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Quarta, 27 de Janeiro de 2021 - 18:00

Bixas pretas periféricas: Identidade e resistência

por Adelmo Filho

Bixas pretas periféricas: Identidade e resistência
Foto: João Lima / Instagram @afrobaphooficial

Falar sobre raça, saúde e sociedade, é possuir brechas para discutir diversas questões, principalmente as suas interseccionalidades, como gênero, classe, sexualidade, medidas corporais, e outras. Para falar sobre a realidade das bixas pretas no Brasil e como esse grupo ocupa um lugar, inicialmente, de vulnerabilidade, podemos pensar: a cada 16 horas morre uma pessoa vítima de homofobia; a cada 23 minutos morre um jovem negro. Logo, os riscos alinhados à sexualidade e raça, são redimensionados quando ligados a esse grupo.


Além das histórias de resistência e sobrevivência, temos outras narrativas, um novo olhar que as bixas pretas têm construído em sociedade de comportamentos normativos. É um avanço geracional, e a partir disso, podemos compreender a multiplicidade que constrói a sociedade.


Para discutir sobre bixas pretas periféricas, identidade e resistência, convidamos o Psicólogo Leonardo Ribeiro para uma entrevista. Falando sobre a sua trajetória, nos conta que ainda na graduação começou a se debruçar nos estudos sobre raça, gênero e sexualidade, e hoje possui publicações e entrevistas dentro dessa temática. Antecedendo aos seus estudos, é importante falar sobre o lugar que ocupa e a sua história com as bixas pretas. Leonardo, é residente do bairro de Paripe, mas a sua trajetória educacional foi traçada fora desse território, em colégios religiosos e em uma universidade onde as pessoas eram majoritariamente brancas e heterossexuais, fazendo-o questionar o sentido de estar em um espaço com pessoas que não eram semelhantes a ele, mudando, por vezes, o seu comportamento para poder se ajustar a um grupo.


É possível perceber que o Psicólogo neste momento fala sobre a sua trajetória, mas, ao pensar as minorias sociais, modificar algo em seu comportamento acaba sendo uma realidade comum, pois as pessoas não querem se sentir diferentes, mas sim, pertencentes. Quantas pessoas LGBT’s você conhece que não expressam a sua sexualidade ou não a verbalizam, com medo de sofrer represálias da família ou das pessoas próximas ou desconhecidas? Imagina viver uma vida em que você não se sente seguro e confortável o suficiente para demonstrar quem você é?


Através disso, o Leonardo Ribeiro deu um sentido para a sua psicologia, pensando sobre o sofrimento psíquico da população negra e LGBTQIA+. Para ele, bixas pretas, é pensar em identidade, pois é o sujeito que reflete os estereótipos do homem negro, aquele que é hiperssexualizado, que não é capaz de sentir ou construir afetos e, o que pode ser aceito diante de uma expressão da normatividade. Por isso, “a bixa preta nega a negritude imposta e também nega a heteronormatividade, ela traça um novo caminho”, e ressalta que, “a sexualidade da bixa preta incomoda porque ela foge dos padrões sociais, por isso é um tabu”.


Quando me refiro as bixas pretas serem a representação dos avanços geracionais, tenho como referência uma fala do Leonardo, onde ele diz que “é importante ter voz, para fazer-se existir e não só resistir”. É existir para tornar o olhar à diversidade, desmistificando os padrões religiosos que a sociedade brasileira carrega e o que é considerado normativo.

 
Frente a essas movimentações, é possível citar um importante grupo que iniciou na Cidade de Salvador (BA), o Afrobapho, um Coletivo criado por Alan Costa, no ano de 2015. O seu inicio foi como um grupo no Facebook, tendo como proposta acolher corpos negros dissidentes de gênero e sexualidade, dialogando e visibilizando as narrativas sobre raça, gênero e sexualidade. O Afrobapho surgiu em um período de grandes discussões sobre identidades negras, empoderamento e estética, e isso influenciou na construção de uma proposta para gerar novos signos aos corpos das bixas pretas, que, de acordo com Alan, estava “à mercê do riso alheio, como se exclusivamente nossa função fosse apenas para o humor debochado, no qual as pessoas mais riam da gente do que com a gente.”. O Coletivo veio para possibilitar maior autonomia desses corpos e o sentido que dão a eles, sem viver à sombra da heteronormatividade. 

 

“Nós lutamos e exigimos respeito e naturalização de nossas existências.”
(Alan Costa)

 

O Psicólogo Leonardo Ribeiro também nos alerta sobre essa identidade não possuir um modelo que se denomine como padrão, pois existe uma diversidade nesse grupo. Também se fala das bixas pretas intimidadas, que ainda não expõem uma força, mas as violências também as atingem de forma direta e/ou indireta. 


Enquanto aos espaços que atuou, tendo contato com esse público, o entrevistado cita algumas questões relacionadas ao sofrimento psíquico. Como o racismo, a homofobia e outras formas de opressão, podem gerar alguns transtornos e comportamentos, como a ansiedade, depressão, dificuldade em vivenciar a sua identidade, problemas para se expressar em público, distanciamento e/ou ausência de diálogo com a família, sensação de sentir-se inferior, dentre outras.


Caso queira acompanhar um pouco mais sobre a temática, indico a leitura do artigo Bixas pretas: subjetividades sobre-viventes, que encontra-se no livro “Ciências Sociais Aplicadas II: Saberes Interconectados”. Em seu Linktree você pode encontrar mais informações sobre o livro, como adquiri-lo e também outras indicações de leitura. No artigo indicado, você vai compreender melhor como as construções da sociedade podem adoecer os sujeitos identificados como bixas pretas; as construções marcadas por raça, gênero e classe social, e os sujeitos que ocupam esse lugar. 

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