Coluna Raça: O suicídio entre a população negra e LGBTQIA+ é uma discussão necessária!
Foto: Helen Salomão

Desde o ano de 2003, o dia 10 de setembro é marcado pela Campanha Mundial de Prevenção ao Suicídio. No Brasil, o mês inteiro é dedicado para essas ações desde o ano de 2015, tendo a cor amarela como um dos símbolos. Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) cerca de 32 pessoas são suicidadas diariamente no País e, no mundo isso corresponde a uma morte a cada 40 segundos, sem contar as ideações e tentativas.


Estando cientes dessa realidade, precisamos identificar os grupos que mais são afetados por essa condição. Para isso, conversei com o Professor, Me. e Psicólogo Paulo Vitor Navasconi, também autor do livro "Vida, Adoecimento e Suicídio: Racismo na produção do conhecimento sobre jovens negros LGBTTIs" (2019), sobre esses acontecimentos e como isso afeta diretamente as minorias sociais. Ao iniciar as reflexões, ele fala sobre a necessidade de pensar o suicídio não como uma doença, mas uma consequência social, “o sofrimento é político, é social, a gente precisa entender o desenvolvimento humano de fora para dentro”, ou seja, a forma como a sociedade funciona traz consequências diretas ligadas a saúde mental de cada pessoa.


Com isso, discutimos o cerne da questão, pensar os fatores de risco e também os marcadores sociais. O nosso corpo carrega diversas marcas que são expressas de fora para dentro, então pensar em sociedade, sofrimento e adoecimento é: se vivemos uma realidade racista, transfóbica, lesbofóbica (+) machista, gordofóbica, capacitista (+), isso irá refletir de forma histórica, política, econômica e mental na vida das pessoas. Ao ser discriminado pela sua cor, identidade de gênero, ou sexualidade, o Opressor retira a humanidade do Outro. Lembro-me quando em atendimentos clínicos, ouvi diversas vezes de pessoas negras como elas se sentiam “um lixo” após ter passado por situações de violência racial. Um lixo, é algo que não possui valor, é descartável.


Navasconi ressalta que um dos grandes problemas ao pensar o suicídio é a prática universalista, não levando em conta os demarcadores sociais, já que os índices apontam que as populações negra, indígena e trans, estão mais envolvidas em fatores de risco ligados ao suicídio. Em 2018, foi lançado pelo Ministério da Saúde e Universidade de Brasília, o "Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016", sendo possível perceber os negros têm entre 4 e 6 chances de serem suicidados quando comparados aos jovens brancos. 
Como exemplo, neste ano de 2020 tivemos o caso do professor Dam Dias, um jovem negro de 28 anos, residente de Maracás-BA:

Pensemos que, já temos esses demarcadores sociais como fator de vulnerabilidade, e nesse momento também leva-se em conta o cenário de desestabilidade que o Brasil vivencia devido o COVID-19, e o Navasconi faz uma grande reflexão sobre isso: “é um momento de emergência e de desastre, é um momento de crise que a gente tem vivenciado, mas uma crise dentro de uma crise,  as minorias sociais já viviam a crise, racial, de gênero e sexualidade.” Nesse momento, ele também se refere a ausência de políticas públicas específicas voltadas para essas minorias, principalmente a população negra, que neste período tem montado rede de cuidados entre si.


Recentemente, um financiamento coletivo foi realizado por Hisan Silva e Pedro Batalha da Marca DENDEZEIRO, que com o apoio do Benfeitoria e a Vale do Dendê, arrecadou cerca de 30.000 reais para a fabricação de máscaras, gerando uma renda temporária para pequenas costureiras. Também é possível citar o Projeto Mobiliza, onde Atailon Matos, um dos participantes, conta sobre a iniciativa da Residência em Arquitetura, Urbanismo e Engenharia (RAU+E/UFBA) que em articulação com outras redes, passou a instalar pontos de higienização com pias populares. Ambos projetos atingiram diversas comunidades periféricas de Salvador, e junto a outras instituições, também fizeram doação de cestas básicas, sabão e cartilhas.

 

Paulo Vitor Navasconi: A gente pensa que, antes da COVID-19, já existia um sentimento de solidão e não pertença, e agora tudo isso apoiado a vários conflitos. Nessa condição de vulnerabilidade social, como não pensar na morte.

 

 

Em seu livro "Vida, adoecimento e suicídio: racismo na produção do conhecimento sobre jovens Negros(as) LGBTTIs", são abordadas diversas reflexões de forma interseccional sobre raça, gênero, classe e sexualidade, a partir de diversas histórias. No livro, Navasconi também traz relatos de ordem pessoal, falando sobre as suas tentativas de suicídio e a ausência de questionamentos, pois não havia uma investigação sobre alguns motivos ou frequência, mas ao se debruçar em seus estudos, passou a construir uma identidade racial, e ao tornar-se negro, percebe do que se tratava. São apresentadas diversas perspectivas sociais, como o racismo epistémico, branquitude, heteronormatividade e como esses e outros fatores provocam adoecimento e destruição.


 É importante pensar que na maior parte dos casos, as pessoas pensam em acabar com as situações de dor e sofrimento que vivenciam. Caso precise de ajuda, procure o CVV (www.cvv.org.br). O apoio é oferecido através de telefone, e-mail e chat, 24 horas por dia, durante toda a semana. Lembre-se, você não está só!

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