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‘Voltando às Origens’, Lazzo canta Ederaldo Gentil em resgate de memórias afetivas
Foto: Divulgação
Cantor e compositor de clássicos da música baiana, como “Alegria da Cidade” e “Me Abraça e Me Beija”, Lazzo Matumbi faz um resgate às memórias afetivas para realizar seu mais novo show: “Voltando às Origens”, que será apresentado nesta sexta-feira (19) e sábado (20), no Café-Teatro Rubi. O espetáculo, derivado do projeto “Batuques do Coração”, tem como base a obra de Ederaldo Gentil, um dos sambistas baianos que mais influenciaram na vivência musical de Lazzo, ainda na infância, quando circulava no bairro do Garcia, onde vivia sua avó. “Então eu tinha duas referências musicais. Uma era o som do candomblé [no Gantois] e a outra era o som da escola de samba do Garcia”, lembra o artista, contando que ao garimpar o repertório do projeto, acabou “trazendo à tona músicas que eu ouvia quando era garotão e que grande parte delas eram do repertório de Ederaldo Gentil”. Em entrevista ao Bahia Notícias, Lazzo relembra como a música entrou em sua vida; fala sobre a coincidência desta homenagem, justo quando se comemora os 100 anos do samba; revela a dificuldade de definir o repertório do novo show e sobre as participações especiais dos amigos ToteGira e Roberto Mendes. Lazzo comenta ainda sobre a valorização do samba na Bahia, que considera uma “madrasta” para os filhos da terra e critica o atual modelo do carnaval de Salvador e a falta de apoio para manifestações culturais tradicionais, como o Ilê Aiyê, do qual foi integrante nas décadas de 70 e 80. Lazzo anuncia também uma nova música, chamada "14 de Maio", tão reflexiva quanto “Alegria da Cidade”, e que seria uma contestação ao conceito de liberdade da abolição da escravatura no 13 de maio de 1888. Confira a entrevista completa.
 
O show “Voltando às Origens” é pelos 100 anos do samba, celebrados agora em 2016? Por que, entre outros sambistas baianos, você decidiu homenagear justo Ederaldo Gentil?

Na realidade ele é coincidência, porque eu estou em um projeto chamado “Batuques do Coração”, há cinco anos no carnaval, que vem de uma necessidade minha de resgate daquelas coisas que eu vivi lá atrás, como bloco de índio, escola de samba, dos batuques, dos blocos, que naquela época para mim era muito forte. E nessa busca dessas músicas eu acabei trazendo à tona músicas que eu ouvia quando era garotão e que grande parte delas eram do repertório de Ederaldo Gentil. E ai eu falei, ‘meu Deus do céu! Eu estou vendo que nesse resgate dessas músicas de bloco e escolas de samba, boa parte, pelo menos umas sete são de Ederaldo Gentil, dele ou em parceria’. E ai eu falei para uma amiga minha que eu gostaria muito de levar isso para o teatro. E ai ela falou justamente dessa coisa dos 100 anos do samba, que seria uma oportunidade. Eu disse ‘legal, maravilha!’. Como eu tinha comentado do número de músicas dele, ela já incorporou que seria uma homenagem a ele. 

 

A música entrou em sua vida ainda na infância. O samba foi a sua primeira influência musical? 

A influência musical que eu tive quando criança era quando tinha mais ou menos 12 anos. Lembro da minha mãe no que antigamente era a Baixada do Gantois, que hoje é o largo da Garibaldi. Ali no São João se fazia uma reprodução daquilo que acontecia no Recôncavo, que era o samba de roda, e que saia nas casas dos amigos. Então eu me lembro com 12 anos acompanhando minha mãe. Ela cantando e tocando no prato e eu tocando atabaque, para acompanhá-la. Porque a minha vó residia exatamente nesta baixada. A parte alta do Gantois era o lugar onde tinha o candomblé de Menininha e a parte baixa ali da Garibaldi, que era chamada a baixada do Gantois. Então eu tinha duas referências musicais. Uma era o som do candomblé e a outra era o som da escola de samba do Garcia, que ensaiava lá em cima. Por conta disso, essa minha referência a Ederaldo Gentil. Um dos primeiros sambas que ouvi da escola do Garcia era um samba que eu vim aprender anos e anos depois, que tem o título de "Canto Livre de um Povo". Depois que conheci a letra, vi que é linda. E ai comecei a cantar no carnaval. Isso pra mim marcou intensamente.
 


Ederaldo Gentil é uma das mais fortes influências musicais de Lazzo na infância | Foto: Reprodução / Facebook

 
E como foi para montar esse repertório com tantas referências emotivas?

Agora eu estou aqui montando o espetáculo e estou tento uma dor de cabeça louca, porque já estou montando num formato que seja mesmo uma homenagem a Ederaldo Gentil, porque na realidade não era. Tinha sete músicas dele, outras músicas que estava incorporando, de nomes como Walmir Lima, Nelson Rufino. O resgate era justamente voltar às origens, lembrando de grandes compositores e poetas que fizeram minha cabeça no início da minha carreira. Eu tentei adaptar isso de uma forma interessante, porque para mim, homenagear estes compositores e em particular Ederaldo Gentil, que foi o cara que eu mais ouvi na época que eu estava mexendo com samba, isso pra mim é uma satisfação muito grande. Eu estou montando ainda, porque tinha uma coisa montada, e depois que começaram a me pressionar sobre a homenagem a Ederaldo Gentil eu vi que estava tomando outro rumo. Ai eu estou aqui quebrando minha cabeça, dando nó em mim mesmo para poder me adaptar ao novo formato. O formato anterior tinha como objetivo o resgate às músicas dos blocos antigos, dos carnavais antigos, que eu vivenciei no início, que eram escolas de samba, blocos de índio, naquela época existia Apache e Cacique. E isso me chamava atenção porque não eram índios brasileiros, eram aqueles norte-americanos de faroeste, aquela referência importada. Isso me chamou muita atenção, por conta das letras, das poesias que eram ditas e que nos carnavais de hoje não se vê. Então, na necessidade de lembrar isso eu montei o projeto chamado "Batuques do Coração", que era dentro do bloco Coração Rastafári. 

 

Você já conseguiu definir alguma coisa?

O repertório em si ele já existe, porque muitas músicas de Ederaldo Gentil, como te falei, tanto "Canto Livre de um Povo", "O Ouro e a Madeira", "Luandê", que gravei dele e de Capinan. Então, boa parte já são músicas que eu já canto. O que eu estou fazendo na realidade é colocar mais músicas para poder fazer jus a esta homenagem que estou fazendo a Ederaldo. Artista é um artesão inquieto. Eu vi o repertório de manhã e pensei: "preciso fazer alguma coisa". E ai estou aqui olhando. Mas esse processo é gosto, é prazeroso.

 

Além do repertório do Ederaldo Gentil, você vai cantar algum sucesso da sua carreira?

Olha, eu estou querendo fazer uma maluquice. Porque assim, de tanto eu cantar "Alegria da Cidade", minha e de Jorge Portugal, e ter se tornado um super sucesso na voz de Margareth, super conhecida do povo baiano todo, a gente acabou fazendo uma outra música reflexiva, tanto quanto "Alegria da Cidade", que eu estou aproveitando o ensejo e colocando no bolo. Eu acho que assim, a gente não pode perder o momento da empolgação, o momento que você está com a sua emoção em alta eu acho que é o momento de você passar para o seu público. 

 

E qual é o nome dessa música?

É "14 de Maio". Exatamente uma reflexão após o dia 13 de maio, que as pessoas acham que é o dia da libertação da comunidade negra. Se você for fazer uma reflexão, vai ver que no dia 14 não mudou nada. Aliás, piorou.  
 


Composição de Lazzo, "Alegria da Cidade" é um clássico da música baiana, gravado também por Margareth Menezes
 
Voltando ao show, ele terá participações especiais, como foi a escolha dos convidados?

Tote Gira vai ser meu convidado nesse show. E estou trazendo também outro convidado que eu considero muito, que se chama Roberto Mendes. Ele está trazendo uma composição que é exatamente essa grande dúvida que pairou na cabeça de todos os brasileiros: onde o samba nasceu. E ele diz claramente que o samba nasceu antes daquele samba "O Telefone". Segundo Roberto, o samba nasceu no Recôncavo da Bahia. Engraçado que isso é uma confusão que nunca entendi, porque mesmo a gente tendo a consciência de que ele nasceu na Bahia, ele foi trabalhado no Rio de Janeiro, grande reduto do samba hoje. Você vê várias vertentes, samba de gafieira, samba enredo, o pagode, então assim eu diria que no Rio ele foi desenvolvido. Enfim, eu convidei dois amigos, porque acho que esse tipo de participação tem que envolver identificação e a coisa afetiva.

 

Você falou que no Rio de Janeiro o ritmo foi trabalhado, desenvolvido. Acha que a Bahia é ingrata com o samba?

Eu não sei se a Bahia é ingrata, mas continuo dizendo que a Bahia é uma grande madrasta. É uma mãe meio esquisita para seus filhos. Ela dá dengo, dá todo amor, dá régua e compasso, como diz Gil, mas você se vire. Então eu acho que esse defeito é um defeito de Brasil, de olhar a cultura como uma última instância, na Bahia, onde começou o Brasil, onde se tem uma cultura linda e maravilhosa, e não vê nosso empresariado ou nossos governantes pensar na cultura com o devido carinho que deveria ter. 

 

No carnaval, você e outros representantes tocaram no Pelourinho. Nos demais circuitos abriram espaço para diferentes ritmos, como arrocha, sertanejo, que foram criticados por nomes como Gerônimo e Luiz Caldas, duas figuras que fazem parte da história da música baiana. O que você acha desse formato de carnaval?

Eu sempre digo que o carnaval precisa ser repensado e rediscutido. O carnaval entrou num esquema tipo um caixote fechado, onde existem regras demais. Eu sou amante daquele carnaval espontâneo. Tanto que em 2001 eu montei um bloco chamado "Coração Rastafári" porque eu achava que o carnaval tinha um formato onde as cordas apartavam o povo pobre do próprio povo pobre. Então eu lancei um bloco sem cordas e na época foi uma polêmica muito grande. As pessoas achavam que eu estava afrontando os blocos que tinham corda. E na verdade não era nada disso, era só uma observação minha de ver as pessoas que tomavam conta das cordas serem pobres, apartando uma pipoca que não podia estar pagando e estar dentro do bloco. Então, assim, hoje quando vejo esse movimento das pessoas arriarem as cordas e serem tão ovacionada pela mídia, pelo governo, por todo mundo, eu dou risada, porque parte desse meu sonho consegui desenvolver, mesmo que tenha sido aplaudida de forma atrasada, ou ainda sem entender o sentido real, mas tudo bem. Na realidade o carnaval precisa ser rediscutido, até porque se chama de um grande festival. Festival esse que eu não consigo entender. Outro dia perguntaram “Lazzo, essas músicas que estão rolando, você continua achando que são músicas de carnaval?”. Eu sou de uma época que o carnaval tinha suas músicas próprias, e que são tocadas até hoje, que continuam sendo vivas até hoje dentro do circuito do carnaval. O que acontecia antigamente é que as músicas que eram tocadas no ano inteiro, uma ou duas se destacavam e eram tocadas no carnaval. O modelo que está ai agora é confuso, porque você não sabe se agrada a todos ou se é imposto, porque de certo modo, eu como músico, como artista, gostaria de ouvir outras coisas feitas para o carnaval, e não se considerar carnaval o ano inteiro. A gente precisa começar a separar época por época, porque senão a gente acaba a cultura nessa mistura louca. Nessa necessidade imensa de fomentar o ganho financeiro, a gente acaba perdendo a qualidade que a Bahia sempre teve.  Eu não criticaria, porque se abre espaço, abre para tudo. Eu só acho que o carnaval tem que ser repensado. Eu acho que o carnaval tem a necessidade de voltar a uma coisa muito mais espontânea.

 


Para Lazzo, o carnaval de Salvador precisa ser reformulado para resgatar espontaneidade da festa popular e democrática | Foto: Divulgação
 
Esse ano o Ilê Aiyê deixou de montar o tradicional camarote e teve dificuldades com a falta de apoio, o que você pensa disso?

Se você observar, você vê a confusão que se vê o ano inteiro. No carnaval você consegue desenhar exatamente o que existe o ano inteiro. É uma briga social, política, racial, financeira, que você consegue desenhar de forma muito tranquila. Se o carnaval é isso, obviamente você vai observar de forma muito clara o sofrimento de muitos, em detrimento de ganho de outros poucos. Você vê, por exemplo, que blocos tradicionais como Ilê Aiyê não encontram patrocínio, porque o patrocinador não quer associar sua marca àquela situação social ou aquele povo que representa, não a ideia que ele tem como produto. A gente está passando um filme do que acontece o ano inteiro na Bahia e no Brasil.

 

Retornando ao tema do show, você pretende transformá-lo em disco?

Agora você deu a velha cutucada [risos]. Isso é interessante, vir a transformar isso em material de áudio. Já que isso começou com um projeto onde eu levava para o carnaval uma história de resgate do que vivenciei lá atrás e já está se tornando espetáculo, acho que o resultado disso é exatamente o que você está falando. Num disco, num DVD. O fato de levar das ruas para teatro já é diferença muito grande. Porque no carnaval é a loucura das pessoas estarem curtindo, bebericando, sem prestar atenção em muita coisa. No teatro já é uma outra história, você já leva espécie de espetáculo, não só show. A partir deste ponto, cada vez mais profissionalizando tudo isso, o resultado é acabar em um disco. Valeu esse toque, essa cutucada, porque eu não estava pensando nisso, mas com certeza a partir de agora vou ficar atento.


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