trabalhar com parentes, eu chamo os amigos, os parentes, porque nós precisamos estar juntos de todas as formas possíveis. E a construção artística não se faz sozinha, hoje eu tenho uma equipe de quatro produtores comigo, mais colaboradores, maquiadores, apoios, patrocínios. Enfim, eu não subo no palco sozinha, porque realmente o artista não faz nada sozinho. Tem a nossa equipe artística, diretor artístico, diretor musical, arranjador, esse é o coletivo que faz com que nós possamos nos fortalecer e eu posso ter o meu show.  Ele tem o meu nome na frente mas é um show de todos nós.  E isso daí faz com que nós não ficamos mais doentes ou leve até o suicídio, eu me preocupo muito com essa questão do suicídio. A gente está adoecendo tanto e ninguém tá percebendo e quando vê já foi. Então dentro do meu pequeno universo, comparado a tudo que está acontecendo no mundo, eu sempre estar com os meus, sempre estar puxando, sempre chamando atenção,  sempre olhando nos olhos, sempre dando importância merecida, real, a todas as pessoas que estão ao meu redor, ao fotógrafo, ao cabeleireiro, o maquiador, por tudo isso é um conjunto, a pessoa que faz o tratamento da minha pele, a manicure, todas essas pessoas contribuem e é de extrema importância a existência delas. O carregador no  palco, o técnico de som, o roadie, então quando eu enxergo, eu enxergo todo mundo, ninguém passa despercebido, e acredito que com esse olho no olho nós consigamos criar essa corrente de amor mesmo, principalmente com esse momento em que a palavra de ordem de ódio, de matar, de morrer, de agressão, está muito forte. 

 

E vejo isso com outros colegas artistas também, com Ellen Oléria, Paula Lima, com Bia Ferreira, Preta Rara, com Lazzo. Ele é uma das pessoas responsáveis, eu não podia fazer esse show sem ele.


Falando de movimento, dessa corrente, no início desse ano eu entrevistei Larissa Luz e ela falou uma coisa que achei forte. Ela disse: “A nova música da Bahia está viva e em ascensão, e o melhor, é negra”. Neste sentido você tem nomes como a própria Larissa, Luedji Luna, você, Xênia França, Josyara, enfim, uma cena grande. Como você tem visto a renovação da música baiana, com tantas mulheres e negras? Te dá esperança ao olhar ao redor e ver outras mulheres negras? Qual é o sentimento que isso desperta em você?
Eu fico em êxtase. E tem mais cantoras ainda, essas são as que estão em evidência, mas tem muitas, elas estão aí, e elas se enxergam também. Elas enxergam que é possível. Recentemente eu precisei fazer uma pesquisa sobre cantoras negras, as primeiras cantoras negras na Bahia, e não tinha um registro, não tem. Eu tive que ir até a Cantina da Lua, que Clarindo guarda né, ele é pesquisador também e conseguiu fazer o registro, ele tem uma pesquisa, por que as mulheres se apresentavam lá. A música da Bahia se apresentava na Cantina da Lua. Como não ter cantoras negras nessa época na Bahia? Hoje em dia eu fico muito feliz, para mim foi um êxtase no carnaval de, em uma noite só, seis artistas negras no palco. Primeiro foi Xênia, Larissa e Luedji, depois veio Paula Lima, Ellen e eu, então foi um dia de celebração, eu fui para casa em êxtase, numa felicidade enorme. Acredito que nós estamos aqui quebrando barreiras, Eu torço muito para que venham mais artistas negras, mais mulheres negras, como homens também. Tem Majur, tem Hiran também que estão aí fazendo o maior sucesso, então, quanto mais, melhor. 

 

Nós estivemos um tempo atrás, não muito distante, porque a televisão ainda retrata dessa forma, que nós somos 1%, que para nós existirmos na mídia, só podia ser uma ou um. Mas isso não é verdade, nós não precisamos ser apenas 1% dos lugares, das mídias, das rádios, dos jornais. Nós podemos estar todas lá. E esse fortalecimento mesmo de mencionar umas às outras é forte e eu vejo isso constantemente entre nós. O meu desejo é que até o ano que vem outras estejam em evidência. Porque elas já existem e estão aí fazendo música. Eu sempre fico acompanhando algumas cantoras aqui em Salvador, queria muito fazer um projeto com todas, mas o patrocínio não veio, mas queria trazer à tona mesmo mais artistas. Eu torço muito para que não sejam só em evidência Larissa, Luedji, Xênia, Josyara, eu, mas que isso multiplique cada vez mais e que a gente tenha suporte, que as pessoas assistam ao nosso show. Tem um desafio muito grande de ir assistir ao show, de comprar o ingresso, de dar espaço e evidência para essas cantoras da terra. Fico sentida dessa necessidade de ter que sair de Salvador para retornar e ter esse reconhecimento, já que a nossa pesquisa e nossa existência parte daqui. Isso também é uma provocação (risos).

 

Além do show, quais são seus planos futuros?
Depois de tudo isso eu estou indo para São Paulo, porque a gente retoma o musical de Dona Ivone de Lara, no final de agosto. Fico até Novembro em cartaz com musical e depois vamos ver os próximos projetos.

 

O processo do disco dá uma pausa, então?
Eu vou fazer uma audição, retorno para Salvador para fazer. Farei essa mesma audição em São Paulo, do CD. A capa do CD ainda não foi divulgada, vai ser divulgada posteriormente, mas no dia do show eu vou fazer uma para venda com o valor baixíssimo para gente compartilhar dessa musicalidade, desse projeto, com outras pessoas.

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