Sérgio Fernandes - Vocalista da Chica Fé


“Muitas pessoas achavam que eu seria o clone de Saulo. Eu amo meu irmão, mas nunca pedi para ser irmão do cantor da banda Eva ou irmão do ex-cantor da banda Chica Fé”. Esse é apenas um trecho da entrevista que fizemos com o cantor Sérgio Fernandes, onde ele esclarece, entre outras coisas, que nunca gostou do rótulo de clone de Saulo Fernandes. Serginho, como é carinhosamente conhecido pelos admiradores, também falou do apoio que Saulo deu para que ele assumisse os vocais da Chica Fé, mesmo com a rejeição do empresário da banda Jefrey Athaide. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Coluna Holofote: Como e quando você começou a se interessa pela música?
Sérgio Fernandes:
Na verdade essa paixão vem de berço. Meu avô era pescador, seresteiro e amava bossa nova. Por isso a gente cresceu ouvindo boa música. Quem começou primeiro foi Saulo, que é quatro anos mais velho do que eu, mas sempre gostei de música. Já a partir dos dez anos eu comecei a cantar, mas ainda não tinha a música como profissão. Era um hobby, pois na verdade eu queria ser jogador de futebol. Aos 18 anos, entrei no lance do pagode com a galera do meu condomínio. Fui tomando amor pela música, depois me afastei do pagode, porque vi que eu não era um bom cantor de pagode; não era a minha verdade. Eu tinha cantado na banda “Deixe de Onda”, mas sempre quis cantar pop e axé e a Chica Fé sempre foi a banda que amei e tive como referência desse ritmo. Cheguei até a montar uma banda. Mas quando ia entrar em fase de ensaios, fiquei sabendo do teste pra entrar na Chica Fé. Foi ai que fiz o teste, ainda muito ‘verde’, começando. Isso foi em 2002, quando fui aprovado.

CH: Mas você se inscreveu nesse teste ou foi indicação?
SF:
Eu vou lhe ser bem sincero. Saulo queria muito que eu ficasse na banda; sempre foi meu maior incentivador. Ele sempre falou para eu cantar, pois acreditava que eu seria melhor que ele. De fato Saulo queria me colocar na banda, mas Jefrey [Athaide], empresário da Chica Fé, não quis, porque ele teve certo preconceito com o pagode. Ele pensou ter um ‘cantor de pagode’ não seria muito a linha de uma banda de pop-axé; pensou que não iria me adaptar. Mas ele não sabia da minha história, que eu já escutava MPB, e que já cantava pop antes. E foi então que eu já estava pra desistir, porque Jefrey não queria, mesmo sem ter escutado minha voz. Aí estava rolando um churrasco na cada de um amigo meu, Daniel vieira, que é cantor também, e ele me informou que estava tendo um teste em que teria que mandar um CD para o Eva com as músicas da Chica Fé gravadas. Foi então que Saulo conseguiu o playback pra mim; eu gravei com minha voz cinco faixas e acabei sendo aprovado. ‘Jel’ enfim aprovou o pagodeiro.

CH: Você pensou em fazer outra coisa na vida a não ser cantar?
SF:
Ser jogador de futebol. Eu cometi um erro muito grave, pois nunca quis estudar. Falo isso porque hoje escrevo poema, faço música e sinto falta disso. Seu eu tivesse estudado sei que estaria muito além. Até pela maneira de escrever e tudo mais. A inspiração ia ser maior. Nunca sonhei em ser advogado ou médico. Acho que sempre quis essa vida louca de perder noite, de estar cantando mesmo.

CH: Qual é o diferencial da Chica Fé em relação às outras bandas?
SF:
A minha primeira idéia foi diferenciar de Saulo. Por isso a Chica Fé com Saulo tinha uma cara e comigo se tornou outra. Eu quis dar uma cara mais jovem, mais adolescente, mas não foi uma coisa que a gente procurou. Aconteceu naturalmente, pela minha maneira de vestir, meu comportamento, minhas músicas, e tal. Sempre gosto de diferenciar; até porque nunca gosto fazer meu repertorio igual ao de outras bandas. Nosso axé nós fazemos da maneira tradicional mesmo; com pesquisas em relação à musicalidade da África, com uma percussão bem elaborada. Já nosso pop não é o normal. Não é você pegar uma música de Charlie Brown, Jota Quest ou da banda Mascavo e tocar como eles tocam. Nós adaptamos para a Bahia; para sonoridade local, mais percussiva.

CH: Como você define musicalmente a Chica Fé?
SF: É pop-axé, mas não é um pop-axé normal. Eu sempre procuro elaborar mais e tocar músicas que ninguém toca. E aí depois de algum tempo as pessoas começam também a tocar essas músicas porque estão funcionando em nossos shows. É muito fácil alguém ver uma banda menor e falar: aquela música ali deu certo eu vou tocar também. Mas ter coragem de botar uma música que ninguém toca no repertório, pouca gente faz. Faço isso porque não queremos ser apenas mais uma banda de axé. Eu não quero ser melhor ou pior do que ninguém, eu quero é ser diferente.
CH: Falando em ser mais um, você acha que tem espaço garantido para a Chica Fé no mercado da música baiana, uma vez que várias bandas surgem de tempo em tempo?
SF:
Não é que já exista um espaço, mas nos já temos nosso público, é claro. Tem uma galera que curte muito Chica Fé, e inclusive as pessoas de Salvador têm me cobrado muito porque a banda está há um tempo sem tocar aqui. Vejo que a Chica fé já tem uma definição e já tem um público muito variado. A gente faz desde festas de escola até festas de empresas. Toda vez que lotamos as casas quando ensaiamos em Salvador. E nós amamos isso tudo. Creio que há a visão da Chica Fé como uma banda diferente. Eu fico feliz porque os compositores já estão fazendo músicas voltadas para nós, quando naturalmente era pra fazer para uma banda maior, como Chiclete e Asa. Ou seja, estamos criando uma identidade; e é isso que eu quero.

CH: Te incomodaria ser taxado de cópia de seu irmão (Saulo Fernandes), por você ter entrado na banda a qual ele foi vocalista anteriormente?
SF:
Não só incomodaria, como já incomodou muito. Essa fase está passando, mas as pessoas rotulam mesmo. A gente se parece muito, mas é uma coisa que eu nunca busquei. Justamente no momento em que eu estava entrando na Chica Fé, estava se falando muito em clone de cantores. E muitas pessoas achavam que eu seria o clone de Saulo. Eu amo meu irmão, mas nunca pedi para ser irmão do cantor da banda Eva ou irmão do ex-cantor da banda Chica Fé.

CH: Musicalmente vocês são parecidos?
SF:
Sim, sim. O que eu quero que as pessoas conheçam Saulo e conheçam Sérgio. Não o irmão de Saulo, mas o cantor que está ali, fazendo seu trabalho, o que é diferente. Muita coisa que eu tenho relacionado a música foi Saulo que me ensinou, ou melhor, me direcionou. Então os gostos se tornaram parecidos. Mas hoje até que não muito. Até na maneira de se vestir Saulo é um pouco mais paz, eu sou aquela coisa mais elétrica, de gente nova chegando. O nosso timbre é muito parecido, porque somos irmãos, mas sempre procuro diferenciar o máximo que eu posso, botando um tom ou dois tons acima, pra ficar mais agudo e já não parecer tanto. Isso porque nunca gostei dessa comparação, nunca gostei desse rótulo. Porque no começo achavam que éramos o clone da banda Eva, e graças a deus isso foi quebrado. Ainda há certa comparação, mesmo porque eu Saulo conversamos muito, e a gente até brinca com isso. Atualmente nos estudamos música separados, e sempre trocamos idéias sobre essas coisas. Eu pego muita coisa boa dele. Não pra imitar, mas porque é bom. Assim como eu pego coisas de Daniela, de Ivete, de Durval. É bacana você aproveitar as coisas boas, mas não imitar, porque se é uma coisa que eu tenho pavor, é clone. Acho que o cantor de uma banda tem que ter sua própria identidade.  
 
CH: A Chica Fé já lançou músicas conhecidas, como “Chama da Paixão”, “Eu Quero Ter Você” e “Vou Trocar Meu Colar Por Um Beijo”. Como é feita a escolha das músicas de trabalho?
SF: Na verdade são várias cabeças pensando de maneira diferente para a gente chegar num consenso. A gente tem aqui Jefrey, Vitor Urpia, Windson e eu. Nós quatro selecionamos algumas músicas e fazemos pré-produção e um arranjo bacana até chegar a um consenso da música que a gente acha melhor. Foi isso que aconteceu com “Punhado de Areia”, que é a nova música de trabalho. Fazemos essas reuniões porque nem sempre eu, como artista, estou certo na escolha da música. Às vezes Jefrey vai estar certo, Vitor ou Windson também. Temos que ouvir uns aos outros para chegar a uma conclusão.

CH: Já aconteceu de vocês lançarem uma música e depois chegarem à conclusão de que outra música daria melhores resultados?
SF:
A gente não chegou a lançar, mas ano passado tivemos uma canção chamada “Eu e você, você e eu”, que certamente vai entrar no novo disco, mas é uma canção que a gente tinha certeza de que iria lançar na época. Fizemos a pré-produção e depois começou a se perder isso. Começamos a fazer vários arranjos para achar o ideal da música, e não achamos. Até que veio a musica “Vou Trocar Meu Colar Por Um Beijo”, que foi uma canção que quando chegou, já veio em minha cabeça a idéia do arranjo, de como cantar, da maneira como executar. Já chegou meio pronta, coisa que não aconteceu com a outra.

CH: Conta um pouco do seu lado compositor.
SF:
Surgiu por acaso. Nunca imaginei ser um compositor. Isso aconteceu com “Chama da Paixão”, que foi uma musica que recebi dos compositores Bel Figueiredo e Jean Carvalho. Gostei muito da letra, mas quando chegou no refrão deu uma brochada. Aí eu pedi a eles que me passassem a letra e a cifra. Pedi muito a Deus pra conseguir fazer o refrão dessa música. Em casa, minha mãe estava vendo um DVD evangélico muito bonito. Eu fui pro banheiro tomar banho. Tomando banho já saiu o refrão. Quando percebi que ficou bom, eu liguei para os compositores e eles aprovaram. Depois nós gravamos e “Chama da Paixão” foi a primeira e mais importante música que eu já tive. Também tenho algumas canções em parceria com Saulo: “Carnaval de Salvador”, “Diz Que Vai Voltar” e “Ta Faltando Um Beijo”. É muito bacana nesse lado do compositor, quando você vê que as pessoas se identificam com sua música.

CH: Mudando um pouco de assunto, você é evangélico?
SF: Sou, sim.

CH: A Chica Fé pretende realizar ensaios em outras capitais do Nordeste. O objetivo principal é cativar o público de fora?
SF:
Esse lance de ensaio é muito bacana. E as pessoas querem muito durante o ano, porque elas só vêm com freqüência em Salvador. Começamos isso ano passado, quando fizemos Salvador nas quartas-feiras e Aracaju toda quinta. Esse ano abrimos mão de realizar ensaios em Salvador para fazer em Aracaju e Recife; isso já é um projeto que está se estendendo, porque Maceió, Fortaleza e Natal já estão pedindo. Mas no verão a gente não quer abandonar Salvador, porque aqui é nossa casa e temos que tocar aqui. Não queremos fazer ensaio toda semana. É melhor fazer um projeto no estilo Summer Time, do Cheiro de Amor, que era duas vezes no mês.

CH: Você falou nas capitais do Nordeste, mas no Sudeste como é a receptividade do público?
SF:
A gente está muito bem em Minas Gerais e em São Paulo, onde fizemos o Evanave com a banda Eva. Mas posso dizer que Minas é minha segunda paixão, porque é um povo que ama música baiana; eles idolatram mesmo. Todo show da Chica Fé lá é casa cheia. Inclusive estamos com projetos pra realizar em Minas, principalmente no verão.

CH: Como você a aceitação do axé enquanto movimento musical nos outros estados brasileiros?
SF:
Eu sempre fico surpreso com o poder da música baiana. Acho que nem Salvador sabe o poder que a música baiana tem. Nós vamos pra BH e tem o Axé Brasil, que é um festival de música baiana. Em Recife tem o Recife Indoor, onde se colocarem dez atrações, oito são baianas. É uma música que só cresce; isso é impressionante. Creio que todos os festivais de música hoje tem sempre uma banda de axé. Mesmo aqueles que não têm nada a ver com Axé Music, como ocorre muito no Sul. Portugal também ama o axé. Do norte a sul do Brasil percebemos o poder da música baiana.

CH: E em qualidade, o que você acha do Axé Music atualmente?
SF:
Tem que ser sincero? [rsrsrs]. Tem bandas que prezam pela qualidade musical e que eu sou fã, a exemplo de Banda Eva, Ivete e Daniela. O Chiclete tem sua linha, que por mais que tentem imitar não vão conseguir. Durval tem seu carisma, seu jeito engraçado, que também ninguém vai conseguir imitar. Acho que no Axé Music, os considerados grandes, tem suas qualidades, mas tem muitas bandas, que eu não vou citar nomes, que precisam priorizar mais a parte musical; se preocupar com arranjos. Os grandes estão sempre fazendo isso. Se nós temos uma das músicas mais fortes no cenário brasileiro, porque não colocar letras de qualidade, que digam algo, que falem sobre o amor. Nós artistas somos referência, e por isso temos sempre que buscar passar coisas boas. Não podemos incentivar drogas, bebidas, como muitas bandas incentivam. Tem que incentivar a amar, que é o que estamos precisando. O problema é que quando o artista visa muito o financeiro, o comercial, a qualidade se perde, porque não se preocupa com o que vai passar, e sim com o que vai ganhar, com o que dá mais dinheiro.

CH: Qual artista, baiano ou não, você admira ou se inspira pra compor e cantar?
SF:
Eu sou fã de música americana e de música gospel, que é uma herança da música americana. Sou apaixonado pelo estilo soul music. Mas por outro lado eu sou muito brasileiro, porque cresci ouvindo Chico Buarque, Tom Jobim, Djavan, Caetano, Gil. Não gosto de limitar meu ouvido. Por isso estou sempre pesquisando coisas novas. Por outro lado, eu também sou muito baiano. Admiro Brown, que mudou a história da música da Bahia. Gil, Ivete, Daniela, Armandinho também são muito bacanas. Sempre busco algo desses artistas.

CH: Conta um pouco sobre o CD que a banda está gravando; o primeiro de carreira.
SF:
Na verdade é o segundo CD, mas comigo nos vocais é o primeiro. A gente diz que é o primeiro da banda porque o CD que foi gravado ainda com Saulo não foi muito divulgado, pois logo após o lançamento o CD, Saulo foi pro Eva. A gente demorou seis anos para fazer esse novo CD, mas de três anos pra cá nos começamos a procura músicas pra valer. Também começamos a fazer a pré-produção.

CH: Porque essa demora de seis anos para a gravação do CD?
SF:
Na verdade não é demora; é cuidado. Nesse período percebi que na música baiana muitos CDs e DVDs são de ano e ano. A gente tem a preocupação de fazer uma coisa bacana, diferente. Eu peço até desculpas porque esse CD estava previsto para o ano passado, mas não deu. Não estava como a gente queria. Vamos gravar esse CD com “Chama da Paixão”, “Trocar Meu Colar Por Um Beijo”, “Punhado de Areia”, e as músicas novas que estamos buscando.

CH: O CD vai contar com quantas inéditas?
SF:
Devemos fazer um CD com seis já lançadas e seis inéditas. Isso é uma média, que vai depender da pesquisa do som que tiver rolando. Temos que ter um CD bem mesclado.

CH: Falando em mesclar, você pretende inserir o que de diferente no novo trabalho?
SF: Pretendemos gravar três reggaes, três canções samba-reggae, três músicas ‘pra frente’, uma mais pop-axé, mais funkeada, um reggae mais roots, uns dois merengues. Queremos fazer um trabalho bem mesclado, pra ficar parecido mesmo com o show da Chica Fé.

CH: Tem alguma participação prevista para esse CD?
SF:
A priori não terá participação, mas não descarto a possibilidade. A gente já está em fase de ensaios, de arranjo e pré-produção pra depois entrarmos em estúdio. Só estamos dependendo - isso é até um apelo aos compositores - de uma música de trabalho para o verão. Assim que encontrarmos essa música, a gente começa a entrar em estúdio. Eu acredito que até o final de setembro esse CD esteja totalmente gravado.

CH: Vai ter alguma regravação?
SF:
Vai ter, sim. Tem uma música de Luiza Possi que queremos regravar. Tem outras coisas bem encaminhadas, mas eu não posso falar tudo porque ainda estamos selecionando as músicas, mas ainda não definimos tudo.

CH: Como serão os ensaios aqui em Salvador?
SF:
A gente vai fazer ensaio, mas é em outro formato. A idéia é parecida com o Cheiro Summer Time. Ainda estamos vendo o local, mas sabemos que não vai ser semanal. Será com uma proporção maior, com uma produção maior, mas datas períodos afastados.

CH: E para o carnaval já tem algum bloco certo?
SF:
Temos coisas bacanas para o Carnaval, mas não posso falar nada ainda. A única garantia é o nosso bloco “Yes”, que todo ano tem, e eu já tomei como meu bloco. Todos os carnavais a gente priorizou sair de Salvador, e esse carnaval vamos lutar pra fazer cinco ou seis dias aqui. Estamos analisando blocos de Salvador, ou até trios independentes. Nosso objetivo é estar em Salvador.

CH: Para as assanhadinhas, você está solteiro ou namorando?
SF:
[rsrsrs] Estou namorando.

CH: Pra finalizar, soube que vocês já estão pensando em DVD. Para quando é isso? Já tem algo definido?
SF:
O DVD vai sais baseado no CD, é claro. A gente quer trabalhar muito bem o disco pra fazer um DVD com canções conhecidas. Certamente vai aparecer no DVD canções que não estão no CD, mas também não pode ser um DVD só com inéditas. Temos que trabalhar muito as canções antes de gravarmos. Pretendemos gravar ano que vem aqui em Salvador, mas com muito cuidado. Isso porque todo mundo está gravando DVD, e se você observar bem, todos estão muito parecidos. Queremos fazer algo diferente, assim como o Cheiro de Amor fez recentemente.
Por Rafael Albuquerque

 



Quinta-Feira, 28.08.2008

 


 

 



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