Quinta, 25 de Abril de 2019 - 14:30

Utopia Pop: A 'rejeição' atual a Madonna evidencia o sexismo na indústria musical

por Deivide Souza

Utopia Pop: A 'rejeição' atual a Madonna evidencia o sexismo na indústria musical
Foto: MTV

Madonna (60) ainda é relevante para o mundo da música pop? Todas as vezes que a artista veterana lança novo material, essa pergunta retorna aos debates e colunas pop. O fato é que a indústria fonográfica é muito injusta com as mulheres criadoras, produtoras e engenheiras de som, e com Ciccone, não é diferente. Na última quarta-feira (17), a Rainha do Pop lançou “Medellín” em parceria com a sensação do pop latino, Maluma, primeiro single do seu 13° álbum de estúdio, “Madame X”. A canção já vem sofrendo com a objeção de algumas rádios britânicas, que se negam a tocar a música na programação, a exemplo das rádios 1 e 2 da BBC 2, alegando que o seguimento do veículo é um público, digamos, mais jovem, de 15 a 29 anos de idade. Seria esse um novo boicote à matriarca do pop?

 

É importante lembrar que em 2015, Madonna passou por uma situação parecida quando a mesma rádio decidiu boicotar a ótima “Living for Love”, primeiro single do seu álbum “Rebel Heart”, e o pior, parece que o motivo dessa rejeição foi mesmo a idade da compositora, o que torna o debate sobre a longevidade das nossas divas pop no cenário musical ainda mais sério e dramático. Nos últimos anos é perceptível que Madonna tem surfado no sucesso das novidades da música para sentir novamente o frescor juvenil dos holofotes, e isso vai de M.I.A a Chance The Rapper.

 

Em 2016, aos 58 anos, Madonna foi eleita pela Billboard a “Mulher do Ano, e aproveitou a oportunidade para denunciar o sexismo latente na indústria e na sociedade como um todo: “Não há regras”… Se você for um homem. Mas, se você for uma mulher, precisa entrar no jogo. E que jogo é esse? Bem, é permitido que sejamos bonitas, divertidas e sexy, mas não espertas demais. Não tenham uma opinião. Ou melhor, não tenham uma opinião que não esteja alinhada ao status quo. Vocês podem ser objetificadas e vestidas como vadias, mas não podem mostrar suas próprias fantasias sexuais ao mundo. Sejam o que os homens querem que vocês sejam. Sejam algo que deixe as outras mulheres confortáveis quando vocês estiverem perto de seus homens. E, por fim, não envelheçam, porque envelhecer é um pecado. Vocês vão ser criticadas e suas músicas não vão mais tocar nas rádios.”

 

Em um recente estudo feito na “University Of Southern California” (USC), e encabeçado pela professora Stacey L. Smith, que buscou desenhar o engajamento e a participação de homens e mulheres na indústria fonográfica, concluiu que apenas 17% das canções da lista da Billboard foram de compositoras, e apenas 1 a cada 16 músicas foram feitas por mulheres. O mesmo estudo revelou que das 899 pessoas que foram nomeadas ao Grammy nos últimos seis anos, apenas 9,3% eram mulheres. Recentemente o ex-presidente da academia de gravação, Neil Portnow, alegou que se as cantoras quisessem receber mais indicações, precisariam dar “um passo à frente”.

 

A cantora islandesa, Björk, também já se posicionou contra o sexismo na música em entrevista a revista ‘Pitchfork Review’, em 2015, durante a divulgação do seu álbum “Vulnicura”, que refletiu sobre a temática que é “permitido” que as mulheres abordem em suas composições: “As mulheres na música estão autorizadas a serem cantoras e compositoras que cantam sobre seus namorados. Se elas mudam de assunto para átomos, galáxias, ativismo, matemática nerd usada na edição de batidas ou qualquer outra coisa além de serem intérpretes cantando sobre seus amores, elas são criticadas: os jornalistas sentem que falta algo, como se nossos únicos assuntos fossem emocionais”  prévia é proibida. Mais tarde a cantora produziu um álbum em que 90% dos profissionais envolvidos eram mulheres, incluindo produtoras, mixers, engenheira de som e um coral islandês. 


O mercado musical sempre foi mais fácil para os homens. Paul McCartney, por exemplo, aos 76 anos, conseguiu colocar o seu primeiro álbum em 36 anos de carreira, “Egypt Station”, no topo da maior parada do mundo, a Billboard 200. Shania Twain que já não lançava disco há 15 anos, não foi recebida com o mesmo calor ao lançar “Now”, seu quinto CD de estúdio, que amargou o quarto lugar na Billboard 200, e seu single “Life´s About to Get Good, nem se quer apareceu no top 100. Podemos ir ainda mais além em nossa analise, ao observamos dois artistas que praticamente nasceram juntos no mundo musical: Justin Timberlake e Christina Aguilera. O primeiro, hoje, aos 38 anos, continua  a emplacar hits (“Can't Stop the Feeling!”), e que apesar do massacre da crítica especializada ao seu novo álbum, “Man of the Woods”, debutou em primeiro lugar no hot 200 da Billboard. Aguilera no entanto, mesmo com a aclamação, pouca importância recebeu das rádios do seu seguimento, e o “Liberation”, seu novo disco, foi rapidamente esquecido.

 

O problema da desigualdade de gênero acomete milhares de mulheres ao redor do mundo, e quando trazido ao setor musical, fica ainda mais evidente, já que a problemática está bastante acentuada. Em sua última edição, o Grammy Awards deu um passo à frente, como instituição de grande importância e relevância entre os músicos, instaurando uma comissão para avaliar a falta de representatividade nas categorias, e isso inclui negros e mulheres. Como resultado, tivemos mais artistas femininas premiadas e demonstrando sua arte e sexualidade em cima do palco, sem sofrer a manipulação dos diretores artísticos. Mas há ainda muito a ser feito para diminuir essa diferenciação de gênero na indústria fonográfica, principalmente no que tange ao prazo de validade de nossas divas do pop, e na aceitação de que elas podem continuar sendo tudo o que quiserem ser, independente de suas idades.

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