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Segunda, 03 de Maio de 2021 - 12:30

Coluna Raça: Descansar é uma dívida histórica

por Adelmo Filho

Coluna Raça: Descansar é uma dívida histórica
Foto: Uendelns

Há pouco tempo, estava no Instagram passando os stories, como sempre faço nos intervalos do dia, entre os atendimentos terapêuticos e as reuniões. Em um desses momentos, vi uma mensagem que dizia “descansar é uma dívida histórica”, e isso mexeu em algo que estava guardado por aqui há muito tempo.


Dias se passaram, e continuou vindo à tona, agora escrevo sobre isso. Através das palavras, posso compartilhar o que sinto e o que penso, sempre relacionado ao lugar de onde eu falo, acima de tudo, racial, e, a partir disso, as suas intersecções de cisgêneridade, classe, sexualidade, medidas corporais, pessoa sem deficiência e outras.


Corpos negros costumam se cobrar muito, sempre pensando em “devo ser melhor”, “devo provar que posso”, “preciso provar o meu valor”, mas até que ponto provar que se pode ou qual o seu valor, depende exclusivamente de você? Pare de ler agora e reflita sobre isso. Se você for uma pessoa negra, pense em todas as vezes que você lutou por reconhecimento, e mesmo fazendo 10 vezes melhor, o seu valor não chegava à metade quando comparado a outras pessoas não negras.


Os negros no Brasil estão em situação de vulnerabilidade há séculos, e após a promulgação da Lei Áurea, os corpos negros estiveram em situação de rua, sem acesso à educação, moradia, alimentação, e todas as necessidades básicas. Enquanto as pessoas negras, após séculos de aculturação (apagamento identitário), estavam construindo uma nova maneira de sobreviver & construir uma identidade negra brasileira; as pessoas brancas tinham moradia, alimentação, roupas, educação, dinheiro e conheciam o lugar que ocupavam socialmente.


Negros brasileiros lutam para conquistar um espaço de humanização, para se erguer diante de uma estrutura que tenta limitar cada passo possível, é como se fossem “trajetórias planejadas”, a partir dos seus fenótipos raciais.


Uma simples frase me despertou reflexões a ponto de fazer pensar sobre as minhas escolhas, incluindo, a escolha de descansar. Fiz anos de graduação, sem pausa, inúmeras formações, projetos de pesquisa, grupos de ensino, pesquisa e extensão, e cheguei até a fazer três estágios enquanto escrevia o meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), coordenava uma ONG, uma Liga Acadêmica de relações raciais e, inúmeras outras atividades. Estava tudo ali, na minha frente, ainda na graduação, um currículo enorme, diversas experiências, mas, ainda assim, a minha trajetória continuava a ser colocada em dúvida, ao olhar dos outros, como se eu não fosse capaz, como se a minha presença fosse questionável. De que adiantava me esforçar tanto se este sistema, acima de mim, desvalida o meu percurso? O racismo estrutural e especificamente o racismo institucional desvalidam os nossos conhecimentos, principalmente quando relacionados às questões raciais, como se as nossas produções não fossem ciência.


Decidi descansar, tirar um tempo para pensar em mim, no meu corpo e na história que ele carrega. Lembro-me que no início da graduação, eu trabalhava com produção científica, fazendo parte de um grupo de pesquisa, além disso, fazia trabalhos alternativos para complementar a renda, e, ainda assim, tinha os meus esforços questionados pelos outros.


Por que cobram tanto das pessoas negras? Por que acreditam que os negros não podem descansar? Eu quero poder dormir o dia inteiro sem cobranças diárias para trabalhar, quero tirar férias prolongadas com amigos e família, sem incômodos.


Quando estava nos semestres finais, lembro do meu pai dizer: “você sabe que o mestrado tenta depois, né? O importante agora é você fazer um concurso ou procurar um emprego e ir trabalhar”. Com isso, vamos de uma coisa a outra e, quando paramos para pensar, o tempo pode ter passado, e o racismo nos tira a oportunidade de escolher até com o que gostaríamos de trabalhar, já que sobreviver é emergente. Sobreviver de forma semelhante há pouco mais de 100 anos, quando os nossos ancestrais - e também os atuais - lutavam por direitos básicos. 
Crescemos escutando “Você é negro, tem que fazer em dobro!”, e pensemos como isso deve se aplicar para além da raça, já que socialmente temos as mais diversas formas de opressão. Se o tom de pele já faz nos cobrarmos tanto e questionarmos a nossa capacidade (de trabalho, de pensar, de percepção corporal), imagine se adicionarmos a generidade, a ageneridade, classe social, sexualidade, medidas corporais ou ser uma pessoa com deficiência, tudo é redimensionado.


Precisamos descansar, porque a sociedade não nos permite pausar. Pausar para pensar, sentir, tocar o nosso corpo, refletir sobre nós mesmos, sobre a nossa existência. O racismo não descansa, não tira férias, atinge a população negra o tempo inteiro, e, por isso, tentar se afastar dele, ao menos por um tempo, longe de tudo e de todos, em seu espaço, em seu descanso... É importante.


Como lição, certa vez ouvi uma figura muito importante (mulher negra), falando sobre a sua rotina como professora universitária. Contava que mesmo tendo um longo currículo e estando a frente de uma disciplina por anos, ela foi colocada para compartilhar o conteúdo com uma pessoa que não tinha amplos conhecimentos sobre a temática, e, ainda assim, reajustaram os horários da disciplina de modo a atender à disponibilidade do outro (homem não negro), sem ela ser comunicada. No fim das contas, ela não conseguia mais chegar a tempo para ministrar a aula, e neste caso, se esforçar tanto e ter um importante nome e currículo, não adiantou. “Não me estresso mais”, disse.


Por vezes, tentamos demais, mas o sistema não foi construído para ser justo conosco (pessoas negras e outras minorias sociais). Devo dizer que, não é por isso que a gente deva deixar de nos preparar para sermos os melhores, na medida do possível. Mas lembre-se, olhe para o seu passado, para a sua história, e perceba que tudo está além dos nossos olhos. Olhe para si, para o seu corpo, aprenda a respeitá-lo e estar ciente sobre os seus limites. Cuide-se, o racismo adoece, e por vezes, nem percebemos.


 

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