Quinta, 08 de Junho de 2017 - 11:00

Para Adelmário Coelho, descaracterização do São João é 'culpa' do poder público

por Júnior Moreira

Para Adelmário Coelho, descaracterização do São João é 'culpa' do poder público
Foto: Divulgação

Após 23 anos de carreira musical, Adelmário Coelho segue sendo uma das maiores referências e marcas do chamado "forró de raiz" ou "forró tradicional" aqui da Bahia. Basta ouvir os primeiros acordes de sucessos como "Seu eu morasse aqui pertinho", "O Neném", "Amor não faz mal a ninguém" e "Não fale mal do meu país" que muita gente já sente o clima junino no ar, em que o ritmo popularizado por Luiz Gonzaga e Dominguinhos é prioridade. Ou deveria ser. Em 2017, um novo fenômeno vem chamando atenção nas redes sociais. Com a predominância de atrações sem ligações diretas com a festa, como o sertanejo, pagode e funk, fãs dos tradicionais ritmos juninos têm se mostrado insatisfeitos e a campanha #DevolvaMeuSãoJoão  vem ganhando força. Ao Bahia Notícias, o forrozeiro jogou a responsabilidade de manter as tradições culturais ao poder público. "Uma festa privada vai colocar efetivamente quem está na crista da onda, quem tá lá em cima. Isso é claro. Porém, é privada. É dele. A outra coisa é o gestor público, que tem responsabilidade social e cultural com o Brasil, de repente transfigurar tudo isso. Então, em uma festa junina, você vai lá dançar forró, beber seu licor e comer a espiga, mas tá vendo um gênero musical que não tem relação nenhuma. A responsabilidade é do artista? Não! O gestor é que tem que ser chamado atenção para isso", frisou. Confira a entrevista completa:

 

A época dos festejos juninos é o momento mais esperado pelos forrozeiros. Como o senhor organiza a agenda?

Pois é. É uma agenda que, embora a gente queira que seja sazonalizada, ainda temos que ver alguns desafios. O forró não pode sobreviver apenas no mês de junho. Ninguém vive 12 meses apenas com um mês. É complicado. Eu tenho a felicidade de poder tocar de janeiro a janeiro, claro que sem a intensidade de maio, junho e julho, no qual são especiais, pois 60 milhões de brasileiros, total da população do Nordeste, efetivamente tem festa, seja para comemorar São João, Santo Antônio ou São Pedro. Há uma demanda muito grande pela cultura e evidentemente a gente fica nessa expectativa. Mas graças a Deus está indo muito bem.

 

É uma festa efetivamente nordestina. Consegue eleger em qual estado é melhor realizada?

Aqui na minha Bahia se faz seguramente o melhor São João do Brasil. Não por ser o maior estado, com 417 municípios, mas porque não tem uma grade verticalizada. É horizontal. Então, quando você vê Amargosa, Santo Antônio, Senhor do Bonfim, Cachoeira, São Francisco do Conde, Salvador, Camaçari fazendo festas que empurram para todas as outras ao redor. É uma comemoração que agrega. Esse ano, a gente tá observando que tem uma perspectiva melhor que o ano passado, que foi bem crítico.

 

O que mudou de um ano para o outro?

Cara, todo o seguimento da economia foi atingido com essa crise que o País passa. Porém, por incrível que pareça, esse ano eu vejo algumas melhoras, entendeu? Na procura mesmo. Não é uma coisa absurdamente diferente, mas está melhorando muito.

 

O senhor é uma das atrações mais requisitadas no período junino. Como vê essa responsabilidade?

Primeiro, retribuo carinhosamente esse momento de procura das pessoas, pois não deixa de ser uma responsabilidade nos colocar nessa condição de todo ano estar aqui. Depois, primo muito pela qualidade. São 23 anos de carreira e hoje percebo que os gestores, produtores levam em consideração a qualidade pela qual o serviço foi e é prestado. Isso aumenta a responsabilidade e temos que caminhar pensando sempre nisso.

 

Sente o peso de ser uma referência no ritmo?

Não. De jeito nenhum. Na verdade, nem sei se sou essa referência (risos). Sinceramente, confesso que nunca imaginei isso, mas tenho convicções e determinações com a minha cultura que é o forró. Então, cada momento que faço alguma coisa pelo ritmo, fico feliz. Cada passo, cada degrau que eu consiga pela cultura me deixa feliz para caramba e se eu posso levar e sobreviver, em detrimento de todas as variáveis, como o modismo, fico mais satisfeito ainda.

 

Qual o segredo para se manter como um grande nome do forró após tantos anos?

Comprometimento com a qualidade. A ética profissional, trabalho bem feito e respeito ao público também, né? Além de observar as tendências. Meu público nunca me diz: 'pô, você tá cantando coisa ultrapassada". Se eu fizer alguma coisa fora desse caminho, talvez eles estranhem, mas eu provoco também. Acabei de gravar "Tempinho na Rede", que é uma música bem jovial. É de autoria de uma compositora muito jovem que nunca teve uma música gravada e tá tocando muito aqui. Bateu 1º lugar em Salvador. Esses são meus segredos (risos).

 

O senhor enxerga essa nova geração de forró, representada pelo Aviões e Wesley Safadão, por exemplo, como um movimento que soma ao ritmo?

Acho que soma sim. O público é o grande juiz e ele sabe dizer o que é cultura ou que está diferente daquilo que foi criado por Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Dominguinhos há anos. Então, o que fazemos é uma coisa que tem laço forte com a cultura, mas acho válido e penso que tem que se modernizar mesmo. Eu só faço censura ao vocabulário que, às vezes, é colocado nas ruas. Ainda sou do tempo que música é cultura e tem que seguir referências. A ideia é que você se lembre daquela canção como alguma passagem importante de sua vida. Não é isso? Ainda sou comprometido com essa qualidade. Mas acho que o público abraça com carinho as novas gerações, mas é diferente do que é cultura. É diferente mesmo.

 

Por que diferente? Pensa que é só entretenimento?

Bom, é uma novidade e o povo gosta do que é novo. Eu fico muito feliz quando um público jovem diz: "pô, gosto de dançar meu forró pé de serra", ou então: "Fui para um São João e não tinha forró". Isso é legal, pois mostra que o cara tem uma história, seja familiar ou dele mesmo, o que cria um choque cultural. Porém, acho que o nosso forró ele tá aí para ficar mesmo por gerações e gerações.

 

Como representante do chamado “forró raiz”, teme que as novas gerações não conheçam esse movimento daqui a alguns anos decorrente do não surgimento de novos artistas que sigam essa linha?

Na verdade, não tem preocupação nenhuma com o cantor ou cantora que traz esse movimento, sabe? A responsabilidade de manter um segmento é com quem dirige a coisa pública. Por exemplo, uma festa privada vai colocar efetivamente quem está na crista da onda, quem tá lá em cima. Isso é claro. Porém, é privada. É dele. A outra coisa é o gestor público, que tem responsabilidade social e cultural com o Brasil, de repente transfigurar tudo isso. Então, em uma festa junina, você vai lá dançar forró, beber seu licor e comer a espiga, mas tá vendo um gênero musical que não tem relação nenhuma. A responsabilidade é do artista? Não! O gestor é que tem que ser chamado atenção para isso.

 

Mas muitas cidades estão sendo criticadas por isso...

Estão, mas outras perceberam isso, como Amargosa, Santo Antônio, Senhor do Bonfim, e está surgindo um novo cenário. Isso vai da cabeça do cara que organiza.  Se não pode ser 100%, que seja 90% de forró. Esse é meu entendimento.  É assim que tem ser.

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