Sábado, 25 de Julho de 2020 - 15:59

O Brasil não é para principiantes

por Gabriel Menezes

O Brasil não é para principiantes

Lembrei dessa frase de Tom Jobim ontem, enquanto ouvia o comentário do jornalista Luiz Megale, na BandNews FM. Nesse, falando a respeito do caso envolvendo a estupidez do Desembargador Eduardo Siqueira, ele afirmou que, durante a tempestade, nós conhecemos o bom marinheiro, mas também conhecemos o mau. Não poderia estar mais correto. Vemos isso atualmente, em que enquanto uns ficam em casa para não colaborar com o colapso do sistema de saúde, se oferecem para realizar atividades para os vizinhos mais velhos ou ajudam quem está passando por dificuldades financeiras, outros optam pela irresponsabilidade, egoísmo e soberba.

 

Brasil.

 

Infelizmente, nos últimos dias, o segundo comportamento tem se destacado. Acredito que você, leitor, já deve ter visto algum vídeo com as seguintes pérolas: “Você quer que eu jogue na sua cara?”, “Cidadão, não. Engenheiro civil. Formado. Melhor do que você!”, “Aqui é Alphaville, mano!”, entre outras delicadezas. É a representação da vitória da arrogância sobre a humildade; da grosseria sobre a cortesia; da bestialidade sobre a civilização.

 

Brasil.

 

Eu fico imaginando se essas situações ocorressem nas periferias. Se alguém com condições financeiras inferiores agisse da mesma forma que os ignorantes protagonistas das cenas supracitadas. Será que o tratamento dos oficiais do Estado seria o mesmo? Ou a realidade é como a escória do Alphaville falou: “Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta!” - ameaçando o policial que estava realizando o seu trabalho?

 

Uma nação que aspira a respeitabilidade não pode admitir essas contradições latentes. Aquele que mora nas periferias e tem condições financeiras menores, paga seus impostos e tem seus direitos resguardados, assim como o cidadão – engenheiro civil, ou seja lá o que for – que é melhor resolvido economicamente. Isto é óbvio, mas aparentemente precisa ser dito. O Estado não pode ser “tigrão” com uns e “tchuchuca” com outros. Nada ilustra melhor o Brasil do que essas situações. Um país mal-acostumado, que nunca lidou com seus problemas de maneira séria – e continua sem perspectiva de que irá lidar.

 

Creio que a esmagadora maioria das pessoas repudia os comportamentos tomados por essas figuras patéticas descritas acima. Contudo, também tendo a crer que muitos, se tivessem o mesmo poder que aqueles, agiriam de forma similar. Faz parte da nossa cultura. Muitas vezes criticamos atitudes erradas, não por serem erradas, mas, sim, por uma espécie de inveja. Afinal, quantas pessoas não gostariam de ser um desembargador e ter esse poder de ter o contato pessoal do Secretário de Segurança do Estado para se defender? E, de quebra, ainda ganhar um salário astronômico – muitas vezes acima do teto -, assim como este em questão?

 

Vivemos num país em que reina a hipocrisia estrutural. Se, de fato, agíssemos de acordo com o que falamos, viveríamos no paraíso. Todavia, faz parte da nossa cultura criticar quem age mal – mas que o faz, pois teve a oportunidade para isso. É a boa e velha máxima: a ocasião faz o ladrão.

 

Da mesma forma que os personagens das cenas lamentáveis supracitadas se aproveitaram do seu poder para coagir os agentes públicos que estavam trabalhando, muitas vezes, estes fazem o mesmo num contexto em que são os mais poderosos. Assim como o empresário do Alphaville ameaçou o policial, nas periferias são alguns membros desta corporação que coagem moradores locais que estão numa posição inferior. Essa é a realidade. Não briguemos com ela.

 

A Justiça, tradicionalmente representada com os olhos vendados, é uma alegoria que ilustra a imparcialidade, em que não escolhe quem condena. Porém, no Brasil, costuma dar uma espiadinha a depender da situação. A lei é para todos – menos alguns.

 

Se quisermos – um dia – nos tornar um país sério, temos de mudar o nosso comportamento urgentemente. Mudança essa que parte da consciência individual. Se cada um fizer a sua parte, talvez, daqui a algumas gerações – certamente, não estaremos vivos para ver -, possamos superar essas dificuldades culturais que contribuem para a destruição do nosso país.

 

Tom Jobim não poderia estar mais certo.

 

Gabriel Menezes

Estudante de Medicina

 

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