É certo que o debate sobre a reforma da legislação eleitoral está aberto, nas ruas, nos gabinetes, nas conversas dos políticos em recesso. Mas o Ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, teima em dizer que, no momento, o governo e o PDS estão concentrados no processo de sucessão da Câmara, em especial na eleição do candidato oficial, Nelson Marchezan. A candidatura de Djalma Marinho, representando uma dissidência do PDS com apoio dos partidos de oposição, começa a ceder terreno, pelas informações coligidas. Há no momento, risco quem em off, os políticos pedessistas não escondem. E se, aberta a urna e contados os votos, ganhar Djalma Marinho? Não acontece absolutamente nada. Muitos presumem.

Mas parece que não é exatamente assim.

O veterano parlamentar baiano Manoel Novaes, nascido em Pernambuco, não é de muito falar, embora experiência não lhe falte, proprietário que é de 11 mandatos legislativos. Acostumou-se a ouvir e sentir o sopro e a direção da brisa. Manoel Novaes está preocupado. Valemo-nos da inconfidência para o relato que se segue.

Nestes longos e longos anos de Câmara Federal, o deputado sanfranciscano cultivou amizades, viveu conspirações, experimentou democracias e ditaduras. Entre seus amigos está Thales Ramalho, raposa líder do Partido Popular na Câmara e pernambucano como ele. Num momento de descontração, destes em que a língua se liberta das sentinelas da consciência que aprisionam os segredos. Thales Ramalho derramou as suas apreensões sobre o futuro da abertura política, caso o deputado Djalma Marinho seja eleito presidente da Câmara Federal, derrotando o candidato indicado pelo Palácio do Planalto, Nelson Marchezan. Teria Thales informações seguras de que o governo não admitiria o confronto – e muito menos a derrota – por considerar que ainda não é o momento para que o legislativo imponha-se como poder independente, como, aliás, acorre nas democracias feitas.

A democracia brasileira, porém, não está feita.

Diante de tal hipótese, o poder revolucionário, ainda presente,  despertaria d seu cochilo e daria, de imediato, o troco, que seria o fechamento do Congresso Nacional, uma espécie de “parar para acertar” e estabelecer limites. Uma hipótese, aliás, que não é nova, porque já foi comentada e desmentida por fontes oficiais do governo.

Thales Ramalho, no entanto, estaria de posse de informações sigilosas dando conta de que esta seria a reação do Planalto, daí ser necessário evitá-la a todo custo. Ainda por conta da inconfidência, diante deste espectro que ronda a abertura, o Partido Popular tomaria a si a tarefa de contornar o possível impasse político, escolhendo e determinando a 40 parlamentares para que despejem seus votos no candidato Nelson Marchezan e não no deputado potiguar Djalma Marinho, que deveria ser ungido com todos os votos dos partidos oposicionistas.

Verídica ou inverídica, aí está a inconfidência para reflexão. Se verdadeira for, a Câmara, como uma das mais importantes instituições democráticas, ainda não possui a confiabilidade para ser independente, mesmo sob a presidência de um homem do valor, da respeitabilidade e da moderação democrática de um Djalma Marinho.

* Coluna publicada originalmente na edição de 22 de janeiro de 1981 do jornal A Tarde

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