Bahia Notícias: Antes de tudo, gostaria de saber qual o caminho que o senhor percorreu até assumir o atual cargo de diretor médico no Hospital Santa Izabel.
José Madureira: Meu nome é José Ricardo Madureira, sou médico de formação,graduado em Medicina em 1994, pela Universidade Federal da Bahia [UFBA], posteriormente pós-graduado em Doenças Infecciosas e Parasitárias, pela Universidade Estadual Paulista [UNESP], em Botucatu. Retornei ao estado da Bahia em 1997. Comecei a trabalhar no hospital Santa Isabel em 1998, como funcionário do Serviço de Controle de Infecções Hospitalares. Ainda pela instituição fiz dois cursos de especialização: em Administração Geral e depois um MBA de Gestão Hospitalar pela Fundação Getúlio Vargas [FGV]. Atualmente eu ocupo o cargo de diretor médico, que é o responsável pelos serviços do hospital.Responsável pelo serviço médico, de enfermagem, psicologia, fisioterapia, toda a espécie de internação que o paciente venha a necessitar dentro do hospital.
BN - Há quanto tempo o senhor está nesse cargo?
JM - Eu ocupo o cargo há dois anos. Anteriormente, como eu disse, fui médico do Controle de Infecção. Em 2004, me tornei assistente da Diretoria Médica. Em 2009 me tornei gerente médico de uma parte do hospital junto com dois colegas que também gerenciavam e, agora, o cargo de diretor médico.

BN - Eu percebi na sua palestra [Madureira foi um dos palestrantes do 3º Meeting de Saúde] que o Santa Izabel passa por uma mudança que ainda está em curso. Quando começou essa mudança e qual era o estado anterior do hospital?
JM - Para falar da mudança da instituição é preciso fazer um resgate histórico mais longo. Em 1994, 1995, a Santa Casa [de Misericórdia da Bahia] decidiu por uma gestão profissionalizante.
BN - Como era antes?
JM- Como a maioria das Santas Casas, existia um problema muito sério de subfinanciamento. As Santas Casas viviam e ainda vivem uma dificuldade muito grande na manutenção de um hospital. Você precisa estar constantemente investindo em tecnologia. Você precisa estar ampliando, capacitando, qualificando o hospital. E ,com esse subfinanciamento, que muito é provocado e que muitos brasileiros reconhecem pela fonte pagadora a defasagem que é o Sistema Único de Saúde [SUS], a Santa Casa decidiu naquele momento: primeiro qualificar a sua gestão, contratar pessoas que realmente tivessem vocação para uma administração hospitalar, que é uma administração complexa. Segundo: ampliar o leque de fontes pagadoras. Então, uma saída foi aumentar a capacidade de atender outras fontes pagadoras, as operadoras de saúde. Paralelo a esse processo, buscar uma requalificação profissional de toda equipe, principalmente o corpo de enfermagem e de fisioterapeutas, todo o corpo assistencial de um hospital, para que a gente tivesse condições de sustentabilidade. Estamos falando de 1994 até mais ou menos 2009, quando assumiu a provedoria de Antônio Rodrigues Alves. E este momento, que é a segunda etapa que estamos vivendo, foi rediscutido um planejamento estratégico e quais as áreas que iríamos vocacionar. O Hospital Santa Izabel já é um hospital especializado, competente nas áreas de Cardiologia, Oncologia, Ortopedia, Reumatologia, Otorrinolaringologia... Então, nós discutimos esse planejamento estratégico. Precisamos vocacionar o hospital, dar a essas especialidades estrutura e infraestrutura para que elas se sustentem e possam crescer em qualidade. Então, aquele momento foi de decidir quais seriam as áreas de maior investimento de qualificação e como seria esse processo. É isso que estamos executando nesse momento: substituindo o parque tecnológico, melhorando a qualificação de nossas enfermarias. É um processo de qualificação do hospital como um todo. Você não pode, por exemplo, qualificar o centro cirúrgico e não qualificar a enfermaria, pois quando o paciente entra numa instituição hospitalar, ele pode circular por toda uma rede de serviços dentro do hospital.
BN- Você poderia dar um diagnóstico de como estão as Santas Casas no país?
JM- As Santas Casas na sua maioria correm o risco, principalmente as de menor porte, de menor tamanho, correm o risco de insolvência, de incapacidade de manter suas portas abertas, principalmente as Casas que atendem procedimentos de menor complexidade, que estão localizadas no interior de nosso país. Isto é uma forma muito generalista. As Santas Casas de melhor condução hoje em nosso país são as localizadas nos melhores centros, e eu poderia citar, com algum cuidado, a de Porto Alegre, São Paulo, a da Bahia... Mas com muito cuidado também, porque eu posso estar esquecendo de alguma Santa Casa que consegue uma sustentabilidade.

BN – Qual a importância desse evento não só para o meio, mas também para o Santa Izabel. É importante o Santa Izabel estar organizando um evento como esse? Faz parte do plano estratégico?
JM - Faz parte de nosso planejamento dar visibilidade ao hospital, ser reconhecido pela comunidade em nosso estado e na região Nordeste. Um hospital capaz de dar um atendimento de qualidade, seguro, esse foi o tema central “Qualidade e Segurança”. É a oportunidade de trocarmos experiência. Aqui nesse evento foram convidados gestores de organizações públicas, gestores da saúde suplementar, lideranças médicas do próprio hospital, de fora, de outros hospitais, ou seja, é sempre uma oportunidade de a gente ouvir, aprender , trocar informações e na verdade criar laços de oportunidade de troca de experiência.
BN- Sobre esse tema Segurança nas Instituições Hospitalares como se encontra a Bahia?
JM - A questão da qualidade e segurança como um programa das instituições hospitalares no eixo Norte e Nordeste se encontra numa fase ainda inicial em comparação ao eixo Sul e Sudeste do país, e em comparação às ações de fora, principalmente as americanas. Mas há uma sensibilização, haja vista como as pessoas permaneceram atentas e debateram. Aqui no nosso estado nós já temos organizações que têm selo, acreditação, que nada mais é que uma ferramenta, uma metodologia de avaliação externa de uma instituição para checar se aquela instituição apresenta aspectos de qualidade em suas atividades rotineiras. No nosso país existe uma organização específica voltada para certificação de hospitais ligado ao Ministério da Saúde, que é a Organização Nacional de Acreditação (ONA). No estado da Bahia já temos hospitais acreditados pela ONA. Nós não somos no Santa Izabel , mas independente de não termos hoje uma avaliação externa para a acreditação, decidimos que devemos perseguir esse objetivo. Portanto, o que a gente inicia no momento, e considera oportuno, é a gente já mostrar a comunidade o que se pretende fazer em relação à segurança dos pacientes. Existe um desafio da Organização Mundial de Saúde desde 2005 voltada à segurança de pacientes em rede mundial em aspectos relacionados a cirurgias seguras, assistência farmacêutica, evitar erros de medicamentos. Então, existe uma política mundial com esse tema.