Segunda, 25 de Maio de 2015 - 10:45

PT quer assumir a Faeb

por Samuel Celestino

PT quer assumir a Faeb
Foto: Monrtagem/ Bahia Notícias
Com dificuldades no país inteiro, o PT, pelo menos o baiano, resolveu intrometer-se no que não lhe cabe e passou a fazer uma campanha pela presidência da Federação de Agricultura da Bahia (Faeb), a partir do governo Rui Costa, dos seus secretários, do ministro Jaques Wagner, dos deputados e até dos senadores, que parecem estar mais centrados na Faeb ao que acontece no Senado Federal que, por sinal, terá uma semana dificílima. Os petistas agora querem colocar um sindicalista na Federação da Agricultura, o que não lhes cabem. As sociedades democráticas, modernas, é bom que entendam, atua através de “Três Setores”: o primeiro é o setor público, que envolve todas as instituições  vinculadas ao Estado e aos poderes públicos, enfim. O segundo setor e o privado, que engloba empresas, mercados, produtores e suas entidades. E o terceiro setor é justo o que envolve as instituições não-governamentais, onde o setor público não deve e nem pode meter o seu bedelho. Mas isto está a acontecer na Bahia com a campanha de pedido de votos do governo, dos parlamentares e os nomes acima já citados, todos querendo “aparelhar” a Faeb, para se transformar em espaço petista. Pelo que se vê, trata-se se uma situação inusitada, com os pedidos de votos para o candidato do partido, com pressões sobre os prefeitos interioranos. Ora, como o que é público e o que é privado deve ficar à distância regulamentar, não cumpre ao governo e aos parlamentares saírem em busca de votos se intrometendo no Terceiro Poder, o que passa a ser, consequentemente, um abuso de certo modo intolerável, por ir de encontro aos princípios democráticos.
Domingo, 24 de Maio de 2015 - 07:50

Coluna A Tarde: O preço da incompetência

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: O preço da incompetência
As dificuldades que envolvem a economia do país, uma consequência da incapacidade gerencial do governo, vão além, muito além, do que a princípio se imaginava. Torce-se para que as dificuldades não avancem, mas na medida em que novos fatos emergem, robustece-se o entendimento de que todas as classes sociais brasileiras sofrerão, e muito, a partir dos cortes que o governo determinará para os diversos segmentos econômicos. Nada ficará à salvo. Quem mais será atingida pelo resultado da incompetência gerencial de Rousseff serão as categorias abaixo da classe média, atingido, de certo modo, a classe média alta e, com mais intensidade, a base da pirâmide social.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levi, importado do setor privado para realizar o trabalho de carrasco, infelizmente necessário, queria que os cortes do governo chegassem a R$ 80 bilhões, mas ficaram em torno de R$ 69 bilhões, beirando os R$ 70 bilhões. Foi uma exigência do setor político que tem tanta culpa como a que recai sobre a presidente, a começar pelo que tudo já se sabe em reação à larga corrupção na Petrobras, assim como em diversos setores públicos que, espera-se, mais adiante venham à tona.

Havia um conluio generalizado entre empreiteiras, diretores postos em cargos importantes nomeados pelo governo e por políticos que também é de se aguardar que venham a ser punidos implacavelmente. Esta é a única forma de excluir os que não prestam e já praticam crimes, e os que não prestam, mas chegaram na última eleição a cargos, principalmente do Congresso Nacional, sem se falar nos governos federais e estaduais, ministérios e secretarias de estado, inclusive aqui na Bahia, como se tem ultimamente divulgado.

O corte desejado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não foi maior porque o Congresso impediu. De outro modo, a presidente Dilma Rousseff passa ao largo. Hoje é uma mera figurante, cuja função no momento é apenas ser a representante da República de um país que a elegeu como governante de forma democrática. Daí não ter nenhum sentido, frise-se, falar-se em impeachment. A punição a ela já acontece na forma da ausência de comando, com funções restritas, apenas para, vez por outra, dar uma entrevista tola à imprensa, tropeçando em palavras e errando no dizer.

Enfim, os cortes atingirão setores básicos com a saúde, a educação (ver nota abaixo) e segmentos sociais, com menos intensidade, naturalmente. A economia vai muito mal, portanto, a inflação dispara e o povo, a parte mais fraca da sociedade, paga o preço. E o governo, quem diria, é do PT.


* Coluna publicada originalmente na edição deste domingo (24) do jornal A Tarde

Domingo, 24 de Maio de 2015 - 07:50

A Universidade agoniza

por Samuel Celestino

A Universidade agoniza
Foto: Divulgação
Se descermos ao início, a Universidade Federal da Bahia, que hoje atravessa sérias dificuldades financeiras para se manter, com um déficit de R$ 28 milhões, segundo revelação do reitor João Carlos Salles, foi fundada em 1808, quando aqui aportou o príncipe D. João VI que com a sua corte fugiu de Portugal temendo uma invasão de Napoleão Bonaparte, que estava em guerra com a Inglaterra da qual Portugal era aliado. D. João VI aqui implantou a Escola de Cirurgia da Bahia, que viera a ser o embrião da Faculdade de Medicina, que se tornaria na primeira escola médica do Brasil. Depois de diversas incorporações ao longo do tempo, o que viera dos tempos do Brasil colônia firmara-se como Universidade Federal da Bahia em 1950, no reitorado de Edgard Santos, pai do ex-governador Roberto Santos. Foi ele que, a partir de 1946 e até 1961, comandou e uniu o conglomerado de escolas universitárias. Fora diretor da Escola de Medicina e o responsável por integrar escolas isoladas, passando, deste modo a ser considerado o fundador da Universidade Federal da Bahia, na forma como hoje ela se encontra e é considerada. Edgard Santos foi, então, o seu primeiro reitor. A partir daí a Universidade Federal da Bahia se transformou numa das melhores do país – embora hoje existam outras com ensino mais aprimorado, e com uma sequência de reitores admiráveis e competentes. Vai, aí, uma curtíssima história da universidade que, nesta segunda-feira (25), conforme já divulgado por A Tarde, fará um ato para a divulgação das dificuldades que  atravessa no governo Dilma Rousseff. É preciso que o governo entenda, mesmo com as suas dificuldades oriundas da má gestão da presidente, que temos na Bahia um importante emblema da cultura que, ao longo dos últimos dois séculos vem formando doutores. A UFBA é responsável pelos grandes valores que surgiram nesta terra e não pode, não deve, por ser um acinte à Bahia, ser assim tratada.
Quinta, 21 de Maio de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: Você perdeu, Calheiros

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: Você perdeu, Calheiros
Há uma suposição - por ora mera suposição - de que o presidente do Senado, Renan Calheiros, teria combatido a aprovação do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luis Fachin, exclusivamente por interesse próprio e não a partir da guerra que ele abriu contra a presidente Dilma Rousseff. Macaco velho que deixa a cumbuca à distância, o senador alagoano fez de tudo – o possível e o impossível – para derrotar a indicação feita pelo executivo ao cargo que fora do ex-ministro Joaquim Barbosa, que se aposentou em junho do ano passado.
 
Perdeu, é certo, mas o renomado jurista, especialista em direito civil, cuja trajetória como advogado de conceito nacional foi feita no Paraná, atravessou sérias dificuldades até conseguir, na última terça-feira, sua aprovação no plenário do Senado. Com votação apertada. Não se têm notícias de dificuldades como as que Fachin encontrou se forem levadas em conta os inúmeros ministros que passaram ou estão no momento, no Supremo Tribunal Federal.

Talvez Renan Calheiros já soubesse, ladino que sempre foi, que Fachin herdará o acervo de processos que, no momento, se encontra sob a tutela do atual presidente do STF, Ricardo Lewandovsky. E, dentre tais processos, encontra-se um que envolve o presidente do Senado, Renan Calheiros. Trata-se de uma denúncia que contra ele fizera o ex-procurador geral da República, Roberto Gurgel, em 2013. Um inquérito que teve ampla repercussão política nacional, segundo o qual o senador alagoano usara dinheiro oferecido por uma empreiteira para pagar a pensão de uma filha que tivera fora do casamento.

O presidente do Senado irá enfrentar outra denúncia, esta da Operação Lava Jato, que o envolve no escândalo que se abateu e quase estraçalha a Petrobras. A sua situação, pelo que se vê, é complicada. Dito o quê, emerge a pergunta: porque ele usou de todas as suas forças para derrotar Luis Fachin? A resposta pode estar no inquérito que diz respeito à pensão da filha e não, por enquanto, o seu embaraço com a Operação Lava Jato.

Calheiros é político hábil. Não somente sabe se articular, mas colher vantagens com sua habilidade, como comprovam as repetições de sua ascensão à presidência do Senado, semelhante à trajetória de José Sarney, cuja filha, Roseana Sarney, ex-governadora do Maranhão duas ou três vezes, está também embaraçada com o Lava Jato. Sarney se tivesse conhecimento antes que o problema e explodir seguramente não teria se aposentado. Ainda levaria pelo menos mais dois ou três anos no Senado Federal.

As vantagens supostamente articuladas por Calheiros podem estar em dois pontos: falhando um, como de fato falhou a sua luta contra a aprovação de Fachin para a Corte Suprema, lançaria outro. Restar-lhe-ia, então, a segunda jogada. Cumpre analisar a segunda por que a primeira ele perdeu. É possível, muitíssimo possível, que tivesse conhecimento de que o futuro ministro iria herdar os processos que estão com Lewandovsky. Dificilmente deixaria de raciocinar que, Fachin sendo herdeiro do acervo de processos, encontraria ou encontrará dificuldades para julgar a ele, Renan, no caso da pensão da sua filha paga por uma empreiteira.

É uma suposição que faz sentido, ou faria, se Luis Edson Fachin não tivesse dito, na guerra que empreendeu contra os parlamentares que tentaram derrubá-lo, que será um magistrado absolutamente isento em relação aos processos que lhe chegarem às mãos para julgar, independentemente de qualquer partido político. Ora, assim sendo, como o futuro ministro colocou às claras a sua absoluta independência como magistrado, está com as mãos limpas para julgar o processo de Renan e, se houver condenação, a ninguém caberá o direito de dizer – e quem o fizer mentirá – que seria uma vingança contra Calheiros. Não será. Até porque o pagamento da pensão da filha pela empreiteira restou, ao que se sabe, provado, caso contrário o processo não teria chegado ao Supremo Tribunal Federal.

Fachin, portanto, é o vencedor. O presidente do Senado é o perdedor em todos os sentidos. Jogou na direção de Dilma e caiu nos pés de Fachin, que saberá ser justo como se espera de um juiz da Suprema Corte. Enfim, ele será a justiça.


* Coluna publicada originalmente na edição desta quinta-feira (20) do jornal A Tarde

Quarta, 20 de Maio de 2015 - 16:26

Estacionamentos da Wellpark e o aeroporto

por Samuel Celestino

Estacionamentos da Wellpark e o aeroporto
Foto: SICM/BA
O aeroporto de Salvador é um dos piores, senão o pior das principais capitais do País. Será um dos que serão privatizados pelo governo federal, pelo menos assim está previsto. O aeroporto não é somente ruim. Está muito distante da qualidade dos demais e, dentre outras coisas, foi considerado como o pior em equipamentos sanitários, incapacitado a atender, com a mínima decência, quem deles necessita. Os que viajam e os passageiros que aqui chegam, notadamente turistas, que desta forma recebem o primeiro cartão de visitas de Salvador. Mais do que isso. À frente do aeroporto foi construído, tirando-lhe a visão – o que já seria um absurdo - um monstrengo rotulado de estacionamento que é explorado, a preços exorbitantes pela Wellpark, que controla a maior rede de estacionamentos de Salvador, inclusive em prédios de empresas renomadas. O grupo não oferece a menor segurança sequer aos proprietários de veículos que são obrigados, por falta de espaço, a utilizar seus espaços para estacionar. Tem mais, muito mais. A incompetência dos poderes públicos permitiu que o grupo da Wellpark se assenhoreasse de todos os estacionamentos no entorno do aeroporto, ou seja, monopolizou todos os espaços disponíveis. A incompetência e o descaso deste grupo foi que levou ao assalto seguido de estupro de uma médica num estacionamento, justamente à frente do hospital São Rafael, onde ela trabalha. A Câmara de Vereadores da cidade já toma providências para estabelecer uma lei que determinará regras rígidas para controlar os abusos dos estacionamentos, inclusive preços. E a prefeitura, o que fará?
Terça, 19 de Maio de 2015 - 17:10

Cultura baiana agoniza

por Samuel Celestino

Cultura baiana agoniza
Foto: Divulgação
A Fundação Luís Eduardo Magalhães, que tinha uma bela sede no Centro Administrativo da Bahia (CAB), já teve seus tempos de glórias, com variados acontecimentos culturais e de gestão pública no seu auditório. Pouco a pouco, com a chegada do PT ao poder, foi definhando, definhando até que, recentemente, acabou sendo despejada para, no espaço que era seu, abrigar o quê ninguém sabe, tal a insignificância. O governo, informa-se, está procurando uma casa nas bandas de Monte Serrat para alugar e lá ficar escondida a Fundação. Até aqui ninguém se manifestou contrariamente. É um exemplo de como a cultura na Bahia está desaparecendo na medida em que já não tem significado por estas bandas. Pena, a Bahia empobrece e a cultura que por aqui era rica pouco a pouco está sendo sepultada.
Segunda, 18 de Maio de 2015 - 19:40

Supremo quebra sigilo bancário de Collor

por Samuel Celestino

Supremo quebra sigilo bancário de Collor
Foto: Pedro França/Agência Senado
O Supremo Tribunal Federal (STF), por determinação do ministro Teori Zavascki, decidiu pela quebra do sigilo bancário do senador e ex-presidente deposto por impeachment, Fernando Collor de Mello. O parlamentar está entre os 50 políticos envolvidos supostamente no escândalo da Petrobras. A quebra do sigilo foi, a princípio, pedida por procuradores da República para que fossem checadas as supostas denúncias contra Collor de Mello. O que se pretende é vassourar os depósitos realizados na sua conta bancária de 2011 a 2014, na medida em que o doleiro Alberto Youssef declarara, na sua delação premiada, que teria feito diversos depósitos bancários para o senador, assim com ter feito chegar às suas mãos dinheiro em espécie.
Domingo, 17 de Maio de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: Pessoa, o homem-bomba

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: Pessoa, o homem-bomba
O empresário baiano Ricardo Pessoa, dono da UTC, empresa que atravessa no momento sérias dificuldades financeiras, posto que já dispensou 15 mil dos 30 mil empregados, era e é considerado uma espécie de espectro da Operação Lava Jato. Pessoa comandava o cartel das empreiteiras. Ao cartel competia decidir qual delas seria a ganhadora das licitações, dos contratos superfaturadas da dilapidada Petrobras. Ou seja, determinava qual faria a corrupção que iria favorecer o próprio cartel, os funcionários da estatal, doleiros e, principalmente, os políticos. O empresário, ora em prisão domiciliar, é no momento considerado um homem bomba.

Somente na última quarta-feira, depois de várias tentativas do próprio Pessoa, temeroso de ser condenado a muitos anos na prisão, conseguiu, a partir da Procuradoria Geral da República, estabelecer um acordo de delação premiada. Certamente um alívio para ele e um terror para muitos políticos poderosos que estão, ou estariam, na sua caderneta particular como beneficiários da corrupção. Como tinha em suas mãos o controle do cartel, passou a ser o homem chave, não somente em relação ao escândalo que quase derruba a petroleira, como certamente dispõe dos nomes dos muitos envolvidos na roubalheira.

Era previsível que ele obtivesse a delação premiada, embora a decisão final caiba ao Supremo Tribunal Federal (STF) especialmente ao ministro Teori Zavascki. Com a concessão da vantagem em troca das denúncias, estabeleceu-se um temor em inúmeros políticos. Por enquanto, alguns, ou muitos, não se sabe ainda, estão distanciados da Operação Lava Jato por só haver indícios envolvendo-os, sem nenhuma outra comprovação de participação na corrupção. Daí alguns nomes só aparecerem episodicamente de passagens nas delações feitas pelos envolvidos no esquema.
      
Não são somente nomes de possíveis corruptos são esperados do novo delator, mas também outras denúncias, entre as quais a suposição de que a roubalheira não acontecia apenas na estatal do petróleo, mas em diversas empresas públicas, dentre elas, que vez por outra é citada, Furnas. Se houver, de fato, segredos que estariam guardados como trunfo por Ricardo Pessoa, o escândalo irá se alastrar alcançando diversos segmentos empresariais que ficarão em maus lençóis. Desse modo não seriam apenas os políticos que estão a tremer com a delação do empresário baiano, mas muita gente que ora ainda passa ao largo do escândalo.
    
O novo delator não começou a falar, mas não demorará a fazê-lo. Na semana passada, quando fora interrogado pelo juiz Sérgio Moro, ele preferiu, por orientação da sua defesa, manter-se em silêncio porque se falasse teria colocado por terra o que ele ansiosamente aguardava: a delação premiada. Mesmo assim, citou alguns nomes que já apareceram no noticiário da mídia, como o secretário de Comunicação de Dilma Rousseff, Edinho Silva, que teria pedido, e obtido, R$ 7,5 milhões para a campanha da presidente nas eleições passadas. Edinho alega que houve a doação, mas de forma legal.
    
Aliás, este argumento passou a ser uma forma de o PT tirar o corpo fora em relação às campanhas políticas, como também acontece nas respostas do ex-tesoureiro João Vaccari Neto nos interrogatórios a que foi submetido. Partiu exatamente daí a decisão do diretório nacional do PT, sob o comando do presidente Rui Falcão, estabelecer como norma que o partido não receberá mais doações privadas.
    
Doação privada, na verdade, significa o famoso jargão dos anos 80 expresso no “é dando que se recebe”. Os empresários doavam às campanhas dos políticos para receber triplicado depois que fossem eleitos. Enfim, é  semelhante ao doar para lucrar. Agora, espera-se o que Ricardo Pessoa irá delatar. Muita gente vai perder o sono.


* Coluna originalmente publicada na edição deste domingo (17) do jornal A Tarde

Quinta, 14 de Maio de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: O grande poder do STF

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: O grande poder do STF
Não se tem notícia, nem memória de que um candidato a ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) tenha enfrentado uma sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado tão aguardada como a que se submeteu o jurista Luís Edson Fachin.  O candidato indicado por Dilma Rousseff enfrentou questionamentos dos senadores durante nada menos de 12 horas, tempo que durou a saraivada de perguntas. Se for aprovado na próxima semana pelo plenário do Senado ele substituirá a Joaquim Barbosa que ocupou o cargo com competência e isenção.

Barbosa se aposentou prematuramente por problema de doença. Somente Dilma sabe a razão, e talvez sequer saiba porque não preencheu o cargo ainda vago após nove meses da renúncia. Fraqueza decisória ou indecisão? Fachin enfrentou os questionamentos mantendo-se tranquilo durante o fim da manhã de terça, toda a tarde, e boa parte da noite. Como é do conhecimento, os candidatos a uma vaga no STF são sempre indicados pelo presidente da República. O debate ocorreu permeado por evidentes preferências políticas. 
    
A sabatina lustrou e valorizou a Corte Suprema. Impôs ao candidato um fato inusitado, jamais visto em outros processos de escolhas de ministros:  ele, temendo uma derrota, percorreu os gabinetes dos senadores para, currículo sob o braço, pedir votos. Só faltaram os “santinhos”. Estava em jogo, de certo modo, uma disputa política entre o legislativo e o executivo, consequência da fragilidade evidente da presidente Dilma. Não há como negar, no entanto,  que o judiciário passou a ser valorizado como nunca acontecera na república.
  
Um cargo de ministro do STF é tão importante que não compete tão-somente ao presidente da República indicar. A constituição exige que deva passar pelo crivo da casa principal do legislativo, o Senado. O que ocorreu na última terça-feira durante todo o dia invadindo pela noite, valoriza mais ainda o Supremo que é, queira-se ou não, uma casa política, não no ato de julgar – isto seria inaceitável – mas sim porque compete à corte dirimir dúvidas no embate entre os poderes executivo e o legislativo. Os ministros do Supremo trabalham com a constituição do país sob o braço.
      
É ao colegiado de onze membros, que ora funciona com apenas dez ministros, consequência da letargia da presidente já aludida acima que cabe dirimir se as leis aprovadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado estão de acordo com os princípios constitucionais. Esta é a manifestação mais importante do STF. A nenhum outro tribunal superior compete esta decisão semelhante ou parecida. Para decidir sobre a constitucionalidade, a suprema corte tem que ser provocada por um dos dois outros poderes republicanos, legislativo ou executivo.

O caso de Luís Edson Fachin, que ainda terá que passar pelo crivo do Senado em sessão plena com todos (modo de dizer) parlamentares que o integram, está aureolado por polêmicas políticas. Daí a importância da decisão que será tomada na próxima semana. No que pese ser Fachin um dos maiores juristas do país, um civilista de proa, há no seu currículo contestações. Dentre elas são citados os fatos de ter feito campanha para Rousseff nas eleições de 2010; de ter um viés petista, embora tenha em boa parte o apoio do PSDB; de supostamente ter, em certo momento da sua carreira, feito proselitismo da poligamia e, por fim, ter sido procurador da Justiça do Paraná, seu estado, e, ao mesmo tempo, atuou na advocacia, o que vai de encontro à constituição de 1988.

Se o Supremo Tribunal Federal já estava fortalecido desde que abriu a TV Senado para transmitir o julgamento do mensalão, agora ganhou lustre maior. Impõe-se definitivamente como a casa da Justiça. Sobre o STF recairão os olhos da nação quando chegar o momento de julgar os indiciados pela Operação Lava Jato, principalmente os políticos – e são muitos – que têm foro privilegiado. Os onze ministros da corte serão observados pela sociedade.

Fachini disse, em alto e bom som, que será absolutamente isento nos julgamentos em relação aos partidos políticos. Assim se espera. O Supremo ganhou nos últimos tempos uma dimensão que só era conhecida por setores privilegiados.

A sua isenção terá que ser, mais do que nunca, incontestada, porque é assim, com a corte suprema acima dos demais poderes, que se faz um país decente. Como nunca o Brasil está a necessitar de uma corte que julgue independente dos partidos políticos que não têm, longe disso, o respeito do povo.


* Coluna publicada originalmente na edição desta quinta-feira (14) do jornal A Tarde

Domingo, 10 de Maio de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: O governo sente cólicas

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: O governo sente cólicas
O governo de Dilma Rousseff não foi o responsável pela aprovação na Câmara do ajuste fiscal, mas, sim, um entendimento que permeou os parlamentares e os partidos políticos sobre a necessidade de participar do esforço para retirar o país das grandes dificuldades que enfrenta.  Uma consequência das desastradas gestões do ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega – um dos piores que já passou pelo cargo – e da presidente, uma invenção de Lula em momento de poder. Ela não estava preparada para governar o país. Mesmo assim, o resultado da votação foi apertado, porque partidos pretensamente aliados, como o PDT e o PP, votaram na contramão, o primeiro em peso com voto contra dos 19 integrantes da legenda. Certamente pagarão o preço da ira do Planalto.

Não havia outra saída para tentar tirar o país da crise senão a aprovação da Medida Provisória 665, obtida com as dificuldades já citadas, e os desencontros entre os parlamentares na Câmara dos Deputados. É só o início de diversas medidas pensadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levi, e seus assessores, todos amplamente competentes. Ou se faz o ajuste, que pode levar ao aumento da inflação – já notada – ou o Brasil estaria, ou estará fadado a mergulhar em imensas dificuldades econômicas, como já se observa com o desemprego que desponta e se acelera, além do custo de vida que provavelmente levará a sérias dificuldades para as classes média, média baixa e baixa.

O país chegou a esta situação em consequência das mentiras oriundas do Palácio do Planalto, num processo enganoso que emergiu repentinamente. Com relação a Mantega, estava a vistas a sua incapacidade para gerir a Fazenda, mas era ele integrante do grupo de Dilma, consequentemente sob proteção presidencial. Ao ex-ministro da Fazenda sabe-se agora que o rombo na Petrobras foi comandado em boa parte por ele - cerca de R$ 60 bilhões que a petroleira deixou de recolher - porque o ministro vetava repetidamente o aumento dos combustíveis, sustentando uma política oriunda do PT que, para favorecer as montadoras de veículos, derrubou o IPI sob a alegação de que a nova classe média emergente “também tinha direito ao seu carrinho”. O resultado é o que se vê. A queda do emprego, o custo de vida disparando, a inadimplência, e as dificuldades imensas que a população destas três classes sociais citadas está no momento enfrentando.

Há um velho ditado popular que ensina – e a sabedoria do povo não pode ser desprezada –  que “papagaio só larga o pé quando o bico está seguro”. No primeiro governo Dilma o “papagaio” largou o pé e o bico, na crença que o melhor estava para vir. Deu-se o contrário. Daí as dificuldades que o governo tem à frente, além da solidão da presidente no seu palácio, marcada pela população de maneira geral, como se observou nas manifestações em forma de panelaço.

Não é somente restrita a ela. Agora atinge também Lula, cuja sabedoria para tratar com o povo parece ter ido água abaixo como ficou claro no programa gratuito do PT apresentado em rede de rádio e televisão, atingido de igual modo pelo panelaço. Lula está, com a embrulhada de Dilma, realizando ao que parece o retorno ao passado, procurando a classe trabalhadora e as organizações sindicais, que estão também em dificuldades. Daí ter atacado de forma inapropriada a terceirização já aprovada com larga margem na Câmara dos Deputados e o será certamente no Senado. Errou no discurso incompatível com o momento de reação popular ao governo, como se verificou nas manifestações recentes.

Assim, o PT que nasceu e chegou ao poder com a bandeira da esperança, anda a errar seguidamente. A tal ponto que, para mitigar a dor, na sua última reunião o diretório nacional anunciou que punirá com a expulsão os integrantes da legenda que vierem a ser condenados no julgamento em consequência da Operação Lava Jato. Não dá para acreditar que tenha esquecido tão rapidamente dos mensaleiros, que mancharam a legenda e permaneceram no partido, abrigados com a bandeira vermelha centralizada pela estrela amarela. Como disse Cícero em época romana marcada pela decadência e depravação dos costumes: “Ó tempora! ó mores!” 


* Coluna publicada originalmente na edição deste domingo (10) do jornal A Tarde

Histórico de Conteúdo