Terça, 31 de Março de 2020 - 13:50

Quatro olhares sobre o Covid-19

por Marta Castro

Quatro olhares sobre o Covid-19
Foto: Acervo pessoal

Pense num casal. Ela, uma pessoa super zen. Ele um cara muito prático. Ela está de home office. Ele segue indo para o escritório. Ela medita. Ele consome vorazmente notícias com dados e fatos. Ele chega em casa e o tema da conversa não poderia ser diferente: coronavírus. Como acha que será o diálogo desse casal?

 

É da natureza humana que cada pessoa busque informações que reforcem as suas crenças e seus argumentos. O perigo é quando não damos atenção ou banalizamos a forma de pensar do outro. Do exemplo do casal, que é uma situação muito comum não só entre marido e mulher, mas entre amigos e parentes, podem surgir conflitos, desgastes. Mas não precisamos disto neste momento. Melhor pensar que dessas situações podemos tirar uma bela oportunidade de exercício de empatia e ampliação de repertório.

 

No meio dessa enxurrada de informações que estamos recebendo pelas diversas mídias, percebo quatro linhas de pensamento predominantes com relação ao Covid19, que tentam explicar o que está acontecendo e trazer a sua visão do que devemos fazer para lidar com a pandemia da melhor forma possível. Cada grupo defende a sua. Chamei cada linha dessas de “teoria”, mais como licença poética do que como um conhecimento especulativo ou hipotético, ainda que algumas sejam isso também.

 

A primeira linha eu entendo como a “teoria da conspiração”. Nela, as pessoas creditam que o Covid19 foi uma invenção dos chineses para dominar o mundo. Um dos seus representantes mais influentes, o jornalista Alexandre Garcia. No dia 11 de março, no seu canal no youtube, ele defendeu que a China pode se beneficiar economicamente dessa crise mundial. Ele insinua que o Corona é uma “invenção” chinesa e que esta não seria a primeira tentativa, lembrando a gripe suína.

 

A “teoria da conspiração” está sendo um prato cheio para as fake news. Semana passada recebi um vídeo que mostrava mulheres chinesas espirrando em botões de elevadores, em produtos de mercearia, dentre outros possíveis itens de disseminação do vírus. Recentemente também viralizou a notícia da compra pelos chineses de cooperativas no sul do Brasil, a preço abaixo do mercado, o que não era verdade. A verdade é que, independente do Covid, a China, com seu 1,3 bilhão de habitantes, é a maior parceira comercial de boa parte dos países do globo, inclusive do Brasil. Cerca de 26% do que exportamos vai para lá, e o volume de importações também é alto, embora tenhamos superávit. Em 2019, pela primeira vez a China entrou no ranking dos 10 maiores investidores diretos no Brasil, segundo o Banco Central. Então vale repensar em outras bases se a China é um país inimigo ou amigo.

 

A segunda linha é a “teoria de Gaia”, que defende que a Terra é como um sistema fisiológico dinâmico que se autorregula a favor da vida há mais de três bilhões de anos (um terço do tempo de existência do universo).  Ela se contrapõe àqueles que pensam na Terra como uma nave inerte e morta com vida abundante a bordo e defende que a Terra, em si, é um organismo vivo, um sistema em evolução.

 

Para entender melhor a teoria de Gaia, vamos fazer uma comparação com o corpo humano. Quando estamos doentes, produzimos anticorpos e podemos ficar com febre. Estes são mecanismos de defesa do organismo que são ativados quando há algo de anormal em seu funcionamento. O aumento da temperatura, por exemplo, busca destruir invasores, geralmente vírus e bactérias. Da mesma forma que o nosso corpo, o funcionamento de Gaia tem sua sabedoria e, diante dos danos que lhes são infligidos, ela parece ter duas opções: anular as mudanças que promovemos no seu clima ou anular a nós.

 

Os adeptos desta teoria acreditam que o que está acontecendo é uma autorregulação da terra, provocada para frear seus próprios vírus e bactérias, que metaforicamente seriam a superpopulação, a emissão de gases, os desmatamentos, dentre tantas outros provocados pelo homem. Segundo relato do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o surto de coronavírus é reflexo da degradação ambiental. O documento mostra que as doenças transmitidas de animais para seres humanos estão em ascensão e pioram à medida que habitats selvagens são destruídos pela atividade humana. Cientistas sugerem que habitats degradados podem incitar e diversificar doenças, já que os patógenos se espalham facilmente para rebanhos e pessoas.

 

Talvez, aqui uma opinião pessoal, a velha tática de Gaia de produzir catástrofes ambientais, como maremotos, terremotos, furações e erupções vulcânicas, já não devem estar sendo eficazes, por não terem escala. Nada como um vírus de disseminação rápida e fácil para colocar ordem globalmente. Se sair dessa, Gaia sai fortalecida. Na verdade, de alguma forma a nova estratégia já está funcionando. Segundo a BBC News Brasil, só na China as medidas as quarentenas e isolamentos provocaram uma redução de 25% nas emissões de CO2, o equivalente a uma redução global de 6%. Há relatos também da recuperação da fauna e da flora e diversos sítios, sendo o mais falado a aparição de golfinhos e cardumes nos canais de Veneza, ironicamente no país onde mais pessoas morreram da pandemia.

 

A terceira linha, é a “teoria da transição planetária”, bem alinhada com a teoria de Gaia, mas com enfoque mais espiritualista. A transição planetária representa a mudança de realidade no Planeta Terra, onde os seres humanos poderão conhecer novos horizontes, sendo alguns jamais pensados. Seguindo conhecimentos proféticos e espirituais, serão tempos difíceis, onde diversos segredos históricos serão revelados, muitas mentiras cairão por terra e a população será testada para revelar aqueles que irão evoluir para um novo pensamento e uma nova dimensão espaço-tempo.

 

Neste processo de depuração, os seres humanos precisam sair do olhar limitado da dimensão física e mental e assumir nossas dimensões emocionais, sociais e espirituais. Ficarão os que têm fé. A cura passará por muita oração e meditação. Como sociedade, prevalecerá a colaboração, a empatia e a compaixão. O corpo deve ser cuidado como nosso espaço de manifestação neste plano e não cultuado por motivos fúteis. A mente precisa ser uma aliada e não um inimigo doentio que habita nossas cabeças; ela precisa ser acalmada e alimentada com boas informações, bons pensamentos e boas vibrações, pois é necessário mudar o padrão energético para criar uma nova terra.

 

Você deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com corna vírus? Segundo os que creem na transição planetária, o Covid19 está ajudando na aceleração da depuração. Ele fez todo mundo parar, fez as pessoas começarem a rezar, freou o consumismo, aumentou a solidariedade, trouxe o foco para o que é importante relevante: a família e os outros seres humanos.

 

Vou batizar a quarta e última linha de “teoria pragmática” por falta de um termo melhor. Aqui estão as pessoas que acreditam que o novo Covid19 aconteceu porque tinha que acontecer. Se não é ele, são outras coisas, porque problemas sempre existiram e sempre vão existir. Não tem um porque mais profundo. O porquê é que vírus surgem, vírus evoluem e é isso mesmo, vamos trabalhar para exterminar ou pelo menos minimizar seus impactos.

 

Os pragmáticos são autênticos representantes da terceira dimensão, guiados mais por dados e informações do que por suposições. São de colocar a mão na massa e só rezam na hora do desespero. Estão mobilizados pelos impactos do Covid19 na política e na economia, mas isso não quer dizer que são insensíveis ou desprovidos de emoção. Eles estão cuidando das suas famílias, estão sendo solidários com quem precisa e ajudam como podem. Não são melhores e nem piores do que os outros, apenas têm uma visão simples e funcional das coisas.

 

Todas a “teorias”, no entanto, têm uma coisa em comum: sabe-se que muita dor faz parte deste processo: dor de quem está infectado, a dor de quem perdeu um ente querido, a dor de quem está trabalhando exaustivamente, a dor de quem precisa demitir, a dor de quem perde o emprego... E em meio a tantas dores, que tal eliminar a dor da intolerância com quem pensa diferente de você? Isso vale para outras coisas também, como a polaridade política que voltamos a viver e sobre a qual prefiro não falar. Neste momento e sempre, prefiro praticar o que nos ensinou tão sabiamente o psicólogo Carl Jung: “domine todas as teorias, conheças todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”

 

*Marta Castro é Sócia do Instituto Planos e atual vice-presidente do Capítulo Bahia da Federação Internacional de Coaches. Atua há onze anos como consultora em Desenvolvimento Humano, coach Executiva e de Carreira e facilitadora de grupos

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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