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Domingo, 29 de Novembro de 2020 - 08:59

Em maio, George Floyd. Em agosto, a criança. Agora, João Alberto Silveira Freitas.

por Gabriel Menezes

Em maio, George Floyd. Em agosto, a criança. Agora, João Alberto Silveira Freitas.

Todos, casos de barbárie; de manifestação do que há de pior na natureza humana. Todos, ao meu ver, deveriam gerar – pelo menos – três reações em todos nós: reflexão, condolências para a famílias, e indignação.

 

Reflexão, no sentido da busca do que há de errado entre nós, que propiciou a tragédia; condolências para as famílias, manifestação de empatia devido às barbáries que vitimaram seus entes queridos; indignação, autoexplicativa.

 

Contudo, sabemos que não é assim que a banda toca.

 

Em todos os casos, assim que ocorrera a desgraça, logo surgiram oportunistas políticos na tentativa de capitalizar a tragédia em causa própria, sem levar em conta, no mínimo, duas das três reações que considero importantes nessas circunstâncias: a reflexão e as condolências para a família – supondo que a indignação seja verdadeira.

 

No caso de George Floyd, nos Estados Unidos, logo emergiu o “Black Lives Matter”, movimento marxista radical – escrevi sobre isso à época –, em que, em meio ao pico da pandemia, foram às ruas a fim de demonstrar toda a sua fúria para a sociedade, “contra o racismo”. Com isso, no fim das contas, depredaram ruas, saquearam e atearam fogo em lojas, e agrediram qualquer um que se opôs em seu caminho – fosse a pessoa branca ou negra. Além de tudo, desprezaram o pedido da família da vítima, que pediu o fim dos protestos violentos.

 

No caso da menina de 10 anos, estuprada e engravidada pelo próprio tio, logo surgiu a militante, também radical, Sara Winter, com o seu grupo de fanáticos, com a finalidade de impedir a realização do aborto – previsto em lei.

 

Agora, no caso de João Alberto, assassinado brutalmente em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre, não fora diferente. No mesmo dia, figuras como Manuela D’Ávila, comunista, candidata à prefeitura da cidade, já se manifestaram, convocando protestos em resposta ao ocorrido.

 

Em todos esses casos, houve a politização da barbárie, em que grupos ou figuras radicais e oportunistas tentaram promover a imposição da sua agenda através da tragédia. O primeiro e o terceiro, por políticos e movimentos demagogos radicais, com a discussão do racismo; o segundo, por fanáticos e militantes políticos, com a discussão do aborto.

 

Contudo, em todas essas situações, tanto a indiferença para com as vítimas quanto a pressa para afirmar e impor a sua visão de mundo perante a realidade foram gritantes. No caso de George Floyd, ignoraram o pedido da família para que a violência cessasse, afinal, não era por George Floyd – apesar da venda desse discurso –, mas pela visão de mundo marxista moderna, na qual há luta entre opressores e oprimidos - nesse contexto, brancos e negros, respectivamente. No caso da criança, ignoraram todo o sofrimento passado por uma menina de 10 anos, que não deveria passar por isso em momento algum da vida, bem como toda a sua família. Com o discurso “contra o assassinato de crianças” – isto é, a criança que a criança carregava no útero –, quase colocaram a vida da criança agredida em risco. No caso de João, concluíram, instantaneamente, que a morte fora por conta da cor da sua pele, convocando, portanto, manifestações para o dia seguinte, o Dia da Consciência Negra. Sobre esse caso, creio que seja suficiente compartilhar o que a família de João vivenciou, segundo a matéria disponível na Folha de São Paulo (link no final do artigo): “para familiares e amigos de Beto [João Alberto, a vítima], entidades políticas e sociais tentaram se apropriar do ato”. Surpreendente. Continua: “Thais Freitas, 22, filha mais velha de Beto, conta que viu pessoas distribuírem panfletos de políticos para os manifestantes. Durante o ato, entidades como a CUT [Central Única dos Trabalhadores, entidade de representação sindical] e pessoas filiadas a partidos entoaram palavras de ordem contra o racismo e também contra o presidente Jair Bolsonaro”.

 

Preciso dizer mais alguma coisa?

 

No fim das contas, em nenhum desses casos, houve a reflexão acerca da realidade. Quais são os fatores que favoreceram a ocorrência da tragédia? Qual a influência da nossa cultura nisso? Qual a influência da nossa história? Há a influência do fator racial (no caso de Floyd e de João)? Do econômico? Do circunstancial? A segurança contratada está preparada, psicologica e tecnicamente, para lidar com esse tipo de caso? O que leva crianças a serem violentadas por parentes (no caso da menina)? E por aí vai. São inúmeras as reflexões que as barbáries que nos cercam podem gerar. Ao meu ver, cabe a nós dar espaço para elas emergirem e darem luz a entendimentos e soluções que podem ajudar a minimizá-las.

 

Entretanto, não há a possibilidade de surgirem reflexões quando partimos de dogmas preestabelecidos a respeito do funcionamento do mundo ao acontecerem essas situações. No máximo, haverá a tentativa de enquadrar o caso de acordo com a forma que nós enxergamos a realidade. Repito: como nós enxergamos, não como a realidade, de fato, é. Apenas podemos entender a realidade quando há espaço, gerado pela humildade, moral e intelectual, para que possamos nos questionar a respeito do que vemos. Afinal, quem supõe tudo saber nada aprende, pois nada pergunta.

 

E essa é uma das características da atualidade que mais me incomodam – por isso, já escrevi bastante a respeito do comportamento da juventude, mas não apenas dela, que pouco sabe, mas é tomada por uma superioridade moral e intelectual, advinda de um pseudoentendimento da realidade, proporcionado por ladainha ideológica disseminada por militantes oportunistas e radicais. Assim, quando algo ocorre, principalmente relacionado aos âmbitos político e cultural, já podemos ver muitos ao nosso redor opinando instantaneamente. Mas como é possível que tenhamos opinião em relação a tudo que nos cerca? Não apenas opinião, como é possível que tenhamos resposta para tudo que nos cerca? Acontece que, na prática, não existe reflexão, mas, sim, o enquadramento do fato ocorrido na visão de mundo de cada um – o que proporciona as lamentáveis reações às barbáries que nos cercam.

 

George Floyd e João Alberto não foram os primeiros, nem serão os últimos, homens a serem mortos. Assim como a menina, que não foi a primeira, nem será a última, criança a ser violentada por um familiar. As tragédias nos acompanham desde os primórdios da humanidade – não será agora que elas nos deixarão desamparados. Ou aprendemos com a realidade e nos adaptamos a ela, ou estaremos condenados a não entendê-la e repeti-la enquanto tivermos a honra de gozar a vida.

 

Meus sentimentos à família de João Alberto e às outras tantas que têm entes queridos, vítimas da barbárie cotidiana.

 

Gabriel Menezes é estudante de medicina 

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