Quinta, 14 de Setembro de 2017 - 11:00

‘Nascer mulher já nos exige ser feminista’, pontua Valesca sobre situação do Brasil

por Júnior Moreira / Bárbara Gomes

‘Nascer mulher já nos exige ser feminista’, pontua Valesca sobre situação do Brasil
Foto: Tiago Dias / Bahia Notícias

Valesca Reis Santos, Valesca, Valesca Popozuda, Popozuda ou até Val. Ela não se importa. Gosta de ser plural e permite experimentar. Começou a carreira dançando, porém para fugir da “rotina” migrou para o canto. “Sempre gostei de dança e minha intenção era essa para o resto da vida, mas as coisas caem na mesmice, né? Foi aí que recebi o convite para cantar e comecei todo esse processo. Fui aprendendo com as coisas”. O grande público a conheceu pelos 12 anos que permaneceu na “Gaiola das Popuzudas”, contudo foi com o hit “Beijinho no Ombro” que viu sua vida mudar por completo. Atualmente, após uma passagem pelo pop, a artista volta a investir no funk, com o lançamento do single “Tô Solteira de Novo”, e, volta e meia, figura nos tabloides pelos seus posicionamentos políticos ou por negar rixa entre as cantoras do funk, além de supostas reduções do bumbum e pela postura a favor do feminismo. “É preciso criar esse consciente de irmandade entre nós. Já nasci feminista até porque saí de um útero totalmente feminista. Minha mãe deu tudo na vida para me criar sozinha. Nascer mulher nesse país já nos exige ser feminista”, lembrou. Valesca esteve em Salvador para participar da Parada LGBT e visitou o Bahia Notícias para contar as novidades da carreira. Confira a entrevista completa:

Valesca, você está lançando a música "Tô Solteira de Novo". Qual a motivação de apostar nesta faixa agora?

Na verdade, a "Tô Solteira de Novo" vem de uma continuação de uma música lá atrás, a "Agora eu Tô Solteira e Ninguém Vai me Segurar". Eu queria muito esse negócio do funk. Sou muito ligada nessa onda e a gente gosta de misturar com pop, axé etc. O objetivo é se renovar sempre. Quando fiz a primeira música, queria ir pra farra, aproveitar. Agora, eu estou novamente e não é marketing. “Tô Solteira de Novo” não é porque eu estou atrás de namorado. Quero sair com minhas amigas, curtir falar da vida dos outros. Então, é uma continuação pra relembrar essa música da época da Gaiola das Popozudas. 

 

E o clipe? Quando sai?

Gravo o clipe no final do mês e lanço. A previsão é para o dia 6 de outubro, que é o dia do meu aniversário. Vai ser bem eclético, bem festa. Vai ter os “contatinhos” guardados que eu ainda não achei! 

 

Vendo os seus stories aqui em Salvador, você distinguiu sua passagem na época da Gaiola com o momento atual. Quão especial foi pra você?

Quando eu comecei na Gaiola das Popozudas, lancei “Agora Eu Tô Solteira” e eu fui convidada para cantar no Carnaval no circuito Campo Grande, em 2006. Naquele momento, gritava “Gaiola das Popozudas” lá de cima e o nome da música que a gente estava divulgando e deu super certo. Agora, voltei para me apresentar na Parada LGBT e novamente como uma música nova. Achei isso do destino incrível. Salvador é meu pé de coelho, acho. Aqui é axé!

 

Falando no público LGBT, lá no início da sua carreira, imaginava que seria adorada por ele?

Nunca sonhei em cantar. Sempre gostei de dança e minha intenção era essa para o resto da vida, mas as coisas caem na mesmice, né? Foi aí que recebi o convite pra cantar e comecei todo esse processo. Fui aprendendo com as coisas. Bom, respondendo a sua pergunta, lá atrás, não tinha dimensão do que está acontecendo e que teria esse público junto comigo. Eu sou rainha da Parada Gay de Madureira há 9 anos. Eles enxergaram quem eu sou, não preciso fazer tipo, mudar meu jeito para agradá-los. Gostam da minha música, dançam até o chão, mas também aprenderam a conhecer meu trabalho fora da música, a Valesca dos Santos. Fico muito honrada e lisonjeada de representá-los de alguma forma.

Com o passar dos anos, você foi mudando a forma de vestir também. O que te fez alterar as coisas que usava?

Essa mudança surgiu na minha vida naturalmente. Desde a época da Gaiola das Popozudas, antes de entrar na “Fazenda”, ficava procurando alguém pra arrumar minha mala. Por que eu não gosto nem de arrumar nem de desarrumar (risos). Aí me sugeriram uma personal stylist. Então, comecei, mas não queria estar na moda, queria me sentir bem e fui buscando ter equilíbrio e me ligar mais em moda. Antes, colocava um shortinho, top e salto e saía. Agora, consegui colocar mais sofisticação nesse babado. Fui me ligando mais em moda e comecei a olhar o São Paulo Fashion Week (SPFW) e sonhava em participar daqueles desfiles de moda, sentar naquelas primeiras cadeiras. Meu amor, quando realizei esse sonho indo pro RJFW, fui com um vestido parecendo que foi colocado a vaco no corpo, não aguentava nem abrir as pernas (risos). Porém, quando cheguei, eu parei. As pessoas olhavam querendo saber quem me vestiu. Adorei aquela sensação, mas também compro roupa da feirinha. As pessoas têm que aprender que moda é se sentir linda e maravilhosa.

 

Além da mudança no estilo, saiu em alguns veículos que está reduzindo o bumbum. É verdade? O que te fez querer mudar?

Eu gosto de fazer tratamentos estéticos, massagem, essas coisas. Aí eu resolvi fazer uma reeducação alimentar pra dar uma “enxugadinha” pra gravar o clipe. Aí uma esteticista foi em minha casa fazer modeladora, massagem e uma revista que fez a matéria já colocou pra chamar a atenção que eu iria reduzir bumbum. Tem nada disso! Se eu quisesse diminuir tiraria a prótese, né? O brasileiro adora falar do bumbum, mas tá tudo certo com o meu.  

 

Suas músicas também estão diferentes. Inclusive, fez uma nova versão para "Beijinho no Ombro" em que enaltece as mulheres. Declara-se feminista?

A versão foi um movimento de sororidade com as mulheres e falar disso já vive dentro de mim. Somos incentivadas a falar mal uma das outras, do corpo, da celulite... O homem não tem nada disso. Quer sair, tomar cerveja e olhar as minas. É preciso criar esse consciente de irmandade entre nós. Já nasci feminista até porque saí de um útero totalmente feminista. Minha mãe deu tudo na vida para me criar sozinha. Ela foi morar num teto com uma pessoa que não gostava dela só pra eu ter onde morar, sabe? Carrego isso desde pequena. Vi tudo o que ela passava e isso vai te consumindo. Tinha dificuldades, trabalhava em casa de família e, às vezes, chegava em casa chorando. Então, meu sonho era dar uma vida pra minha mãe em que ela conseguisse acordar a hora que ele quisesse. Nascer mulher nesse país já nos exige ser feminista.

 

As pessoas e a imprensa tendem a colocar as cantoras umas contra as outras. O que acha desse posicionamento? É fruto do pensamento machista?

Quando falam que não gosto da pessoa, faço questão de estar ao lado e fazer a foto. Curto todas as meninas e meninos do mundo do funk. A mídia quer falar e tem que vender de alguma forma. Não acho que tá errado, nem brigo. Entendo que faz parte. Porém, os fãs começam a ler e compram a briga. Eu não tenho nada contra ninguém. Às vezes, a gente faz o bem e a pessoa vira as costas, mas quem vai julgar é Deus. Do que adianta eu falar mal dos outros?

Então, como é sua relação com Anitta, por exemplo?

Eu falo com ela, mas não somos melhores amigas. A gente está na rua, se encontra e se fala. Eu não a odeio e ela não me odeia. Assim como a Ludmilla. Uma coisa é certa, com quem eu não troco figurinha, não fico na casa, sabe? Então, não tenho uma amizade.

 

Outro dia você virou notícia ao usar o brinco do "Fora Temer". Acha que o artista deve se posicionar em relação ao cenário político?

Foi num show que eu fiz e usei o brinco. É sempre bom você se posicionar de alguma maneira. A nossa política tá uma merda, a gente tem que dar as mãos e pensar em quem vai votar. Eu botei o brinco porque ele só faz merda e a gente tem que admitir. Nossa saúde e educação estão ruins. A gente tem que reivindicar. Não que vá comprar briga, mas se posicionar. Somos brasileiros e não desistimos nunca.

 

Por falar em política, você também se posicionou contra a sugestão de lei para criminalização do funk. Por que acha que o seguimento incomoda tanto?

 É uma palhaçada isso. Quando estamos juntos com os Mcs, a gente ri e acha um absurdo! Bizarro. Como diz a música, o funk “é som de preto, de favelado e quando toca ninguém fica parado”. O hip hop também sofreu muito preconceito. Mas o funk tá na boca da galera, tá crescendo, estourando na internet. O funk tá em evidência e certos políticos mergulham nisso para aparecer. O movimento ninguém acaba. Eu mudei a minha vida com o funk e tenho mais de 30 pessoas que trabalham comigo. A gente ajuda muita gente, os MCs conseguem sustentar a família, tirar um parente do crime. O ritmo dá muita oportunidade.

 

Por fim, além do clipe, quais são os próximos passos. Tem DVD vindo por aí? Quem vai participar?

O planejamento desse ano é o DVD e já está na hora. Vai sair! No final deste ano para o começo do ano que vem. Estou dependendo de resposta de participações. Quero muito Claudinha Leitte, gravei a música “Sou Dessas” com ela, mas não consegui gravar o clipe, por conta da correria. Vou fazer uma nova roupagem da música e convidá-la. Mas preciso alinhar direitinho. Ela é maravilhosa. Mas eu tenho que esperar primeiro autorização de gravadora... Essas coisas. Tem um sertanejo também que eu quero muito que participe. Na verdade, é uma mulher, mas não posso contar agora [disse aos risos].

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