Vovô do Ilê critica a redução do percurso no Centro e chama patrocinadores de racistas


Totalmente contra a redução do percurso no circuito Osmar, Vovô do Ilê Aiyê concedeu entrevista à Coluna Holofote e apresentou justificativas para ser contrário a esta mudança. Ele contrapõe os argumentos apresentados por Reginaldo Santos, Conselheiro do Carnaval e diz que Reginaldo não é carnavalesco. Sobre as dificuldades enfrentadas pelo Ilê todos os anos para desfilar, Vovô não vacila: "os patrocinadore não querem misturar a marca deles com bloco de negro. Antes de serem capitalistas, eles são racistas", acusa Vovô, que também teve um momento de descontração nesta entrevista quando falou no africano Mohamed Câmara, o menino que ganhou os holofotes ao vir fugido para o Brasil em um navio vindo de Guiné Conacri, na África, em fevereiro deste ano e que, agora, está sob a sua guarda. Vovô fala da sua relação com o garoto e manda recado aos que dizem que Mohamed é ruim de bola. Confira!


"Isso é uma questão do ranço dos empresários brancos, que acham que não devem misturar a marca deles com uma entidade negra"



Coluna Holofote: Como você, como representante do Ilê Aiyê, encarou as mudanças definidas pelo Conselho do Carnaval, principalmente em relação a redução do circuito no centro da cidade?
Vovô:
Eu não achei bom, não. Para o Ilê que é um bloco grande, com muita gente e que os associados são muito exigentes nessa questão do percurso, fica complicado. Só para lhe dizer, no sábado de carnaval nós saímos aqui na Liberdade; depois fazemos outro desfile no Campo Grande e vamos até onde der, como as Mercês, o São Bento e acredite: o pessoal reclama. Imagine com essa redução aí?



CH: Em entrevista recente à Coluna Holofote, o conselheiro do carnaval, Reginaldo Santos, disse que a redução do percurso não prejudica o folião, já que ele não paga por metro quadrado e, sim, pela atração. O que você acha disso?
Vovô:
(risos) Ele parece que não é carnavalesco, não é folião. O cara pagou o bloco dele, o cara quer curtir, quer se distrair.



CH: Uma das coisas que o conselheiro disse é que o Carnaval da Avenida ia ganhar mais glamour com essa mudança, que na Praça Castro Alves haverá camarote para a imprensa. Isso não seria interessante para a visibilidade do bloco?
Vovô:
Isso pode acontecer, mas depende dele convencer a mídia. Porque a tendência é que muitos blocos migrem para a Barra e o que acontece hoje é que existe a fila e, em determinado horário, a mídia se manda, não se preocupa que o Olodum é grande, que o Ilê é grande. Então, não sei se isso vai ser a solução, não. Por outro lado, nós já temos um camarote do Ilê localizado naquele ponto. Então, o que vai acontecer? Vão tomar o nosso camarote? Vão colocar na nossa frente? Eu não sei como eles vão fazer.



CH: Você conversou com o representante dos blocos afro? Ele está de acordo com essa mudança?
Vovô:
Ele disse que sim. Tanto é que ele votou a favor.



CH: Ainda sobre o carnaval. Apesar de toda tradição, esse ano vocês tiveram dificuldade para colocar o bloco na rua. Falta apoio da Emtursa e da Saltur ou os patrocinadores não dão atenção aos blocos afro?
Vovô:
Olha, a gente consegue vender algumas fantasias. Agora óbvio que a gente não consegue vender todas, até pelo poder aquisitivo do nosso público. Mas falta incentivo, apoio, parceria. A imprensa é a única entidade que dá retorno para a gente. Nós fomos o quarto bloco com maior exposição na mídia. Mas a gente não consegue transformar isso em parcerias. Mas isso é uma questão do ranço dos empresários brancos, que acham que não devem misturar a marca deles com uma entidade negra, por achar que nós não consumimos. Quer dizer: negro não consome bebida, não tem celular? Eu nunca vi uma telefônica dessa apoiar um bloco afro. Eu nunca vi um cartão de crédito apoiar um bloco afro. Se eu não me engano, a Claro já patrocinou, mas a coisa ainda é tímida com relação a isso. E aqui o patrocinador tem retorno o ano todo, porque a marca deles ficam em tudo, aqui na sede, nas camisas, até nos cursos profissionalizantes! Mas os caras não querem saber disso. Eles preferem investir num bloco que só vai dar retorno naqueles três dias, mas os caras são brancos.



CH: Mas você acha que isso é geral, ou acontece com o Ilê e um ou outro bloco afro?
Vovô:
É geral. O Olodum, por exemplo, o mundo todo ouve o Olodum, mas eles passam as mesmas dificuldades que nós passamos. E olhe que eles são famosos, é uma marca conhecida no mundo todo, mas a dificuldade de ter uma gravadora, a dificuldade para ter parceiros é a mesma. Porque quando fala em bloco afro, bloco de negro, é essa dificuldade, porque os caras, antes de serem capitalistas, eles são racistas. Eles deixam de ganhar dinheiro, mas não querem a marca deles misturada com a entidade.



CH: E o assalto que aconteceu aqui em 2008, como é que foi resolvida essa situação?
Vovô:
Não deu em nada. Nem resposta nós tivemos.



CH: Você acha que teve a participação de alguém de dentro?
Vovô:
Com certeza. Isso eu não tenho dúvida. Os caras chegaram aqui e já sabiam o nome de Vivaldo, o cara que estava pagando, sabiam onde estava o dinheiro, qual era a sala, o armário, sabiam tudo. Então, foi alguém daqui. Pode ter sido o segurança que trabalhou aqui, pode ter sido músico ou funcionário daqui de dentro, mas foi alguém ligado a entidade.



CH: Daniela Mercury é uma artista que sempre levantou a bandeira do Ilê, mas no show beneficente que vocês fizeram, ela não apareceu e nem deu quaisquer contribuições. O Ilê ficou sentido? Era hora dela colaborar também?
Vovô:
Nós sentimos falta de Daniela, mas ela justificou que não estava aqui na época e ela sempre vem todo ano, sempre participa dos eventos aqui, então, naquela ocasião, ela não veio porque não pôde.



CH: E depois ela deu algum tipo de colaboração?
Vovô:
Não, porque nós não pedimos isso. Nós pedimos apenas a presença dela.



CH: Como é a relação do Ilê com a comunidade do Curuzu e da Liberdade? Quais são os projetos sociais desenvolvidos pela entidade?
Vovô:
A relação é boa. Eu acho até que o Ilê está mais forte por causa dessa cumplicidade com a comunidade. Hoje, além do carnaval, nós temos uma série de cursos profissionalizantes, tem a Escola Mãe Hilda, a Escola de Educação Formal, tem a Escola Band’Erê, que é uma escola de educação complementar com música, canto e dança, então, é isso que movimenta e que também dá dor de cabeça a gente.



CH: Por que dor de cabeça?
Vovô:
Porque filantropia tem custo, né? Então, você tem, além dos cursos gratuitos, tem que oferecer lanche, tem fardamento, os educadores e tudo isso é custo, fora a manutenção da sede.



CH: E vocês não têm nenhum tipo de apoio?
Vovô:
Nós temos o apoio da Petrobrás, somente. E olha, eu não queria ser educador, eu queria ser só carnavalesco. Mas numa comunidade dessas, você sente essa necessidade. Os governantes não atuam, então, a gente tem que entrar em ação. E com isso, você acaba tirando muitos jovens da marginalidade. Nesse instante eu estava lá embaixo conversando com uns meninos e estava mostrando a eles a dificuldade que é ser negro na Bahia.



CH: E a situação do jovem Mohamed, já foi regularizada? Você conseguiu a guarda dele?
Vovô:
Ele já está comigo. Ainda está na condição de refugiado, mas já está morando comigo já e eu acho que vai dar tudo certo.



CH: De onde nasceu esse desejo de acolher esse garoto? Foi por solidariedade, um ato de humanismo ou por outras razões?
Vovô:
Na verdade, não foi um desejo, eu fui convocado. Eu estava acompanhando pela mídia a história dele e aconteceu que ele deu muita sorte, porque o pessoal todo se apaixonou por ele aqui na Bahia, no Juizado de Menores e, de repente, veio a notícia de que ele teria que voltar a não ser que alguém assumisse a responsabilidade. Aí, o pessoal do Juizado ficou pensando, contactaram algumas pessoas. Porque nessa hora todo mundo é bom, todo mundo é legal, mas para assumir um menino africano, negro... Aí, todo mundo pensa duas vezes. Então, eu cheguei em casa, conversei com minha mãe e a gente decidiu assumir essa situação.



CH: Disseram que você fez isso para aparecer.
Vovô:
Olha, sinceramente, eu pensei que fosse ser uma coisa simples e me assustei quando eu cheguei lá no Juizado para pegar ele com a imprensa toda ali, com a dimensão que teve, chegou a sair em mídia nacional, internacional.



CH: E como é a sua relação com ele?
Vovô:
Pô! É “meu pai” para lá, “meu pai” para cá. Ele mora aqui no Curuzu. Tem uma turma que tem ajudado ele no português dele, mas mesmo assim eu vou matricular ele na Aliança Francesa, porque ele precisa tomar um curso de português para estrangeiros, porque ele fala francês. Mas ele está freqüentando a escola aqui, tomando cursos, fazendo aula de percussão. Toda terça e quinta ele vai lá para Simões Filho, para a AABB com a maluquice dele de Bahia, né?



CH: Pois é. Pai Conselheiro do Vitória e filho jogador do Bahia. Como é isso?
Vovô:
Eu digo que ele já veio com um defeito (risos). E ele é Bahia doente, ele se apaixonou pelo Bahia. Ele fica “Bahia, Bahia, Bahia é bom, papai”. Eu digo “Bahia é bom o que, rapaz?”. Outro dia nós fomos para o Barradão e ia tendo briga lá, porque a cada gol do Bahia ele colocava a mão na boca e se acabava de rir. Aí o pessoal se invocou e um cara meteu um tapa na cabeça dele, eu me chateei, foi uma confusão! Aí, chama Polícia Militar... 



CH: Vovô, falam que o moleque é ruim de bola e que é melhor você arrumar outra profissão para ele, viu?
Vovô:
(risos) Ele não é nenhum Robinho, não. Mas também, ele não é ruim assim não.



Por Fernanda Figueiredo

 

 


Sexta-Feira, 10.07.2009

 


 

 



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