Quarta, 03 de Maio de 2017 - 11:00

Brasil precisa definir quanto deve gastar para salvar uma vida, acredita farmacoeconomista

por Renata Farias, de São Paulo

Brasil precisa definir quanto deve gastar para salvar uma vida, acredita farmacoeconomista
Foto: Marcelo Ribeiro

Quanto estou disposto a gastar para ter um ano a mais de vida? Essa é uma das principais perguntas que não só as pessoas devem fazer individualmente, mas também os países ao considerarem os gastos com a saúde de sua população. É nisso que acredita Otavio Clark, oncologista clínico com fellowship em Oncologia Baseada em Evidências e Métodos de Pesquisa. “Saúde é uma área, talvez a única, em que as tecnologias que chegam não substituem as que já existem e adicionam custo. Quando você compra um celular, deixa de lado um anterior e o telefone de casa. Na saúde, as coisas são incrementais. Você inventa um remédio que ajuda o outro, então esse custo vai subindo”, pontuou em entrevista ao Bahia Notícias durante o Workshop Latino-americano de Oncologia para a Imprensa promovido pela Bayer, em São Paulo. Para Clark, um dos pontos essenciais que devem ser levados em consideração nessa discussão é a disparidade financeira entre os estados brasileiros. “Em um estado que seja ‘mais desenvolvido’, faz mais sentido investir em tecnologia de ponta. Se você vai para um estado ‘menos desenvolvido’, você deveria investir muito mais em questões sanitárias de saúde do que em questões de ponta”, explicou. Na avaliação do farmacoeconomista, a Bahia é um estado intermediário, que apresenta os problemas vistos no Brasil como um todo devido a suas diferentes regiões.

 

O senhor afirmou durante a palestra que é necessário discutir os limites de gastos com saúde no Brasil. Quais são os problemas identificados hoje com relação a isso?

Não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Saúde é uma área, talvez a única, em que as tecnologias que chegam não substituem as que já existem e adicionam custo. Quando você compra um celular, deixa de lado um anterior e o telefone de casa. Na saúde, as coisas são incrementais. Você inventa um remédio que ajuda o outro, então esse custo vai subindo. A quantidade de dinheiro que qualquer país consegue colocar na saúde é limitada, mas as demandas são ilimitadas. Se você pensar em gastar todo o PIB do Brasil em saúde, você consegue dar conta de tudo: fazer vacinação, construir fossa sanitária, distribuir remédios... É preciso haver uma discussão objetiva, clara sobre como a gente vai escolher. A farmacoeconomia, que é essa ciência nova, tenta dar elementos econômicos para o pessoal da área de saúde para que se possa fazer esse tipo de escolha de uma forma mais objetiva, mais racional.

 

Mas o senhor falou que não há uma definição de quanto deve ser gasto com saúde.

Não há. Uma parte dos países do mundo definiu quanto deve ser gasto para salvar um ano de vida de uma pessoa. Aqui no Brasil, isso não existe. Existe muita discussão sobre qual ele seria, como seria aplicado, mas ninguém falou “é esse o limite”.

 

De que forma as diferenças entre os estados brasileiros, principalmente econômicas, devem ser consideradas na discussão desse limite? Como driblar isso na tentativa de oferecer um atendimento igualitário?

Veja bem. São Paulo, por exemplo, é um lugar em que cerca de 30% a 40% da população não depende do SUS. Se você for para um estado como Maranhão e Alagoas, a cobertura de plano de saúde é de 10% da população. São Paulo tem uma condição razoavelmente boa de PIB per capita, de condições sanitárias. Em um estado que seja “mais desenvolvido”, faz mais sentido investir em tecnologia de ponta. Se você vai para um estado “menos desenvolvido”, você deveria investir muito mais em questões sanitárias de saúde do que em questões de ponta. Não é que não se deve fazer investimento, mas a prioridade não pode ser colocar PET-CT no estado inteiro, por exemplo. É muito mais inteligente fazer instalação sanitária, campanha de vacinação, saúde da família e planejar para, anos depois, investir em tecnologia.

 

Como a Bahia está nesse cenário?

A Bahia é intermediária e é um exemplo fenomenal de contraste. Salvador é uma área metropolitana de desenvolvimento alto e, se você for lá para o interior, para a região do São Francisco, o desenvolvimento é muito baixo. A Bahia reflete o Brasil também.

 

Luciana Holtz, fundadora do Instituto Oncoguia (clique aqui), comentou a demora para início do tratamento de pacientes com câncer após o diagnóstico e isso pode ser visto com outras doenças também. Está relacionado a essa questão da ausência de limites?

Não, isso está relacionado à ineficiência do sistema. Nosso sistema é mal organizado e não existe um fluxo correto de encaminhamento. Digamos que você está em Feira de Santana, foi diagnosticada com um câncer e precisa ser operada em Salvador. Entre você sair de Feira de Santana e chegar em Salvador vai levar meses até você conseguir marcar consulta, fazer exame, conseguir uma vaga e operar. Isso é ineficiência própria do sistema, não tem nada a ver com esse limite financeiro que a gente colocaria, que é algo mais teórico.

 

Nós temos hoje uma disparidade muito grande entre os sistemas de saúde público e privado. O senhor acredita que essa proposta do plano de saúde popular seria uma solução?

Não, porque a gente já tem plano de saúde muito barato no Brasil hoje em dia. Não acho que oferecer uma coisa mais barata fosse resolver isso.

 

Há uma série de reclamações sobre o SUS, seja em questões de atendimento, disponibilidade de tratamento, condições de trabalho, entre outras. O que é preciso se pensar na área da economia para se obter uma melhora no SUS?

O SUS foi uma coisa fenomenal que se inventou na Constituição de 1988. Nenhum país no mundo tem saúde pública de graça para sua população, só o Brasil, então a gente precisa valorizar. O SUS tem dois problemas grandes. Um é a falta de investimento, isso é crônico, investe-se muito pouco em saúde no Brasil. Mas existe um segundo que é a falta de gerenciamento. Nossos hospitais e sistemas são muito mal gerenciados porque as pessoas não são treinadas. Tem muita ingerência política dentro do SUS, porque mexe com muito dinheiro e muito poder. Isso termina causando um problema de ineficiência gerencial do sistema como um todo. 

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