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Sexta, 28 de Janeiro de 2022 - 10:10

Fala, Albuca!: Do sagrado nasce a arte moderna baiana

por Beatriz Albuca - @albuquerquebeatriz

Fala, Albuca!: Do sagrado nasce a arte moderna baiana
Imagem: "As festas de Yemanjá" nos cadernos de Carybé

“ (…) não há no mundo nada mais bonito (os marinheiros dos grandes navios que viajam todas as terras sempre dizem) que a cor que sai da mistura dos cabelos de Iemanjá com o mar.” (Jorge Amado) 

 

Não é nenhuma novidade a influencia da religiosidade na construção cultural e no desenvolvimento artístico de um povo. A arte sacra na Bahia foi em sua maioria concebida sob uma ótica católica que representa a cultura portuguesa e europeia em geral, não tendo um caráter necessariamente brasileiro ou baiano¹. Hoje, a religiosidade está internalizada na arte e é a peça chave para a criação de uma imagem baiana na cena artística.

 

O sincretismo religioso e a celebração da fé são os pilares do nascimento do conceito da “baianidade”, que numa rápida definição socioantropológica já difundida, seria justamente o resultado de todas as culturas existentes na Bahia, sintetizadas em uma imagem única, social e culturalmente homogênea.

 

Uma imagem romantizada? Sim. Mas é ela que projeta a Bahia no panorama das artes. Um produto baiano, criado sob uma antropofagia cultural, se utilizando de marcas deixadas por terceiros ao longo do processo histórico brasileiro, sem negá-los totalmente ou aceitá-los como verdade absoluta.


A arte baiana a partir de então é especialmente vinculada às religiões de matriz africana que tinham sido negligenciadas no horizonte « sacro-artístico » e os orixás, passam a ser figuras representativas desse discurso de baianidade, e Yemanjá, no imaginário da geração de Jorge Amado, passa a ser sinônimo de Bahia: ambas figuras femininas que encontram sua força no mar.


Assim nasce a estética baiana, que ganha projeção nacional e internacionalmente.


Dorival Caymmi transformou o mar em gente, em gente intima nossa. Nos romances de Jorge Amado surge uma baía não só de todos os santos, mas de todos os orixás. Que é também de Glauber Rocha e de Zélia Gattai. Não dependemos das estátuas herdadas da colonização, é a “Sereia de Itapuã” feita por Mario Cravo que vira monumento, construindo uma identidade coletiva mais autêntica, ainda que muito contraditória e imperfeita. Uma imagem de Bahia eternizada por Pierre Verger, “franco-baiano” como costumo falar, que em preto e branco conseguiu registrar as cores dessa Bahia de Carybé.


Está consolidada a arte moderna baiana. O Cultural forneceu à Arte um caminho para construir uma nova narrativa. Agora, que a arte baiana sirva como cartaz de uma desmitificação da religiosidade afro brasileira e que o respeito se estenda para além de dois de fevereiro, porque « esse povo de Yemanjá tem muito o que contar », diria nosso amado Jorge.


¹Recomendo a leitura de “A primeira obra de arte essencialmente brasileira”

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