Larissa Luz: ‘A nova música da Bahia está viva, em ascensão, e o melhor: é negra!’
Foto: Divulgação

Três nomes proeminentes da nova música da Bahia, com um forte discurso pró empoderamento feminino negro, Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França uniram suas vozes em um projeto inédito que tem como proposta “contar a história da força da mulher negra dentro da musicalidade baiana”. O Aya Bass estreia no dia 26 de janeiro, dentro da programação da terceira edição do Festival Sangue Novo, em Salvador, que terá ainda shows de Otto, Baco Exu do Blues, BAYO, Duda Beat e Hiran (clique aqui e saiba mais).

 

Responsável pela direção musical e artística, Larissa contou, em entrevista ao Bahia Notícias, a origem do projeto, que além de contemplar o repertório autoral de cada componente do trio, irá homenagear cantoras como Márcia Short, Alobened, Margareth Menezes e Virgínia Rodrigues. A cantora falou ainda sobre o papel do artista na sociedade, sobretudo atualmente, com a onda de retrocessos sofridos pelas minorias.

 

“Acredito que nós somos formadoras de opinião, por sermos artistas, então por isso fazemos política de toda forma, principalmente por sermos mulheres negras. Nosso corpo existindo em si já é um ato político, nossa resistência”, destacou Larissa Luz, lembrando que nas últimas eleições algumas verdades foram desveladas. “A gente pôde constatar o quanto ainda existe, pôde constatar quem tem isso dentro de si e passou tanto tempo escondendo”, avalia a artista. Larissa comentou ainda sobre a renovação da música brasileira e a baiana, que, segundo ela, “por tantos anos foi monopolizada e dominada pela indústria do Axé”, mas hoje é predominantemente negra.
 
 
Primeiramente, o que significa o nome do projeto? 

Ayabá é Mãe Rainha, é o termo dado às orixás femininas.
 
Como e quando surgiu a ideia de criar o Aya Bass? 
A ideia e concepção do projeto é minha. Já tinha ele engavetado há um tempo. A proposta de nos juntarmos partiu das meninas. Xênia foi me assistir no musical “Elza” [espetáculo baseado na biografia de Elza Soares, do qual Larissa Luz faz parte do elenco] e no fim me falou: “estive com Luedji esses dias e constatamos uma coisa: precisamos fazer algo juntas”. Na hora me lembrei do Aya Bass e tudo fluiu!
 


A proposta de unir o trio veio de Xênia França e Luedji Luna | Foto: Reprodução / Instagram


O título veio antes ou depois de vocês definirem a tônica?
O título veio antes. Eu já tinha esse projeto em mente há um tempo com esse nome, e agora casou de fazer com as meninas. 
 
E o repertório, de que forma foi definido?
Como a gente pensou em trazer o arquétipo de orixás femininas para contar a história da força da mulher negra dentro da musicalidade baiana, a gente vai fazer músicas autorais com outros arranjos e leituras. Vamos dividir entre nós e fazer também releituras de cantoras da Bahia que fizeram história, como Margareth Menezes, Alobened, Patrícia da Timbalada…
 
Há quem diga que artista não deve se meter em questões políticas, mas além de terem se posicionado contra Bolsonaro nas últimas eleições, vocês três já imprimem nos trabalhos individuais discursos pautados em temas como feminismo, racismo e respeito à diversidade religiosa. Qual é o papel do artista, sobretudo em um ambiente de polarização como o que vemos no Brasil atualmente?
Acredito que nós somos formadoras de opinião, por sermos artistas, então por isso fazemos política de toda forma, principalmente por sermos mulheres negras. Nosso corpo existindo em si já é um ato político, nossa resistência. Então eu acho que escolher fazer da nossa arte ferramenta política é um caminho comum, apesar de diferentes formas e acho completamente necessário nos tempos de hoje. Sempre foi, e hoje em dia, principalmente, por conta de toda repressão e de todo um retrocesso que o nosso grupo vem sofrendo.
 


Com trabalho que imprime forte discurso político e social, Larissa posa em frente a trecho de sua música "Descolonizada" ao fundo | Foto: Reprodução / Instagram


Você acredita que hoje é preciso reafirmar ainda mais as pautas das minorias?
Com todo esse processo político a gente pôde ver o quanto que ainda existe de racismo, machismo, homofobia no país. Então eu acho que se faz cada vez mais necessário a gente estar trazendo essas pautas à tona e reafirmando, por conta de uma perda considerável no sentido de luta, né, dentro do nosso processo. Com o espelho das eleições a gente pôde constatar o quanto ainda existe, pôde constatar quem tem isso dentro de si e passou tanto tempo escondendo. 

 


Além das homenagens, Larissa, Xênia e Luedji apresentarão canções autorais do repertório de cada uma, em versões especiais e duetos inéditos | Foto: Caroline Lima / Divulgação


 
Alguns saudosistas costumam dizer que não se produz nada de novo e bom atualmente no país, mas vocês são três mulheres baianas, negras, da nova geração, se destacando na música nacional. O próprio festival Sangue Novo tem esse princípio de destacar o que tem sido produzido no país. Acredita que, de fato, há uma renovação na música brasileira? Quais outros novos nomes você destacaria?
Sim, acredito na renovação da música brasileira e aproveito pra fazer o recorte sobre a renovação da música baiana, que por tantos anos foi monopolizada e dominada pela indústria do Axé. A nova música da Bahia está viva, em ascensão, e o melhor: é negra! É Baianasystem, Attooxa, Afrocidade, é Josyara, Hiran... é nós!

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