Sexta, 05 de Janeiro de 2018 - 08:05

O passado sempre presente

por Aline Castelo Branco

O passado sempre presente

 

Dizem que é para gente viver o agora. Viver o hoje sem pensar no amanhã ou relembrar o que passou. Como? Se o maldito, aliás, bendito passado sempre aperta a campainha pra dizer: olá, estou aqui!

 

Eu acabei abrindo a porta para ele. Estava na prateleira no meio da minha humilde biblioteca “Os cem melhores poemas brasileiros do século”. Na semana  que a nostalgia me toma inevitável seria deixá-lo de lado, assim como meu passado. Foi um retorno inesperado.  Ao folhear a página amarela e ver o  sentimento registrado na letra trêmula senti que, um dia, fui amada. A dedicatória era essa:

 

“Pra você que tem a métrica perfeita no sorriso. Que deixa os sonhos em forma de rima. Que tem a estrofe certa e  o verso preciso. De sua vida em poema, uma obra prima”.

 

Mas não era apenas isso. Tinha muito mais. A cueca Box preta está na gaveta das calcinhas até hoje. Por incrível que pareça eu uso quando preciso vestir uma saia curta. Nossa…. vem uma sensação estranha como se ele estivesse em mim.

 

Destruir objetos que nos fazem por alguns instantes acelerar o coração feito o início de uma paixão não é nada fácil. Manter esses elementos é um sinal de estarmos vivos, ou que, em algum momento, vivemos algo importante.

Pelo menos, comigo é assim.

 

Certa vez fui pegar um documento nas centenas de papéis espalhados na escrivaninha  e quem encontro: minha caixa rosa. Na verdade é meu conto de fadas. É onde guardo meus sonhos e os melhores acontecimentos da minha vida. E lá estavam dezenas de cartas, bilhetes e fotos.  Havia tempo que não abria a caixa rosa. Talvez, por medo desse reencontro. Talvez, para manter distante a certeza que tentava evitar: ele ainda permanecia nos pensamentos. Um misto de alegria e tristeza consumiu  o semblante que ora embarcava na carruagem do amor  do passado, ora tentava expurgar lembranças antigas. 

 

Nesse momento queria ter o desapego de um Vinícius de Moraes. Ter o desapego para fugir e, quem sabe, coragem para apagar uma linda história. Mas não consigo. Sou extremamente apegada. Pronto!

 

Sei  lá, assim me sinto viva tendo a certeza de que estive em boa compainha. Sei também que um dia a cueca vai parar no lixo, as cartas serão comidas pelas traças, o lençol do nosso aconchego será substituído por outro. O violão…..vixe! O que farei com o violão se meus dedos paralisaram e esqueceram as notas sem você? Está  bom, o violão fica em cima do guarda-roupa até ter vontade de tocar novamente.  Mas, por enquanto, prefiro ver todos os objetos que deram significado à nossa relação pertinho,  espalhados pela casa e pela minha memória.   

 

Com vocês já aconteceu algo assim?

Aline Castelo Branco é jornalista, escritora e educadora sexual

@brancoaline

aline@mundodaintimidade.com.br

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