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Fraco como se imaginava, ou se presumia, mas, para compensar, sem a violência que muitos entendiam que aconteceria ainda no rastro do motim de parte da PM. O Carnaval de Salvador visto à distância, como foi o meu caso, é uma festa interessante para quem dela participa pela primeira vez. Depois, e isso já acontece desde o inicio da década passada, é uma mesmice só, um repetição entediante pela ausência de criatividade. Teima em não se renovar. Hoje, é uma festa morna. Salvador, este ano, recebeu menos visitantes do que nas festas anteriores.

Ainda não está confirmado se o Carnaval deu, ou não, prejuízo aos seus organizadores, especialmente aos blocos e bandas com os seus antigos e irrenováveis abadás e, também, aos camarotes onde a festa é interna e a avenida é só um componente de quem consegue enxergar sobre as cabeças de quem fica à frente. Para quem gosta de consumo, especialmente etílico, é uma boa opção. Para quem pode pagar. E muito.

De outro modo, a festa é um cordão de elogios. Dirigidos às “celebridades” organizadas pelas autoridades e reverberadas pela mídia. Lembra-me a velha marchinha “cordão dos puxa-saco.” Tem, como inevitável, seus encantos e os seus desencantos. Com índice menor de violência do que o ano anterior, mas, em contraponto, com menor número de foliões ou curiosos nas ruas. A violência instalou-se, porém, na região metropolitana de Salvador.

Mais cômicos do que a fraca e tradicional Mudança do Garcia, permeada por elogios agradecidos aos seus patrocinadores, e das novíssimas Muquiranas perdidas no asfalto, foram os políticos. Impagáveis e exibicionistas. Cada um do seu jeito. O prefeito João Henrique preferiu soltar todos os seus diabos, como no belo frevo de Caetano Veloso, que encantou uma época melhor: “Deus e o diabo no Rio de Janeiro, cidade de São Salvador...”      

João experimentou todas as emoções que encontrou à frente. Pipocou com braços abertos e tatuados, com a sua morena também tatuada, e gastou um imenso, extraordinariamente imenso estoque de beijos, tipo chupada mesmo, que estavam adormecidos, creio eu, desde que nasceu. Com seu “paraíso” no braço mostrando ao público a tatuagem numa alegria adolescente, e ela, enamoradíssima, de igual maneira, com dois corações sobrepostos às iniciais JH. O casal tomou a avenida. João foi o campeão da alegria e do amor. Aproveitou como nunca outro alcaide fez nesta velha cidade as suas férias de prefeito, dançando e pulando com o diabo nos quadris, como está na música carnavalesca, aliás.

Ele, evangélico que recusava participar da Lavagem do Bonfim, desdenhava as festas populares da Bahia, como a de Iemanjá, mandou tudo às favas. Como o Carnaval - “uma invenção do diabo que Deus abençoou” - estava igual, ou pior do que aos anteriores, fixei-me em João Henrique. O amor transforma. JH então mandou tudo às favas e soltou as suas bruxas, duendes, anjos, diabinhos, e até a serpente bíblica de Adão e Eva.

Os políticos transformaram o Carnaval num périplo pelos camarotes e blocos, senão empoleirados sobre os trios, acenando para o povão suado abaixo, comunicando-se com sinal de positivo. Nelson Pelegrino e ACM Jr., os mais notados. Edvaldo Brito, também. Geddel resolveu twitar, e por aí fizeram a festa, mais interessados nos votos que não se encontra em festa de Carnaval. Pelo menos mostraram a cara. O governador Jaques Wagner, em outras épocas carnavalesco e integrante do bloco das Muquiranas, com o rosto marcado de jasmim (e a boca também) não vi na festa de onde me encontrava nas bandas do litoral norte. Apenas uma vez, nada mais. Devo dizer que a época das Muquiranas foi quando ele cumpria o seu primeiro mandato de deputado federal, saído do Sindiquímica. Lá se vão 20 anos de “chuva, suor e cerveja”.

Desapareceu. Não na multidão, mas na solidão de outros interesses, dentre eles conversas com a presidente Dilma, que já deve ter conta corrente na praia de Inema. Pelegrino, aliás, pareceu-me já se considerar prefeito. Esqueceu da lição de Jânio Quadros na disputa com Fernando Henrique Cardoso na disputa pela prefeitura paulistana. FHC se sentou na cadeira de prefeito de S.Paulo antes do tempo para ser fotografado. Em 48 horas o vento e os votos mudaram e ele foi sovado por Jânio (que antes de usar a cadeira desinfetou-a), assumiu depois de uma assepsia. Pelegrino reuniu-se com representantes de blocos, desenhou o futuro Carnaval do próximo ano, marcou outro para ser realizado em agosto deste ano, fora de época, aproveitado a estrutura que o governo montará para a corrida do stock-car e por aí foi, meio pierrô, meio colombina, piruetando Carnaval afora. A mim me parece que atravessou o ritmo e a harmonia.

Assim, do meu posto de observação, vi o Carnaval passar. Na sua mesmice, bandas ruins, repetitivo. “Celebridades” sem espaço no Carnaval da Sapucaí, homenageadas nessas plagas, na verdade sem o menor significado. A festa, enfim, foi salva por João Henrique com a sua nova conquista. Dois pombos na avenida pipocando em amor total, incontrolável. O Romeu municipal, quem diria, é melhor de beijos do que de gestão. Que pena, João, o Carnaval passou. Mas o que vale mesmo é que a paixão fervilha. E sem máscara, porque ela rolou pelo asfalto. Mas fica a saudade, a inesquecível saudade tatuada nos braços.

*Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde deste domingo (26).


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