Jau diz que nunca foi amigo de Pierre Onassis e revela porque não canta axé


Foram poucos os minutos de conversa, mas suficientes para revelar um Jauperi sem segredos e medos. Nesta entrevista à Coluna Holofote Jau conta que ele foi escolhido pela música e não o contrário e diz que deixou a banda Olodum porque queria mais. E o cantor e compositor não para. Depois de formar uma dupla de sucesso ao lado do cantor Pierre Onassis à frente da banda Vixe Mainha, uma revelação: "A gente nunca foi amigo", diz o cantor se referindo ao parceiro Pierre e surpreendendo a todos que imaginavam que a parceria entre os dois ia muito além de um negócio. Ledo engano! A entrevista, na íntegra, você confere abaixo.


"Eu seria falso se dissesse que era amigo de Pierre"



Coluna Holofote: Como você ingressou na música?
Jauperi:
Olha, eu estou no mundo da música desde quando eu nasci. Porque a música para mim é algo absolutamente natural, eu não consigo me desvencilhar dela em nenhum momento. Eu canto o tempo inteiro, eu componho o tempo inteiro e nem sempre tudo que eu canto ou crio como compositor, eu registro. Porque tem aquela coisa que quando vem, eu acho que vem só para mim e para as pessoas que estavam comigo naquele momento, naquele lugar e que não precisam ser documentadas e nem passadas adiante, porque fazem parte daquele momento.



CH: Mas eu digo profissionalmente...
Jau:
Eu tinha uma bandinha em casa com os amigos, os irmãos e sempre tocava nas festas que tinham em todos os bairros que eu morei. Mas eu nunca fiz aula de violão, de nada, porque a música você não escolhe, você é escolhido, então, não teve esse negócio. Mas depois, é claro, você percebe que tem o dom e que pode transformar aquilo em uma coisa profissional, aí você procura se aperfeiçoar para conhecer um pouco mais da técnica, do cantar, da respiração, mas comecei natural, fiz uma música para o Olodum, ganhei o Festival do Olodum e fui convidado a cantar no Olodum.



CH: Pois é. Você despontou à frente da banda Olodum. Por que largou o grupo?
Jau:
Porque eu preciso de mais. Não mais no sentido quantitativo nem qualitativo. Aquele mais invisível, que só a gente sabe, mas de fato a gente nem sabe que ninguém também pode saber porque é aquilo que move a gente para adiante, mas não quer dizer que o adiante é melhor nem pior, é só o depois e eu precisava sair do Olodum porque o Olodum já tinha me dado tudo o que eu precisava que o Olodum me desse para seguir o meu caminho. Mas, na verdade, eu nunca saí do Olodum nem o Olodum saiu de mim. Eu continuo sendo do Olodum e tendo o Olodum em mim porque o Olodum foi uma mãe para mim na música. Eu conheci uns 20 países com o Olodum, a Europa, fiz turnês na Europa por quase um ano, turnês na América do Norte de oito meses, Japão... Porque foram quase seis anos com a banda, então, me transformou como cidadão, antes de qualquer coisa e também me deu a visão que eu precisava ter para perceber a necessidade de me profissionalizar de fato e buscar essa técnica para além do dom. Porque quando você viaja para a Europa, Estados Unidos, você vê muitos shows e bons shows, então você fala “isso é possível? Então, se é possível, eu quero isso para mim também”.



CH: Como começou a sua parceria com Pierre Onassis?
Jau:
Eu conheço Pierre desde o Olodum, a gente era contemporâneo lá no Olodum - quando eu entrei no Olodum Pierre tinha um ano, dois anos mais ou menos na banda - e aí eu saí do Olodum sem sair do Olodum, tendo o Olodum em mim e fui fazer outras coisas e ele continuou no Olodum. Anos depois, eu não sei precisar quantos, a gente se reencontrou e eu comentei com ele que tinha uma lacuna impressionante no mercado percussivo baiano. Pós Olodum, Timbalada, não tinha nada e o Olodum não estava num momento bom, a Timbalada também não, então eu disse “pô, vamos fazer um banda para preencher essa lacuna que eu estou sentindo no mercado?”. E a gente fazendo isso não era nenhuma mentira porque somos filhos oriundos do Olodum, então, a gente tem essa propriedade. Tinha essa propriedade. E aí a gente fez. Aí eu achei o nome Afrodisíaco e dei o nome, aquele formato que tinha eu já fazia os shows “Jau” com aquele formato, os músicos, a maioria já trabalhava comigo. Então, eu só fiz mudar o nome para Afrodisíaco e botar Pierre para dentro.



CH: Por que vocês romperam?
Jau:
Não teve briga nenhuma. Foi algo natural, como tudo na vida. As coisas não são eternas, elas fazem parte da vida da gente o tempo suficiente para transformar a gente e transformar o mundo também. Porque quando a gente se transforma, o mundo muda, a ótica muda. Foi natural, deu o que tinha que dar, durou o tempo que tinha que durar e eu aprendi ali um bocado de coisas.



CH: Vocês continuam sendo amigos?
Jau:
A gente nunca foi amigo, então, seria falso se eu dissesse que sim e mentira realmente eu não quero na minha vida. Mas também, não somos inimigos. A relação mais íntima que nós tivemos foi quando a gente fez parte do Olodum e aí depois naquele tempo que teve uma lacuna absurda e a gente sem ser ver, mais de cinco anos, então, quando a gente se reencontrou fizemos o Afrodisíaco e só. A gente foi parceiro de um negócio, mas não de uma amizade. E eu saí da banda porque eu quis.



CH: Quando você e Pierre começaram, o nome da banda era Afrodisíaco e vocês tiveram que mudar o nome porque esse já era registrado. Como é que você voltou com o Afrodisíaco?
Jau:
É. O afrodisíaco tinha uma banda de raggae no Paraná que o nome era “Afrodisia” e aí a gente não conseguiu registrar o Afrodisíaco. A gente até podia usar o Afrodisíaco naquela época, mas não quisemos correr o risco de alguém entrar com uma ação. Por que assim, a gente pediu o registro da marca, o pedido foi negado por conta dessa outra marca e a gente entrou em contato com o empresário lá do Paraná e ele não liberou, a gente tentou comprar, não liberou...



CH: Então... Como é que agora você está usando a marca?
Jau:
Pois é. Agora a gente conseguiu essa liberação para poder usar o Afrodisíaco e aí como foi uma coisa tão linda e que transformou a vida da gente, eu conversei com Bógus, que é o braço da Pequena Notável e que está sempre perto de mim e que é meu empresário hoje e ele falou “Jau, o que é que você acha da gente trazer esse tentáculo do artista Jau, que é o Afrodisíaco, à tona novamente?” e eu achei fantástico. Eu só pedi que tivéssemos o cuidado para não deixar que as pessoas entendessem que Jau estaria voltando para o Afrodisíaco, porque o carreira de Jau está para além da condição do Afrodisíaco. O Afrodisíaco é que é um produto de Jau, então, Jau está voltando o Afrodisíaco.



CH: Como é isso?
Jau:
O Afrodisíaco é só mais um projeto de Jau. Um projeto lindo, que todos os baianos amam, os brasileiros amam, os gringos amam, então, dá prazer de fazer, mas eu não estou voltando para o Afrodisíaco. O Afrodisíaco é mais um projeto como o que eu quero fazer lá na frente “Jau isso”; “Jau aquilo”; “Jau só para as mulheres”; “Jau...”, enfim. O que eu acho mais importante de tudo é estar trabalhando com a empresa que eu considero uma das maiores do ramo da música no Brasil e estar tendo a liberdade de ser eu mesmo, de estar fazendo as coisas que eu quero fazer. Claro que dentro de um certo padrão de mercado e coisas também venais, para não ficar preso naquele nicho de “eu sou o maior poeta do mundo e sou absoluto e eu posso tudo”, mas não vende na para ninguém.



CH: Isso é alguma indireta para alguém?
Jau:
Não, mas existem artistas assim, não é? Aquele ídolo que meia dúzia ama, as pessoas falam que ele é maravilhoso, mas quando chega na hora de comprar, ninguém compra. Mas a gente entende que a sociedade é capitalista e a gente quer se relacionar com a sociedade exatamente do jeito que ela é. Então, a gente faz música querendo transformar a vida das pessoas, transformar as nossas vidas, mas também, a gente quer fazer negócios.



CH: Pierre tocava axé, mas você, a gente não vê tocar de jeito nenhum. Você não gosta de axé?
Jau:
Não... Gilberto Gil não canta sertanejo, mas isso não quer dizer que ele não goste de sertanejo. Eu nunca vi Michael Jackson cantando uma música de Madonna, mas não quer dizer que ele não goste... Então, eu não canto axé, mas eu sou baiano e 85 a 90% das músicas que eu canto em meu show são minhas, eu canto as minhas músicas, meu show é um show autoral.




"Eu canto a música de Jau, mas podem chamar do que quiser"



CH: Qual seu estilo musical? O que Jau canta?
Jau:
Foi como eu disse, eu canto minhas músicas. Aí, o mercado precisa chamar isso de alguma coisa, pode chamar do que quiser. Eu chamo de música de Jau, de música baiana, porque eu sou baiano. Pode ser música brasileira também, mas pode ser também chamada de axé, pode se chamar achado, pode ser chamada de qualquer coisa porque o rótulo, de fato, não muda absolutamente nada. Agora, eu acho que o artista deve se relacionar com a sua arte com verdade, com absoluta verdade e carinho e amor com o que ele faz. Agora, como vão chamar isso...



CH: E o que você acha do pagode?
Jau:
Sensacional. Eu acho o axé, o sertanejo, o rock, o pagode, o brega, o romântico, o raggae, é tudo sensacional. O pagode é como qualquer outro gênero de música: tem coisas boas e tem coisas péssimas e tem também coisas razoáveis. O discernimento e o filtro está em você mesmo. É você quem tem que ir naquele gênero musical e saber o que é que tem de bom naquilo ali, porque não dá para crucificar todo mundo, não dá para condenar todo mundo, é burrice isso. Então, pega o pagode, vê o que é que tem de melhor no pagode e traz isso para você, é a gente que escolhe, está tudo aí e é a gente quem tem que escolher.



Por Fernanda Figueiredo



Segunda-Feira, 10.08.2009

 


 

 



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Claudia Leitte desejando boa sorte para Ivete Sangalo, momentos antes da grande estreia da baiana no Madison Square Garden, em Nova York, marco da sua carreira internacional.

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