Sexta, 18 de Janeiro de 2019 - 16:00

Já tomou banho? Já fez o dever?

por Davidson Botelho

Já tomou banho? Já fez o dever?
Foto: Acervo pessoal

Quem não ouviu essas frases da mãe na infância? Era uma cobrança diária para executarmos o óbvio, nossas tarefas e obrigações.

 

Por muitas vezes, não só ouvíamos como também éramos punidos, castigados, advertidos... Talvez por uma década ou um pouco mais, diariamente tínhamos a voz dos pais nos cobrando. Logicamente muitos pais também faziam o trabalho de conscientização, educação, explicar o porquê de cada coisa e certamente os resultados nesses casos eram mais satisfatórios e muitos mais rápidos.

 

Pois bem, eu sempre disse que administrar uma cidade, estado ou nação, se assemelha mais a liderar uma família do que gerenciar uma empresa. Numa empresa os resultados precisam ser rápidos, os custos devem ser acompanhados diariamente e o resultado é o que importa. Quem não entrega resultado é substituído de imediato e só interessa o setor lucrativo.

 

Numa família, as coisas são um pouco diferentes. Não podemos descartar os especiais, dependentes, incapazes. Temos que conviver e aceitar muitas diferenças que não seriam aceitas numa empresa.

 

Mas, em ambos os casos, os três pilares da gestão não podem faltar: Educar, Treinar e Fiscalizar. Punir e premiar são etapas posteriores aos pilares mestres.

 

Percebo hoje uma preocupação desproporcional dos gestores públicos na relação entre entregar equipamentos e infraestrutura com educar a população para o bom proveito.

 

Não basta construir ciclovia e não sinalizar as faixas de ida e vinda, colocar placas com mensagens fortes para deixar claro que aquele espaço é exclusivo para bicicletas, treinar a Guarda Municipal para fiscalizar e orientar as pessoas até todos serem educados ao uso correto.

 

Não adianta construir belos calçadões e praças e não educar a população ao seu uso correto. Temos que entender que estamos vivendo um momento novo e diferente, onde pessoas estão tendo acesso a inúmeros serviços que jamais tiveram e tudo leva um tempo, necessita de informação, instrução.

 

Quando as empresas aéreas lançaram as tarifas noturnas promocionais objetivando otimizar as horas de inércia das aeronaves e com isso poderiam oferecer passagens a baixo custo e assim trazer o público usuário do transporte rodoviário, um dos problemas encontrados era justamente o total conhecimento das regras da aviação por aquele público que jamais esteve ali. Muitos achavam que para resolver o problema dos atrasos de voo era aumentar as multas ou diminuir o tempo necessário para realizar check-in, quando na verdade o que resolveu foi justamente uma campanha educativa e explicativa sobre as regras do transporte aéreo de passageiros e bagagens. O que para muitos era o óbvio, para outros era novidade.

 

Um dos exemplos de sucesso, que eu sempre cito, foi a campanha do uso do cinto de segurança. Não bastou implantar a regra, explicaram o motivo, houve um bombardeio de informação e uma fiscalização supereficiente. Alguém consegue encontrar no trânsito um motorista sem o cinto?

 

Administrar filho, funcionário ou sociedade, é a arte de repetir o óbvio diariamente e fiscalizar eternamente, sendo que a fiscalização terá uma curva descendente com o passar do tempo. Em Salvador, uma das áreas da gestão pública que mais evoluiu no meu entender, foi a organização do trânsito. Inversão de fluxos, reengenharia do trânsito, novas vias, etc., nos tiraram daquele inferno que vivíamos há 6 ou 7 anos. Temos que reconhecer esta evolução da Transalvador.

 

Porém, já precisamos começar a mudar um pouco a estratégia do “Punir mais que Educar”. Os investimentos em educação e informação são infinitamente inferiores aos empregados em equipamentos de fiscalização, radares, etc., isso será enxugar gelo eternamente se não partirmos para a educação e conscientização da sociedade, mesmo que o resultado seja mais lento. Não existe outra saída a não ser educar, caso contrário teremos no futuro um fiscal para cada habitante.

 

O calçadão da Barra hoje é um lugar ao mesmo tempo lindo e insuportável para frequentar. A prefeitura criou a estrutura, mas a ordem ou desordem é o agravante, tudo pode e a falta de diretrizes transforma aquele espaço no símbolo da nossa sociedade, algo totalmente sem organização.

 

O que fazer? Punir? Multar? Ou iniciar um ordenamento e uma forte campanha de educação com fiscalização?

 

As pessoas levam os animais para passear e estes fazem suas necessidades e ali ficam. Muitos pensam que isso é normal e que a responsabilidade de recolher é do poder público, da empresa de limpeza municipal.

 

“Ah, mas isso é ignorância, não tem jeito”! Tem sim. Precisa dizer a essas pessoas que o espaço é coletivo, que cada um é responsável por seu animal, instalar mais cestos e equipamentos ofertando saquinhos para recolher fezes (isso pode até ser explorado numa parceria público-privada como acontece em muitas cidades).

 

Vamos entender que nossa sociedade é uma criança de 10 anos e que os gestores são os pais e que precisam diariamente lembrar a seus filhos que precisam fazer xixi antes de dormir, não podem andar descalço na rua, precisam fazer as tarefas da escola, precisam lavar as mãos antes de almoçar, jantar, precisam praticar o óbvio diariamente até que a criança aprenda por completo.

 

Educar é isso e eu só acredito numa sociedade com muita educação e em gestores que priorizem a educação como forma de construir um futuro melhor.

 

*Davidson Botelho é empresário

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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