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Quinta, 17 de Dezembro de 2020 - 14:20

Coluna Raça: Quilombos de afeto - o dengo que toda mulher negra precisa ter

por Adelmo Filho

Coluna Raça: Quilombos de afeto - o dengo que toda mulher negra precisa ter
Foto: Del Nunes / @Uendelns

Um dos assuntos mais importantes para discutirmos, é sobre o AFETO.


Então, o que é o afeto? Ele tem cor? Gênero ou classe social? Sexualidade ou medida corporal? Para entender melhor convidamos a Doutora em Sociologia Bruna Cristina Jaquetto Pereira, que se debruça no estudo das trajetórias afetivo-sexuais de mulheres negras. Enquanto realizava pesquisas sobre violência contra mulheres negras, pôde perceber que a violência contra a mulher estava além das agressões físico-corporais, como por exemplo, o fato de muitos homens se recusarem a dar as mãos às mulheres, sendo mais uma forma de violência, que gera sofrimento psíquico. Isso a levou a aprofundar-se na temática das relações afetivo-sexuais, com foco no corpo da mulher negra.


Pereira fala do afeto como possibilidade de trocas, é algo que se estabelece com as pessoas e é fundamental para construir uma imagem sobre nós mesmos. Contudo, é possível perceber que as características fenotípicas, influenciará na maneira que as pessoas serão tratadas na sociedade e na forma como se percebem, sendo positiva ou negativa. A seguir, vemos um vídeo que traz um exemplo comum para entendermos sobre autoestima e pensar na construção de afetos a partir disso. 

 

 

A Doutora nos conta que o afeto é algo tão fundamental, que também reflete na forma como percebemos o mundo e as possibilidades que podemos ter ou até onde podemos ir. Através deste vídeo, é possível partir para uma importante reflexão: como as meninas negras podem construir uma imagem positiva de si mesmas, se desde o período escolar sofrem diversas violências? Por serem meninas, negras, pelo seu cabelo e até pelas roupas ou acessórios que utilizam. Como vão amar a si mesmas? Como os outros vão entender que essas mulheres negras são dignas de receber e trocar dengos e chamegos? Então, Pereira nos diz que isso “não é visto como um direito, e quando é negado, o que acontece? Como é possível reivindicar isso? O que é que tem sido feito?” As mulheres negras encontram-se em uma situação onde o afeto, o amor, tem-lhes sido negado. Reitera que não apenas as mulheres negras sofrem com as violências afetivas, as brancas também, mas para além da violência de gênero, se fala sobre raça, classe e afins.


Em seu estudo, as mulheres negras costumam aparecer como “espectadoras da vida afetiva de mulheres brancas”. Ela afirma que as mulheres brancas encontram mais parceiros afetivos que as mulheres negras, o que não garante uma qualidade na relação de nenhum dos grupos, mas “as mulheres negras se pudessem experimentar essa situação que essas mulheres brancas vivem, seria um avanço.” Ressalta que não seria o ideal, ainda existiria a violência, haveria machismo, mas seria uma menor sensação de ter o seu corpo desprezado.


Também existe uma visão relacionada ao corpo da mulher negra, principalmente quando descrita por homens brancos, como se fosse um corpo “diferente”, estando à margem, como se fosse “a outra” e isso causa sofrimento. Ao falar dos homens negros há outra questão que torna necessário ler, estudar e discutir sobre branquitude, seu impacto nas subjetividades e como isso influencia nas escolhas afetivas. Por vezes, as mulheres brancas, para os homens negros, acabam sendo como “um passo a mais”, como ter acesso ao mundo branco, um mundo de vantagens e privilégios, saindo da margem e não estando mais em exclusão ou marginalização. É como se o corpo excluído e animalizado, pudesse ser mais um corpo, um corpo “humano”.


Nesse processo de exclusão e negação de afetos, é necessário que as mulheres negras se atentem a possíveis violências que possam surgir em suas trajetórias. Dados apontam diversas desigualdades raciais, e quando somadas ao gênero, as mulheres negras encontram-se em maior vulnerabilidade e opressão. No "Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil", em 2013, foram contabilizados o assassinato de 4.762 mulheres no país, tendo a taxa de vítimas de brancas diminuído e a de negras aumentado 19,5% neste ano, e os dados mostram-se cada vez mais desiguais. As pessoas negras no Brasil vivem em constante estado de violência, como um cenário de guerra, por isso é preciso ter cuidado para não naturalizar as violências. Sofrer não é normal, nem ser violentada de nenhuma forma. Existem outras alternativas e através delas você pode chegar ao que for melhor e ideal para você.    


Entre elas, Pereira cita algumas questões que surgiram em seus estudos, e nos relatos falam como ter acesso à universidade foi importante para algumas mulheres se empoderarem. Surge uma nova relação com o seu corpo e principalmente com o cabelo, como “um desabrochar da sexualidade”. Como indicação, também apresenta dois espaços existentes que surgiram na cidade de Salvador-BA, o Afrodengo e a Batekoo, como zona de “transformação estética e empoderamento” onde ocorre um “encontro de pessoas negras que propõem uma mudança na forma de se ver e existir”'. 


A jornalista Lorena Ifé é a criadora do Grupo Afrodengo, a maior rede virtual de afetividade negra no Facebook com a proposta de unir casais, paqueras e amizades entre pessoas negras. Utilizando os aplicativos de relacionamento, percebeu que havia uma baixa diversidade racial, então decidiu criar o Grupo que se popularizou não apenas em Salvador, mas em todo o Brasil e fora dele. Hoje, possui mais de 54 mil membros, e além do Facebook, existem ações, palestras e outras atividades que falam sobre a construção e o fortalecimento do afeto para e entre pessoas negras. É como um quilombo virtual, disseminando o amor. 


Também é possível falar sobre a Batekoo, um movimento criado e fundado por Mauricio Sacramento. Uma festa negra, produzida por e para pessoas negras, fazendo um resgate identitário a fim de construir outras narrativas, através dos olhos negros. A Batekoo é um espaço onde as pessoas podem repensar os seus referenciais, é acolhimento e segurança, onde podem ser quem elas são, afirmando a sua identidade racial, de gênero, sexual e outras.  


Bruna Jaquetto Pereira tem importantes produções sobre temática, e o seu lançamento mais recente será o livro “Dengos e zangas das mulheres-moringa: Vivências afetivo-sexuais de mulheres negras” pela editora da LASA (Latin American Studies Association), e estará disponível a partir do dia 21 de dezembro de 2020! Neste livro, ela fala um pouco sobre relacionamentos inter-raciais e entre pessoas negras, relações com a família, as vivências das mulheres negras e as experiências subjetivas. A capa do livro é ilustrada por Linoca Souza, uma importante mulher negra, artista visual e ilustradora. Não deixem de conferir!

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