Quinta, 09 de Julho de 2020 - 14:00

Primeira infância como agente transformador

por Júlia Jungmann

Primeira infância como agente transformador
Foto: Divulgação

Diversas áreas do saber como a economia, a educação e a neurociência vêm se aprofundando no tema da primeira infância - etapa que até os 6 anos de idade. Especialistas apontam que esta é uma das fases mais importantes da vida do ser humano, para que ele se desenvolva integralmente, com maior inteligência emocional, habilidades interpessoais e bases de conhecimento sólidas. A neurociência, por exemplo, defende que crianças sejam estimuladas a partir do útero da mãe e não após os seis meses de idade, como 53% dos brasileiros acreditam que seja a idade adequada para as crianças começarem a aprender, de acordo com a cartilha Os primeiros anos em suas mãos, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. 

 

Entretanto, o Brasil está muito atrás de outros países quando o tema é investimento na primeira infância. Hoje temos aproximadamente 20,6 milhões de crianças com idades entre 0 e 6 anos no Brasil, sendo que uma em cada três vive em situação de pobreza ou extrema pobreza. Estes dados são de 2019 e estão na cartilha ‘Primeiros Anos em Suas Mãos’, da Fundação Maria Cecilia Vidigal. 

 

Além destes números outros dados trazem grande preocupação: apenas 34,2% das crianças de 0 a 3 anos estavam em creches em 2018, metade dos responsáveis por crianças com menos de 4 anos não concluiu o ensino médio e o maior número de casos de violência sexual acontece com crianças entre 1 e 5 anos (51,2%). 

 

Somados a esses dados, falta às cidades planejamento para lidar adequadamente com as crianças, desde espaços ao ar livre,  até caminhos para facilitar e agilizar o acesso universal às Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e outros pontos de serviços,  passando pela má qualidade do ar. É preciso que governantes tenham esse olhar estratégico e humanitário. São fatores que impactam diretamente o desenvolvimento das crianças. 

 

Organizações diversas desenvolvem teorias e práticas que buscam levar melhores condições às crianças e podem figurar como relevantes parceiros do setor público, inclusive porque têm capilaridade nacional. É o caso da Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP), cujos valores abrem espaço para considerar que a atenção à primeira infância significa construir a base para a formação de alunos mais capacitados, inclusive, para futuramente cursar a fase de ensino superior. 

 

É nesta fase da vida que são desenvolvidas habilidades cerebrais fundamentais para a formação de adultos autônomos e capazes de desfrutar de mais qualidade de vida. Isto porque, segundo vários pesquisadores, é na primeira infância que são estabelecidas as conexões cerebrais responsáveis por pelas func?o?es que as diversas estruturas va?o desempenhar. Dessa forma, as experie?ncias vividas  neste período têm impacto decisivo no desenvolvimento cerebral, impactando imensamente as capacidades da vida adulta.  Desenvolvimento de tarefas executivas, como aprender a armazenar e relacionar informações a curto prazo, dominar a atenção em locais com ruído, além da flexibilidade cognitiva, que permite pensar “fora da caixa”, e do controle inibitório.  

 

Com 250 instituições do ensino superior privado como associadas, a ANUP defende que as discussões sobre a primeira infância devam ser prioridade absoluta em todos os campos do saber - é preciso incluir debates sobre esse assunto nos currículos de todos os cursos e não apenas nos de envolvimento direto com o tema, como pedagogia e saúde. 

 

A ANUP resolveu ir além de manifestar e debater seu posicionamento institucional sobre a questão. Decidiu ‘desafiar’ universitários a se envolverem com garra no tema, tendo como pano de fundo a missão de formar em futuros profissionais de diferentes áreas a consciência de desenvolverem projetos que busquem promover um melhor desenvolvimento infantil.

 

Sendo assim, a Associação com o apoio da fundação holandesa Bernard van Leer, e com cooperação técnica da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI),  lançou o ‘Desafio Universitário pela Primeira Infância’ - desafiouniversitario.com.br. Esta iniciativa alia a teoria, os valores que a embasam, à prática e à promoção de ações que possam ser diferenciais positivos na atenção à primeira infância. O Desafio pretende estimular estudantes e professores universitários de diferentes áreas a elaborarem soluções práticas para questões ligadas à parentalidade - família como promotora do desenvolvimento das crianças na primeira infância -  e cidades amigas das crianças. As propostas mais relevantes, inovadoras, com alto potencial de promover a transformação social nesta temática serão premiadas. As inscrições são gratuitas e estão abertas até dia 16 de agosto. Grupos formados por, pelo menos, dois alunos de qualquer graduação, e um docente de instituições de ensino superior, privadas e públicas, de todo o país, poderão participar. 

 

Hoje o país tem aproximadamente 8 milhões de estudantes no ensino superior, sendo que 3 milhões frequentam instituições parceiras da ANUP. O Desafio é uma forma de incentivar a curricularização do assunto da primeira infância no ensino superior para se buscar a formação de um pensamento mais sustentável e voltado para a redução das desigualdades, além de formar profissionais mais preparados para o mercado de trabalho. Esta ação, acredita a ANUP, tem um expressivo potencial de irradiar a devida importância do tema ‘primeira infância’ entre os formuladores de estratégias e ações para nossas crianças.

 

*Júlia Jungmann é gerente de responsabilidade social da Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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