Quinta, 10 de Dezembro de 2015 - 18:00

Melhora o Nível Parlamentar - publicado no jornal A Tarde de 03 de dezembro de 1982

por Samuel Celestino

Há mais de duas décadas que a Bahia não conseguia eleger boas representações legislativas. As tradições de cultura do Estado no setor político, ao contrário, estavam a minguar e, durante este período, bem poucos baianos se destacavam no plano nacional. Os bons quadros, anteriores a 1960, por um ou outro motivo, abandonaram a vida pública. O regime fechado, de arbítrio retirou do parlamento o fascínio; a arte de fazer política foi posta ao lado, e poucas vocações foram despertadas.

Bastou, porém, que fosse aberta uma janela, que os direitos da cidadania fossem devolvidos para serem exercitados em eleições livre e democráticas – no que pese os casuísmos da legislação – para que uma salutar aragem renovadora modificasse a situação. Embora, a rigor, não se possa afirmar que possuímos, hoje, com o resultado do pleito, representações parlamentares ao nível das que fizeram a Bahia respeitada no país, é certo que houve uma melhora substancial.

Não só a Câmara Federal, como na Assembléia Legislativa mas, sobretudo, na Câmara Municipal do Salvador. Foi a nível municipal, aliás, que aconteceu a grande renovação de valores políticos. Este colegiado, ate então povoado de figuras menores, inexpressivas e incapazes de exercitar o mandato com altivez e dignidade, emerge das urnas rejuvenescido e semeado de esperança.
Na legislatura que se finda, poucos deputados federais da Bahia se sobressaíram. Há, é certo, alguns destaques, mas muitos são os mudos e eles próprios reconhecem o despreparo e alinham causas para pouca dedicação ao exercício do mandato.
Em nível nacional, o novo Congresso vai representar, de fato, o novo momento do Brasil, o grande momento da transação do regime de força para a democracia que se quer. O processo democrático que agora se inicia – embora com alguns rebotalhos da ditadura – será um depurador natural de valores, pois quando há o debate livre de idéias, os medíocres são apenas os medíocres, não há como passar bons acobertados sob as asas de poderosos.

A tendência será, portanto, melhorar o nível com o pleno exercício da democracia que, no decorrer dos pleitos, expurgará os ineficientes. Dentro deste Congresso, a Bahia terá, na Câmara, uma bancada efetivamente melhor do que a eleita em 1978. Na oposição, a renovação foi maior e retornam dois ex-casados, de boa experiência, Fernando Santana e Virgildásio Sena, além de Genebaldo Correia e Domingos Leonelli, dois parlamentares combativos e revelados na assembléia Legislativa. Jorge Medaur e Raul Ferraz também são boas esperanças.

No PDS, embora a renovação fosse menor, há de se destacar o valor jovem de Jutahy Júnior, a comprovada experiência de Antônio Osório, Eraldo Tinoco e Hélio Correia em secretárias de Estado, o jeito político de Felix Mendonça e a eloqüência combativa de José Lourenço.
Na Assembléia Legislativa a renovação foi grande, mas convém aguardar para sentir melhor sua ascensão qualitativa que, sem dúvida, aconteceu. Como são muitos os novos deputados, a maioria, desconhecidos, é difícil ainda uma avaliação. As primeiras informações são positivas, embora haja alguns senões endentes de comprovação.

Mas é a Câmara Municipal a grande estrela. Com quatro representantes do sexo feminino, duas das quais lideranças forjadas nas ruas, à frente de reivindicações de massa; muitos profissionais liberais de valor reconhecido, espera-se muito deste colegiado municipal. Talvez nele aconteçam os grandes debates de idéias e em defesa de Salvador, uma cidade injustiçada nos seus valores culturais e estéticos.
Um Câmara que a cidade estava a exigir, de nível elevado, enfim, decente. Que possa desempenhar o papel que lhe cabe em defesa da coletividade, abstraindo-se, é claro, a sua composição partidária. Pois qualidade é um valor que transcende para ficar acima de mera filiação num partido.

 

*Coluna publicada originalmente no jornal A Tarde de 03 de dezembro de 1982

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