Silva fala de inspirações baianas e diz que vive 'melhor fase' com música mais brasileira
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O capixaba Lúcio Silva de Souza, mais conhecido como Silva, lançou o seu quinto álbum, intitulado "Brasileiro", este ano. O disco ganhou destaque por trazer ritmos mais nacionais em suas músicas, diferente dos trabalhos anteriores do cantor, que sempre gostou de explorar os sintetizadores. Além disso, Silva revela que o produto traz "reflexões políticas e sobre ser brasileiro".  “Estou achando lindo ser brasileiro, eu já passei dessa idade de ficar pensando: ‘quero fazer tudo o que está saindo no mundo, o que tem em Nova York’. Eu já fui um pouco assim e hoje eu já me ligo com as coisas que são importantes. Eu tenho muitas inspirações das músicas da Bahia, acho que  João Gilberto é o meu cantor predileto, Caetano, Gil, Gal. Eu moro em Vitoria-ES e sempre sofri muita influência do que vem da Bahia”, disse Silva ao Bahia Notícias.  

 

O músico apresenta nesta sexta-feira (28) a sua nova turnê, que recebe o mesmo nome do seu último disco. O show acontece na Sala Principal do Teatro Castro Alves, às 21h. “Eu acho que o show vai ser muito lindo, até porque vai ser no Castro Alves, um teatro que eu amo e é lendário. Já toquei lá com a Gal Costa, em 2015, e lembro que eu fiquei arrepiado com o teatro lotado. Eu acho que vai ser uma experiência muito emocionante para mim”. 

 

De acordo com Silva, "Brasileiro" reflete muito o momento que ele está vivendo. “Eu acho que pessoalmente eu estou na minha melhor fase, estou gostando muito de fazer o que eu faço, e estou me dedicando bastante. [...] Agora eu tenho mais foco, me cuido melhor, então está sendo a turnê mais prazerosa que eu fiz até agora e pela receptividade do público, que está vindo de um jeito muito caloroso”. 
 

Como começou sua relação com a música?
Olha, minha relação com a música começou bem cedo. Minha mãe é professora de música, e aqui em casa a gente sempre teve essa cobrança de ter que estudar música, estudar algum instrumento. Eu comecei com o violino aos 5 anos, e me formei em violino. Sempre gostei de aprender outros instrumentos. Estudei piano por muitos anos também e violão, tudo que eu achava que seria legal de aprender, eu queria aprender. Só não toco bateria, infelizmente.


Quando você começou a compor?
Compor foi uma coisa que eu comecei a fazer um pouco mais velho, porque eu achava que era uma coisa apenas de homens mais velhos, gente que já tinha estudado muito. Mas aí eu comecei a compor, mas muito tímido, sem mostrar para ninguém. Eu lembro que quando tinha 18 anos mais ou menos, meu professor de violão falou "cara, guarda isso aí, é legal", e eu fui evoluindo um pouco. No início as composições eram bem ingênuas, mas com o tempo eu fui amadurecendo um pouco. 

 


Seu último álbum "Silva Canta Marisa" te rendeu uma resposta muito boa do público e duas indicações ao Grammy. Você pode falar um pouco sobre como esse processo refletiu na sua carreira? 
Esse projeto começou de um jeito muito despretensioso, era para ser apenas um programa de TV, só que a resposta das pessoas foi muito grande, e ele ficou de um tamanho que a gente nem planejou, virou disco. Eu fiquei amigo da Marisa, a gente se tornou muito próximo, começamos a fazer algumas músicas juntos depois disso, então foi um projeto que me trouxe muita coisa boa, mais aproximação com o público. Me fez ganhar um público com faixas etárias diferentes, gente até com a "cabecinha branca" nos shows. 

 

A relação com Marisa fez com que você se sentisse mais à vontade para compor com outros artistas?
Sim, foi uma das primeiras experiências que eu tive abrindo essa coisa de compor com outras pessoas. Eu acho que compor é algo bem pessoal, então fazer isso com alguém depende de com quem é. Para mim a música nunca foi uma coisa tipo um jingle, de marca, eu sempre achei que tinha que vir de um lugar mais natural, e não surgir de uma reunião, "a música tem que ter essas e essas palavras, frases de efeitos e tal". Nada contra quem faz isso, mas não é o meu jeito de fazer música e não é o tipo de música que eu acredito, por isso que eu sempre tive mais cuidado. E a Marisa é a rainha disso, eu não conheço ninguém que seja tão criterioso que nem ela. Antes da gente fazer qualquer coisa juntos, ela quis me conhecer pessoalmente, me convidou para a casa dela, e ficamos horas conversando. Ela é uma pessoa que tem esse cuidado de saber com quem ela está fazendo e isso foi um aprendizado muito grande, porque eu vi que ela leva isso muito a sério, procura sempre saber quem são as pessoas que estão trabalhando ali com ela. Eu aprendi muito com ela, e a partir disso eu quis expandir isso com outras pessoas, e veio a Anitta e outros artistas também, como o Ronaldo Bastos, que eu tenho feito bastante coisa junto, inclusive uma música que estará na próxima novela das seis. 

 

Desde 2015 você não lançava um álbum com músicas autorais. O que você acha que mudou em você de lá até a construção do novo disco?
Muita coisa. Acabei de fazer 30 anos, eu estou numa fase que eu estou muito mais seguro fazendo o que estou fazendo, até porque no meu primeiro disco eu tinha entre 22 e 23 anos, em 2012. Eu aprendi muita coisa, era muito inseguro, tinha muito medo do palco. Eu entrava nele e falava: "Oi, boa noite e obrigado", no máximo. E agora eu já estou numa fase que já me sinto à vontade no palco, eu gosto de conversar com o público e também dessa troca que existe. Isso foi algo que aprendi com o tempo, muita terapia, fui ficando mais sagaz com as coisas, aprendendo qual era a minha turma, qual era o meu jeito, como eu funcionava, e hoje acho que já estou lidando melhor com tudo, tocando melhor do que antes, estudando mais, gastando menos tempo postando foto no Instagram e tocando mais piano. Isso é uma coisa que eu vi que quando estava nessa carreira, que foi muito rápido, eu estava gastando muito tempo com coisas que eu não era a música, eu viajava para tocar e quando voltava estava querendo fazer outras coisas. Na época estava até aprendendo a surfar, mas não estava me dedicado à música. Então acho que essa foi a grande mudança. Como eu sempre escutei e estudei música achava que já estava garantido, mas comecei a perceber que precisava me dedicar mais à música, e isso me fez evoluir como cantor. Eu pelo menos acho que do meu último disco para trás consigo ver uma evolução e quero continuar nesse caminho, e para isso não tem mágica, tem que trabalhar e correr atrás mesmo para crescer.

 

Você considera que esse disco tem uma conotação mais política do que os outros?
Eu acho que sim, ele traz algumas reflexões políticas, umas reflexões sobre ser brasileiro, em termos de história e formação do povo, que é uma coisa que eu como músico percebo, do meio que eu vi e convivi, sempre ter esse olhar com as coisas que vinham de fora eram mais legais, saber a última banda que saiu em Londres. Eu acho que isso já está super ultrapassado, então acho que o disco traz essas reflexões, e vem em um momento que eu já não me importo mais com essas coisas. Estou achando lindo ser brasileiro, já passei dessa idade de ficar "quero fazer tudo o que está saindo no mundo, o que tem em Nova York". Eu já fui um pouco assim e hoje já me ligo com as coisas que são importantes. Eu tenho muitas inspirações das músicas da Bahia, acho que João Gilberto é o meu cantor predileto, Caetano, Gil, Gal. Eu moro em Vitoria-ES e sempre sofri muita influência do que vem da Bahia. 

 

Mesmo trazendo essas aspectos políticos em algumas canções e com músicas mais alegres, você disse em uma entrevista que pensou bastante na hora de escolher o nome do disco. Eu queria que você me falasse sobre qual foi a sua intenção ao escolher o título “Brasileiro”. 
O disco fala exatamente sobre isso, a questão central dele é isso, a reflexão sobre ser brasileiro, passa por político, por auto estima, terapia, muitas questões e a própria questão musical. Estou em um país que as pessoas não conheciam coisas da Marisa Monte, não estou nem falando de Dorival Caymmi, mas de Marisa Monte, que começou a aparecer muito nos anos 1990, e tem gente que não tem conhecimento disso. As pessoas só conhecem as coisas que estão acontecendo agora. Isso me deixa muito impressionado, um país que não conhece sua própria história, sua cultura. A gente vai se tornando um país sem identidade, e pensa que tudo que é de fora é melhor, séries, livros, filmes, e é uma coisa que a gente não toma cuidado. É uma coisa que a Elis falava lá nos anos 1980 nas entrevistas dela, "toma cuidado com a rádio brasileira, que agora só toca música de fora". Então é uma reflexão muito grande em cima disso, não tem como resumir, que eu quis ser político com um tema específico, ou levantar bandeira LGBT. Eu poderia ser assim, mas acho que a coisa é muito maior. 

 

Agora, além da política, as músicas parecem mais alegres. O disco reflete o momento que você está vivendo?
Super, eu acho que pessoalmente estou na minha melhor fase, estou gostando muito de fazer o que eu faço, e me dedicando bastante. Antes era muito maluco, eu saía para fazer uma turnê e voltava para minha cidade (Vitória) querendo fazer tudo. Eu saía, perdia a noite, era muito desregrado, e isso foi me deixando muito cansado. Eu fazia shows super cansado. Então fui aprendendo várias coisas, não que agora eu não faça mais nada, mas agora tenho mais foco, me cuido melhor, então está sendo a turnê mais prazerosa que eu fiz até agora e pela receptividade do público, que está vindo de um jeito muito caloroso. 

 

Como surgiu essa vontade de trazer mais a brasilidade para a sua música? Em algumas delas os sintetizadores usados em "Júpiter" ainda são visíveis, mas como aconteceu essa mudança? 
Quando eu falava que eu era brasileiro fora do país, era sempre uma resposta muito positiva e eu comecei a ver o quanto a música brasileira tem uma importância para o mundo todo. E eu comecei a pensar "a gente tem uma história muito boa e eu tento fazer uma música parecida com a deles, tem algo errado aí". Isso não era muito consciente na minha cabeça, mas agora é. Então segui pelo outro caminho, puxar para o lado do Brasil e para as coisas que eu gosto. Gosto muito do samba, bossa, pagode romântico, adoro um axé, então acho que tem essa coisa de trazer isso para o meu som. Então comecei a me enxergar assim, e consegui fazer uma coisa nessa linha.


Como que foi o processo de composição e produção do álbum? 
Eu fiquei fazendo durante a turnê, voltava de viagem e já ficava super conectado com as composições novas, mas fiz de um jeito muito divertido, muito lento. Como fui fazendo durante a turnê, para não ter correria depois, eu já me antecipei. Comecei a compor músicas novas em fevereiro do ano passado, então fiquei mais de um ano escrevendo as músicas, até lançar. Fiz quase 30 músicas para esse disco e escolhi 13. Trabalhei pra caramba, para pegar o melhor que eu achava que tinha a ver com o meu momento. 


Você abre o álbum com a música “Nada Será Mais Como Era Antes”. O que você gostaria que mudasse no Brasil?
Olha, muita coisa, mas eu acho que a primeira coisa é a desigualdade, em geral. Essa briga de classe e de poder, acho isso tão colônia ainda. Isso é uma coisa que eu queria muito que mudasse. Acho que muita coisa já está evoluindo, só pelas discussões estarem acontecendo, hoje em dia a gente fala sobre aborto, fala sobre descriminalização da maconha, coisas que não discutíamos antes, então já fico feliz. Mas a gente ainda tem uma coisa conservadora muito grande, em um país que vende liberdade. Quem não mora aqui (no Brasil) e você conta essas coisas, as pessoas nem acreditam. Então tenho vontade de ver o país crescer, mas não só economicamente, mas a cabeça mesmo das pessoas. Evolução de respeito, para que as pessoas consigam conviver melhor. A minha família inteira é evangélica e eu sou meio que o cara que chutou o balde e foi seguir um caminho completamente diferente, e eles me respeitam completamente do começo ao fim, pelo meu jeito, então isso é uma prova de que é possível. Eu acredito que a gente possa ter um país com mais tolerância. 

 

Durante a produção do álbum teve alguma música que te marcou mais? 
Várias me marcaram, porque dessa vez o processo foi muito concentrado. Esse disco me ocupou muito, gastei muito tempo nele. "Duas da tarde" me marcou muito, e deixei as músicas virem de momentos intuitivos. Isso foi algo novo pra mim, porque eu sempre fui muito conservador com os meus trabalhos e dessa vez eu deixei as músicas só saírem, do jeito que elas quisessem ser. Várias me marcaram, acho que "Prova dos Nove" também foi uma que marcou, porque não foi escrita por mim e eu descobri esse compositor por acaso. Ele é de Recife, o Dé Santos, e eu fiquei apaixonado por essa música desde que eu escutei a versão demo.


No repertório do seu novo álbum você traz músicas com cunho mais social, mas também músicas mais leves e românticas. Essa escolha aconteceu naturalmente durante a produção ou foi algo pensado? 
Eu fui produzindo bastante, acho que nunca trabalhei tanto, em quantidade de músicas. Então no final eu tinha uma gama muito grande para escolher. E aí passei a escolher "essa aqui agora não, bora segurar mais pra frente", fui organizando mais ou menos. Por exemplo, "Nada Será Como Antes" como primeira música, pra mim, quando eu escrevi, já tinha cara de primeira música de álbum, e eu fui montando aos poucos, como se fosse um quebra cabeça, "essa entra aqui, essa outra precisa de uma vinheta"... Foi divertido fazer isso. 

 

Você decidiu lançar "A Cor É Rosa" antes de lançar o álbum. Por que essa escolha? Por que a escolha dela como primeiro single? 
Eu escolhi porque eu tenho muito carinho por ela, e ela traz essa leveza. Pra mim é a mais alegre do disco, é muito dançante, e até no show mesmo, é o momento que as pessoas ficam empolgadas. Eu fico bem feliz de tocar ela ao vivo, e acho que ela causa esse efeito. Foi por isso que eu escolhi. Ela já vem nesse momento político difícil que estamos vivendo, essa pressão e toda conversa é muito séria e muito densa, então eu quis quebrar um pouco disso, tornar mais leve. E ela traz referências do meu estado, que é um lugar que não é muito falado. O Espírito Santos tem vizinhos maravilhosos como Minas Gerais e a Bahia, e não é valorizado. Às vezes a gente não passa nem na previsão do tempo, então quis trazer um pouco dessa coisa de onde eu venho. No clipe eu quis trazer um pouco da cultura dos lugares que eu frequento, e todo mundo levantando bandeiras e cores. Eu brinquei com essa coisa da cor rosa - eu diria que essa é a cor mais neutra nesse momento.

 

Como surgiu a ideia da parceria com a Anitta na música "Fica Tudo Bem"? 
A Anitta é uma artista que eu admiro muito por tudo que ela conquistou e ainda está conquistando. A gente não sabe aonde ela vai parar, porque ela realmente quer muito e trabalha muito e eu sempre admirei muito isso nela. Essa música que eu mandei pra ela, achei que ficaria boa na voz dela, mas nós não tínhamos amigos em comum nem nada, então eu consegui através do pessoal da gravadora o e-mail dela e eu enviei a versão demo da música. Ela ouviu, adorou e mandou mensagem no Instagram falando: "adorei a música, quero gravar, gravar clipe, me passa seu telefone". Foi super legal, porque não foi algo forçado, do tipo "vamos juntar empresários e fazer um hit para tocar nas rádios, eu acho que vai ficar bom, as pessoas gostam da música e tal". Então eu fiquei muito feliz, até porque acaba expandindo para um outro público e acaba apresentando meu trabalho para outras pessoas. Fiquei feliz que ela topou vir para minha onda, participar de uma música do jeito que era ela.

 


Além da Anitta, com quem mais você gostaria de fazer parcerias? 
Tem vários. A própria Ivete Sangalo, tenho muita vontade de fazer alguma coisa com ela um dia, ou com o Caetano. Eu estou conhecendo mais gente agora, há pouco tempo conheci o Saulo, achei ele um cara tão gente boa, tão educado. Mas no momento não tenho nenhum plano, porque estou trabalhando tanto que agora não estou compondo nem pensando em nada. Mas quem sabe daqui a pouco eu já começo a pensar de novo?


Você pensa em gravar um DVD de "Brasileiro"? 
Eu tenho muita vontade sim. Acho que mais pra frente um pouco, quando o show já estiver bem maduro, queria fazer um show, ao invés de ser do começo da turnê, mas dessa vez no fim, quando já estivermos dominando completamente o repertório, e fazer de uma forma bem bonita.

 

Você não passou por Salvador com a turnê "Silva toca Marisa". O público cobrou muito a apresentação de “Brasileiro” aqui? Como é a sua relação com o público baiano?
Eu acho que ninguém sabe, mas o primeiro show na vida foi em Salvador. Isso foi em 2012. Meu primeiro show grande que eu fiz oficialmente depois, já foi em São Paulo, mas um dia antes eu toquei em Salvador, em um projeto chamado ELETRONIKA, então eu já tenho essa coisa com Salvador há muito tempo. Muita gente manda mensagem "pô, vem tocar aqui em Salvador", e agora a gente está em um momento para fazer as coisas de forma planejada. Dessa vez a gente vai passar em todas as cidades que já cobram há mais tempo que eu ainda não tinha consiguido ir. Mas Salvador pra mim é um lugar muito especial, primeiro por ser um lugar histórico, a cidade que é linda e as pessoas são sempre muito simpáticas. Eu sou uma presa fácil para pessoas gentis, e toda vez eu vou aí eu fico impressionado e até falo "quero envelhecer em Salvador". O show vai ser muito lindo, até porque vai ser no Castro Alves, um teatro que eu amo e é lendário. Já toquei lá com a Gal Costa, em 2015, e lembro que eu fiquei arrepiado com o teatro lotado. Eu acho que vai ser uma experiência muito emocionante pra mim.

 

O que o público baiano pode esperar do show?
Esse show tem várias surpresas, é um plano que eu tenho de gravar coisas aí nesse show. Não posso falar muito porque são só planos, eu sei que está muito em cima, mas são ideias que eu já estou correndo atrás e trabalhando pra caramba em cima. A turnê está a todo vapor, eu devo colocar uma coisa ou outra de surpresa, porque é Salvador, e acho que a cidade merece, mas o show é basicamente músicas dos discos passados que conversam com as de agora. E é isso, é um show bem alegre.

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