Janot critica Temer por dificultar investigação internacional sobre ex-ministro Serra
Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

Antes de deixar o cargo de procurador-geral da República, Rodrigo Janot desabafou com colegas procuradores-gerais sul-americanos, no dia 23 de agosto, durante uma reunião em Brasília. De acordo com informações do G1, ele queixou-se da forma como o governo brasileiro vinha dificultando equipes conjuntas de investigação internacional. Um dos exemplos dados por Janot foi o pedido feito ao presidente Michel Temer, no início deste ano, para autorizar apurações por meio de força-tarefa com investigadores da Espanha, em um caso que envolveria o então ministro de Relações Exteriores José Serra. “Houve a criação, no âmbito do Ministério da Justiça, de órgão chamado DRCI [Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional], que originalmente não tinha essa vocação, que depois absorveu a matéria de formação de equipes conjuntas. Depois, ao longo do tempo, se viu que o objetivo foi exatamente esse: de criar embaraços na formação dessas equipes conjuntas, de um lado, e, de outro, ter acesso às provas sigilosas que muitas vezes envolvem pessoas do próprio Executivo”, disse o ex-procurador-geral. Segundo Janot, a Espanha teria identificado uma empresa que transferia dinheiro para campanhas de políticos brasileiros em troca de suborno, quando contratada no Brasil. O problema, no entanto, era que a tramitação do assunto no governo passaria justamente por um dos suspeitos, José Serra, que por ser chanceler, deveria produzir o texto para formalizar a equipe de investigação internacional. “Naquela época, eu ainda não tinha uma ação penal contra o presidente nem investigação. Fui ao presidente da República e disse: ‘Presidente, como é que nós vamos montar uma equipe conjunta cujo objeto é investigar o chanceler se esse ato deve ser feito pelo chanceler?’ Depois que o DRCI libera a parte técnica, ele é feito pelo chanceler’”, contou, revelando que Temer teria dito que o tema seria tratado pela Casa Civil e pelo Ministério da Justiça. “Isso tem uns seis meses. Não houve um ato de instrução sequer no pedido de investigação de equipe conjunta com a Espanha”, acrescentou Janot.

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