Quinta, 01 de Outubro de 2015 - 11:00

'Não aceitamos retrocesso', afirma Chico César sobre o quadro da cultura na política

por Ailma Teixeira

'Não aceitamos retrocesso', afirma Chico César sobre o quadro da cultura na política
Foto: Divulgação
Após passar oito anos afastado dos estúdios para se dedicar à gestão pública como secretário de Cultura da Paraíba, o músico Chico César entrou em “Estado de Poesia” e sai agora para compartilhar seu oitavo disco cheio de ritmos, canções de amor e protesto com o mundo em Salvador nesta sexta-feira (2), no Teatro Castro Alves. Com a necessidade de retomar sua vida artística, aos 51 anos, Chico César não deixa a política para trás: “Eu sempre fui um cidadão político”, afirma. É com clareza de jornalista e poesia de músico que ele clama por liberdade e bate de frente com os governantes na luta pelos direitos dos negros e índios. Em entrevista ao Bahia Notícias, Chico falou sobre a radicalização da política, os desafios da pasta da Cultura e sobre ser o primeiro cantor fora do rap a ter seu trabalho distribuído pelo Laboratório Fantasma, distribuidora do rapper Emicida. 
 
Estado de Poesia é um álbum que mescla um lado mais romântico com letras de protesto. Afinal, o que você quis comunicar com esse trabalho?
Eu compus muitas dessas músicas quando estava vivendo na Paraíba e quando fui secretário de Cultura lá. Eu voltei a morar em São Paulo depois de ter vivido 25 anos aqui e ter voltado lá para a Paraíba para essa função de gestor público. Então, eu tinha me transformado, o lugar tinha se transformado. Algo ali da nossa essência, minha essência e do lugar [a Paraíba], estava vivo e se acendeu e aparece nessas canções. Inclusive muitas canções de amor porque eu me apaixonei por uma moça chamada Bárbara Santos, que agora vive comigo em São Paulo. E talvez o fato de estar numa função da administração pública tenha acentuado o lado de uma poesia mais solta, mais livre. Para mim, eu acho que Estado de Poesia é basicamente uma reivindicação de liberdade. Ele vem se contrapor ao Estado burocrático, ao Estado como instituição.
 
Você foi secretário de Cultura da Paraíba por quatro anos, de janeiro de 2011 a dezembro de 2014. Ao deixar o cargo, você saiu mais insatisfeito com a política brasileira em geral?
Não, pelo contrário! Na verdade, eu não saio. Eu sempre fui um cidadão político que desde os anos 80 esteve ali no movimento secundarista em João Pessoa porque a política é algo muito vivo. É muito maior do que a política partidária, ainda bem, é maior do que essa coisa administrativa. A política é da vida, do cotidiano, a política participativa. E isso já vinha antes e continua. E eu achei muito bom poder entrar, gerir, pensar como encaminhar poucos recursos para tantas demandas. Foi um desafio e um aprendizado.
 
Como alguém que já esteve na posição de governo, qual a sua visão sobre o quadro político do Brasil atualmente?
Eu acho que a gente vive uma radicalização da democracia e isso é bom, é importante, nós precisamos passar por isso. Os fascistas precisam mostrar a cara para que nós possamos cuspir nela. Do ponto de vista cultural, Gilberto Gil e Juca Ferreira na gestão Lula, junto com várias outras pessoas, criando os pontos de cultura, valorizando os mestres, apontaram o caminho de que não há desenvolvimento se ele não passar pela questão cultural. "Chega de pensar a cultura como a cereja do bolo!", Gil falou isso várias vezes e é um legado. Daí a gente não tem como retroceder, não aceitamos nenhum retrocesso. Já no governo de Dilma com Ana de Hollanda e Marta Suplicy nós sentimos que houve um retrocesso, as coisas fecharam, as ideias se tornaram arcaicas, voltaram ao centro de pensar a cultura como uma atividade artística e agora Juca, como ministro, ele tem o nosso apoio, o apoio dos artistas, dos produtores culturais, dos indígenas, dos quilombolas. Ele tem o conceito, ele sabe o que fazer, o que faltam são os recursos.
 
Das 14 composições do disco, 12 são suas. Como surgiram as parceiras com Carlos Rennó e com a obra do falecido poeta Torquato Neto?
Eu já sou parceiro de Rennó em outras canções, nós somos amigos, parceiros de "baba" e quando o disco já estava pronto, gravado, encaminhado para masterização, ele me deu um poema longo, épico que eu musiquei. Ele falava: 'vamos botar a música no disco' e eu dizia: 'mas não dá, o disco está mixando'. Nós fomos apresentar a música para o pessoal do Movimento Sem Teto (MST) aqui em São Paulo, na Câmara dos Vereadores, numa semana, na outra fomos apresentar para os índios no dia 18 de abril lá em Brasília e os índios quando ouviram a música, já chegaram: 'Amanhã você vai ao Congresso conosco. Se a gente não conseguir falar, tudo bem. Mas se você conseguir cantar essa música, já diz tudo o que a gente quer dizer. E assim foi feito. Fui com eles ao Congresso, cantei lá e já no fim do dia haviam várias versões circulando nas redes sociais. Aí eu pensei: 'Poxa, essa música eu vou ter que gravar mesmo. O momento pede uma reflexão dessa natureza'. E aí eu gravei e colocamos a música como faixa bônus. A outra parceria é com Torquato Neto na música "Quero viver". Torquato é uma artista referência para mim desde adolescente. Mandarem esse poema para mim e o fato dele vir separado eu achei que era uma música que tinha muito a ver com Estado de Poesia. Eu estou muito feliz de ele estar vivo comigo apesar de ter se matado ali no começo dos anos 70.

No show, você também lança também o clipe de Negão, faixa que tem uma letra de denúncia ao racismo e conta com participação do cantor baiano Lazzo Matumbi. Como foi a produção do videoclipe?
Eu admiro muito Lazzo desde os anos 80 quando teve um show da Bahia aqui em São Paulo e eu fiquei muito impressionado com a força dele, com a África que há nele. A partir daí, fiquei fã do negão. Ele me procurou, estava pedindo uma música para o DVD que ele vai fazer ainda esse ano e eu já estava pensando em chamá-lo para tocar a música. Quando a gente estava gravando no estúdio, tinha um rapaz lá gravando em vídeo para o DVD de Lazzo e depois ele me presenteou com essas imagens, com imagens da música negra dançando. Ele chegou: 'Temos um clipe!'. E é muito bonito porque são imagens espontâneas, do calor da gravação das vozes ainda. Eu fico muito honrado de tocar com Lazzo, ele vai estar no show.
 
Quem mais vai participar do show?
O cantor No Escurinho, que canta comigo a faixa Sumaré, vai estar no show também. Ele toca percussão e canta. Vai ser um show muito rico, uma celebração da música negra.
 
Estado de Poesia é um disco que transita por vários estilos e mesmo as canções de letras mais expressivas, são dançantes, animadas. De onde veio a influência para toda essa musicalidade que você colocou no álbum?
Eu explico que esse jeito de fazer música é um jeito bem de brasileiro, mas cada vez mais vai ficando do meu jeito mesmo. A musicalidade veio de uma forma muito leve. Foi no lançamento do disco que eu percebi que ele era dançante apesar de algumas letras mais sérias. Todas são muito leves, tem a coisa do samba, do reggae. No fundo, a música brasileira se apropriou de coisas universais se a gente for pensar na música dos Novos Baianos, de A Cor do Som, de Pepeu, de Gil, de Gal nos anos 70, esses caminhos já estavam todos abertos.
 
Em meio a toda essa brasilidade, você tem alguma relação especial com a Bahia?
Eu sou louco pela Bahia. Quando eu chego do aeroporto, muita gente me diz: 'E aí, negão, está voltando pra casa?'. Eu me sinto em casa, eu admiro muito a altivez do povo negro da Bahia, que é algo que devia ser aprendido pelo povo negro do Brasil todo. Esse orgulho, essa graça, esse sentir à vontade na rua, esse nariz empinado faz um bem danado para a autoestima e nos ensina muito. Sem falar na relação com as cantoras. Quem me mostrou ao Brasil foi a Bahia, foi Daniela Mercury ao gravar À Primeira Vista. Depois, Bethânia gravou e sempre está gravando coisas minhas. Inclusive a única música não inédita no disco já foi gravada por ela.



"Acho que o jornalista ajudou o gestor também por ser uma função de ouvir o outro" |
Foto: Divulgação

Especialmente para esse show, o que o público soteropolitano pode esperar?
O foco do show é o disco Estado de Poesia. Há algumas inserções de diálogos, como na música Negão em que eu cito Mandela e aí, depois que a gente cantar o disco todo, se as pessoas quiserem mais, a gente se joga nos hits, como Mama África e tal. 
 
Além de marcar o seu retorno aos estúdios e a sua volta a Paraíba, o que Estado de Poesia representa para a sua carreira?
Além do aspecto estético, da linguagem, da poesia, acho que tem essa coisa de ser um disco que sai por um edital nacional da Natura e não por uma gravadora, o que mostra que há pessoas querendo um diálogo diferente. Daí a gente sai nos formatos digitais pelo Laboratório Fantasma do rapper Emicida em parceria com seu irmão Fióti. São jovens da periferia da zona norte de São Paulo que reinventaram a distribuição da música numa relação muito mais próxima com o público e é distribuído também pela Pommelo, que é uma distribuidora pequenininha, mas que vai em todas as lojas que querem vender música.
 
Depois desse convite para ter seu disco sendo divulgado pelo Laboratório Fantasma, você já pensou em alguma parceria com Emicida?
Claro, já estamos pensando em fazer coisas juntos, em gerar conteúdo, mas isso é algo muito natural, mas não só com Emicida, também com os Dois Africanos lá da Paraíba, que também são rappers e fizeram o Superstar, e a tendência é se alongar.
 
Você é formado em jornalismo. De alguma forma a profissão te ajudou na música?
A música veio antes. Aos 10 anos, eu já estava num grupo de música, aos 13, estava num festival. O jornalismo veio como uma profissão estepe porque eu sabia que queria fazer música, mas não sabia se ia poder viver disso. Ao mesmo tempo, acho que o jornalismo me deu uma olhar mais apurado, deu mais embasamento ao letrista. Eu sempre fui crítico, inquieto, mas na irresponsabilidade do artista, do poeta, eu poderia xingar a mãe do guarda, mas eu, como jornalista, preciso averiguar se a mãe do guarda merece ser xingada ou não. Tenho que consultar as fontes, entrevistar o guarda, entrevistar a mãe do guarda para, no fim das contas, xingar o guarda. Isso me faz embasar melhor o meu pensamento, o que eu exponho nas minhas letras, nas minhas falas. Acho que o jornalista ajudou o gestor também por ser uma função de ouvir o outro, interpretar o que o outro quer dizer e o gestor ele tem um pouco disso.
 
Após a turnê, quais os próximos projetos?
A gente quer tocar Estado de Poesia no país inteiro, em pelo menos uma cidade de cada estado além da capital. Aí queremos levar o disco para a América Latina, para a Europa. Quem sabe, mais para frente gerar um DVD com a participação de todos os convidados do álbum, mas deixa a coisa andar. Esse é um disco que vai durar muito.

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