Terça, 16 de Janeiro de 2018 - 11:00

Rosemberg Valverde, professor da Uefs

por Francis Juliano

Rosemberg Valverde, professor da Uefs
Foto: Divulgação

Qual será o rumo da economia baiana para 2018? Para o professor de economia da Universidade de Feira de Santana (Uefs), Rosemberg Valverde, o crescimento dependerá do aumento dos investimentos públicos e privados, além da elevação no grau de consumo das famílias. Sem isso, o que pode ocorrer, de forma otimista, é o que chama de “voo da galinha”, um pulo tímido que não leva a lugar nenhum. Em entrevista ao Bahia Notícias, o docente disse que no caso da economia do estado ainda pesam o fato de a indústria, comércio varejista e serviços estarem abaixo da performance nacional. Para Valverde, o caso de Novo Triunfo, cidade do nordeste baiano, apontada recentemente como a mais pobre do país pelo IBGE, não surpreende. Segundo ele, a realidade ali é comparável à maioria dos municípios do semiárido do estado, que vivem em situação “preocupante”. Em relação à criação de empregos no estado, o professor se mostra pessimista. “Por falta de capilaridade da sua estrutura industrial, a Bahia é incapaz de criar empregos médios de qualidade. Isso gera desigualdades incontestes na estrutura da distribuição da renda, que permanece perversamente concentrada”, afirma. Leia a entrevista na íntegra abaixo:  


Foto: Divulgação

 

Quais as perspectivas para a economia baiana em 2018?

A economia brasileira/baiana parece ter deixado para trás uma das recessões mais fortes da história. Em novembro de 2010, a economia brasileira atingiu uma taxa de crescimento acumulada em 12 meses em torno de 8,5%. Crescíamos a um ritmo chinês. Entretanto, as políticas expansionistas de demanda, que sustentavam essas taxas de crescimento, esgotaram-se por conta do endividamento das famílias e do Estado. A produção começou a recuar e atingimos o fundo do poço em julho de 2016, com uma taxa acumulada em 12 meses de menos 5,5%. Foi um tombo de 14%. A partir daí iniciamos uma recuperação cíclica e devemos terminar o ano de 2017 – os dados finais ainda não foram divulgados – com uma taxa de crescimento em torno de 0,8%. É natural, depois de um tombo tão grande que a economia se comporte melhor em 2018, apresentando, para sermos otimistas, uma taxa de crescimento entre 2,5% e 3%. A questão é saber se essa taxa de crescimento é sustentável em médio e longo prazos ou se estamos diante de um novo voo da galinha [voo baixo].

 

O senhor acredita em uma retomada firme do crescimento econômico ou em um “voo de galinha”?

Tudo dependerá da retomada dos investimentos privados e públicos bem como da retomada do consumo das famílias. Por enquanto, depois do início da recuperação, o único elemento da demanda agregada que vem respondendo bem é o comércio exterior. Os saldos positivos da balança comercial vêm cumprindo o seu papel, sendo o principal responsável pela recuperação do crescimento. Entretanto, devemos ficar atentos que não estamos diante de um novo boom de commodities [matérias-primas, como produtos da agricultura e da mineração, por exemplo]. Apenas soubemos aproveitar a retomada do crescimento da economia mundial, que promoveu certa recuperação dos preços dos produtos da nossa pauta de exportações e conquistamos novos mercados com um aumento forte dos volumes exportados. Isso é válido tanto para a economia brasileira quanto para a economia baiana, cujo fraco desempenho da indústria, comércio e serviços foi compensado pelo dinamismo do agronegócio.

 

Estamos longe ou próximos de uma retomada de investimentos?

Eu diria que não estamos tão próximos quanto gostaríamos. Existem três razões para isso. Primeira, o nível de capacidade ociosa na indústria ainda é elevado. Antes de um aumento firme da utilização da capacidade produtiva, pelo menos aos níveis pré-crise, o espírito animal do empresariado continuará adormecido. Segunda, o setor de construção civil, importante elemento da formação bruta do capital fixo, ainda levará algum tempo para voltar a crescer. Isso por que a demanda por moradias esbarra no endividamento das famílias e em um excesso de oferta existente no mercado. Há também o envolvimento das principais construtoras do país com a Operação Lava-Jato, que restringe a capacidade de investimento dessas empresas. Isso sem falar que o endividamento dos estados reduziu bastante a capacidade de investimento em infraestrutura e construção pesada. A terceira e última razão diz respeito ao fato de que as decisões para investimentos – em máquinas e equipamentos e inovações tecnológicas – estão condicionadas aos riscos e incertezas políticas que estarão fortemente presentes até pelo menos o final do ano de 2018, quando a sociedade brasileira vai decidir quem será o novo presidente da República e a composição do Congresso Nacional. Em síntese, os investimentos públicos e privados se recuperarão de forma mais lenta que o desejado.

 


Foto: Reprodução / Repórter Coragem

 

Como o senhor falou, o crescimento da economia brasileira para 2018 está associado ao desempenho do comércio exterior e à recuperação do consumo das famílias. No caso da economia baiana, existe alguma particularidade?

Esse cenário tende a reproduzir para a economia baiana, com alguns agravantes. Se o agronegócio tem apresentado um desempenho superior ao conjunto da economia brasileira, condicionado sobretudo pela produção de grãos, o comportamento da indústria, comércio varejista e serviços encontram-se abaixo da performance nacional. A taxa de desocupação [setor imobiliário] é também maior na Bahia (16,7%) que no Brasil (12,4%). A informalidade também é maior que a média nacional. Tudo isso dificulta uma retomada mais firme das taxas de crescimento econômico na Bahia. 


O que explica esse relativo descompasso entre a economia baiana e a economia brasileira?

Temos aqui um problema estrutural. Em que pese os esforços empreendidos pelo Estado, a Bahia apresenta uma forte concentração produtiva, espacial e de rendas que se retroalimenta. Trata-se de um velho e consensual diagnóstico. Esforços têm sido empreendidos para diversificação da estrutura produtiva e desconcentração espacial. Entretanto, até aqui, não conseguimos romper esse círculo.

 

Como ocorre essa concentração produtiva?  

As atividades industriais ainda continuam muito concentradas na Região Metropolitana de Salvador (RMS), com base nos setores químico, petroquímico, metalúrgico e na indústria automobilística. Todas essas atividades são capital intensivo. As duas primeiras (química/petroquímica) produtoras de bens intermediários, pouco integrado com a estrutura produtora de bens finais e, portanto, de baixa absorção de mão de obra. A indústria automobilística oferece mais possibilidades de integração com o restante da estrutura industrial, mas ainda não desenvolveu o seu potencial gerador de encadeamentos produtivos, multiplicador de produção renda e empregos. Fora da RMS, os problemas de falta de capilaridade da estrutura industrial da economia baiana persistem. Vamos tomar como exemplo as atividades ligadas à produção de papel e celulose, localizadas principalmente no extremo sul do estado. Esse segmento produtivo é o segundo ou terceiro mais importante na estrutura industrial da Bahia, são também capital intensivo. Além dos problemas ambientais e sociais, ligados principalmente ao uso da terra, também apresenta baixa integração com o restante da estrutura industrial do Estado.

 

Foto: Reprodução / Repórter Coragem

 

Isso impacta no crescimento econômico do estado... 

Essa estrutura industrial condiciona as trajetórias de crescimento econômico do estado. Para focar em um único aspecto, por sua relevância econômica e social, vamos tomar os efeitos decorrentes da estrutura industrial da Bahia sobre a demanda de mão-de-obra. Esses efeitos ocorrem principalmente de forma indireta, a partir do desenvolvimento das atividades de serviços e construção civil. Isso explica uma parte significativa do forte nível de desemprego e informalidade bem como na qualidade do emprego gerado. Deve-se observar que a relação entre desemprego e educação para a Bahia assume uma forma bem definida de um U invertido. Isso significa que o desemprego da parcela da população com baixa escolaridade é tão baixo quanto o que atinge a parcela da população com 15 ou mais anos de estudos. De forma esdrúxula, o desemprego aumenta com a escolaridade. Essa situação permanece até que os indivíduos completem o ensino superior, quando a empregabilidade e a renda do trabalho aumentam substancialmente. Por falta de capilaridade da sua estrutura industrial, a Bahia é incapaz de criar empregos médios de qualidade. Isso gera desigualdades incontestes na estrutura da distribuição da renda, que permanece perversamente concentrada. Reduz o potencial de crescimento econômico.


A Bahia tem regiões desenvolvidas, como o extremo oeste e a região metropolitana de Salvador, mas bolsões de miséria. O que o Estado deve fazer para diminuir essas diferenças?

Essa é uma questão importante, mas muito difícil de ser respondida. Em busca de soluções aos problemas decorrentes da forte concentração espacial e produtiva da economia baiana, estratégias governamentais têm sido empreendidas há pelo menos 50 anos. Para termos uma ideia da dimensão do problema basta lembrar que a região semiárida da Bahia ocupa quase 70% do território, e 62% dos municípios baianos pertencem a essa área. Toda essa região apresenta níveis de pobreza preocupantes. Não é surpresa que o município mais pobre do Brasil, medido pelo PIB per capita, Novo Triunfo (ver aqui), localiza-se nessa região. Dentre os municípios baianos, aqueles com os menores índices de desenvolvimento humano do estado também se encontram na região do semiárido. É também preocupante o fato que a maior parte dos municípios baianos sobrevivem às custas de transferência de recursos da União ou do Estado. A concentração da produção de riqueza em poucos municípios também reduz a capacidade de arrecadação tributária do Estado e, por conseguinte, a sua capacidade de investir em bens públicos, infraestrutura etc.

 

Novo Triunfo / Foto: Reprodução / Blog do Carlino Souza

 

O que fazer então em termo de políticas públicas para reduzir essas diferenças de desenvolvimento?

Podemos tomar como base a definição dos territórios de identidade para a o Estado da Bahia. É preciso acelerar a integração dos sistemas logísticos tomando por base as “capitais” de cada um dos territórios de identidade. Isso é fundamental para assegurar as complementaridades técnico-produtivas entre cada território. Concomitantemente, é necessário identificar em cada território de identidade os arranjos produtivos e clusters [produtos agregados, em tradução livre] com potencial para gerar externalidades positivas, principalmente aquelas geradoras de renda e emprego. Essas atividades não podem ser pensadas isoladamente ou restritas ao desenvolvimento local. A única forma de torná-las dinâmicas e sustentáveis é integrá-las em cadeias produtivas e cadeias de valor mais amplas, regionais, nacionais e internacionais. Até aqui, as políticas públicas feitas com o objetivo de promover a desconcentração produtiva na Bahia têm sido desenvolvidas em termos de arranjos produtivos locais, com baixa capilaridade e baixa integração a cadeias de valores mais amplas. Enfim, veja que a proposição aqui não é reinventar a roda, mas promover um redesenho de certas políticas públicas. Contudo, é importante frisar que o desenho das políticas públicas é tão importante quanto as políticas em si.  

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