Terça, 31 de Janeiro de 2012 - 10:11

Coluna A Tarde: Como na ilha de Cuba


Imaginem o que seria das múmias políticas, a exemplo de José Sarney e de outras figuras que habitam o espectro nacional se, de repente, num sopro mágico de loucura e assepsia pública, o País resolvesse determinar que só pudesse ficar em cargos políticos no máximo dez anos? Por incrível que possa parecer, essa é um decisão surpreendente do Partido Comunista de Cuba. O pecebão de lá entendeu de aprovar, com as bênçãos de Raúl Casto, que “cargos políticos fundamentais, inclusive o de presidente, terão mandato de cinco anos, renováveis por mais cinco.” E ponto final na carreira do bacana. A Ilha, vê-se, está mudando para não afundar de vez.

Sarney está, presumivelmente, no seu último mandato, mas não surpreendam se ele entender de ficar com todo o seu aparato de seguidores mandando (como outro não houve na história) nesta república tropical. De qualquer maneira, como isso aqui é uma democracia, torta nos seus três poderes, mas a democracia do possível, ninguém, nem mesmo Sarney, corre este risco. O que deve acabar é a reeleição para presidente, governadores e prefeitos, com a extensão do mandato de quatro para cinco anos, menos para eleições proporcionais.

Seria, então, um absurdo (mas nem tanto) a definição de dez anos no poder. O que acontece com Cuba é que ela está tentando se arejar a partir da questão política de Estado, quando, em primeiro, deveria colocar a questão dos direitos humanos. Quando Havana se democratizar (será?) e mudar o seu arcaico modelo de economia centralizado e arcaico, a Ilha vai disparar. Aí surgirá uma cidade perdida nos anos 50 e 60, lindíssima, com uma estrutura arquitetônica hispânica que, embora caindo aos pedaços, mantém-se a duras penas. Surgirá como um paraíso caribenho invadido por turistas que mudarão a estrutura econômica desesperadamente pobre. Mas, primeiro, é necessário que seu povo reaprenda a sorrir, a não temer ser livre.

Continuidade, na verdade, não deveria caber na estrutura pública. Aqui, pode-se ser candidato a cargos executivos quantas vezes o político quiser. Nos Estados Unidos, o presidente pode ser reeleito, mas, passou daí não volta mais ao poder. Vira conferencista, conselheiro e coisa que tal. Essa é uma boa proposta. Acabar também a continuidade em relação a governos estaduais e municípios. De qualquer maneira, ao tomar conhecimento da decisão do PC cubano avalizado por Raúl Castro, fiquei balançado e com certa inveja ao pensar no coronel Sarney e o seu séquito que o acompanha dando cartas há três décadas e meia no poder, desde a ditadura lá dentro em breve já não teriam vez. Por incrível que possa parecer, Cuba acabará com os sarneys da sua Ilha antes do Brasil.

*Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde desta terça-feira (31)

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