Terça, 06 de Dezembro de 2011 - 10:00

Coluna A Tarde: Lupi sai com “carimbo de corrupto”

Caiu o sétimo ministro da presidente Dilma. Apenas um foi afastado por divergência com o governo, Nelson Jobim. Os demais estiveram envolvidos na nebulosa que leva o nome de corrupção. O último, deles, um depravado cínico, não poderá sequer dizer que renunciou. Não. Foi demitido e entregou a sua carta na noite de domingo. Carlos Lupi deixou o colegiado levando nas costas, sem honrar, o que havia dito na quinta feira aos integrantes do PDT: que não aceitaria “o carimbo de corrupto”. Na verdade, é o que levará de mais edificante na volta à sua planície e dar continuidade à sua estranha e torta carreira política na qual exercita sua infindável capacidade de mentir. E mentir grosseiramente, num estilo de assombrou a cambaleante República.

Dilma Rousseff deve estar sentindo a leveza de quem pode comemorar, sem sobressaltos, as festas de fim de ano, porque não haverá o oitavo ministro a deixar o cargo lambuzado. Simplesmente, talvez porque não haja tempo para isso. No início do ano que chega ela reforma o seu ministério e, nessa reforma, ela ira excluir aqueles que ela os tem como duvidosos. Também outros que pretende desligar por não estarem sintonizado na equipe ou para diminuir o tamanho de um governo indecentemente grande, concebido por Lula para alojar aliados e “aliados”, que possibilitou que a corrupção ganhasse corpo. Tão grande era e é o ministério que alguns passaram meses e meses sem despachar com o ex-presidente. Não foi somente por aí que a corrupção ganhou corpo porque, antes de Luis Inácio, o Brasil era de há muito tido como um País corrupto, de governos que não conseguiam combater as saúvas que passavam a salvo levando nacos do tesouro nacional.

A presidente foi extremamente condescendente com Lupi. Dessa marca ela não conseguirá se livrar, porque perdeu o que havia conquistado e, pela primeira vez em muito tempo, um presidente, no caso uma presidente, havia aparecido nas pesquisas do sul/sudeste com percentuais positivos de aprovação. Os brasileiros acreditavam que ela estaria empenhada numa grande faxina. Perdeu essa condição com Lupi, ao aceitá-lo por muito tempo, mantendo-o no ministério do Trabalho à sombra de mentiras sobre mentiras, enquanto as denúncias que não conseguia desmontar se acumulavam a cada semana. Tanto assim foi que cinicamente Lupi deixou o cargo alegando que “foi perseguido politicamente e pela imprensa”. Na sua insanidade, alegou: “Faço isto para que o ódio das forças mais reacionárias e conservadoras deste País contra o trabalhismo não contagie outros setores do governo. Decidi pedir demissão do cargo que ocupo em caráter irrevogável”.

Quanta asneira em poucas palavras!  Em “forças reacionárias e conservadoras contra o trabalhismo” significa dizer que a opinião pública o cercou para não deixá-lo mais roubar, melhor, praticar “malfeitos”. Não conseguir sequer renovar a linguagem ao usar as ultrapassadas “forças reacionárias e conservadoras”. Ao mesmo tempo, denegriu o trabalhismo porque o movimento, que vem de Getúlio Vargas e passou por Leonel Brizola (que fundou o PDT), tinha ética e princípios.

Quando Tancredo falou sobre o “não roubar” estava fazendo uma declaração ampla, para todos os partidos, todos os políticos, todos os integrantes do poder público e não uma referência ao trabalhismo. O PDT sabe que a herança que recebeu de Brizola não foi a da corrupção. Lupi, no entanto, entendeu que detinha como ministro o direito de ter passagem para fazer o que bem queria. Sem defesa, usou uma frase tão idiota quanto ele.

Dentre as denúncias, a farra com as ONGs. Não provou nem explicou nada. Foi funcionário fantasma. De igual modo não explicou. Usou um avião arranjado por um empresário vinculado a ONG que privilegiou e mentiu diante da comissão que o ouviu na Câmara. Não conseguiu explicar por que ocupou ao mesmo tempo dois empregos públicos, um na Assembléia do Rio, outro na Câmara dos Deputados. Nem que foi funcionário fantasma na Câmara. Não parou por aí.

Lupi fez tais declarações na noite de domingo na condição de pato manco, senão cadáver mesmo. O que não se compreende é a complacência de Dilma que assistiu ao seu processo de apodrecimento e, ainda, foi desrespeitada na sua autoridade quando, quase enlouquecido, Lupi gritou diante da mídia um pedido de desculpas e o absurdo “Dilma, eu te amo”. Somente no final da semana, quando disse, na Venezuela, que resolveria o problema ao retornar ao Brasil, revelou “não ser romântica”.

O ex-ministro deixou o cargo após a Comissão de Ética Pública da Presidência da República recomendar sua exoneração no último dia 30, recomendação sobre a qual a presidente parece ter torcido o nariz. Com daqui anotei no domingo, a relatoria da Comissão coube à baiana Marília Muricy e a sua posição, aconselhando a demissão, foi acompanhada por todos os integrantes.

Se Lupi não fosse demitido, seria bem provável que os integrantes da Comissão presidida pelo ex-ministro do STF, Sepúlveda Pertence, pedissem demissão coletiva, gerando um problema sério para a presidente que ficaria com o peso da renúncia e ainda carregaria o ministro, cuja permanência no seu governo seria da sua integral responsabilidade. De qualquer maneira, mesmo tendo demorado absurdamente para afastar Lupi, Dilma poderá ainda ser reconhecida como “faxineira”. Na verdade, caíram em menos de um ano, sete ministros, seis por “malfeitos”, eufemismo que se traduz por corrupção, fato que não me parece ter registro na República a não ser na época em que ministérios e secretariados pediam renúncia coletiva para abrir espaço para a reformulação total dos governos.

Isso quando os partidos políticos não registravam em cartório ministérios como integrantes dos seus feudos onde poderiam mandar, desmandar e até roubar.

*Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde desta terça-feira (6).

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