Segunda, 26 de Agosto de 2019 - 15:30

30 Anos sem Raul: Rumo ao Rio de Janeiro

por Pacheco Maia

30 Anos sem Raul: Rumo ao Rio de Janeiro
Foto: Divulgação

Em junho de 1967, enquanto os Beatles lançavam o mitológico álbum “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, Raulzito e Os Panteras resolveram romper as divisas da Bahia e descer pro Sul Maravilha. Objetivo: gravar um disco e fazer sucesso na Cidade Maravilhosa.

 

Mas antes de tomarem essa decisão, que se concretizou no segundo semestre daquele ano com o embarque para o Rio de Janeiro, houve um interstício no qual Raulzito se afastou de Os Panteras. Isso foi entre 1966 e o início de 1967.

 

Determinado a casar com Edith Wisner, sua primeira mulher, o filho de Dona Maria Eugênia e Professor Raul resolveu dar um tempo na carreira artística para baixar a guarda do sogro.

 

Missionário de uma igreja evangélica norte-americano, radicado em Salvador, o pai de Edith não via com bons olhos o envolvimento da filha com um “transviado”, um jovem de classe média que não seguia o padrão da época de tornar-se médico, engenheiro ou advogado.

 

Pois, Raulzito mete as caras nos livros e passa no vestibular para o curso de Direito. Prova aos pais e ao sogro como era fácil passar em exames e como isso pouco importava para ele. Depois de casar com Edith, ele não frequenta a faculdade e decide seguir sua lenda pessoal, se picando pro Rio com Os Panteras, levando Edith junto, claro.

 

Naquele período sabático de Raulzito, mesmo sem o líder, Os Panteras continuaram a tocar. Mariano, Carleba e Eládio substituíram o parceiro por outros, como Emanoel Pacheco. Por sinal, nunca é tarde para desmistificar a versão da história que ficou famosa do encontro de Jerry Adriani com Raulzito num show no Bahiano de Tênis.

 

Quem retifica a versão são testemunhas oculares da história: Mariano, Carleba e Eládio. Segundo eles, Raulzito não integrou a banda naquela noite, quando foram realizados shows de Nara Leão, Chico Anysio e Jerry Adriani, no Bahiano de Tênis, clube da elite branco-mestiça baiana, como diria o antropólogo Antonio Risério.

 

Mais tarde, Gilberto Gil denunciaria a discriminação existente no clube social naquela época, na canção “Tradição”, do álbum “Realce”: “No tempo que preto não entrava no Baiano nem pela porta da cozinha”. Então foi por causa dessa característica do lugar que “Os Jormans”, banda que acompanharia Jerry, não puderam tocar naquela noite. No grupo havia dois negros.

 

No desespero, quase em cima da hora da apresentação de um dos ídolos da Jovem Guarda, o empresário do show saiu em disparada em busca dos Panteras. Eles não teriam problemas com os critérios preconceituosos do clube e nem dificuldade nenhuma em fazer o repertório de Jerry. Já tinham acompanhado – com Raul – Roberto Carlos e outros artistas da Jovem Guarda em Salvador.

 

Raulzito ficou fora deste show, mas resolveu voltar à ativa quando Mariano, Carleba e Eládio foram a sua casa lhe falar sobre a excursão que fariam com Jerry Adriani pelo interior da Bahia. Por terem salvado a apresentação de Jerry no Bahiano e agradado bastante o público, o empresário quis contratá-los para a nova maratona de shows.

 

Suspendendo a greve de música, Raulzito não pestanejou em seguir com os amigos, que foram comunicar ao empresário a adesão de mais um membro. Não seria ele sozinho. Edith também iria. Tudo acertado e, agora, Raulzito e Os Panteras tocariam com Jerry Adriani pelo interior baiano.

 

É nesta excursão que Raulzito e Jerry Adriani se conhecem e daí surge uma grande amizade entre os dois. A empatia foi automática. Jerry lembra sempre as brincadeiras que os dois faziam um com o outro. O ídolo da Jovem Guarda acabaria se tornando compadre de Raulzito, batizando sua primeira filha: Simone, alguns anos depois.

 

Mais tarde, já no Rio de Janeiro, Raul vai protagonizar um episódio hilário no casamento de Jerry Adriani. Sem ser convidado, já que a cerimônia seria reservada aos familiares do noivo e da noiva, na residência deles, Raulzito se traja de padre e apresentando-se assim consegue passar pela portaria do prédio.

 

Um tempo depois, Raul, à vontade, tomando seu uísque no apartamento do amigo, chega um recado da portaria de que havia outra pessoa dizendo-se o padre do casamento, querendo subir. O baiano traquino não se controla solta uma gargalhada e o mistério se desvenda. “Esse Raul!!!”, lembra Jerry sorrindo da história.

 

De volta à preparação da ida de Raulzito e Os Panteras para o Rio de Janeiro. Antes de todos embarcarem em agosto de 1967, Mariano, Carleba e Eládio deram uma passada pela cidade maravilhosa, sondando o ambiente. O trio viajou de Kombi com o amigo e empresário Alex. Apesar do desconforto da viagem, a experiência não os desanimou. Muito pelo contrário.

 

A animação era total. Raulzito estava reincorporado à banda, que já tinha material mais do que suficiente para a gravação do disco. Entre as canções, uma versão em português de “Lucy in the Sky with Diamonds”, de Sgt. Peppers, lançado pelos Beatles há poucos meses da ida deles pro Rio.

 

Passagens de avião compradas. Raulzito ficaria na casa de sua tia Maria Angélica, na Zona Sul, e Os Panteras na de um tio de Mariano, na Urca. Nos bolsos e carteiras deles, pedaços de papéis com os telefones de artistas bem-sucedidos que conheceram na Bahia, como Chico Anysio e o próprio Jerry Adriani.

 

O avião decolou do aeroporto 2 de Julho, em Salvador, com direção ao Santos Dumont, no Rio de Janeiro. “Ao chegar do interior, inocente, puro e besta”. Essa passagem da canção “Sessão das 10”, do disco “Sociedade da Grã Ordem Kavernista apresenta a Sessão das 10”, possivelmente foi inspirada neste momento vivido por Raulzito e Os Panteras.

 

O quarteto baiano não tinha dinheiro suficiente para pagar o excesso de peso dos equipamentos que levaram. Com guitarras, baixo e bateria retidos no aeroporto, foram em busca da ajuda de alguém que pudesse lhe ajudar a pagar a liberação dos instrumentos musicais.

 

Na Urca, onde morava o irmão de Mariano, Egberto, ficava também a sede da TV Tupi. No bairro, residia Chico Anysio na época. Os baianos foram atrás do humorista cearense que deixou um legado de grande generosidade com os colegas. Mas essa é outra história.

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