Sexta, 09 de Outubro de 2020 - 15:30

Coluna Raça: Preto, pardo, branco? Afinal, qual o meu lugar?

por Adelmo Filho

Coluna Raça: Preto, pardo, branco? Afinal, qual o meu lugar?
Foto: Reprodução / Instagram @eta.nega

É possível vermos manifestações em redes sociais, programas televisivos e dúvidas entre pessoas próximas, quando o assunto é declaração racial. As pessoas brancas e negras com pele retinta, facilmente conseguem identificar o seu lugar e possuem determinadas facilidades para demarcar a sua cor ou raça. Em meio a isso, entre o branco e o negro retinto, estão as pessoas negras de pele mais clara, menos retintas, que por vezes possui a sensação de não-pertença a um grupo racial e também de não-lugar. “Escuro demais para ser branco, claro demais para ser negro”, é o que dizem.


À início, precisamos entender um pouco sobre raça e autodeclaração, o contexto histórico e significado atual, para isso, entende-se que ao falarmos sobre raça, sendo branca ou negra, não estamos atribuindo características biologizantes. Há mais de um século a ciência descartou a idéia de hierarquias raciais por atribuições biológicas, e vale lembrar que milhões de pessoas morreram e foram escravizadas ao redor do planeta por serem identificadas como “raças inferiores”.


Ao ler sobre a historicidade do termo, é possível compreender que ele deixou consequências na sociedade que vivemos, à exemplo, a situação de vulnerabilidade social que as pessoas negras geralmente se encontram, com diversos dados que apontam as desvantagens em relação a emprego, renda, educação, alimentação, moradia e outras. Com isso, o termo raça, passou a ser utilizado pela sociologia para explicar as relações sociais entre as pessoas brancas e negras, no Brasil. Entende-se que atribuir ou determinar um comportamento ao grupo racial de pessoas negras, devido a sua aparência, como se ao nascer negro você automaticamente torna-se “perigoso”, é racismo. Raça é pensada para a garantia de direitos e aplicação de políticas públicas para as minorias sociais.


Pensando na categoria negra, o IBGE faz uma divisão entre pessoas pretas e pardas, que por questões, prefiro chamar de pessoas negras mais retintas e menos retintas, tendo em vista que, assim como a pele branca, a pele negra possui diferentes tons, e desta forma não corre-se o risco de anular a identidade racial de uma outra pessoa. No Brasil, o tom de pele não é a única característica utilizada para identificar uma pessoa negra, mas também o tipo e formato de cabelo, nariz, boca ou olhos.


Desde 1872, o nosso país utiliza a classificação por “cor de pele”, sendo branca, preta e parda as cores mais frequentes, e em 1991, a categoria étnica indígena foi acrescentada. Pensemos que, historicamente as categorias preta e parda eram as únicas aplicadas à parcela escrava da população (existiam também os que nasceram livres ou os que foram auforriados) mas, ainda que esses tons fossem atribuídos as pessoas em situação de escravidão, é possível identificar estudos que falam sobre as pessoas negras de pele mais clara possuirem determinados acessos, como a casa dos seus donos ou as roupas e sobras de alimentações que seriam descartadas, enquando as com pele mais escura alimentavam-se de tripas e outras partes dos animais que não eram utilizadas. Isso também teria um reflexo na forma de trabalho, enquanto uns poderiam exercer funções domésticas, os outros trabalhavam nas plantações.


O sistema estrutural deste país, foi pensado de forma a impactar a realidade das pessoas negras no cenário atual e futuro. O branco sabe que é branco, a sociedade mostra o lugar que eles ocupam, de privilégio e vantagem, mas vivemos um histórico de mais de 400 anos de conflito, em que as pessoas negras de pele mais retinta vivenciam o racismo de forma mais explícita e violenta, por isso, sem perceber, podem anular a vivência e construção identitária dos outros, gerando nestes uma sensação de não-pertença e não-lugar. Isso é resquicio da escravidão, estruturando a nossa forma de pensar e agir.


Entre as coisas que precisamos saber, uma das mais importantes é, no Brasil, ter um pai ou avô negro, não torna você uma pessoa negra. Aqui, leva-se em consideração a identidade racial fenotípica (aparência) e não a origem (genética), a discriminação te atingirá a partir dos seus traços fenotípicos, sendo a cor, a marca principal para identificação, mas o formato do nariz, dos olhos, da boca e a grossura dos lábios, ou o tipo de cabelo, também é levado em consideração. Isso é totalmente diferente do que ocorre nos Estados Unidos, um preconceito racial de origem. 


Outro fato importante, é que a raça também possui características territoriais. Estamos em um país territorialmente amplo, e cada região possui hábitos culturais e históricos, singulares. Nas regiões Norte e Nordeste, há uma maior concentração de pessoas com pele retinta, logo, pessoas negras de pele clara podem ser usualmente percebidas pelos outros, como não-negras, enquanto em regiões como o Sul do Brasil, território com maior predominância de pessoas brancas, elas podem ser percebidas como negras com facilidade, devido às suas diferenças fenotípicas. A sociedade precisa compreender que ser negro não implica em um único tom de pele, temos muitos tons, muitos traços, e é necessário evitar o apagamento da negritude do outro. Isso não significa que pessoas visivelmente brancas, em cor de pele e ausência de traços negros, possam se identificar desta forma devido a sua ascendência familiar ou algum tipo de identificação cultural, ancestral ou espiritual.

 

Após a leitura, o que é possível entendermos até aqui?

 

  1. No Brasil, não deve-se atribuir a ideia de raça ao sentido biológico ou ascendência sanguínea;
  2. Determinar ou atribuir valores sociais a um grupo racial, é racismo, como pensar que toda pessoa negra retinta pode ser perigosa;
  3. Em nosso país, lemos os fenótipos raciais, logo, ter avós ou pais negros não são determinantes para se declarar como pessoa negra;
  4. Ser negro não é apenas uma questão de tom de pele;
  5. Quanto próximo dos traços negróides, com pele mais escura, cabelo mais crespo, nariz ou lábios maiores, mais chances de sofrer racismo você pode ter;  
  6. A ideia de raça também é territorial, pensamos em diferentes regiões, estados, cidades, bairros e até ambientes menores;
  7. O movimento negro traçou lutas históricas para unificação e reconhecimento racial, devemos lutar pelo pertencimento e nutrir uma não-exclusão; 
  8. Pessoas negras de pele clara não estão isentas de sofrer racismo, mas é preciso ter consciência de que as pessoas mais retintas estão mais expostas a esse tipo de violência;
  9. Pessoas negras de pele retinta precisam entender que a pele negra possui diversos tons, não apenas os mais escuros;
  10. Coletivamente, é necessário reconhecer a luta histórica dos movimentos sociais e valorar a construção das múltiplas identidades negras.

Histórico de Conteúdo