Quinta, 11 de Junho de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: Ou muda ou sucumbe

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: Ou muda ou sucumbe
O Partido dos Trabalhadores fará o seu 5º Congresso Nacional hoje em Salvador esperando-se as presenças de Lula, já definida, e da presidente Dilma Rousseff que, certamente, chegará com atraso. Ela iria participar de uma importante reunião de cúpula em Bruxelas, envolvendo os estados Latino-Americanos e a União Europeia. Mas agora provavelmente somente irá para o seu encerramento porque a sua presença aqui é imprescindível. Para poder estar presente no Congresso do PT ela teria sido pressionada e refez a sua viagem. Pelas informações disponíveis, o partido, que atravessa uma densa crise interna, com boa parte da legenda tecendo críticas abertas à presidente da República, incluindo-se neste grupo o próprio Lula, tentará mudar seus rumos para estabelecer novos conceitos e ideias de modo a chegar inteiro às eleições de 2018, o que não parece fácil.

O PT elaborou como sempre ocorre, uma “Carta de Salvador”, na qual apresentará mudanças estruturais entre as quais uma nova política de aliança, uma reforma programática que se balizará numa frente democrática vinculada a partidos e a movimentos sociais. Enfim, a proposta se constituirá numa coalizão que possibilite a organização de mobilizações sociais e a construção de uma nova maioria nacional perdida nestes tempos em que a legenda enfrenta dificuldades.

Pretende-se também encaminhar durante o congresso uma postura de pacificação em relação às propostas que a presidente Dilma Rousseff tem apresentado através do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para retomar o processo desenvolvimentista mais adiante, provavelmente em 2016. Trata-se do ajuste fiscal que vai penalizar a população de modo geral, principalmente as classes sociais, da média à base da pirâmide, que serão as que sofrerão maiores dificuldades neste período, a começar pelo aumento do desemprego que, a cada dia, mais se avoluma. É um fato incontestável da depravada política econômica posta em prática pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, com o total apoio de Dilma, a partir de 2013, que levou à esta situação que o país no momento se depara.

Pausar as críticas à presidente, o PT já deveria ter feito há mais tempo porque é uma campanha reflexiva que toca em Dilma, mas, de imediato, passa a refletir também no PT que somente agora passa a entender que o isolamento da presidente irá levar a uma situação de dificuldades nas eleições de 2018, dificultando o desejo de Lula de voltar a concorrer à presidência. Embora político hábil que é, observa que está forma de combate só leva o partido que fundou a descer a ladeira.

O documento a ser apresentado omitirá críticas a Joaquim Levy, embora mantenha uma deslavada mentira segunda a qual a crise em que o país está imerso tem origem na economia internacional, o que é uma balela e não se sustenta, nem se sustentará, por mais esforço que o partido faça, para que a população entenda que assim é. A crise nasceu aqui dentro com uma série de fatores que não se combinavam com o desenvolvimento. Simplesmente, preocupada com a sua reeleição, Rousseff não deu a menor importância. Não há, como se pretender apresentar no Congresso de Salvador, nenhuma crise do capitalismo, até porque, embora se aureolado como um partido de esquerda, nestes doze anos de mandato petista, seus comandantes esqueceram-se da linha socialista que sustentava o Partido dos Trabalhadores desde que foi fundado, no início dos anos 80. A grande marca à esquerda que o PT obteve, com sucesso louvável, foi na área social, no Bolsa Família, na nova classe média, setores hoje imersos em dificuldades com a crise econômica e com a queda em ascensão do emprego.

Nenhuma outra reforma o PT esboçou de 2003 para cá. Ficou zerado. O Congresso que a legenda inicia hoje em Salvador para encerrar no próximo sábado é um momento oportuníssimo para uma renovação do partido. Poderá, se conseguir acertar as suas teses, mudar aos poucos os seus rumos a partir do documento que apresentará aos seus filiados e voltar a ser a legenda que, na primeira eleição de Lula, despertou esperança de tempos melhores. Enfim, o PT não dispõe de tempo para errar. Ou muda ou sucumbe.


* Coluna originalmente publicada na edição desta quinta-feira (11) do jornal A Tarde

Domingo, 07 de Junho de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: Retorno ao passado

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: Retorno ao passado
O ministro da Defesa, Jaques Wagner, em recente declaração disse que a reforma política que ora acontece aos tropeços no Congresso Nacional teria que ser feita no início do primeiro mandato de Lula na presidência, portanto lá por volta de 2003 ou 2004. De certo modo o ex-governador baiano acerta, mas o que declarou tropeça na gestão do próprio Lula que nenhuma importância deu às reformas, como se imaginava que ocorresse no seu governo.

O PT ascendeu ao poder na década passada aureolado pela esperança popular que se sustentava no fato de ser a primeira vez em que um presidente representando um partido de esquerda chegava ao poder. Desde a Nova República, 1930, nenhum partido representando à esquerda alcançara o comando da nação. Getúlio Vargas não representou esta ideologia, embora fizesse muito pela classe trabalhadora e fundara o Partido Trabalhista Brasileiro. Jango também não fora representante, embora os militares utilizassem deste argumento para derrubá-lo do poder, em 1964, dando início a uma ditadura mesquinha e incompetente que permaneceu 21 anos no comando da República, até cair por já não ter representação, inclusive no segmento conservador.

Lula ascendeu ao poder pelo voto popular, em processo de amadurecimento da nova república imaginada por Tancredo Neves. Mas passou à distância das reformas. Wagner não se deu conta deste fato. O PT tinha efetivamente condições de estabelecer uma ampla reforma no país, mas, logo no início do governo, permitiu que a corrupção se entranhasse na gestão abrindo espaço para o mensalão, que manchou seu primeiro quadriênio. De certo modo, o PT sequer pode jactar-se de ter feito um governo de esquerda, porque logo se alinhou com o segmento conservador à direita, com o capitalismo industrial e bancário. A esquerda não aflorou como se imaginava os que estavam esperançosos com um governo diferenciado.

A única reforma que, na verdade, Lula implantou foi a social que até agora sustenta o PT, em momento de visível decadência que atravessa. Ao se voltar para as camadas sofridas da população, o governo petista abriu espaços para uma nova classe social e implantou o Bolsa Família depois do fracasso do imaginado programa “Fome Zero”. O bolsa família continua sendo um programa que mudou, que foi ao encontro da parte miserável da população, mas no momento a nova classe social que Lula tirou de baixo, está a enfrentar uma estrutura oriunda da incompetência do primeiro mandato de Dilma Rousseff. Lula hoje certamente tem consciência de que errou na escolha. Isto, por estar num ministério, Wagner Jamais dirá.

O país está mergulhado numa perversa crise econômica e vê os ganhos da era petista desabar, a partir da própria presidente que está isolada no seu labirinto. Passou a ser comandada pelo Congresso Nacional que ganhou força. A presidente procura uma pequena popularização andando de bicicleta para ocupar o seu tempo de nada fazer no Palácio do Planalto.

Portanto, Lula poderia, no seu início, tentar uma reforma política, mas, antes, seria obrigado a dar novos rumos ao seu governo e, não, fechando os olhos para o mensalão, pai do Lava Jato, das mentiras do primeiro mandato de Dilma, que foram além da conta para obter o segundo mandato. Agora, infelizmente para o país, a classe protegida por Lula atravessa maus momentos e paga o preço de sentir que tudo não passou de um conto de fadas.

A grande verdade é que o governo do PT, que ora cambaleia, jamais se fixou à esquerda. Pelo contrário, os governos Lula sempre estiveram aliados ao capital, às forças econômicas dos banqueiros e da indústria de maneira geral. Foi um faz de conta. De reforma, só a social. Como, então, Wagner admite, ou sonhou que poderia ter sido feita uma reforma política no início do poder petista? Só se a viagem fosse outra porque, no exato momento, o Brasil submerge a uma crise como poucas. A indústria desabou cedendo espaço ao que se observava e outros tempos: importamos produtos industrializados e exportamos os agrícolas, especialmente a soja. Trata-se de um retorno ao passado.


* Coluna publicada originalmente na edição deste domingo (7) do jornal A Tarde

Quinta, 04 de Junho de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: O jogo da corrupção

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: O jogo da corrupção
Era esperado que mais ou menos tempo a Operação Lava Jato que sacudiu o Brasil – de certo modo continua sacudindo – iria entrar em declínio pela mesmice dos fatos e porque, em grande parte, o impacto iria se diluir com a repetição dos nomes que emergiram no maior escândalo de corrupção que se tem conhecimento no país. É o que ora ocorre. O escândalo do futebol mundial  rouba (o verbo roubar está perfeito no caso) a cena. As atenções mundiais se voltam para a Fifa, com a renúncia do presidente Joseph Blatter, quatro dias após a sua posse, e do que poderá vir à tona no Brasil com a CBF, onde o presidente Marco Polo Del Nero se encolhe e espera o que virá mais adiante.

Como o futebol brasileiro marcou época na Fifa, com João Havelange presidindo-a e, posteriormente com seu ex-genro Ricardo Teixeira, que se tornou presidente da CBF e abriu espaço para o presidente que lhe deu sequência, José Maria Marin, ora preso em Zurique. Imagina-se o que poderá acontecer com o atual mandante, Del Nero, que foi seu vice-presidente e, pelo que se dá conta, teria assinado inúmeros contratos com ele. Teixeira foi indiciado pela Polícia Federal em janeiro último, a partir de um pedido do Ministério da Fazenda que encontrou uma estranha movimentação de recursos em sua contra. Algo que se aproxima de meio bilhão de reais, distribuído entre ele e o um cartola do Barcelona, que, no caso, seria seu comparsa.

Não havia dúvida neste país onde a bola tem um trono, que a CBF estivesse envolvida em falcatruas. Tal como acontece nos clubes, sempre atravessando dificuldades, e nas federações estaduais de futebol, onde os dirigentes só se afastam dos cargos em último caso. Os clubes baianos são exemplos, como ocorreu com o Bahia recentemente, embora não haja indícios de corrupção, mas sempre ficam dúvidas envolvendo as negociações de venda de passes de jogadores, especialmente os atletas formados na base.

Assim, por ser mais fácil à população entender o que acontece no futebol  o escândalo do Lava Jato ficou em segundo planto. Por ora, as atenções se voltam para o esporte que passou a ter – a corrupção – uma visibilidade mundial, por ser o esporte de maior popularidade e ter na mídia espaços privilegiados. Ademais, o escândalo que quase detona a Petrobras passou a diminuir o número de envolvidos, sem que as ações da Polícia Federal, do Ministério Público, da Procuradoria Geral da Justiça e do Judiciário do país tenham diminuído de ritmo.
Neste aspecto, o Brasil mudou, e mudou muito. Está muito longe de ter a morosidade que aconteceu com o mensalão, que se iniciou do primeiro governo de Lula. A partir deste marco, as investigações pararam. Ganhou corpo, ganhou celeridade, enquanto seus agentes tornaram-se especialistas em detonar casos de corrupção. Estamos, espero, apenas numa fase que se seguiu ao primeiro impacto, que tende ganhar novo impulso a qualquer novo acontecimento.

Na verdade, o Lava Jato está na fase inicial. Chegará o momento de o Supremo Tribunal Federal julga quase meia centena de políticos, já indiciados, que atrairá mais atenções do que este período em que se investigam empreiteiros, diretores de estatais e outros mais que estão distantes da atração que os políticos demandam. Assim, estamos numa estrada que ameaça e amedronta os corruptos, inclusive do futebol, esporte das multidões.


* Coluna publicada originalmente na edição desta quinta-feira (4) do jornal A Tarde

Domingo, 31 de Maio de 2015 - 07:50

Coluna A Tarde: A Operação Bola Suja

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: A Operação Bola Suja
Se fosse possível tomar como exemplo para o mundo o Brasil e a Fifa, o panorama estaria adequado em termos de corrupção. Na verdade, queira-se ou não, a corrupção está em toda parte e, seguramente, na totalidade dos países. Alguns cultivando a doença até por descaso, outros a combatendo. Uns mais, outros menos. Aqui por nestes trópicos, um juiz está a oferecer o que antes não ocorria: a imagem de incorruptível. Uma excelente moldura para dar-se início, espera-se, a um processo de mudança ética.

Trata-se do juiz federal Sérgio Moro, que tem, certamente, o integral apoio da população. Passou-se a entender que vale a pena enfrentar o mal. Ainda são necessárias muitas e grandes mudanças, de sorte que tais mudanças passem a ser um dogma que penetre na alma nacional. É preciso, a um só tempo, caminhar para mudar muito, começando-se pela transformação de um poder judiciário moroso e complicado por um sistema que tenha do país  maior respeito. Não será fácil.

O início já está às vistas: a integração da Polícia Federal, do Ministério Público, da Procuradoria Geral da República com a justiça que brota como uma esperança no juiz do Paraná. O primeiro alento que se oferece é a Operação Lava Jato, esperando-se que não venha a ocorrer o que se observou com mensalão, que não deve, porém, ser desprezado. Porque foi a partir daquele julgamento que pela primeira vez se levou ao ar as imagens da TV Justiça. O julgamento foi acompanhado pelos brasileiros, que passaram, então, a conhecer o trabalho do Supremo Tribunal Federal (STF).

O desafio da Operação Lava Jato balança a República e causa temor e medo nos corruptos. Não é pouco. Antes eles desdenhavam das operações porque se davam pouca importância à justiça a partir de um conceito que tende a desabar: ser rico, ter dinheiro no bolso, não vai para a prisão. É um dito antigo com a marca brasileira. A prisão continua o dito, foi feita apenas para os pobres, para os desamparados, para aqueles que não podem pagar advogados competentes. Ainda hoje os que estão nesta categoria ainda se valem dos chamados – e já nacionalizados - advogados de porta de xadrez.

O Brasil enfrenta uma crise econômica que causará males à população de maneira geral, principalmente as classes da média até a da base da pirâmide, portanto o segmento populacional mais necessitado. Tal crise é consequência da incompetência no comando da República, do deboche e do engano, mas também dos poderes constituídos, como, para dar amplitude, o Congresso Nacional que ainda está muito aquém do que dele se é de esperar. O Congresso que nasce no embuste do voto, das promessas, das mentiras e do dinheiro dos poderosos, boa parte oriunda de empresas privadas. Nada é de graça. Elas pagam as campanhas para cobrar depois, no anárquico processo da corrupção.


* Coluna originalmente publicada na edição deste domingo (31) do jornal A Tarde

Domingo, 31 de Maio de 2015 - 07:50

Agora o Lava Bola

por Samuel Celestino

Agora o Lava Bola
Senador Romário emplacou a CPI da CBF | Foto: Getty Images
Tudo isso que está posto no comentário acima, a partir desta nota passa a ter um vínculo forte com uma das paixões deste país: o futebol. Já se sabia, há longo tempo, que esta paixão nacional estava absolutamente corrompida a partir da CBF e das federações estaduais, com exceções. Quem deveria explodir a bolha da corrupção da bola deveria ter sido – e de há muito – o Congresso Nacional, pelo menos no que se refere ao futebol destas bandas. Mas, por ironia, quem detonou a bolha foram os Estados Unidos, que não tem neste esporte o amor do seu povo, juntamente com a Suíça. Ocorre então que a corrupção que veio da Fifa encontrou o imediato aplauso da mídia internacional, como poucas vezes visto. Foi a partir daí que, nos últimos dias, os brasileiros abriram rapidamente os olhos, enxergaram o que não queriam ver, e encontraram, na tampa e de saída, para desmoralizar mais um pouquinho este país dito do futebol, o ex-presidente da CBF, José Maria Marin. Rápido, sem dar trelas à chamada “bancada da bola”, que impediu diversas CPIs no Congresso, sem que os parlamentares tivessem coragem de dizer um sonoro “não” aos representantes da cartolagem. O senador Romário (PSB-RJ), que como parlamentar passou a ser defensor do futebol, aproveitou o momento, atropelou a tal “bancada” e, a partir do Senado, abriu espaço para uma CPI da CBF que, espera-se, possa usar a Polícia Federal, o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República, a Justiça, e,quem sabe, um outro juiz Sérgio Moro. E deste modo transformar a paixão dos brasileiros, não numa Operação Lava Jato, mas a Operação Lava Bola Suja. Romário, que deu um campeonato mundial ao Brasil com gols limpos, quer agora limpar a bola, sua companheira eterna. Esperam-se as consequências.
Sexta, 29 de Maio de 2015 - 09:23

Exposição de fotos abre centenário de Jorge Calmon

por Samuel Celestino

Exposição de fotos abre centenário de Jorge Calmon
Foto: Arquivo / Ag. A Tarde
A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e a Federação do Comércio farão, às 18h desta segunda-feira (1º), na Casa do Comércio, Avenida Tancredo Neves, a abertura das comemorações do centenário de nascimento do jornalista Jorge Calmon, um dos maiores nomes da imprensa baiana. Jorge Calmon nasceu em 7 de julho de 1915. A abertura será uma exposição fotográfica do jornalista, em fases variadas da sua vida marcando, desta maneira, o início das comemorações que se iniciarão com maior intensidade em julho, com sessões solenes na Assembléia Legislativa da Bahia, da qual Jorge foi deputado, da Câmara de Vereadores de Salvador, seguindo-se sessões solenes na Academia de Letras da Bahia, Associação Bahiana de Imprensa, Instituto Geográfico e Histórico (entidades que ele presidiu), no plenário do Tribunal de Contas do Estado e em diversas outras entidades que o jornalista integrou.
Quinta, 28 de Maio de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: A reforma política morreu

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: A reforma política morreu
Ao fatiar a reforma política deixando à margem a comissão especial da Câmara que já havia analisado o texto, para levar a decisão direta ao plenário sem a ingerência dos partidos políticos, a Câmara dos Deputados não percebeu que corria o risco de invalidar a reforma política no seu todo. Ou percebeu e fez de conta que não. Foi o que aconteceu na madrugada de ontem. A reforma, como se costuma dizer, assim como o gato subiu no telhado e de lá despencou. Tratava-se de uma decisão importante, reclamada pela população de maneira geral, mas o resultado foi a queda de praticamente todas as propostas levadas a voto no plenário. Pela primeira vez desde que tomou posse na presidência da Casa, Eduardo Cunha foi derrotado em sequência. Perdeu duas vezes.

 As propostas foram caindo como cartas. Caiu o voto distrital misto – possivelmente a melhor proposta – e a expectativa voltou-se para o “distritão”, que Cunha defendia. O “distritão” detonava o voto de legenda acatando tão somente a eleições dos candidatos mais votados, diminuindo a função dos partidos políticos. A grande expectativa estava em torno deste tipo de voto, mas, surpreendentemente, a votação dos deputados no plenário derrotou-a por larga margem.

Alguns parlamentares comentavam, durante a madrugada da queda das propostas da reforma, os mais informados naturalmente, que na verdade o que se queria era aprovar o financiamento privado das campanhas, que há cerca de pouco mais de um mês o PT desprezou. Se assim foi, o vencedor da noite passou a ser o PT, que já tinha tomado tal decisão. A Câmara estava na verdade voltada para o financiamento privado, porque o financiamento somente público não permitirá o que hoje acontece, a doação pelas grandes empresas que são as que, até aqui, elegem deputados que mais tarde a elas dão reciprocidade e, daí surge à corrupção como se observa no que ora acontece na Petrobrás e, de certo modo, de maneira geral.

O financiamento privado das campanhas também caiu. Recebeu 264 votos, mas precisava de mais 44. E por não os ter também desabou.  O Congresso queria, na verdade, se antecipar ao Supremo Tribunal Federal, colocando no corpo da constituição o tal financiamento privado. Há fatos curiosos e até agora não decifrados em relação à decisão do STF, que já havia detonado o financiamento privado, mas até hoje não se sabe bem o porquê o ministro Gilmar Mendes pediu vistas ao processo, que já estava aprovado. Ele entendeu, mesmo assim, de analisar o processo antes de formar o seu voto, já dispensável. Gilmar engavetou então a matéria que está com ele há quase um ano.

O que pretendia então o Congresso? Antecipar-se a entrega do processo que está nas mãos do ministro já aprovado com os votos anteriores da maioria da corte  e, assim, constitucionalizar a permissão para que o setor privado, as grandes empreiteiras possam continua fazendo doações às campanhas dos políticos. Está aí a grande importância da votação e o que estava oculto. O que os políticos queriam foi à lona e, agora, o Congresso terá acatar o fim das doações. Não há mais razão para que Mendes aguarde a decisão do legislativo porque ela já se foi ladeira abaixo.

 A única saída possível será uma nova manobra na Câmara que pode dar certo,  mas impede a doação individualizada a políticos que tenha prestígio no executivo: a doação exclusiva para os partidos  que, se acontecer, será fracionada com todos os candidatos da legenda. Enfim, tanto se falou em reforma política que ela gorou. Na verdade, os políticos apenas fingiam para a população que desejavam mudanças estruturais. Era engodo. Como sempre, eles só pensam nos seus interesses.


* Coluna publicada originalmente na edição desta quinta-feira (28) do jornal A Tarde

Segunda, 25 de Maio de 2015 - 10:45

PT quer assumir a Faeb

por Samuel Celestino

PT quer assumir a Faeb
Foto: Monrtagem/ Bahia Notícias
Com dificuldades no país inteiro, o PT, pelo menos o baiano, resolveu intrometer-se no que não lhe cabe e passou a fazer uma campanha pela presidência da Federação de Agricultura da Bahia (Faeb), a partir do governo Rui Costa, dos seus secretários, do ministro Jaques Wagner, dos deputados e até dos senadores, que parecem estar mais centrados na Faeb ao que acontece no Senado Federal que, por sinal, terá uma semana dificílima. Os petistas agora querem colocar um sindicalista na Federação da Agricultura, o que não lhes cabem. As sociedades democráticas, modernas, é bom que entendam, atua através de “Três Setores”: o primeiro é o setor público, que envolve todas as instituições  vinculadas ao Estado e aos poderes públicos, enfim. O segundo setor e o privado, que engloba empresas, mercados, produtores e suas entidades. E o terceiro setor é justo o que envolve as instituições não-governamentais, onde o setor público não deve e nem pode meter o seu bedelho. Mas isto está a acontecer na Bahia com a campanha de pedido de votos do governo, dos parlamentares e os nomes acima já citados, todos querendo “aparelhar” a Faeb, para se transformar em espaço petista. Pelo que se vê, trata-se se uma situação inusitada, com os pedidos de votos para o candidato do partido, com pressões sobre os prefeitos interioranos. Ora, como o que é público e o que é privado deve ficar à distância regulamentar, não cumpre ao governo e aos parlamentares saírem em busca de votos se intrometendo no Terceiro Poder, o que passa a ser, consequentemente, um abuso de certo modo intolerável, por ir de encontro aos princípios democráticos.
Domingo, 24 de Maio de 2015 - 07:50

Coluna A Tarde: O preço da incompetência

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: O preço da incompetência
As dificuldades que envolvem a economia do país, uma consequência da incapacidade gerencial do governo, vão além, muito além, do que a princípio se imaginava. Torce-se para que as dificuldades não avancem, mas na medida em que novos fatos emergem, robustece-se o entendimento de que todas as classes sociais brasileiras sofrerão, e muito, a partir dos cortes que o governo determinará para os diversos segmentos econômicos. Nada ficará à salvo. Quem mais será atingida pelo resultado da incompetência gerencial de Rousseff serão as categorias abaixo da classe média, atingido, de certo modo, a classe média alta e, com mais intensidade, a base da pirâmide social.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levi, importado do setor privado para realizar o trabalho de carrasco, infelizmente necessário, queria que os cortes do governo chegassem a R$ 80 bilhões, mas ficaram em torno de R$ 69 bilhões, beirando os R$ 70 bilhões. Foi uma exigência do setor político que tem tanta culpa como a que recai sobre a presidente, a começar pelo que tudo já se sabe em reação à larga corrupção na Petrobras, assim como em diversos setores públicos que, espera-se, mais adiante venham à tona.

Havia um conluio generalizado entre empreiteiras, diretores postos em cargos importantes nomeados pelo governo e por políticos que também é de se aguardar que venham a ser punidos implacavelmente. Esta é a única forma de excluir os que não prestam e já praticam crimes, e os que não prestam, mas chegaram na última eleição a cargos, principalmente do Congresso Nacional, sem se falar nos governos federais e estaduais, ministérios e secretarias de estado, inclusive aqui na Bahia, como se tem ultimamente divulgado.

O corte desejado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não foi maior porque o Congresso impediu. De outro modo, a presidente Dilma Rousseff passa ao largo. Hoje é uma mera figurante, cuja função no momento é apenas ser a representante da República de um país que a elegeu como governante de forma democrática. Daí não ter nenhum sentido, frise-se, falar-se em impeachment. A punição a ela já acontece na forma da ausência de comando, com funções restritas, apenas para, vez por outra, dar uma entrevista tola à imprensa, tropeçando em palavras e errando no dizer.

Enfim, os cortes atingirão setores básicos com a saúde, a educação (ver nota abaixo) e segmentos sociais, com menos intensidade, naturalmente. A economia vai muito mal, portanto, a inflação dispara e o povo, a parte mais fraca da sociedade, paga o preço. E o governo, quem diria, é do PT.


* Coluna publicada originalmente na edição deste domingo (24) do jornal A Tarde

Domingo, 24 de Maio de 2015 - 07:50

A Universidade agoniza

por Samuel Celestino

A Universidade agoniza
Foto: Divulgação
Se descermos ao início, a Universidade Federal da Bahia, que hoje atravessa sérias dificuldades financeiras para se manter, com um déficit de R$ 28 milhões, segundo revelação do reitor João Carlos Salles, foi fundada em 1808, quando aqui aportou o príncipe D. João VI que com a sua corte fugiu de Portugal temendo uma invasão de Napoleão Bonaparte, que estava em guerra com a Inglaterra da qual Portugal era aliado. D. João VI aqui implantou a Escola de Cirurgia da Bahia, que viera a ser o embrião da Faculdade de Medicina, que se tornaria na primeira escola médica do Brasil. Depois de diversas incorporações ao longo do tempo, o que viera dos tempos do Brasil colônia firmara-se como Universidade Federal da Bahia em 1950, no reitorado de Edgard Santos, pai do ex-governador Roberto Santos. Foi ele que, a partir de 1946 e até 1961, comandou e uniu o conglomerado de escolas universitárias. Fora diretor da Escola de Medicina e o responsável por integrar escolas isoladas, passando, deste modo a ser considerado o fundador da Universidade Federal da Bahia, na forma como hoje ela se encontra e é considerada. Edgard Santos foi, então, o seu primeiro reitor. A partir daí a Universidade Federal da Bahia se transformou numa das melhores do país – embora hoje existam outras com ensino mais aprimorado, e com uma sequência de reitores admiráveis e competentes. Vai, aí, uma curtíssima história da universidade que, nesta segunda-feira (25), conforme já divulgado por A Tarde, fará um ato para a divulgação das dificuldades que  atravessa no governo Dilma Rousseff. É preciso que o governo entenda, mesmo com as suas dificuldades oriundas da má gestão da presidente, que temos na Bahia um importante emblema da cultura que, ao longo dos últimos dois séculos vem formando doutores. A UFBA é responsável pelos grandes valores que surgiram nesta terra e não pode, não deve, por ser um acinte à Bahia, ser assim tratada.

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