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Sábado, 01 de Janeiro de 2022 - 11:30

91 anos de crises e de paixão

por Nestor Mendes Jr.

91 anos de crises e de paixão
Foto: Acervo Pessoal

Há exatamente 91 anos nascia, no centro antigo de Salvador, no cabaré do Jockey Club, à Rua Carlos Gomes, o Esporte Clube Bahia. Naquele 1o de Janeiro de 1931 não havia nenhum surto de doença ou epidemia, mas a política era uma febre no país com a Revolução de 1930, especialmente depois do assassinato de João Pessoa – o paraibano candidato a vice-presidência, ao lado do gaúcho Getúlio Vargas, em 26 de julho de 1930, no Recife.

 

Com o nome e as cores da Bahia, o Bahia disputou e venceu a sua primeira competição: o Torneio Início de 1931. E conquistou, no mesmo ano, o Campeonato Baiano. Por tais feitos, ganhou o dístico “Nasceu para Vencer”. 

 

E, por nove décadas, passe a passe, gol a gol, foi se transformando no clube do povo, entronizando-se no ideário da cultura popular da Bahia ao lado do Sr. do Bonfim, do acarajé, da roda-de-samba, do Elevador Lacerda (inaugurado em 1930), do trio-elétrico, da guitarra baiana, de Cuíca de Santo Amaro, de Jorge Amado, de Dorival Caymmi, de Edil Pacheco, de Gilberto Gil e de Caetano Veloso. 

 

Conquistou dois títulos brasileiros – em 1959, o primeiro campeão do Brasil – e em 1988, quando bordou no peito a segunda estrela nacional. 

 

Contudo, além de títulos e glórias, em 91 anos já passou muitos perrengues. 

 

Mal estava em formação quando, em abril de 1932, eclodiu a primeira crise, com o afastamento de dois de seus mais importantes fundadores: Fernando Tude e Júlio Almeida, que se bandeiam para a oposição ao presidente Plínio Risério. Poderia ter acabado ali.

 

No seu nono aniversário, em 1940, com 21 associados, Carlos Wildberger é eleito presidente, responsável por contratar uma trinca lendária de meias argentinos: Papetti, Avalle e Bianchi. Apesar do sucesso em campo, o magnata Wildberger acabou empobrecido, tanto que chegou a pedir emprego no clube para sobreviver.

 

Um ano depois, em 1941, é despejado de sua sede própria, com os troféus sendo levados por Mário Sandes para a casa dele, e os atletas instalados numa pensão à Ladeira do São Bento. A dívida, à época, era uma pequena fortuna de 45 mil cruzeiros. E, por 13x8, no dia 1o de maio, uma assembleia decidiu que o ECB iria participar do Campeonato Baiano.

 

 

Em 1949, para a disputa do Campeonato dos “Quatro Séculos”, é eleito presidente Clemens Vaz Sampaio, nascido em Brejões/BA, em 1924, e que seria, posteriormente, deputado estadual e federal. Não ficou na cadeira presidencial por mais de três meses. Alegou que “não era do ramo”, renunciou, pegou o boné e foi embora. E o clube sobreviveu. 

 

Nos anos 1990 e 2000, várias crises e muitos vexames na história do clube, culminando, em 2005, em humilhante rebaixamento para a 3a Divisão do Campeonato Brasileiro. 

 

No dia 13 de maio de 2012, quebrou um absurdo jejum de 11 anos sem conquistar um só título. Era o 44º Campeonato Baiano da história, mas poderia ser o 50o, não fossem mais de 20 anos de incúria, incompetência e gestão temerária. 

 

Em 2013, mudou os rumos de sua história com eleições diretas pelos sócios, acabando com décadas de ditadura e de mandonismo. 

 

Mesmo com a democracia, o Esporte Clube Bahia volta a enfrentar mais uma crise, agravada agora pelo rebaixamento para a 2a Divisão do Campeonato Brasileiro. E pior do que a derrota, é a constatação de que o clube é uma nau sem rumo. 

 

A gestão no todo é um fracasso, e não apenas no futebol. Em 2021, o clube recebeu R$ 216.209 milhões, gastou cerca de R$ 60 milhões com a folha salarial do elenco profissional, mas a diretoria não explica onde exatamente torrou os restantes R$ 156 milhões. Em 90 anos, foi o maior orçamento de toda a história e um dos anos de pior desempenho no futebol.

 

Contratou 18 jogadores profissionais para a temporada, ficou oito jogos sem vencer uma partida no Campeonato Brasileiro e trouxe um treinador argentino, que, absurdamente, dispensou após seis jogos. 

 

As divisões-de-base foram totalmente destruídas. No time profissional, só o lateral Matheus Bahia é baiano. Ou seja, total descompasso com um dos valores mais importantes do clube: a nossa imprescindível baianidade do acarajé, do Senhor do Bonfim, de Gilberto Gil... 

 

Uma diretoria que só coleciona fracassos. Em 2018, perdeu a final da Copa do Nordeste para o Sampaio Correia. Em 2020, toma dois vareiros do Ceará, dentro de Salvador, e perde a Copa do Nordeste. 

 

Teve a terceira pior defesa do Campeonato Brasileiro em 2020. No ano seguinte, se superou e foi a pior. Há cinco turnos, desde 2019, fazia campanha para se salvar do rebaixamento, até conquistá-lo, em 2021.

 

 Viramos fregueses de Sport, Cuiabá, Ceará, Fortaleza, América/MG e Atlético/GO. E nem se fala de Flamengo, Atlético/MG, Palmeiras, São Paulo...

 

Em todas as situações, nos últimos anos, a diretoria só lembra da torcida, do povão, quando está no desespero. Bota o ingresso a R$ 10, no único instante em que enxerga que somos o time da massa, do povaréu da Bahia, que deixa, muitas vezes, de comprar o pão para ir ao circo e motivar um grupo apático e patético de jogadores a fazer o essencial: lutar até o fim. 

 

Renúncia é um ato de vontade, mas faria bem ao Esporte Clube Bahia – como fez dignamente Clemens Sampaio, em 1949 – se o atual mandatário fosse embora e levasse consigo toda a sua incompetência. A crise iria se agravar um pouco, é verdade, mas nada que pudesse ser pior do que este interminável pesadelo em que vivemos. 

 

Estamos atravessando mais uma grave tempestade em nossa história nonagenária, mas ela, como em outras épocas, vai passar, porque somos a turma tricolor e ninguém nos vence em vibração. Somos eternos porque renascemos, ainda mais fortes, para vencer. E mais apaixonados ainda. Feliz Aniversário, Tricolor de Aço! Feliz Bahia Novo!

 

*Nestor Mendes Jr., jornalista, é sócio centenário do Esporte Clube Bahia.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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