Quinta, 04 de Julho de 2013 - 18:29

Guilherme Arantes: 'O Brasil só vai dar certo quando a Bahia der certo'

por Marília Moreira

Guilherme Arantes: 'O Brasil só vai dar certo quando a Bahia der certo'
Fotos: Divulgação / Pedro Matallo
Aos 60 anos, Guilherme Arantes lança seu 22º disco inédito de carreira. Ao longo de sua trajetória é possível encontrar diversas coletâneas que fazem parte da memória e do imaginário dos brasileiros, que aprenderam a ouvir seu piano e a sua voz tranquila nas trilhas sonoras de 25 novelas globais, como “Anjo Mau”; esta eternizou os versos “Quando eu fui ferido, vi tudo mudar / Das verdades que eu sabia /Só sobraram restos, e eu não esqueci /Toda aquela paz que eu tinha”. Em “Condição Humana”, uma das faixas e título do seu novo álbum – que será lançado em Salvador em apresentação única no Teatro Castro Alves no dia 12 de julho, às 21h –, Guilherme Arantes lida com temas que já permeavam suas canções há muito tempo, como o amor e a natureza, mas também trata do envelhecimento e do “ressurgir do questionamento e da transgressão do mundo”. “Esse é olhar de quem está se sentindo ‘estranhão’ no mundo. Eu acho que tudo veio numa hora muito coerente, que só está começando. Mas essa é uma visão de um cara que já tem 60 anos”, opinou em entrevista ao Bahia Notícias. Toda a ideia do novo disco veio em setembro do ano passado, quando foi submetido a uma cirurgia de catarata nos dois olhos. “Essa operação foi um divisor de águas; proporcionou uma transformação em minha cabeça e uma percepção maior da fragilidade das coisas, do envelhecimento. [...] A partir dali eu começaria a enxergar tudo diferente. Não sei se por uma analogia, por uma metáfora da vida, eu compreendi que teria de enxergar com urgência o que eu deveria fazer”, contou. Nessa entrevista, Guilherme fala ainda sobre a monocultura musical da balada, sobre novos nomes da música brasileira, a vida que leva na Bahia e também sobre os protestos que assolaram o Brasil nas últimas semanas. Apesar do tom por vezes desencantado, Guilherme ainda se diz esperançoso: “Eu começo a olhar tudo isso com bastante otimismo. O mundo está precisando de uma renovação de valores".


 
Bahia Notícias – São sete anos sem um disco de inéditas. Durante esse intervalo, muitos temas e inquietações devem ter gravitado em sua cabeça. Quando e como você chegou a ideia de falar sobre o tempo e a condição humana?
Guilherme Arantes – Esse disco começou mesmo em setembro, quando eu estava me recuperando de uma operação nos olhos, uma cirurgia de catarata. Essa operação foi um divisor de águas; proporcionou uma transformação em minha cabeça e uma percepção maior da fragilidade das coisas, do envelhecimento. É um baque mesmo. A cirurgia era nos dois olhos e bastante delicada. A partir dali eu começaria a enxergar tudo diferente. Não sei se por uma analogia, por uma metáfora da vida, eu compreendi que teria de enxergar com urgência o que eu deveria fazer. A minha vida para a Bahia em 2000 contribuiu, em parte, para eu ter essa percepção de que deveria montar minha produtora, me juntar a novos artistas, mas faltava levantar um produto, um trabalho meu, que fosse inédito. Eu mesmo estava me sentindo um intérprete da minha carreira e trajetória. Era uma cobrança minha engrossar o caldo, produzir um disco transformador. Então, foi a partir de setembro que eu comecei a fechar o repertório. O disco eu comecei a produzir em janeiro, para que no Carnaval já estivesse pronto. Foi um esforço concentrado, inclusive, cheguei a dar uma suspensão na agenda de viagens e shows. Eu estava me sentindo muito em crise, e foi a partir dessa crise que esse disco surgiu. De repente, você percebe que a vida não é eterna e que você não pode ficar indefinidamente parado no tempo. Eu me sentia estagnado, vivendo de passado. Dessa crise foi que eu tirei forças para renovar o meu conteúdo. 
 
BN – E o que mudou após o lançamento do disco?
GA – Eu acho que hoje, três meses depois do lançamento, a minha carreira está totalmente diferente do que estava. Não do que foi, do passado, acho que eu tive muitos momentos bons e tenho muita gratidão por tudo que eu consegui fazer, mas eu digo em relação às últimas décadas, os últimos 20 anos. Este é um momento de retomada, da mesma força que tive nos anos 80, principalmente no início dessa década, quando Elis, Bethânia, Caetano me gravaram. Na época, eu me senti um cara influente, transformador. Depois de um tempo, você se sente meio estagnado, sem grandes novidades na carreira. Esse disco me trouxe de volta a essa sensação de começo de carreira.
 
BN – Em entrevista recente ao UOL, você afirma que “o Brasil emburreceu devido à monocultura [musical]”. Como você avalia esse cenário não mais dominado pelas grandes gravadoras, mas que ainda vive em um ritmo mais do mesmo para dar sucesso?
GA – Quando eu me refiro à monocultura, essa é de uma forma a tônica da nossa época. O que são monoculturas? É o milho, a soja, o gado. Já foi o café, a borracha, o cacau no Sul da Bahia. Sempre a monocultura gera riqueza no início e degradação e empobrecimento no final.  Na música, quando eu me refiro à monocultura, eu estou falando, por exemplo, da Bahia na década de 90 com o axé. Passada a fase de euforia, surgiu um vácuo. Que é o equivalente na agricultura a uma erosão do solo, ao empobrecimento, que sempre tem de estar aliado a um trabalho de recuperação. Hoje, na música, tudo é balada. Psy, Tiesto, David Guetta, esses ícones da música eletrônica internacional, mas também o forró, o funk, o pagode, a guitarrada, tudo é balada. Hoje existe esse espaço da paquera, da festa, da garotada, que é hegemônico. O que reina é um clima de festa, que às vezes chega a ser algo criminoso. Santa Maria, a boate Kiss, as pessoas não querem dizer, mas o que aconteceu? É o clima de balada. Está uma cidade inteira em uma mesma festa, em um lugar que não teria condições de suportar tanta gente, e morrem centenas de jovens. Será que ninguém viu? Isso é típico da cultura de balada: a irresponsabilidade. Isso acontece não só no Brasil, mas no mundo. Fizeram uma pesquisa recentemente na Indonésia e perguntaram o que o pessoal conhecia do Brasil. A resposta foi Michel Teló! Os caras não conheciam nem o Pelé, nem o Ronaldo, o samba, o carnaval... O mundo está assim, girando em torno de uma cultura de balada que para mim significa uma superficialidade, uma falta de questionamento. Agora, sobre esse discurso que eu vinha fazendo sobre o lançamento do meu disco, ele, de repente, desemboca nas passeatas, no descontentamento popular generalizado; o que mostra que a minha crítica era uma coisa promissora, porque pouco tempo depois explode um descontentamento geral. Porque esse clima de balada dá uma impressão de que está tudo em ordem, mas esse clima de balada gera uma desordem geral. Já passado um tempo dessa nova cena no Brasil, de uma efervescência jovem, eu começo a olhar tudo isso com bastante otimismo. O mundo está precisando de uma renovação de valores.
 
BN – Por outro lado, há uma galera fazendo coisas diferentes, música que quer alcançar gente – afinal é a função da música – mas não a qualquer custo. Você, inclusive, convida esse pessoal para participar de um coro do seu disco. Como é esse outro cenário?
GA – Com certeza. Eu convidei essa gente de forma emocionada e solidária, porque é uma turma que nutre um idealismo. Há uns meses eu venho falando que o mundo precisa de pessoas idealistas, que acreditam nos valores e não pensam que tudo se resume a uma curtição irresponsável. Na verdade, existe hoje no segmento alternativo da cultura, um fervilhar de ideias e de gente nova. O que adoeceu foi a grande mídia, das redes de televisão, dos grandes conglomerados, que elegeu esse clima de festa como o clima preferencial para vender produtos e, principalmente, endividamento. E quando eu dou força a essa galera jovem é nesse sentido de mudar um pouco isso. Para mim, o idealismo com a música é o futuro, vai na contramão do lucro fácil ao propor suas letras, suas maneiras de ver o mundo. É uma forma de me emocionar com tudo isso. Eu sou de uma época que a gente se reunia para ouvir Milton Nascimento, Zé Ramalho e ali chorávamos e nos revoltávamos juntos. Isso parecia démodé, mas a gente percebeu que os jovens também anseiam por isso, por esse choro e por esse grito de revolta. Eu me sinto muito a par com os acontecimentos. É interessante o ressurgir do questionamento e da transgressão do mundo. Eu coloquei na música “Olhar Estrangeiro”: “Vejo as pessoas com o olhar mais estrangeiro/ O olhar do estranhamento que não tem nada a perder/ Vou sentar no meio-fio da rua, contra-mão da multidão/ No frenesi dos carros sem sentido pra seguir”. Esse é olhar de quem está se sentindo ‘estranhão’ no mundo. Eu acho que tudo veio numa hora muito coerente, que só está começando.  Mas essa é uma visão de um cara que já tem 60 anos.
 

 
BN – Muitos desses artistas estão levando suas carreiras de maneira independente, com selos dissociados das grandes gravadoras.  O Coaxo do Sapo é a sua tentativa de ouvir, produzir e estar em contato com outras coisas. Conte-nos como foi a criação dessa espécie de “encubadora musical”.
GA – Eu ainda estou no meio do percurso dessa ideia, ainda há muito o que produzir. Primeiro que eu acho que tem vários artistas, como o Zeca Baleiro e o Lenine, que têm pequenas produtoras e estão procurando seus nichos, seus novos mercados. A gente não é sozinho! Eu vim para a Bahia com muita alegria, pois foi uma decisão bem pessoal e espiritual. Eu vim para cá acreditando que vai surgir um movimento de música inovador no Brasil. A Bahia sempre dando a cara e marcando presença nos momentos de grandes transformações. Eu acredito muito nisso, que a gente está no epicentro de uma coisa muito importante aqui na Bahia. A produtora ainda é uma coisa experimental, uma coisa pequena, mas que tem sim a possibilidade de crescer. O próximo passo agora é alavancar uma série de encontros musicais aqui. Promover um encontro do piano moderno brasileiro em estúdio...São ideias para um futuro breve.

BN –Você afirma que o envelhecer é uma forma de ficar mais livre. Hoje de que forma você vive essa liberdade e no que ela consiste?
GA – É de poder falar coisas com menos preocupações, mas ter mais amorosidade, mais compaixão pelos seres humanos. É você olhar com gratidão para a vida. Acho que essa é uma coisa muito libertadora. Às vezes quando você é jovem você teme não chegar a uma idade madura e deixar de realizar alguns anseios, inquietações. Ou seja, você teme morrer no caminho. Quando a idade vai ficando mais avançada, como você já viveu – lógico que você quer viver mais –, esse anseio já é uma realidade e se transforma em uma gratidão. Essa é uma palavra muito importante, que vem da graça, como agradecimento, mas também de um estado de iluminação, um estado privilegiado da alma. Acho que só a idade e o tempo dão a dimensão desse “estágio de gratidão”. Além disso, quando você envelhece, você não precisa seduzir o mundo, se vender como um produto. “Mundo me compre!”, não. Você consegue ver que o mundo foi bom para você e que você também foi bom para o mundo e não há essa necessidade. Isso também é libertador!
 
BN - Para além das [boas] comparações entre você e o Marcelo Jeneci, você afirma sentir por ele uma ligação que é algo mais. Aposta no porquê dessa relação? Talvez pelo fato de ele recuperar a coisa do instrumento, do acordeão...
GA – O Jeneci tem a coisa do hibridismo dele com a nordestinidade. A família dele é pernambucana e ele toca muito bem o acordeão, coisa que eu não toco, mas gostaria muito de aprender. Eu sou uma influência na música e na história dele, fico muito feliz por isso também. Mas acho que o que aconteceu foi uma coisa espiritual e filosófica que aconteceu entre nós. Há uma convergência espiritual, intelectual, musical e energética. Devemos fazer muitas coisas juntas. Já o convidei para finalizar o disco aqui na Bahia e quando isso acontecer vai ser uma alegria muito grande para mim. 
 

 
BN – Como você já antecipou, desde 2000 que você mora aqui na Região Metropolitana de Salvador. Ao longo desse período, desses 13 anos, como você observa o crescimento da cidade, até mesmo por esse cunho ecológico que você sempre defendeu?
GA – Salvador explodiu em obras, em novas regiões de crescimento urbano. É uma grande cidade, difícil de governar, de organizar o espaço urbano, porque é tudo muito caótico. A gente assiste a uma inviabilidade econômica da cidade, que tem uma arrecadação muito abaixo do que deveria ter uma cidade desse porte. Por um lado, a gente vê um crescimento urbano e desordenado muito intenso, mas também uma deterioração do serviço público. A parte ambiental também sofre com esse impacto do crescimento urbano. Por outro lado, eu acho que a Bahia teve um trabalho de recuperação política e de inclusão social. O crescimento da Bahia nos anos 90 – que houve sim, ainda no carlismo – foi um crescimento empresarial, dos investidores, do turismo. Essa era, no entanto, uma crosta muito frágil sob um mar de problemas sociais. Ainda estamos em uma fase de recuperação. É assim que eu olho o cenário da política da Bahia, após o declínio do carlismo. A Bahia ainda está se adequando a um novo tempo. O que eu sinto é um enfraquecimento econômico na parte de arrecadação e investimentos, que era um ponto forte do carlismo, essa relação com os investidores. Porém, também foi deixando muitas lacunas nas áreas sociais, o que necessitará de um longo período de recuperação. Eu ainda acredito muito na Bahia, ainda acredito muito em Salvador, como uma capital chave na história do Brasil. O Brasil só vai dar certo, quando a Bahia der certo. Aqui é o coração do Brasil. E eu não estou aqui para fazer experiências, estou aqui para ficar. Tem muito o que se fazer e muito campo para se crescer. Não é como São Paulo e como o Rio de Janeiro onde a maioria dos espaços já está ocupada e não há para onde crescer. 
 
BN - Você já começou a rodar com a turnê do Condição Humana pelo Brasil. Dia 12, o show acontece em Salvador, no Teatro Castro Alves. O teatro é imenso...Qual a expectativa para o show? Nos conte também como a apresentação é formatada...
GA – Esse show vai ser histórico e as pessoas não devem perder, porque eu estou devendo há uns 25 anos uma apresentação de gala aqui em Salvador, com banda, com coro, com repertório completo, cenografia, concepção especial. É o lançamento de um disco importante.  A última apresentação que fiz em Salvador foi em novembro do ano passado, como participação do show da Tiê. E minha vontade de apresentar algo mais consistente e lindo em Salvador é muito grande. Quem estiver preparado vai se esbaladar, porque vão ser cerca de 3h de show, que nem foi no Rio de Janeiro. Um show absolutamente panorâmico da minha carreira, da minha trajetória e num momento que eu acho virtuoso para mostrar coisas novas, mas também coisas antigas que não fizeram tanto sucesso, o lado B, as músicas misteriosas do meu repertório. É uma oportunidade longamente esperada por mim.
 

Capa do disco 'Condição Humana'
 
BN – Alguma canção do disco novo já desponta como candidata a hit ou como sua preferida?
GA – A gente tem tocado nas rádios a música ‘Tudo Que eu Faço por Você” que é uma balada, uma música forte do disco. Eu não sei dizer para onde vai o disco. A gente lançou, já estamos presentes nas rádios, mas talvez seja a partir do show que o público define o que mais gosta. A gente tem o clipe da música que comentei antes, “Olhar Estrangeiro”. Mas a gente não trabalha mais do jeito das antigas gravadoras, que tinha a chamada música de trabalho. Isso não funciona mais hoje em dia. Hoje a gente apresenta o disco como uma canastra, uma coleção de músicas, mas quem indica o que vai ser sucesso mesmo é o público. Eu tenho minhas preferidas: gosto dessa em que essa galera jovem faz coro, chamada "Onde Estava Você”, gosto muito de “Condição Humana”, mas o meu gosto é meio suspeito, intelectual. Talvez venha surgir um tema de novela, uma que emociona mais, eu não sei. Só sei que é um disco como há muito tempo eu não faço. 

BN – E em novela, como tantas outras músicas suas, será que alguma delas emplaca?  
GA – Tomara! Ainda não surgiu uma oportunidade. Quando essas novelas que estão no ar estrearam, o disco ainda estava muito verde, mas possa ser que surjam novas oportunidades. 

 

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