Fechine manda matar os pagodeiros e não sente orgulho das músicas que fez para o Tchan


Ele Faz de tudo nessa vida: é cantor, compositor, comediante, locutor e agora resolveu assumir também, o seu lado ator na peça em cartaz “Os Cafajestes”. Com um bom humor de dar inveja em qualquer mortal, Renato Fechine concedeu esta divertidíssima entrevista à Coluna Holofote e contou como foi o seu início de carreira: antes de descobrir seu lado humorista, ele queria ser roqueiro. E as excentricidades de Fechine não param por aí: nesta entrevista exclusiva, ele conta de cada uma das suas facetas, qual a mais prazerosa e a mais rentável também. Comediante por natureza, ele diz que é muito temperamental e explica o porquê de nunca parar em um emprego. Renato também conversou sobre essa nova fase na rádio Tudo FM, sobre como é trabalhar com Raimundo Varella e disse que tirando o Harmonia do Samba e a Guig Ghetto, “pode mandar matar o resto dos pagodeiros” e sobre suas composições para o grupo É o Tchan, há muito tempo atrás, ele dispara: “não sinto orgulho, mas o Tchan me deu muito dinheiro”. 


"Modéstia à parte, se eu me propuser a fazer uma coisa, pode ter certeza de que vai sair 'marromenos'”



Coluna Holofote: Você tem quantos anos de carreira?
Renato Fechine:
Desde os meus 12 anos que eu trabalho com arte profissionalmente. Eu queria ser roqueiro e virei palhaço. Porque na medida que você vai ficando mais velho, você vai perdendo alguns tipos de vergonha. Porque música, além de ser uma coisa muito cara, é como futebol: no meio de mil, passam dois e o resto sobrevive. Então, eu tive que diversificar.



CH: E como foi o início da sua carreira?
R.F:
Eu encontrei dificuldades, normal. Mas eu não vou dizer que passei fome. Nunca precisei disso, graças a Deus. Em João Pessoas, onde eu morava e nasci na Paraíba, eu me encantei com a música. Eu tinha um professor que tinha uma guitarra e a hora que eu tinha que ir para a aula, era a hora que a guitarra estava livre. Então, eu não ia para a aula, eu ia para a casa dele tocar guitarra e eu acabei perdendo o ano por falta. Aí, minha mãe enlouqueceu e resolveu me mandar para Salvador, dizendo que era meu castigo. Maluca. Aí, eu cheguei aqui e fui pisoteado no Porto da Barra, porque eu me deparei com um caminhão com um monte de cabeludo tocando em cima e a partir daquele dia eu falei “eu quero fazer aquilo ali”. E aí eu comecei a estudar guitarra mesmo, sério, ingressei no trio elétrico do Camaleão, com a banda Salamandras, aos 13 anos e estou caminhando até hoje.



CH: E como foi que você descobriu que tinha vocação para humorista e decidiu seguir carreira?
R.F:
Aí não foi eu, não. Foi o povo. Rapaz, eu vivo curtindo da vida, do meu dia-a-dia e graças a Deus, eu tenho a capacidade de curtir com a minha própria cara e eu acho que isso ajudou muito. Então, trabalhando eu sou assim, eu fico imaginando situações e riu de tudo, Mas também, quando eu estou virado no “estopô”, sai de baixo.



CH: E afinal de contas, Renato Fechine é cantor, comediante ou ator?
R.F:
Rapaz, eu sou um cara gente boa, que sobrevive através da arte. Seja tocando, seja cantando forró, seja fazendo meu show de humor, seja no teatro, porque agora me arrumaram mais uma função, seja como publicitário, como jinglista, compositor...



CH: Mas qual o seu foco?
R.F:
Minha filha, pobre não tem direito de ter foco, não. Quem tem foco é Ivete, esse povo rico. Pobre se vira.



CH: Mas em que você acha que se sai melhor?
R.F:
Modéstia completamente à parte, se eu me propuser a fazer uma coisa, pode ter certeza de que vai sair “marromenos”.



CH: Você agora está mostrando seu lado ator na peça Os Cafajestes. Como surgiu a proposta?
R.F:
Eu comecei como guitarrista, eu te falei isso, e eu sou da primeira leva do axé music com Sarajane, Ricardo Chaves... (Celular toca e Renato atende: “Estou dando entrevista, viu? Sou chique, depois eu retorno. Não sei nem quem é”) e aí surgiu a oportunidade de fazer um disco solo e eu queria fazer ele instrumental. Mas o pagador, que era um amigo da família, disse que no Brasil não cabia (eu estou começando a história do começo, claro!) esse tipo de estilo. Aí, me colocaram para cantar, aquela coisa toda e eu fui nessa onda toda e de repente me deparei trabalhando num estúdio de gravação. E lá, aquela coisa da brincadeira, de brincar com o segurança e surgiu aquele personagem do “colé, maluco”.



CH: Mas e o convite para “Os Cafajestes”?
R.F:
Então, nisso, eu e Fernando Guerreiro acabamos ficando amigos. Eu, Andrezão, Jonga e alguns artistas que eram amigos deles e meus, esse povo todo tinha uma vontade muito grande de juntar os dois: eu fazer um trabalho com Fernando e ele comigo. A gente sempre falava a respeito disso, pensávamos numa peça, num monólogo, alguma coisa dessa aí, mas nunca concretizamos. Algumas pessoas também se propuseram a fazer textos para mim, pra ele e esses textos nunca vieram, ele também nunca fez e eu também, num corre-corre e, há 45 dias atrás, ele me ligou numa quinta-feira à noite. “Fechine, estou remontando Os Cafajestes. Tem interesse?”. Eu falei “claro que eu tenho”. Aí ele disse “me dê seu e-mail”. Eu dei o e-mail para ele, ele bateu o telefone na minha cara e 10 horas estava lá o e-mail com um texto imenso para eu me preparar para o ensaio no sábado. Eu só fui ao teatro duas vezes – a primeira foi para assistir “A Bofetada” dele, porque me levaram à força, Fernando Barros; e a segunda vez foi na minha estréia.



CH: E como foi sua estréia?
R.F:
Foi ótima!



CH: Você sentiu alguma dificuldade nessa sua nova vida de ator?
R.F:
Senti. Nos ensaios. É muito puxado, rapaz! O pessoal de teatro trabalha muito,viu? É pauleira. Aprender as músicas, as coreografias, aonde vão estar os elementos, botar elemento, tirar elemento, decorar texto... P&%@, foi pauleira!



CH: Com todas essas dificuldades, você pretende seguir a carreira de ator ou vai parar por aí?
R.F:
Ah, mas eu gostei “mutcho” e vou seguir, sim, claro. Depois que a gente der uma pausa no Cafajestes, até porque eu conheci Aninha Franco lá e ela me falou da vontade da gente fazer alguma coisa juntos e nós vamos preparar, com certeza, um texto, alguma coisa, porque eu adorei conhecê-la também e para mim foi uma honra muito grande.



CH: Mas você pretende explorar um lado mais dramático seu, algo diferente, ou vai permanecer com o lado de ator somente de humor?
R.F:
Eu acho que vou ficar na área de comédia mesmo. Porque eu não sei fazer outra coisa. Rapaz, eu erro na hora e começo a rir da minha cara. Mas isso é bom, porque abre muita porta.



CH: E todos esses trabalhos são por prazer ou como uma forma de aumentar a renda?
R.F:
Não. Se não tivesse prazer, eu não daria para ser p*!@ (risos). Se não tiver prazer, dinheiro nenhum paga. Todos os trabalhos que eu faço, eu faço por prazer.



CH: Qual o mais rentável desses trabalhos?
R.F:
O mais rentável são os meus shows, o forró. Porque teatro são poucos lugares, muita gente trabalhando e requer um aparato muito grande, então, como diz um amigo meu, é uma coca-cola para dois.



CH: Seu trabalho como cantor se resume apenas ao São João?
R.F:
Em termos de show, é. Assim, música ainda é uma coisa muito cara. Fazer música hoje, cada dia, se torna mais caro e isso está afundando os próprios produtores. Você vê hoje em dia, não tem mais festa de bilheteria, quem salva festa é bar, sacou? Porque a música se tornou muito cara. O palco é caro, o som é caro, divulgação é caríssimo e o retorno é muito pouco. Então, é um perigo. Então, hoje em dia, todo mundo sobrevive de Prefeituras. A não ser os grandes – não grande em talento, ou maior em talento do que ninguém – mas em investimento. Porque o seu retorno hoje depende do quanto você investe.Então, por isso, eu estou querendo aproveitar, depois do São João, e fazer uma temporada de teatro no segundo semestre de todos os anos.



CH: É difícil conviver com Renato Fechine comediante?
R.F:
Rapaz, pergunte às minhas ex-mulheres. Mas, não. Eu sou meio temperamental, porque eu sou muito correto. Eu sou rigoroso com horário pra caramba e quer ver eu sentir vontade de botar minha cara no asfalto e sair com a cara ralando? Sou eu atrasar. Porque, geralmente, não é culpa minha. Então, eu detesto atraso, detesto mentira.



CH: Então, por que você não para em nenhum lugar?
R.F:
Eu ganho dinheiro com rádio, sacou? Só que, às vezes, a rádio não ganha dinheiro comigo. Eu costumo dizer que eu não conheço um departamento comercial de rádio que funcione como deve funcionar – não incluo a Tudo FM nisso, até porque eu estou entrando agora e não conheço ainda.



CH: E como deveria funcionar?
R.F:
Por exemplo, a gente acerta seis cotas da rádio e seis cotas minhas. Eu vendo as minhas seis e o cara não vende nada. Eu fico bem, eu não preciso fazer mais nada. Então, o cara começa o jogo e quer mudar as regras do meio para o fim. Então, começa a me entregar material, por exemplo: se eu vendo seis comerciais para o meu cliente, às vezes, algumas rádios que eu passei, não entregavam. Então, isso é queimação. Eu também não vou sair dizendo qual é a rádio e nem porque. Então, eu prefiro sair. Porque, como eu te falei, eu sou muito correto.



CH: E como está seu programa “Folia, Forró e Fuleiragem” na Tudo FM?
R.F:
Ah, eu adoro! Adoro fazer, porque eu me divirto pra caramba. Eu estou com uma pessoa maravilhosa, que é Lorena Abreu, que além de uma grande pessoa é uma grande profissional, uma locutora maravilhosa, tem uma empatia sem igual, tanto comigo, quanto com o público e é só diversão mesmo. De vez em quando, um dinheirinho.



CH: É isso que eu quero saber. Você foi trabalhar na Tudo FM porque a proposta foi boa ou porque estava sem fazer nada?
R.F:
Não. Na realidade foi o seguinte: eu propus a Tudo FM fazer um programa lá e nesse horário. Porque o rádio está muito inchado dessa indústria da denúncia no horário de seis horas da manhã. Então, eu não gostaria de voltar para o rádio nesta condição de extorquir os outros. Nessa coisa de “socorro, meu Deus, eu não quero morrer”. Meu negócio é despretensioso, eu brinco com tudo, até com a Holofote de vocês, eu brinco todo dia, todo dia eu sacaneio com ela.



CH: Na Tudo FM, quando acaba seu programa, você faz uma participação no programa de Varela. Como é, para você, trabalhar com Varela, sendo você um comediante e Varela que parece ser tão sisudo?
R.F:
A gente não trabalha. O grande lance é esse. Ele estava me falando que fazia muito tempo que ele não se divertia tanto fazendo alguma coisa assim. E eu me senti honrado em ouvir isso de um mestre da comunicação e da credibilidade como seu Raimundo. E eu estou aprendendo muita coisa com ele, porque o cara é uma enciclopédia viva. A gente rir o tempo todo. Tanto é que Luzbel disse que vai cortar o ponto da gente, porque a gente se diverte mais do que o que trabalha. Mas o lance foi esse: o próprio Varela quem me convidou para fazer com ele. Ele disse “pô, passe meia horinha comigo lá, para distrair um pouco o pessoal”. Mas aí, a gente começou esse negócio de meia horinha e agora eu estou fazendo o programa todo com ele, porque é divertido, tanto para mim, quanto para ele.



CH: O que você acha do axé?
R.F:
Rapaz, eu andei lendo nessa coluna de vocês, o “Sabe o que eu acho”, onde os leitores se pronunciam e eu vi alguém falando que o axé perdeu o bonde. Eu também acho que o axé perdeu o bonde. Não é nem perdeu o bonde, o axé perdeu o foco. O axé está em alta, sempre vai estar em alta, os artistas também são maravilhosos, artisticamente falando, mas acho que a produção engoliu muito o talento, engoliu muito as composições. Então, eu acho que o axé já teve momentos melhores, como também, já teve momento pior.



CH: E do pagode?
R.F:
Rapaz, daquele saco lá, eu tiro o Harmonia do Samba, tiro meus amigos da Guig Ghetto e o resto pode mandar matar. Aliás, você pega o saco e bota tudo enfiado. Eu não estou gostando das coisas que vêm sendo feita, porque eu acho que denigre a imagem da Bahia, denigre a imagem das mulheres, principalmente e eu adoro mulher, então, eu não posso concordar com nada que prejudique ou diminua a mulher. Então, é isso.



CH: Você sente orgulho das músicas que fez para o grupo “É o Tchan” e Cia do Pagode?
R.F:
Eu sinto orgulho, na verdade, não é orgulho, mas o É o Tchan, por exemplo, me deu muito dinheiro. Eu organizei minha vida, praticamente, com o Tchan. E o que me deu orgulho foi trabalhar com profissionais como Cal Adam, como Beto Jamaica, então, eu sinto orgulho de ter feito parte desta história, porque o Tchan fez história. Apesar de que, não era o tipo de música que eu escolheria para mim, mas eu tenho orgulho de ter participado dessa fase da música brasileira. Sem contar que eram músicas mais leves. A gente fazia trabalhos temáticos. É o Tchan mesmo, eles gravaram uns 12 trabalhos meus e eu nunca precisei enfiar garrafa em lugar nenhum.



Por Fernanda Figueiredo

 

 

 


Segunda-Feira, 19.10.2009

 


 

 



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