Sexta, 21 de Dezembro de 2018 - 16:00

Feminismo e representação política

por Olívia Santana

Feminismo e representação política
Foto: Divulgação

Em tempos que direitos conquistados são retirados, as mulheres se destacam em expressões de resistência.

 

O presidente eleito Jair Bolsonaro e seu grupo fizeram uma campanha defendendo bandeiras sombrias, altamente discriminatórias às mulheres, negros, índios, LGBTs, exibiu rancor, raiva, fez apologia á tortura, defendeu que seus adversários sejam exilados ou “apodreçam” na cadeia.  Numa grave manipulação das crenças do povo, mistura Estado e religião, ferindo o Estado laico e promovendo dogmas em substituição aos princípios democráticos constitucionais.

 

O Retrocesso já se faz sentir no próprio governo de transição. Diferente do governo de centro-esquerda liderado por Lula, que tornou o Brasil independente do FMI, e afirmou a nossa soberania frente às grandes potências, Bolsonaro revive orgulhoso o colonial complexo de vassalagem, e atrela o Brasil aos interesses dos EUA, de Trump.

 

Um belo exemplo de insurgência foram as grandes manifestações, puxadas pelas mulheres, que confrontaram o candidato Jair Bolsonaro e sua agenda ultradireitista. Apareceu um feminismo mais diversificado, com mulheres negras, brancas, indígenas, urbanas e rurais, um mar de jovens e gerações mais maduras, escrevendo outra história de resistência às desigualdades de gênero, ao racismo, às discriminações contra LGBTs, contra um candidato que, como Trump, tornou-se a maior expressão de tudo que atenta contra os direitos humanos.

 

As manifestantes digitaram e entoaram o “#EleNão” arrastando multidões nas redes e nas ruas. Parte da grande mídia teve uma posição pusilânime ao não noticiar o movimento real nas ruas. Os números foram claramente subestimados, abafando a repercussão de uma das maiores manifestações já havidas, lideradas pelas mulheres. Em seguida, o candidato de extrema-direita pôs em ação sua fábrica de fake news, financiada por forças empresariais de peso, para deslegitimar e deformar, com mentiras bizarras, as vozes que lutavam contra o extremismo de Bolsonaro.

 

A agenda ultradireitista que ganhou a eleição ameaça conquistas sociais e a própria autonomia da Nação. A bancada sindical reduziu-se, passou de 51 para 31 deputados. As mulheres, porém, ampliaram mais a sua representação na Câmara, ficando com 77 congressistas em Brasília. O ambiente político projetou a agenda de reivindicações feministas, a Lei das cotas de 30% de mulheres candidatas nos partidos, acompanhada de igual percentual de distribuição de recursos do Fundo Eleitoral, foram determinantes para esse que foi o melhor desempenho das mulheres dos últimos tempos.  O racismo torna mais lento o caminhar das negras e indígenas. Apenas três autodeclaradas negras e dez pardas, foram eleitas deputadas federais. Senadoras, nenhuma.

 

O efeito Marielle iluminou assembleias nos estados. Várias mulheres negras foram eleitas Brasil afora. No Rio de Janeiro, três ex-assessoras de Marielle e mais uma militante foram eleitas deputadas estaduais: Mônica Francisco, da favela do Borel, Mônica Souza, jovem estudante cotista, Dani Monteiro e Renata Souza. Em São Paulo, além da renovação do mandato da sambista Lecy Brandão, foram eleitas a primeira trans deputada estadual, Érica Malunguinho,  e a jornalista Mônica Souza, da Bancada Ativista. E na nossa Bahia, quebramos um jejum histórico. Tive a honra de ser eleita para a Assembleia Legislativa do Estado mais negro do país,  e poder dizer bem alto: vai ter preta na Assembleiaaaaaaaaaa! Minha tia levou três dias para acreditar. Minha mãe, que já foi empregada doméstica de um deputado, jamais imaginou que sua filha pudesse ocupar esse posto.

 

Sim, representatividade importa. Nós, mulheres, não vamos nos submeter à pauta de retrocessos que o governo quer impor.  Seguiremos na luta por um Brasil independente, pela garantia de direitos para o nosso povo. “Vamos precisar de todo mundo, pra banir do mundo a opressão”, disse o poeta Beto Guedes. E, como disse Nina Simone, liberdade é não ter medo.

 

*Olívia Santana é deputada estadual eleita pelo PCdoB-Bahia

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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