, 19 de Abril de 2015 - 07:50

Coluna A Tarde: O temor do impeachment

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: O temor do impeachment
Numa mudança de 180º que ainda não tem respaldo, positivo ou legal, os partidos de oposição deram meia volta e passaram a refletir sobre a possibilidade de recorrer à justiça e encaminhar um processo na tentativa detonar o mandato de Dilma Rousseff. Seria o impeachment. Tão confuso está o comando da República que transparece, já de forma clara, que a presidente não é uma mandatária de fato e de direito, mas, sim, apenas de direito. Quem comanda a República são os partidos, à frente o vice-presidente Michel Temer e o PMDB que, por ora, continua dividido. A hipótese de um processo de impeachment ainda é remota, mas há sinais de que possa vir acontecer, a partir de uma decisão do Tribunal de Contas da União (TCU).

A questão se vincula a uma decisão da corte com fortes indícios de crime envolvendo a Lei de Responsabilidade Fiscal. A possibilidade, remota com acima está posto, passará a ser concreta se o TCU encaminhar ao Congresso Nacional uma recomendação para a rejeição das contas da presidente Dilma Rousseff. Seria necessário que os parlamentares aprovassem a recomendação e, com isso, abririam caminho para o afastamento. Trata-se da desconfiança de que o governo teria usado recursos de bancos oficiais para cobrir despesas como o pagamento de projetos, a exemplo do bolsa família e outros. Neste caso, se confirmado, terá ainda de ficar comprovado que a decisão partiu do comando do Palácio do Planalto e não da equipe econômica.

Discute-se que, se houver uma decisão pelo impeachment, o processo teria à frente todo o agrupamento de partidos oposicionistas, o que dará forte densidade à tentativa. Tudo está na dependência de um estudo jurídico já encomendado pelo PSDB, presidido pelo senador Aécio Neves. Se a resposta for positiva, o impeachment poderá  transformar-se numa realidade, tal como aconteceu com Fernando Collor, apeado do poder no segundo ano do seu complicado governo. Há uma questão complicadora: o PMDB não caminhará inteiro. Pelo contrário, é um partido dividido e dificilmente haverá um entendimento intrapartidário em relação ao que se pretende propor.

A possibilidade ainda não tem densidade maior, mas se fortaleceu com a decisão do Tribunal de Contas da União que encontrou fortes sinais de desvios nas contas do BNDES, Caixa Econômica e Banco do Brasil. Teriam transferido recursos de muitos bilhões no final de 2013 e 2014 para pagamento de programas do governo (espécie de empréstimo), de modo a evitar que Dilma não incorresse em problemas vinculados à Lei de Responsabilidade Fiscal. O clima no Palácio do Planalto é aflitivo como, aliás, tem acontecido desde que Rousseff iniciou, em janeiro, o seu segundo mandato. Foi quando o país passou a ter notícia de que a economia desandará e que seriam necessários ajustes fiscais para corrigir os malfeitos (no sentido correto) do primeiro mandato de Rousseff. Foram erros sobre erros na gestão de Guido Mantega no Ministério da Fazenda, naturalmente – é de se admitir - com o conhecimento de Dilma que, imatura para comandar a República, transmitia a impressão que o Brasil estava no caminho certo.

Assim, quando menos se espera surge uma novidade. Sempre negativa. É um processo em série. A presidente está sem comando. Já não é mais ela que conduz a república e sim o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, principal nome do momento, e em parte o PMDB, tendo à frente o vice-presidente Michel Temer. Dilma se transformou numa estátua de pedra e, na sua transformação, desmontou a imagem do PT, que chegou ao poder e pode estar de saída. Além de aluir fortemente a imagem do principal líder do partido, Lula, hoje na periferia do poder mordendo a ponta da gravata.


* Coluna publicada originalmente na edição deste domingo (19) do jornal A Tarde

, 19 de Abril de 2015 - 07:50

Saúde inova métodos

por Samuel Celestino

Saúde inova métodos
Foto: Alexandre Galvão/ Bahia Notícias
O secretário estadual da Saúde, Fábio Vilas-Boas, está transformando a secretaria que comanda. Tem feito muitas mudanças para dar novo formato à pasta. O próximo passo de Vilas-Boas, que já realizou mudanças em comandos administrativos, como no Hospital Ana Nery, será mais incisivo: pretende estabelecer nova forma de administração nos hospitais estaduais que trabalham no sistema de contratualização, algo quase semelhante ao sistema de terceirização. Pretende colocar, e sem demora, auditores em todos estes hospitais para, a cada fim de mês, realizar levantamentos de gastos em todos os setores, de sorte a reduzir os custos. Ou, se quiserem, “custos”. Tais auditores estarão diretamente vinculados à secretaria de Saúde e não os hospitais submetidos à contratualização. Não dá como reclamar. Deve-se aplaudir.
Quinta, 16 de Abril de 2015 - 09:12

PT preocupado com Vaccari

por Samuel Celestino

PT preocupado com Vaccari
Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados
O PT começou a se preocupar, e muito, após a prisão do seu ex-tesoureiro, João Vaccari Nato, principalmente em relação às negociatas com as gráficas sobre a qual o tesoureiro nunca tinha dado conhecimento ao partido sobre atuação nesta área. A coluna Painel, da Folha de S. Paulo, levanta também a tese de que o juiz Sérgio Moro já teria provas suficientes para recolher José Dirceu às grades. Ao encontrar este novo caminho é bem provável que Vaccari Neto perca a fleuma que deixava transparecer, no seu silêncio, e que a prisão (coercitiva, apenas para depor) da mulher do petista, além da sua cunhada, seria um caminho encontrado pela Operação Lava Jato para forçar Vaccari a passar a dar informações, quebrando a sua postura de estátua de pedra. A preocupação dentro do PT é grande.
Quinta, 16 de Abril de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: Um enigma na prisão

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: Um enigma na prisão
A prisão do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, era um acontecimento esperado e de certo modo demorou a acontecer. Dos personagens envolvidos na Operação Lava Jato, o tesoureiro era, dentre todos, o mais enigmático. Publicamente, transmitia a imagem de ser um homem de personalidade retraída, indiferente ao que acontecia, a não ser negar seu envolvimento no escândalo da Petrobras e outros mais. De certo modo demonstrava dificuldades para esconder a sua tensão. Sabia, perfeitamente, qual seria o desfecho da sua postura gelada.
 
Enfrentou uma CPI durante sete horas e manteve-se frio, respondendo sempre do mesmo modo, embora ouvisse perguntas capazes de abalar qualquer mortal. Dava a impressão, mera impressão, que passara por uma lavagem cerebral e que fora treinado para exercer o papel que lhe cabia: encher as burras do PT. Como se tratava de uma questão de tempo, ontem a Polícia Federal bateu na porta da sua casa em São Paulo. Ele já esperava. Estava pronto. Inabalável, saiu preso.
 
O tesoureiro Vaccari Neto, dentre todos os que foram levados para o Paraná pela Polícia Federal, é o de personalidade mais complexa. Denunciado criminalmente pela PF como operador do PT no grande esquema cartelizado que sacudiu o País e o governo Dilma Rousseff, estabeleceu um traço de união entre o seu partido e a diretoria de Serviços da Petrobrás, então comandada dor Renato Duque. Sobre ele recaem, como sempre ocorre com os envolvidos, crimes variados, principalmente corrupção e  lavagem de dinheiro. Segundo o Estado de S. Paulo, ele “é o foco de sete frentes de investigação pelo Ministério Público Federal na Operação Lava Jato”.
 
Ainda na manhã de ontem, a Polícia Federal e o Ministério Público fizeram uma revelação até então desconhecida. O tesoureiro agia levando dinheiro da Petrobras para o PT há dez anos, desde 2004. Significa que, mesmo com o desenrolar do escândalo do mensalão que levou inúmeros petistas à prisão, entre eles José Dirceu - que poderá voltar por mais tempo para a cadeia – Vaccari Neto já agia. Entendiam, imagina-se, que eram intocáveis. Erraram.
 
Não foi somente João Vaccari que a Polícia Federal recolheu. Cumpriu um mandado de condução coercitiva contra a sua mulher, e sua cunhada Marice Correia de Lima, esta última tida como envolvida no escândalo de corrupção e é também investigada pela Lava Jato. Caiu assim, na manhã de ontem, o rei de ouro do PT, que atravessa uma fase como jamais o partido imaginou. Aliás, sem necessidade de maiores observações, nota-se que a bandeira vermelha da legenda desbotou e desapareceu das manifestações populares, pelo menos das duas últimas que marcaram um forte abalo no governo da presidente Dilma. Manifestações que não tiveram conotação partidária.  Claro que o partido não teria condições de ir às ruas. Mas é fato que a bandeira vermelha desapareceu abrindo espaço às cores verde-amarelo. Os movimentos, portanto, estiveram muito acima dos partidos políticos, hoje de maneira geral em amplo processo de desgaste.
 
O Brasil atravessa um período de imensas dificuldades, consequência da falta de competência de Dilma Rousseff que não soube conduzir o seu primeiro mandato. Já repeti esta realidade em diversos textos, mas é sempre bom reprisar. Gerou, como consequência, problemas econômicos que vieram explodir. Presumia-se o que pudesse ocorrer mais adiante. Naturalmente depois das eleições, sem tempo para repercutir nas urnas, porque a mentira se sobrepôs à vontade popular esmaecida.
 
Agora, há cerca de dez dias, ocorre no País uma realidade mais amena, diante da reclusão, ou compreensão da presidente que a sua presença no primeiro plano da República gerava mais problemas do que soluções. Os partidos procuram se alinhar, estabelecendo dificuldades para um PT fraco, mas, é fato, que emergiu um personagem que estava recluso no Palácio do Jaburu: o vice-presidente Michel Temer, até pouco tempo persona non grata à Dilma.
 
Com dificuldades em escolher um interlocutor político capaz de fazer uma conexão entre o Executivo e o Legislativo, a presidente foi em busca, por orientação dos conhecimentos políticos do vice que, se tem defeitos, é de certa forma, um político de fala mansa, educado, e com boa formação jurídica. Até aqui ele tem conseguido aplacar a ira do Congresso contra Dilma e estabelecer pontes, enquanto ela passou (por enquanto) a ser uma mera figurante na república, competindo-lhe representar o país, como aconteceu na semana passada na Cúpula das Américas.  Espera-se que a fórmula dê certo. O país está a exigir.


* Coluna publicada originalmente na edição desta quinta-feira (16) do jornal A Tarde

Terça, 14 de Abril de 2015 - 09:21

Dilma derruba a imagem de Lula

por Samuel Celestino

Dilma derruba a imagem de Lula
Foto: Divulgação
A crise gerada pelo governo Dilma Rousseff que a levou ter uma imagem negativa perante o eleitorado, está, também, corroendo a visão que os eleitores têm de Lula, que antes era considerado “o melhor presidente que o Brasil já teve”. De acordo com o Datafolha, em pesquisa, a imagem de Lula desabou nada menos de 21% e, a cada mês, o seu prestígio encolhe. Dilma leva de roldão o PT, partido que nos últimos tempos mais perdeu em relação à imagem, além de estar dividido e em situação difícil no Congresso Nacional. Na última pesquisa realizada semana passada pelo Datafolha, a presidente Dilma havia ficado praticamente com os mesmos percentuais negativos do mês anterior. A consequência sobre Lula está também em função da perda de substância do partido que fundou, o PT, e da sua retração pública porque, se tentar ficar em exposição, a tendência é que o seu prejuízo de imagem seja muito maior. A queda de Dilma está em todas as classes sociais e em todas as regiões, especialmente no Nordeste que, em razão da crise gerada por não ter dito no período eleitoral o que estava por vir. Realizou uma campanha eleitoral exatamente inversa à realidade que agora se observa, marcada por mentiras. A crise brasileira alcança todas as camadas, atingindo mais intensamente a classe de menor poder aquisitivo, em consequência da inflação e do desemprego.
, 12 de Abril de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: A paixão de Mimia

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: A paixão de Mimia
Com o domingo voltado inteiramente às manifestações populares, mais uma, que tem a presidente Dilma Rousseff como foco, de nada adianta consultar oráculos para obter previsões sobre mais um desgaste da imagem da mandatária. Supõe-se que será semelhante à anterior.
      
Assim, reservo-me ao recurso de voltar ao passado da minha infância nos anos 50 do século passado, na cidade de Itabuna e rememorar um personagem marcante. Era um dos 11 filhos do avô Jeremias, nove deles homens, muito unidos, e apenas duas mulheres. Herdara o nome do pai, mas era conhecido em toda cidade como Mimia. Uma figura diferenciada por ser, então, muito popular e apaixonado pela política, que discutia acaloradamente em cada esquina. Inúmeras vezes candidatou-se a prefeito de Itabuna. Perdeu todas. Demagogo, tinha uma loja de calçado no comércio itabunense, mas se dizia sapateiro. Para ajudar os pobres, segundo ele, tinha uma funerária que levava seu nome  - “Funerária Mimia”. Utilizava-a para ações beneméritas, atendendo os que não tinham condições para comprar um caixão mortuário e sepultar seus entes chegados.
    
A cidade, à época, experimentava o auge de um processo de rápido enriquecimento a partir dos cacauais espalhados nas matas úmidas e escuras pelo sombreamento, onde o cacau florescia a partir das sementes lançadas pelo macaco jupará, espécie hoje infelizmente extinta, que tinha como habitat a úmida Mata Atlântica. Tempo marcado pelos riquíssimos coronéis que Jorge Amado, também da região, utilizou para compor personagens inesquecíveis, que marcaram o belo romance “Gabriela, Cravo e Canela”. Gabriela se tornou nome comum das moças na região e quase sinônimo da cidade de Ilhéus.
  
Os coronéis mandavam em tudo. Mimia reservava-se a si próprio à condição de político com maior conhecimento da arte na jovem Itabuna dos anos 50. Era o que dizia. Com origem na Aliança Liberal, abraçou o PTB, se assumia como o maior dos getulistas daquele tempo em todo o sul da Bahia. De tal sorte assim era que seu primeiro filho homem fora batizado em homenagem a Getúlio Vargas. Mesmo criança, era ele levado a participar dos seus comícios de candidato que ocorriam sempre com praças lotadas porque ele, Mimia, por si só animava os que vinham de longe apenas para ouvi-lo falar com inigualável humor e eloqüência duvidosa. Tornou-se uma figura folclórica.
   
No palanque por ele mandado armar para realizar os seus discursos, detonava os candidatos adversários, contava histórias hilariantes, relatava fatos mesmo que não tivessem acontecidos. O seu Getúlio, de calças curtas, ficava na sua retaguarda. Tudo muito bem pensado. De repente, bradava: “Sou getulista de corpo e de espírito! Sou amigo do grande Getúlio Vargas” - vangloriava-se sem nunca tê-lo visto, a não ser em fotografia. “Em sua homenagem eu tenho um Getúlio na minha casa. Pergunto a vocês que estão aí embaixo, muitos descalços porque vieram me ouvir falar neste comício: vocês têm um Getúlio de carne e osso em suas casas? Não? Pois Mimia tem.” Incontinente, dava a ordem : “Venha cá, Getúlio, meu filho!” E levantava o menino. “Eis aqui o meu Getúlio.” O povo pobre, divertindo-se, ia ao delírio.
     
A popularidade era tamanha que ele sempre tinha a certeza que seria eleito prefeito da cidade, mas perdia todas as eleições. Então, lançava a culpa não no povo que nele não votara, mas nos coronéis do cacau que “compraram os votos dos eleitores”. Ademais, explicava-se, “ainda me roubaram na contagem.” Tinha um slogan que o acompanhava na campanha eleitoral: “Mimia vem aí”. Definida a eleição com a sua derrota, o slogan aparecia  pichado nas ruas de Itabuna inteira: “Mimia vem aí!”. Era um político incansável, barulhento, popular, querido, mas não tinha os votos que estavam no seu sonho de ser prefeito de Itabuna.  
    
Assim acontecia nas eleições seguintes e ele sempre derrotado “por conta do dinheiro dos coronéis donos dos grandes latifúndios, das roças do cacau”. Os estudantes do Ginásio Divina Providência, arreliavam Mimia, mas ele não dava importância e até gostava. Armavam palanque em frente do ginásio e o povo chegava para ouvi-los imitar o candidato. Um gritava: “Cachorro late”. Outro um pouco distanciado, respondia: “E o gato mia”. Em conjunto os estudantes, agora em coro: “Para prefeito Mimia!”  Era a glória para o político.
   
Jeremias Celestino da Silva, o Mimia, fumava muito. Certa feita sentiu-se muito mal e a família o trouxe, às pressas, a Salvador. Aqui, fora diagnosticado câncer no pulmão em estágio avançado. Ao tomar conhecimento da doença, seus adversários picharam a porta do cemitério da cidade: “Mimia Vem aí”.
      
Seu corpo foi transladado para a pequena Itabuna dos anos 50, como ele queria. A sua resposta aos adversários aconteceu no enterro. Itabuna parou e o povo seguiu o funeral. O pequeno cemitério lotou e tantos foram os discursos que, se Mimia ressuscitasse, provavelmente bradaria do túmulo o slogan que o acompanhou: “Mimia vem aí”.


* Coluna publicada originalmente na edição deste domingo (12) do jornal A Tarde

Quinta, 09 de Abril de 2015 - 07:40

Coluna A Tarde: Dilma entrega os anéis

por Samuel Celestino

Coluna A Tarde: Dilma entrega os anéis
Dilma Rousseff a cada momento demonstra estar perdida no seu labirinto do Palácio do Planalto. Até Lula quando resolve ajudá-la, se é que se pode chamar de ajuda a sua sugestão – melhor, pitaco - errou feio. A presidente escorregou ao escolher, sem a ninguém consultar, o petista gaúcho Pepe Vargas para ser seu interlocutor político, oferecendo-lhe a Secretaria de Relações Institucionais. Vargas foi um fiasco. Ou é tímido ou a ele os caciques do Congresso não deram importância. Foi quando surgiu Lula no cenário e a aconselhou convidar o ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha, que fizera a interlocução com o Senado e Câmara na gestão de FHC, para o cargo. Padilha disse-lhe um sonoro “não” informando-a que preferia ficar quietinho no seu ministério do nada.
    
Exatamente neste ponto que Dilma derrapou feio. Entregou o que ela sempre ambicionou e o que há de mais precioso no poder da República. Transferiu para o presidente (no momento de honra) do PMDB, seu vice Michel Temer, de bandeja o comando político da República. Agora será com Michel Temer, e não com ela, que se estabelecerá o diálogo entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. Note-se que o PMDB chegou ao topo da República, sem as mesuras que ficarão como legado de Dilma – é o que lhe resta – Já Temer com o poder inesperado passa a dever aos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado (quem diria) Renan Calheiros, prazer de lhe ouvir. Como novo comandante-em-chefe em ação, ele ficará mais forte, mas o PMDB poderá cantar de galo e, afinal, dizer que “chegou lá”.
   
A verdade é que a presidente estava encurralada, experimentando derrotas sucessivas no Congresso, exatamente por falta de assessores competentes para estabelecer o diálogo entre os dois poderes. Quem primeiro tentou, mas desabou, foi o chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante, cuja antipatia percorre os corredores da Câmara e do Senado. Sentia-se, e provavelmente ainda se considera o príncipe do Palácio do Planalto. Dilma tanto pintou e bordou que agora lhe resta usar o baralho para jogar paciência, porque a sua prepotência e a sua arrogância foram para as quintas do diabo.
   
Ao entregar a uma raposa de gestos educados e finos a condução política do seu governo, ela ficará ao mesmo tempo nas mãos do vice e, de certo modo, nas do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, que muito rapidamente ganhou uma força política descomunal na Casa que preside onde é ouvido por seus pares. De tal modo que a bancada do PT se encolheu e perdeu a sua significância que antes exibia, por ter um poder indireto que nascia no Palácio do Planalto e agora passou a estar com o PMDB, dividido entre o vice-presidente Michel Temer e o próprio Cunha. Melhor deixar Calheiros à margem.
   
A primeira demonstração de habilidade de Michel deu-se quando, ao ser convidado para o cargo pela ausência de outro nome que se submetesse à prepotência de Dilma, a ela ele disse, de primeira, que faria a interlocução política, mas não aceitava a Secretaria de Relações Institucionais, desfeita no exato momento em que ele colocou a sua condição. Por que Michel Temer usou deste sábio artifício? Fácil entender. Não tendo o cargo e lançando ao lixo o ministério, ele trabalhará nos contatos políticos como vice-presidente, e não como subalterno da presidente da República. Teria mesmo que ser assim, ou nada.
      
Imaginem uma situação como a que se segue: Temer procurar Calheiros ou Eduardo Cunha e ao ser recebido com um “mas que prazer conversarmos, ministro, sobre os problemas republicanos”. Nada. Ele conversará como o segundo nome, quase o primeiro, que o País passa a ter. Foi uma resposta como poucas vistas dada a Dilma Rousseff, que antes o tratava com desdém e sequer era convidado para discussões do interesse do País. O vice, afastado, tinha apenas o direito, por ser sua casa, de receber políticos no Palácio do Jaburu para um jantar jogando conversa fora. Agora é diferente. A ele caberá dizer à presidente que quer um espaço na sua agenda para levar decisões que ocorrerão no Congresso e, logo, logo, as portas do gabinete presidencial ficarão abertas, além dos salamaleques com que ele será recepcionado pelo alto escalão do Planalto e pelos chamados “ministros da Casa”, que passarão a fazer-lhe mesuras.
  
Assim, com o prestígio em baixa, também junto ao povo (e até dentro do PT) Dilma entregou os anéis. Melhor do que perder os dedos. Não é, Lula?


* Coluna publicada originalmente na edição desta quinta-feira (9) do jornal A Tarde

Terça, 07 de Abril de 2015 - 19:31

Sem saída, Dilma 'fisgou' Temer

por Samuel Celestino

Sem saída, Dilma 'fisgou' Temer
Foto: Roberto Stuckert Filho/ PR
Sitiada, a presidente Dilma Rousseff necessitava, a qualquer custo, um integrante do PMDB para assumir a interlocução política entre ela e o Congresso, principalmente a Câmara, onde o presidente, Eduardo Cunha, hoje maior nome da legenda, parece irredutível em relação ao Palácio do Planalto. Dilma procurou Eliseu Padilha, seu ministro da Aviação Civil, ex-PMDB, por orientação de Lula. Padilha recuou e disse “não”. Seria, porque muito entende de política, o homem certo para satisfazer a necessidade urgente da presidente nos contatos políticos com o Congresso. Padilha deve ter pensado muito ou não pensou em nada e disse a negativa porque saber que seria uma tarefa dificílima. Tipo abacaxi. A Aviação Civil é melhor, porque há a tranquilidade de um céu azul tropical. Sem outra escapatória, a presidente arriscou o seu vice, Michel Temer, presidente licenciado do PMDB que, sem alternativa, disse “sim” porque, afinal ele é o vice-presidente e se dissesse “não” Dilma beijaria a lona. Temer agora é também ministro de Relações Institucionais, ou seja, o interlocutor do Palácio do Planalto e quem nele se encontra: a presidente. Resta aguardar para ver como o PMDB se comportará. Se Michel Temer rodopiar, será ele quem beijará a lona. Bem possivelmente, Eduardo Cunha não gostou nada e poderá dar o troco mais adiante.
Terça, 07 de Abril de 2015 - 16:07

Padilha recusa pedido de Dilma

por Samuel Celestino

Padilha recusa pedido de Dilma
Temer, ao lado de Padilha | Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil
A presidente Dilma Rousseff sofreu nova derrota na manhã desta terça-feira (7). Ela convidou, por sugestão de Lula, o seu atual ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha, para ser o coordenador político do seu governo, substituindo o atual, ministro Pepe Vargas, no Ministério de Articulação Política. A resposta de Padilha foi de que preferia continuar onde está. A presidente tem sofrido sucessivas derrotas no Congresso e a sua imagem perante a opinião pública é a pior possível. Seria, certamente, uma missão dificílima para Padilha, que por sinal é vinculado ao vice-presidente Michel Temer. Ex-integrante do PMDB, ele recebera informação, depois confirmada, de que o comandante-em-chefe da Câmara, na posição de presidente, deputado Eduardo Cunha, não estaria de acordo com a interlocução de Padilha. O parlamentar não ficaria satisfeito com a sua participação. Seria uma manobra do PT para facilitar o diálogo do Palácio do Planalto com o PMDB na Câmara. A relação entre o Congresso e o gabinete da presidente Dilma está longe de ser satisfatória.
Terça, 07 de Abril de 2015 - 08:40

O rugido do Leão é aviso aos navegantes

por Samuel Celestino

O rugido do Leão é aviso aos navegantes
Foto: Bahia Notícias
O secretário da Indústria e Comércio, James Correia, deixou o governo Rui Costa (PT) por espontânea vontade. Seis anos no cargo foram suficientes para demonstrar a que veio. Porque saiu é outra coisa. A principal questão é que o PP do vice-governador João Leão (que se escafedeu nas últimas semanas) tem, como sempre, uma fome de anteontem e é exatamente em relação a esta fome que surge a interrogação e um problema que poderá vir à tona no governo estadual. O PP baiano tem alguns nomes citados na Operação Lava Jato, dentre eles o próprio João Leão, que, ao saber que integrava a lista dos supostos envolvidos, respondeu de tal maneira que não combina com a educação política da Bahia, pelo menos a educação dos homens públicos de outros tempos, que zelavam pela postura e educação. De um vice-governador em tempo algum a Bahia conheceu uma resposta que maculasse a imagem de um cargo (também supostamente) que poderá vir a ser ocupado pelo político. Os homens públicos de hoje perderam a noção do que representam. Há, ainda, Mário Negromonte que integra o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), constantemente citado. A questão famélica acima citada se refere aos cargos públicos que o PP quer abocanhar, no caso específico os da Superintendência de Desenvolvimento Industrial e Comercial (Sudic), com avidez leonina. Se acontecer, poderá resultar em contratempo mais adiante, porque se está citado, o vice, no decorrer das investigações poderá chegar a uma situação complicada. É o que a relação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sugere. E não será nenhuma complicaçãozinha. Portanto, a fome de anteontem poderá  vir a ser, no momento e por ora, um aviso aos navegantes.   

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