Missão herdada por Maria Rita é exemplo de solidariedade e inspira diversas mulheres
Fotos: Bahia Notícias

O que seria um trabalho temporário de apenas três meses, enquanto Irmã Dulce estava doente em 1991, acabou tornando-se permanente. Ao longo dos últimos 26 anos, Maria Rita Pontes, sobrinha de irmã Dulce, tem se dedicado totalmente às obras deixadas pela tia.

 

Este trabalho de doação aos mais necessitados, uma missão herdada, transformou a vida de Maria Rita e continua transformando a de milhares de pessoas beneficiadas. Maria Rita, hoje, é um exemplo de persistência na caridade e com o grande poder que tem de administração mostra que todas as pessoa podem desenvolver o dom de servir, simplesmente doando o que de melhor sabe fazer.

 

Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maria Rita é superintendente das Obras Sociais de Irmã Dulce (Osid) e tem influenciado diversas outras mulheres num novo projeto que acabou de ser lançado: as Amigas de Dulce. Conheça mais sobre esta história e se inspire.

 

Como foi o início do seu trabalho com Irmã Dulce?

O que se seria um trabalho temporário de apenas três meses, acabou tornando-se permanente, transformando minha vida e se tornando uma razão de ser feliz, servindo ao próximo. Gosto muito do meu trabalho, exatamente porque não encontro tempo para pensar nos meus problemas, somente para resolver os problemas e dificuldades diárias da Osid. Sou jornalista de formação, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde nasci. Nos primeiros anos em Salvador, sentia saudade da minha terra, mas logo passei a amar Salvador e as pessoas ao meu redor, como meu lugar, minha família.

 

Como é sua rotina?

Costumo rezar, tenho muita fé, não me levanto sem minha oração, confio na providência divina e na intercessão de irmã Dulce. No dia a dia tenho uma agenda bem movimentada, de reuniões com os conselheiros, gestores e lideranças da Osid, audiências com gestores municipais, estaduais e federais, compromissos sociais, eventos religiosos, enfim não tenho uma rotina. A agenda é muito flexível para atender às demandas e sempre pode mudar.

 

Como foi o convite para assumir esta obra?

Iniciei este trabalho em 1989 apenas para dar um apoio como membro do conselho de Administração. Em 1991, deixei o Conselho e assumi interinamente o cargo de superintendente. Com a morte de Irmã Dulce, em março de 1992, por deliberação do Conselho, assumi a Superintendência das Obras. Irmã Dulce havia deixado, também, uma carta testamento na qual pedia que eu assumisse a gestão da Osid. Ela nunca falava deste assunto comigo, dava sempre indiretas, pois eu sempre falava que poderia contribuir apenas com textos, reportagens e com as cartas, na verdade com o que eu achava que sabia fazer. Sempre ouvia: “Deus não escolhe os capacitados, Ele capacita os escolhidos”. Nunca achei que conseguiria. Num primeiro momento, fiquei muito preocupada com o tamanho da responsabilidade, mas me apeguei numa fala de Irmã Dulce, que dizia: "Esta obra não é minha. É de Deus. E o que é de Deus, permanece para sempre." É verdade! A Osid continua viva e cresce em tamanho e qualidade a cada dia... Isso me faz muito feliz!
 

Antes de assumir os trabalhos da Osid você escreveu o livro “Irmã Dulce do Pobres”. Imaginava que teria esta missão? E como foi a inspiração para escrever este livro?

Não,  nunca me imaginei nesta missão, mas o contato permanente com minha tia e o seu trabalho me ajudou e me influenciou bastante a dar continuidade às suas Obras. O livro surgiu de uma vontade de Irmã Dulce, ela dizia: “Eu não quero nada, mas quero tudo para divulgar e ajudar meus pobres”.

 

Nos relembre como este trabalho de irmã Dulce começou?

Começou arrombando casas para abrigar os primeiros doentes, até conseguir a permissão da madre superiora para transformar o galinheiro do convento em uma enfermaria improvisada, para 70 pacientes. É o único hospital no mundo que nasceu de um galinheiro! No início ela ia atrás dos necessitados, com o tempo a fama se espalhou e as pessoas passaram a procurar o convento para pedir a ajuda dela.

 

Quais as características de irmã Dulce que você considera que ajudaram ela a dar seguimento a esta obra?

Ela tinha muita fé, era obstinada e tinha muita humildade. Certa vez um feirante a quem ela tinha acabado de pedir dinheiro cuspiu na mão dela, ela limpou a mão e num ato de muita humildade estendeu a outra mão dizendo algo assim: “Esta foi para mim, agora me dê para meus pobres”. A fé dela em Santo Antônio, também, era admirável. Ela fazia pedidos ao santo, colocava ele de cabeça para baixo, de castigo na chuva e nos Sol até conseguir a benção que pedia.

 

Recentemente foi lançado o Projeto Amigas de Dulce. Como surgiu esta ideia?

Foi uma inspiração da nossa amiga e conselheira Rosemma Maluf, que sabendo das nossas necessidades para captar recursos para concretizar um projeto de extrema prioridade, criou com a ajuda de uma centena de amigas uma Rede do Bem para requalificar a Unidade Dona Dulce, que irá acolher, de forma mais humana, milhares de pacientes com câncer, em tratamento na nossa Unidade de Oncologia. O nome é uma homenagem à mãe de Irmã Dulce, minha avó.

 

Como e quem pode participar?

Qualquer mulher, de forma voluntária, pode nos apoiar em várias ações para captar os recursos para construção da Unidade Dona Dulce. Para integrar a Rede é só enviar um e-mail para: amigasdedulce@irmadulce.org.br
 

Hoje a Osid é a maior entidade filantrópica do país? Fale, por favor, um pouco sobre a instituição. 

A Osid é uma das maiores entidades filantrópicas do país, 100% SUS, com 954 leitos. Possui um perfil único, que atende a pacientes agudos, crônicos, dependentes de álcool e outras drogas, crianças, idosos, portadores de deficiências, fissurados, pacientes com câncer e moradores de rua. Um trabalho que continua em consonância com a filosofia de servir de irmã Dulce, seguindo a natureza do projeto que é acolher aos necessitados de uma forma humana.

 

Os números da Osid chamam atenção. Quantos atendimentos vocês chegam a realizar e contam com quantos voluntários?

Sim, nossos números impressionam. Temos 2.500 (70% mulheres) de profissionais celetistas, profissionais médicos são 500, 40 mil metros quadrados de área construída, 1.000 kilos/dia de roupa lavada e 5.500 refeições servidas, por dia. No complexo Roma, nossa sede na Cidade Baixa, são contabilizados por ano 2 milhões de atendimentos ambulatoriais. Temos outras 3 unidades do estado que administramos: em Barreiras, em Santa Rita de Cássia e em Irecê. No total são quase 4,5 milhões de atendimentos, por ano, em todo o estado. Atendemos diariamente cerca de duas mil pessoas, na nossa sede, onde são realizadas quase 10 mil cirurgias, além de mais de 16 mil internamentos por ano. Possuímos cerca de 120 voluntários de diversas áreas e agora passamos a contar com a ajuda de mais de 100 mulheres da Rede Amigas de Dulce, e pelo que percebemos esta Rede tem muito potencial para crescer.

 

Para manter uma estrutura desta os custos devem ser elevados, poderia nos dar exemplos?

Gastamos mensalmente R$ 260 mil e R$ 120 mil só de energia e água, respectivamente. De gêneros alimentícios, só para se ter uma ideia gastamos: 3.200 kilos de arroz, 1.500 kilos de feijão e 1.300 kilos de leite em pó, por mês. Só de medicamentos são mais de um milhão por mês. Gastamos mais de 12 milhões de reais para manter as Obras em funcionamento. Os custos aumentam sempre acima da receita, devido à complexidade dos pacientes internados. Nossa instituição é 100% SUS e com esta dimensão só conseguimos sobreviver graças às doações da comunidade e dos sócios protetores.

 

Na sua opinião, qual o legado que irmã Dulce nos deixa?

Um legado de amor, de solidariedade, de esperança e fé. Ela é um exemplo muito forte num país carente de valores, com ela podemos aprender que é possível transformar a vida de pessoas com o apoio da sociedade, dos poderes públicos e empresários.

 

Como está o processo de canonização de Irmã Dulce? E o que significará para a Bahia e o Brasil? 

O processo de beatificação foi concluído em 2010. O processo de canonização está em andamento e esperamos, muito em breve ter a nossa Irmã Dulce como a primeira Santa genuinamente brasileira. Este passo conclusivo é muito importante para a perpetuação das suas obras, garantindo a sua missão e valores cristãos.
 

Como baianos devemos nos orgulhar de termos em Salvador o maior projeto social do país? 

Sim, devemos sempre nos orgulharmos, irmã Dulce é soteropolitana. De fato muitos estados gostariam de ter Irmã Dulce em seu território, a exemplo do Ceará, Sergipe, Pernambuco e São Paulo, onde é grande a devoção pelo Anjo Bom da Bahia.

 

De que forma as pessoas podem conhecer mais sobre a Osid?

Nossas portas estão sempre abertas para quem quiser nos visitar. Temos um belíssimo memorial com visitas guiadas e muitas informações para crianças, jovens e adultos. E estamos nas redes sociais para quem quiser nos conhecer um pouco mais. 

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