Segunda, 02 de Setembro de 2019 - 10:30

30 Anos sem Raul: Chico Anysio e Carlos Imperial

por Pacheco Maia

30 Anos sem Raul: Chico Anysio e Carlos Imperial

A expectativa de gravar um disco e fazer sucesso na Cidade Maravilhosa era grande. Durante o voo num avião da Cruzeiro do Sul, Raulzito e Os Panteras faziam planos sob o olhar absorto de Edith. A aterrissagem foi tranquila na pista do aeroporto Santos Dumont. Logo que desembarcaram correram para pegar as malas e os instrumentos.


A empolgação foi substituída por aflição, quando perceberam que o dinheiro que tinham não dava para pagar o excesso de peso do amplificador, guitarras, baixo e bateria. “E agora?”, a interrogação brotou simultaneamente nas cabeças dos quatro baianos. Em agosto de 1967, não havia caixas eletrônicos disponíveis para uma possível transferência da quantia pelos pais.
Nem passava pelas cabeças deles logo na chegada ao Rio, naquela tentativa de, enfim, viverem daquilo que gostavam de fazer, incomodar os pais que, descrentes, tanto os chamavam a atenção: “música não dá camisa a ninguém. Música é coisa de boêmio”. A decisão conjunta foi de se virarem sozinho. Bolsos e carteiras começam a ser remexidos em busca de telefones de conhecidos que pudessem ajudar.


Carleba lembra que Chico Anysio morava na Urca, mesmo bairro onde ficava a casa do irmão de Mariano, onde se hospedariam ele, Eládio e o próprio Mariano. Os outros confirmam a informação, lembrando que, quando estiveram no Rio, alguns meses antes, ouviram falar isso. “Então, vamos pra casa de meu irmão, deixamos as malas lá e saímos depois à procura da casa de Chico. Quem sabe ele nos ajuda”, propôs Mariano.


Proposta aprovada. Edith é deixada na casa do irmão de Mariano e lá vão Raulzito e Os Panteras procurar a casa de Chico Anysio. No bairro da Urca, onde também ficava a TV Tupi, emissora na qual trabalhava o humorista naquela época.


Não foi difícil encontrar logo alguém para indicar onde ficava a residência do famoso comediante. Bateram na porta dele naquele fim de tarde e foram bem recebidos.


Chico Anysio se lembrou deles, dos shows que fizera na Bahia, inclusive o do Bahiano de Tênis, sem a presença de Raul. O problema vivido pela banda foi exposto e sensibilizou o humorista, que acertou a participação da banda no programa que fazia na TV Tupi.


Os baianos vibraram e ficaram mais entusiasmados ainda quando Chico os deixou na sala e voltou com a quantia que precisavam para retirar os equipamentos. Entregou o dinheiro, com a seguinte observação: “Pela primeira vez, estou adiantando o cachê antes da apresentação. Não falhem”.


Bastante gratos, Raulzito e Os Panteras agradeceram e nunca esqueceram o gesto generoso do humorista cearense que, sem fazer alarde, tanto ajudou a inúmeros artistas brasileiros, fosse no início ou no fim da carreira.


Com dinheiro em mãos, eles retiraram os equipamentos, mas faltou grana para o transporte. Como a Urca não é tão longe assim do aeroporto Santos Dumont, a solução foi levar os equipamentos a pé mesmo. Mariano, Carleba e Eládio ficaram na casa do irmão de Mariano, na Urca. Raul e Edith se dirigiram à residência da tia Maria Angélica, no Leblon.


O primeiro obstáculo fora vencido com a ajuda de Chico Anysio. Não tinham muito do que reclamar. O encontro com o humorista lhes rendera apresentações na televisão, onde animariam a claque do programa, tocando, durante os intervalos comerciais. Participariam ainda do quadro do “Coronel Limoeiro”.


Mas o objetivo maior da ida ao Rio era gravar o disco da banda e, claro, fazer sucesso. Portanto, eles não podiam ficar parados com a boca cheia de dentes, sentados num trono de um apartamento, esperando a morte chegar, como diria Raul, alguns anos depois, na canção “Ouro de Tolo”. Edith ficava em casa e o quarteto ia a luta para a realização do sonho.


Encontravam conterrâneos, como Cyro de Aguiar e José Roberto, cantores já com certo sucesso, que lhes davam dicas e indicações de pessoas influentes nas gravadoras. Foi assim que chegaram ao cara, o “brasa” da época, Carlos Imperial, responsável pelo lançamento de vários artistas de sucesso da Jovem Guarda, a exemplo de Roberto Carlos.


Numa tarde de agosto de 1967, Raulzito e Os Panteras se produziram e foram a Copacabana, onde ficava a cobertura do produtor artístico, compositor, radialista e apresentador de televisão. Carleba conta que os baianos estavam na sala, aguardando, quando desce pela escada do apartamento duplex, Imperial com seu barrigão saliente, acompanhado de duas “louraças”.


Com jeito bonachão, Carlos Imperial cumprimenta o grupo: “Então, são vocês o pessoal da Bahia que me falaram. Fiquem à vontade e toquem alguma coisa”. Raulzito e Os Panteras apresentam uma canção e Imperial manda parar e dispara:


“Iguais a vocês, existem milhares de bandas aqui no Rio. O conselho que dou é pegarem o primeiro ônibus e voltarem para a Bahia. Quanto a você, Raulzito não é nome de cantor de rock. Fica mais apropriado em cantor de música mexicana”.


Os baianos se entreolham, engolem a seco, despedem-se de Imperial e vão embora. Ainda no elevador, Carleba percebe que Raul ficou deprimido com a opinião do balofo da Jovem Guarda. “Deixa pra lá, Raul. Este cara é um bostético”, diz.


Mariano consola o amigo, lembrando do maestro que, com base no que ouviu num gravador de Raul, esculhambou o som da banda, reclamando da falta de ritmo e harmonia. Depois Alcivando Luz, assistindo a um ensaio, explicou que a opinião negativa era porque o som do gravador não tinha qualidade. O som da banda tinha sim ritmo e harmonia.


Raulzito ficou engasgado com Imperial. Segundo Carleba, a vingança viria com o sucesso de “Let me sing”, no 7º Festival Internacional da Canção, em 1972. Após a apoteótica apresentação, Raul procurou um telefone nos camarins e ligou para Carlos Imperial, dizendo-lhe que o baiano, desaprovado por ele, com nome de cantor mexicano, estava fazendo sucesso.


A frustração do primeiro encontro com Carlos Imperial, no entanto, não desviou Raulzito e Os Panteras do objetivo de gravar o disco e fazer sucesso na Cidade Maravilhosa. Eles foram à CBS, na tentativa de serem atendidos pelo produtor musical Jairo Pires. A gravadora tinha no cast grandes estrelas da Jovem Guarda, inclusive o rei Roberto Carlos.


Depois de várias idas e circuladas pelo corredor da CBS na tentativa de fazer um teste e ser aprovado para gravar um disco, certa manhã, passa por eles, Roberto Carlos. O rei reconhece os baianos e vai ser determinante para que eles sejam atendidos pelo produtor da gravadora. Mas essa é outra história.

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