Sócio da Cheiro de Amor chama a Avenida de favela e diz que prefeito não liga para o carnaval


Tudo começou como uma brincadeira e hoje faz parte da história da maior festa de rua do mundo, o carnaval. Windson Silva era apenas um menino de 17 anos apaixonado pela folia de momo quando resolveu montar um bloco de carnaval junto com alguns amigos. Daí por diante, o amor e o respeito ao que faziam saiu do campo meramente do lazer e se transformou num negócio, numa forma de ganhar a vida, no bloco e na banda Cheiro de Amor, que em 2010, completa 30 anos de avenida. Avenida, o ponto que mais dói no sócio da banda Cheiro de Amor,  que fala com muita mágoa do que tem visto nos últimos carnavais no circuito que sempre foi o berço da folia, onde tudo começou. Mas que, de um tempo pra cá, tem estado sem a beleza de outrora, com prédios sujos e casas se despedaçando, quase o que Windson chama de "uma favela". E a culpa disso tudo, Windson sabe muito bem de quem é: "Este prefeito que está aí tem que tomar muito cuidado, porque ele pode se transformar no prefeito de dois mandatos, responsável pelo total abandono da Avenida."


"Eu coloco paixão em tudo o que eu faço. Porque se você trabalha para ganhar dinheiro, ele não vem"




Coluna Holofote: Conte-nos um pouco da sua história com o mercado da música...
Windson Silva:
Olha, nós entramos - eu gosto de falar sempre na primeira pessoa do plural – e quando nós criamos o Cheiro de Amor, na realidade, a coisa aconteceu de uma forma despretensiosa, porque nós brincávamos carnaval, tinha um grupo de amigos muito grande que brincava no bloco Internacionais e esse grupo de amigos, mais uns três do Coruja, na época e mais alguns amigos da Cidade Baixa e algumas poucas pessoas da Graça e da Barra começaram a desenvolver a ideia de criar um bloco de amigos. Em 80 esse bloco foi concretizado. E naquela época, todos os diretores do bloco Cheiro de Amor pagavam os seus próprios carnês, porque não tínhamos como colocar o bloco na rua se não fosse desta forma. A gente nem pensava em lucro.

CH: E quando foi que o Cheiro começou a se profissionalizar? Quando vocês viram que era algo rentável?
WS:
No terceiro ano que o bloco saiu na rua, nós começamos a vislumbrar a possibilidade de lucro, nós criamos o nosso próprio trio e a nossa própria banda, a Pimenta de Cheiro, na época. E esse nome ficou por cinco anos.

CH: E como passou a se chamar Cheiro de Amor?
WS:
Pela questão da casualidade, de amadorismo nosso, da despretensão em ser profissional, nós não registramos o nome Pimenta de Cheiro e nem sabíamos que tinha que ser registrado no NPI. E aí, quando nós fomos convidados para gravar o primeiro disco, a gente não tinha a marca registrada. Como já tinha a marca Cheiro de Amor, só que em outra categoria, a gente mudou o nome da banda para Cheiro de Amor e se começou o trabalho.

CH: Hoje, quais bandas você empresaria?
WS:
Hoje, aqui no escritório nós trabalhamos com as bandas Pimenta N’Ativa, Chica Fé, a Rala Fivela e a Cheiro de Amor.

CH: Você é um dos maiores empresários do ramo. Qual a fórmula para fazer dar certo?
WS:
A fórmula do sucesso é você trabalhar sem se preocupar com dia ou com hora, porque nosso trabalho é, sim, um pouco escravizante. Então, a fórmula é muito trabalho e eu costumo colocar a paixão em tudo que eu faço. Porque se a gente for trabalhar para ganhar dinheiro, o dinheiro não vem. Agora, se você trabalha fazendo bem feito, com carinho, com dedicação, aí, o trabalho aparece bacana, aparece bonito e então, o dinheiro vem, mas como uma consequência de muito trabalho e de colocar o idealismo, a necessidade de fazer bem feito acima de tudo. E a história do Cheiro de Amor tem isso. Nós fomos os primeiros a fazer show bonito na Bahia, com produção digna. A questão os blocos serem estruturados, organizados, fantasia bonita, abadas bonitos, tudo muito bonito, tudo isso o Cheiro fez. E isso cria um carinho do público muito grande com a gente e o resultado é que ele vê que ali o dinheiro dele vai ser um dinheiro bem empregado e ele gosta e ele volta. Então, a receita é essa: é trabalho, é fazer bem feito sem se preocupar com o dinheiro. Tem que se preocupar primeiro em fazer bem feito, o dinheiro tem que ser consequência.

CH: A banda Cheiro de Amor já passou por tantas mudanças de cantores, já esteve em alta, em baixa...Você está satisfeito com o momento que a banda Cheiro de Amor está vivendo?
WS:
Olha, eu confesso para você que o ideal seria que não tivesse mudanças, porque a cada mudança, existe um recomeço e recomeçar é complicado, mas como a gente está ficando quase que catedrático em recomeçar (risos), a gente reune forças e vai. Não é fácil, mas acontece até de forma natural, o artista resolve deixar a banda, como a Márcio que ficou 10 anos na Cheiro de Amor, saiu porque achava que tinha que buscar o horizonte dela, o espaço dela... Na época eu acho que não foi bom para ela, não foi bom pra gente, mas a gente até deu uma sorte porque trouxe Carla Visi e ela preencheu muito bem o espaço, porque ela é uma grande cantora, uma grande artista, mas pra gente sempre foi muito difícil o recomeço. O ideal seria que não existisse. E em todas as vezes que aconteceu, eu digo que não foi bom nem pra gente e nem para eles, porque o mercado lá fora é muito complicado. Você tem que ter uma equipe muito grande, estruturada, organizada, ter conhecimento e investimento muito alto para você fazer a carreira de um artista.

CH: Mas e hoje? Como está o Cheiro com a cantora Alinne Rosa?
WS:
Hoje eu estou satisfeito. Porque, há seis anos nós trocamos a Márcia Freire, que voltou para a carreira solo dela, e entrou a Alinne. E na época nós fivemos a opção que muitas pessoas no mercado não entenderam, eu diria que a maioria, porque nós podíamos ter buscado um artista já de uma outra banda, existiam várias garotas, excelentes cantoras na Bahia e que não vale à pena citar o nome, até por uma questão de preservar essas pessoas, que teriam condição de terem vindo para a Cheiro de Amor. Mas a gente optou em uma pessoa nova, numa cara nova, numa coisa que ninguém conhecesse realmente, sabendo que iríamos sofrer. Na época, Alinne tinha 21 anos, ela praticamente não era cantora, ela era back in vocal e a gente apostou no carisma dela, ela também cantava bem, era afinada, mas tudo isso precisava ser desenvolvido, passar por etapas de amadurecimento, de crescimento e nós sabíamos disso, sabíamos que íamos sofrer e investimos mesmo sofrendo, mesmo sabendo que seria difícil e hoje ela começa a se transformar numa realidade.


"Alinne Rosa ainda está muito aquém do potencial dela"



CH: Como assim? Explique melhor isso...
WS:
Por que eu digo “começa”? Porque eu acho que está muito aquém do potencial dela ainda. Eu enxergo um potencial muito maior como artista, de que vai desenvolver mais ainda, mas mesmo assim, eu estou até satisfeito e estou sendo honesto. Então, o que é que eu penso? Em 6 anos que a gente vem desenvolvendo esse trabalho com a Cheiro de Amor, a gente vê que o trabalho está praticamente maduro, o mercado está reconhecendo o potencial dela, a banda voltou a ter um fôlego grande, a ter uma procura grande no mercado e eu acho que a gente acertou em não buscar fazer um sucesso imediato, uma bolha e ir trabalhando lentamente e esse trabalho lento está surtindo efeito agora. Porque muitas vezes, quando se faz um trabalho rápido, você pode até dar a sorte de estourar uma música, mas o artista não estará pronto e aí, não segura e agora a gente está pronto e eu estou muito satisfeito com as perspectivas de futuro. De uma coisa eu sei: meu futuro é muito promissor.

CH: Existe alguma possibilidade da cantora Alinne Rosa sair da banda Cheiro de Amor, como a imprensa vinha divulgando? Disseram que ela ia partir para uma carreira solo, que Ivete estava de olho nela...
WS:
Possibilidade existe, sim... Como Márcia Freire saiu, como Carla Visi saiu. Agora, essa história aí é fantasiosa, foi uma brincadeira que Ivete fez com ela  no programa da própria Ivete, o Estação Globo, mas Ivete já tem tantas coisas para se preocupar lá na Caco de Telha, ela já está cheia de artistas lá na Caco de Telha, bons artistas e ela está trabalhando em cima deles e ela jamais daria a prioridade que Alinne merece e necessita para se transformar em pouco tempo numa grande concorrente de Ivete Sangalo.

CH: O que você achou do beijo protagonizado pelas cantoras Alinne Rosa e Daniela Mercury?
WS:
Olha, se eu não tivesse no mercado musical, eu como uma pessoa natural, como cidadão, eu poderia até ter achado, pela questão da educação, do machismo da sociedade, eu poderia ter visto com outros olhos. Mas eu digo a você que eu achei bacana. Eu encaro com muita naturalidade. Eu acho que ali foi um trabalho de arte. No caso, a música que elas estavam cantando é uma música que traz a sensualidade, ela leva àquele momento. E eu já assisti filmes com grandes artistas internacionais, onde era homem se beijando com homem e mulher beijando em mulher. Então, seguramente, aqueles artistas que estavam se beijando, na vida real não são aquilo. A opção sexual deles é outra, mas aquele momento leva o artista a fazer o papel. E eu encaro que ali, naquele momento, foi fantástico e elas fizeram o que a música pedia e eu achei bacana. Hoje, mais do que nunca, eu tenho uma visão totalmente diferente do que eu poderia ter se eu não estivesse no mercado.

CH: Aquele beijo estava programado?
WS:
Não, não estava programado. Nós tivemos ensaio no dia anterior, ensaiamos o dia todo, a madrugada toda, Daniela foi... Porque a Daniela é fantástica! E ela não é fantástica só como cantora, ela é extremamente profissional, ela ensaiou tudo direitinho e foi como eu lhe disse, o beijo aconteceu naquela hora e eu também fiquei um pouco surpreso, mas eu adorei (risos).

CH: O beijo delas foi noticiado nacionalmente. Você acha que ele acabou dando maior visibilidade ao DVD da Cheiro de Amor, o que consequentemente, acabou sendo positivo às vendas?
WS:
Olha, se eu falar que tem algumas pessoas que tem a curiosidade e que não vão comprar por causa disso, eu estaria até sendo hipócrita, mas eu acho que o DVD está vendendo e muito, muito bem, graças a Deus, não por causa do beijo. Nós temos ali, além do beijo, uma participação fantástica de Durval, uma participação maravilhosa de Jorge Vercilo, de Bruno do Biquíni Cavadão, de Serginho da Chica Fé, com uma música lindíssima que eles gravaram, do próprio Toni Garrido nos extras, e uma coisa mais bacana no DVD, além da participação desses artistas todos é que ele teve um projeto diferente de todos os outros. Nós não fizemos um DVD de axé no sentido de festa, de pular, não, não, não... Nós escolhemos o lugar mais bonito de Salvador, o lugar que mais representa a beleza da nossa cidade e conseguimos produzir um DVD muito bonito, muito glamouroso, aonde Alinne conseguiu colocar o potencial dela de cantora. Porque o que nós queríamos nesse DVD era fazer um DVD diferente, glamouroso e que desse a oportunidade do artista mostrar o seu talento, o seu potencial. Porque muitas vezes, ele fazendo um show com as características todas do axé, com aquela alegria, aquela festa, ele não consegue expressar o lado intérprete e ali Alinne teve condição.

CH: Em época de crise, muitos blocos de nome não venderam o esperado neste carnaval. Afora isso, na sua opinião, dono de bloco ainda está ganhando dinheiro?
WS:
Olha, eu acho que o carnaval está sofrendo mudanças e ele sempre sofreu mudanças e a questão econômica é clara: existe, realmente uma situação no carnaval de Salvador que precisa ser repensada. Aliás, o carnaval precisa ser repensado em todos os aspectos. É por isso que o carnaval não está acontecendo. Os blocos estão em crise com relação às vendas de abadás, estão sim, é verdade. Agora, é claro que eu, se fosse artista e fosse dar uma entrevista, eu ia dizer que meu bloco está vendendo bem pra caramba, mais do que no ano passado, porque ninguém vai fazer anti-marketing, mas o mercado está sofrendo muito. Você vê redução nas vendas de abada, você vê um mercado desorganizado. O que acontece no carnaval de Salvador hoje é que muitas pessoas estão entrando no negócio pensando em ter lucros e não é tão simples ter esse lucro. Então nós temos muitos aventureiros no carnaval. Hoje, eu não vou falar como dono de bloco, eu vou falar como amigo de músicos, que hoje estão ganhando muito menos para subir num trio, porque os blocos já não têm condição de pagar o que pagavam antes e essas pessoas estão insatisfeitas.

CH: Você foi um dos primeiros a dizer, há 10 anos, que os camarotes comprometeriam o carnaval. Como você enxerga isso hoje?
WS:
Comprometeu, sim. Eu sempre disse que os camarotes iriam prejudicar o carnaval. Enquanto os blocos mal tem condição de pagar aos seus músicos, os camarotes estão faturando muito mais. É preciso rever a questão da regulamentação, tanto dos blocos quanto dos camarotes, porque hoje a gente vê camarotes de cortesia, as pessoas dando abertamente camisas de camarotes e aí, os camarotes passaram a concorrer com a gente não apenas com o abada vendido, mas com o abadá dado. Eu acho que o carnaval precisa ser revisto, urgentemente. Essa questão da regulamentação é importantíssima e na hora que a gente fizer isso, eu acho que alguns aventureiros vão sair do mercado.

CH: Você se arrepende de não ter montado camarote naquela época?
WS:
Não. Se eu quisesse, eu teria montado este ano ou em qualquer outra situação. Eu acho que eu não montei um camarote até porque, a minha prioridade e da minha empresa é com a música. A gente tem focado muito na banda Cheiro de Amor, na banda Chica Fé, dos produtos que trabalham no todo, não são sazonais e no bloco Cheiro de Amor e no Yes. Eu não estou dizendo que eu nunca vou montar camarote... Eu acho que o camarote é nocivo, principalmente porque não remuneram os blocos de carnaval que são quem fazem a festa, não dão uma participação, agora, não vou mais abrir campanha contra camarote, porque a maioria dos meus colegas, hoje são donos de camarotes.

CH: Para você, quem são os melhores na música baiana?
WS:
Hoje, os melhores da música são aqueles que vendem abadás. São números. Você não pode dizer que Ivete Sangalo não é a maior artista do Brasil, porque o próprio cachê dela já leva a isso. É fácil você mensurar. Você não pode falar que o Chiclete com Banana não é um ícone... É, sim. O cachê, o valor do abada... Eu estou falando do ponto de vista estritamente comercial. Se você me perguntar a minha opinião, aí é totalmente diferente. Porque eu posso ver um artista que eu acho fantástico, mas que não está bem posicionado na mídia. E existem vários.

CH: Você pode citar nomes?
WS:
Tatau, que saiu e que está voltando agora com um trabalho excelente e que é um artista que eu acho fantástico. Temos também o Luís Caldas que é um artista da música baiana maravilhoso. Temos um músico fantástico que em nenhum lugar do mundo existe, que se chama Armandinho Macedo. O cara é um gênio! Então, a Bahia tem essas coisas...

CH: E os melhores blocos?
WS:
Cheiro de amor. (risos)

CH: O que vocês estão preparando para as comemorações dos 30 anos do Cheiro de Amor no carnaval de 2010?
WS:
Olha, eu vou ser honesto: na realidade, a gente está começando a pensar no que vai ser feito. Nós vamos começar a fazer reuniões, porque termina o carnaval e termina todo mundo doente, gripado e aí, tem que esperar recuperar a saúde e ainda tem o pós-carnaval, que isso aqui fica uma loucura com o fechamento, pagamento de pessoal,... Evidentemente que a gente vai montar uma agenda de eventos comemorativos da Cheiro de Amor e o carnaval, a gente vai pensar. Existem alguns planos, mas podem esbarrar na questão financeira porque para você fazer aquilo que você quer, tem que ter verba e antes da gente falar, a gente tem que tentar viabilizar a verba. Agora, a gente vai fazer um carnaval bonito.

CH: Existe alguma possibilidade da banda Cheiro de Amor descer para o circuito da Barra, como Ivete, Claudia Leitte e Bell estão fazendo?
WS:
Existe a possibilidade da Cheiro de Amor descer um dia para a Barra, sim.


"O carnaval não é prioridade para este prefeito que está aí. Você passa na avenida e você vê uma favela"



CH: E por que isso está acontecendo, Windson? Por que os artistas estão preferindo o circuito da Barra?
WS:
O que está acontecendo na Avenida, na minha opinião, a gente tem 30 anos com a Cheiro de Amor na Avenida, 30 anos passando ali, 30 anos olhando aqueles prédios e o que eu vejo é que a Avenida precisa ser mais bem cuidada. Não é só o aspecto do carnaval. Antigamente a gente fazia o carnaval, a Avenida toda decorada, com as televisões e você passa hoje e não tem nada. Este prefeito que está aí tem que tomar muito cuidado, porque ele pode se transformar no prefeito de dois mandatos, responsável pelo total abandono da Avenida. Ele pode ser responsabilizado, futuramente, como o prefeito que abandonou o carnaval, que não cuidou do carnaval, o prefeito que não teve visão do que fazer no carnaval. Talvez porque, nos primeiros quatro anos da gestão dele, ele mudou quatro vezes de presidente do órgão de Turismo de Salvador e diretores de carnaval não tem continuidade, não tem nada. Então eu vejo que o carnaval não é prioridade para este prefeito que está aí. E eu falo isso pelo carnaval mesmo, não tem nada a ver com política partidária. Hoje a gente passa na Avenida e vê os prédios todos sujos, as casas mal cuidadas e isso é papel da Prefeitura e do Governo do Estado. À medida que os artistas levam o carnaval para o Brasil e para o mundo, este governo está dando as costas para o carnaval. Será que o carnaval é só colocar polícia na rua? Isso é de um amadorismo absurdo. Você passa na avenida e você vê, me desculpe, uma favela.

Por Fernanda Figueiredo
 


Segunda-Feira, 23.03.2009

 


 

 



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