Sexta, 13 de Abril de 2018 - 16:00

As caldeiras estão voltando a ferver

por Marcelo Mello

As caldeiras estão voltando a ferver
Foto: Acervo pessoal

Desde o ano 2014 houve uma forte retração na oferta de crédito, resultante da desaceleração da economia e brusca redução dos faturamentos brutos das empresas, tendo por consequência o aumento dos índices de desemprego e fuga de investimentos.

 

Passados esses 04 (quatro) longos anos, há um sentimento que começa a dominar os players do mercado financeiro. A percepção clara da retomada dos pedidos de crédito, refletindo a aura de que os negócios, enfim, estão reagindo a crise e o ambiente se mostra menos arredio ao crescimento.

 

Não se trata de analisar se o copo está meio cheio ou meio vazio mas observar que há uma recuperação do volume de pleitos junto as instituições financeiras, com sinais fortes de continuidade, movidos, inclusive, pelos indicadores de melhoria na atividade econômica e do desejo da iniciativa privada em produzir riquezas, apesar da drástica redução dos investimentos oficiais.

 

Afora a condicionante política, que se traduz numa das fontes mais insistentes das incertezas para o mercado, a economia esquenta com ares de quem quer recuperar o tempo perdido. Ainda não chegamos aos volumes de operações do início de 2015, quando a produção industrial despencou, consolidando o quadro de agravamento da crise, levando ao fechamento das torneiras que irrigavam a produção. De lá para cá as notícias ruins acumularam por todos esses anos e a expectativa do empresariado espelhava o contexto geral de que a economia se deteriorava rápida e profundamente sem que surgisse alternativa para sustentar a vontade de investir.

 

Com algumas mudanças pontuais, as autoridades monetárias, enfim, ganharam um certo grau de autonomia para corrigir, com medidas claras de ajustes cuja manutenção e firmeza deram sinais ao mercado de que a sangria estava sendo estancada e que os indicadores, em algum momento, poderiam começar a apontar um índice de recuperação. Pois bem, a estratégia de redução da taxa SELIC para patamares civilizados reduziu, como resultante imediata, o custo com o serviço da dívida pública e pressionou os indicadores de curto prazo para baixo, o que, em resposta mediata, forçará a redução dos juros das operações financeiras. Conseguimos, com muito esforço, atingir um satisfatório nível de confiança na política econômica, apesar de alguns percalços decorrentes dos desdobramentos das operações policiais que atingem o meio político e de grandes conglomerados empresariais brasileiros, além das derrotas políticas do governo, as quais resultaram na perda do grau de investimentos (investment grade) e consequente diminuição do nível de entradas de novos recursos vindos de investidores, repercutindo, inclusive, na projeção dos juros de longo prazo, os quais ainda apontam resistência em patamares altos.

 

Não bastassem os eventos analíticos da saúde financeira do governo, ainda haveremos de encarar em 2018 o fenômeno cíclico democrático das eleições, o que nos traz uma certa nebulosidade e incerteza quanto aos rumos da economia.

 

Voltando aos dias atuais, sem futurologia, a redução da Taxa Básica de Juros e, por conseguinte, do CDI (atrelados a taxa SELIC), o ambiente do curto prazo reduz a pressão dos índices financeiros, acomodando os ânimos e gerando as bases necessárias para a preparação das condições para redução dos patamares de juros das operações mais alongadas, embora o ambiente da oferta de crédito para operações de longo prazo ainda amargue projeções de taxa na órbita dos 02 (dois) dígitos e acima das 02 (duas) dezenas (segundo a Febraban), refletindo a percepção do risco quanto ao rumo político ainda indefinido.

 

Entretanto, apesar das taxas reais ofertadas as empresas ainda não representarem um nível baixo, espelhando um descolamento com o perfil alcançado na taxa SELIC, há um movimento frenético de busca de produtos financeiros para reforço do caixa ou para financiamento da produção, o que promove o disparo da engrenagem do mercado.

 

No patamar atual da taxa SELIC e seu viés de queda, as instituições financeiras de pequeno e médio porte não poderão ficar estagnadas, necessitando colocar seus recursos em operações que remunerem suas captações, o que refletirá, aos poucos, num crescimento da oferta de recursos para o empresariado. Na medida em que ficar evidenciada a necessária continuidade da política econômica, a pressão sobre os indicadores de lingo prazo serão atenuadas. Esse movimento se dará numa velocidade imprevisível, pois, com o aumento gradual da oferta de crédito, chegará a hora de analisar a qualidade cadastral e do risco do crédito para os tomadores. Em síntese, chegará a hora de avaliar o estrago que a crise (acentuada em 2015) gerou aos sobreviventes.

 

* Marcelo Mello, advogado especialista em análise de risco de crédito e regras de compliance; sócio da Vetorinvest Finanças Corporativas

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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