Manno Góes fala sobre saída do Jammil, critica possível interferência estatal no Ecad e apatia dos artistas
Pouco tempo depois de ter deixado a linha de frente do Jammil, o músico e compositor Manno Góes concedeu entrevista ao Bahia Notícias e falou sobre diversos temas. Ao afirmar que não tem medo de arriscar no novo, Manno agora trabalha a carreira dos cantores Juninho Lord e Batatta. Ele critica os empresários aventureiros, a “teoria do outdoor” e a interferência do governo no Ecad: “O governo fiscalizar será um atraso, um retrocesso”. Criticou, também, a apatia da classe artística: “Eu acho que os artistas se manifestam de forma muito discreta com relação aos nossos problemas”. Confira a entrevista na íntegra abaixo!
 

 
Coluna Holofote - Vamos começar falando da novidade, que é sua saída da banda Jammil.  O que te levou a isso?

Manno Góes - Eu já vinha pensando em sair da estrada há algum tempo. O desgaste de 22 anos de estrada começou a bater na porta, no meu dia a dia. Eu queria ter um convívio melhor com minha filha, que é adolescente, e ao mesmo tempo fiquei muito curioso com o que vem acontecendo de novo na música. Quando estamos no esquema de banda, de estrada, a gente vive para aquilo. A gente tem que se dedicar totalmente para aquilo sem conseguir administrar o tempo para outras intenções, outros trabalhos. Então, em 2010, eu lancei um CD solo, que fiz para me distrair com outro universo musical que não fosse o da rotina do axé e do carnaval, que é muito escravizante e sufocante. Nesse período, se deu a saída de Tuca do Jammil. Eu tive que parar meu projeto para poder retomar a estrada do Jammil, mas eu já vinha conversando que queria diminuir o ritmo, pois sempre gostei muito de ficar por trás, em estúdio, trabalhando em produção e composição, nos bastidores. E é assim que vou ficar no Jammil. Depois do carnaval desse ano, eu conversei com Paulo Borges (empresário da banda) e com Levi sobre eu parar, e achamos por bem sair depois de julho, pois é um mês intenso e cheio de contratos. Decidimos que dia 31 de agosto seria meu último show, como realmente foi, e assim eu saí sem muito estardalhaço e cheio de projetos que estão me motivando a trabalhar com música, mas em outro espaço, outro ambiente que não o da estrada.

CH - Na prática, como será seu trabalho no Jammil?

MG -
 Eu sou sócio da banda Jammil e do bloco Praieiro, e temos o escritório com Paulo Borges e Manoel Castro. Vou ficar por trás do Jammil, mas não como um diretor, porque eu acho que o Jammil está tendo com o Levi uma linguagem própria, uma nova linguagem. Esse ciclo que se encerra comigo dá espaço a outro ciclo, com as pretensões musicais dele. Eu fico por trás, como sempre fiquei, como pessoa de certa experiência; compondo e participando de gravações. Teremos um DVD ao vivo no próximo ano e eu vou tocar em algumas faixas. Então, eu vou estar sempre participando dentro dessa perspectiva de contribuir e não de interferir tanto. Eu acho que o caminho do Jammil tem que ter a linguagem mais centrada na interpretação musical de Levi. Essa é a forma mais inteligente de a banda crescer.

CH - Como foi a reação de Levi, Paulo Borges e Manoel Castro quando você anunciou sua saída?

MG - 
Ah, foi ótima. Eles já sabiam. Eu tinha dito isso em 2010. Aliás, quando Tuca anunciou a saída, eu falei que eu sairia, que estava a fim de sair. Os três foram muito compreensivos porque sabiam que eu queria fazer outras coisas, participar de outros projetos, que eu já estava cansado da rotina de estrada e agora estou em outro momento. Esse meu contato com Levi foi importante porque me levou pra perto do novo, de percepções novas, e isso é muito motivador. Eu gostei desse universo, comecei a pesquisar e conheci o Battata, o Juninho Lord, e me encantei por essa possibilidade de oferecer a experiência que eu tenho e a estrutura que nós temos a artistas que têm talento e que nem sempre teriam tantas oportunidades.

CH - Como vai ficar o dia a dia de Manno Góes, que agora não tem a rotina cansativa de tantas viagens?

MG -
 Isso não é uma queixa, porque faz parte da vida do artista, que tem quer ir para a estrada, para onde o povo está. Mas, o que mais me cansava eram as viagens, os deslocamentos, e isso fazia com que eu me tornasse improdutivo para outros desejos. Há muito tempo eu trabalho com música, na noite, dormindo tarde e acordando tarde. E não é agora que eu vou acordar às seis da manhã para correr ou andar na praça com cachorro (risos). Vou continuar com minha rotina diária de ser da noite, de produzir à noite, de criar. Só vou deixar de ser o músico do palco. Em vez de estar na vitrine, ficarei nos bastidores. Dentro de minha rotina, estou ensaiando com Juninho Lord, que vai gravar um CD e lançar dia 12 de outubro. Battata já começou a fazer shows. Além disso, gosto muito de escrever e compor. Basicamente, eu trouxe de volta para mim os finais de semana. Chegou um momento em que eu percebi que estou com 42 anos e que o tempo voa com a música, passa muito rápido.

CH - Como surgiu a possibilidade de trabalhar com essas novidades, que são Juninho Lord e Battata?

MG -
 O principal motivador foi realmente a curiosidade artística. Pesquisei, vi o que estava rolando de novo e Malu, minha filha, me apresentou a Juninho através da internet. Eu fiquei impressionado com aquela capacidade, com aquelas letras e com aquela modernidade toda. Eu procurei saber quem estava por trás dele e descobri que era Wilsinho Kraischet, ex-empresário de Tomate e grande amigo meu. Aí, eu disse a ele que queria sair da estrada com o Jammil, mas queria cair de novo com Juninho (risos). Wilsinho adorou e estamos na parceria com Paulo Borges e Manoel Castro. Eu tô aprendendo muito com Juninho. Tem também o Guga Meira, que está fazendo um som sertanejo de muita qualidade e tem só 13 anos de idade. Battata, que tem 24 anos, é muito talentoso, tem voz linda e um trabalho mais estruturado. Ele já chegou com a banda Levaê e estamos mudando poucas coisas no perfil dele.
 

 
CH - Você vai gerenciar a carreira deles ou é uma parceria com a Carreira Solo?

MG - A princípio, sempre em parceria com a Carreira Solo. Wilsinho e eu abrimos uma empresa para administrar a carreira do Juninho e fizemos uma parceria com a Carreira Solo. Quanto mais pessoas se unirem em prol de um produto, melhor. Manoel é excelente vendedor, Paulo Borges é um ótimo marketing, eu e Wilsinho temos nossos contatos e cada um tem sua função e sua virtude para contribuir da melhor maneira possível. Battata tem outro grupo participando, mas também em parceria com a Carreira Solo. Eu quero me preocupar muito mais com a parte musical do que com parte contábil, empresarial.

CH - Você, um artista com carreira consolidada, não tem receio de arriscar no novo?

MG -
 Sem risco, a vida não valeria à pena. A gente tem que se jogar. A gente não está se aventurando. Seria risco se a gente estivesse bombardeando grana em produtos que a gente não percebesse qualidade. Nosso trabalho é feito com paciência, visando mais à qualidade do que à resposta imediata, e isso dá um retorno melhor, duradouro. Acredito no instinto, paciência, trabalho, objetividade e tranqüilidade. Já vi aventureiros gastarem fortunas em novos produtos. Por exemplo, aqui em Salvador, parece que outdoor canta, pois entopem a cidade de placas dizendo que é o “novo sucesso do verão”. Eles tentam passar uma impressão de sucesso, em que quanto mais placas de outdoor falando que a música é sucesso, mais eles acham que as pessoas acreditam naquilo. Eu acho que o marketing tem que ser da qualidade, posicionar o artista onde ele tem alcance, onde ele deve chegar, sem pular etapas. Juninho Lord, por exemplo, vamos lançar nesse verão, mas ele não deve puxar bloco nos vários dias de carnaval. Ele tem que ser preparado pra isso, mostrar porque ele é tão bom e, a partir daí, entrar em outros mercados.

CH - O que você acha dessa lei que regulamenta a arrecadação para os compositores através do Ecad?

MG -
 Eu sou um dos contrários a essa nova lei. Muita gente foi para Brasília sem saber o que estava fazendo ali. É óbvio que o Ecad necessitava passar por mudança. Mas, a mudança é bem vinda quando vem com diálogo. Foi tudo muito mal discutido e não foi representado pelos compositores. A representatividade foi de grandes cantores. Alguns deles, também grandes compositores, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil etc. Os compositores que não têm banda, que não cantam, que não tocam em bandas, não tiveram chance de debater, de conhecer o projeto. Esse projeto tem coisas interessantes, mas outras que acho questionáveis, como criar um órgão de governo para se fiscalizar e impor preços e modo de cobrança. Esse vínculo com o governo não é saudável, não é bom. A grande conquista do Ecad foi justamente organizar compositores em uma época em que era tudo muito bagunçado. Eu acho que esse é o momento de ficarmos atentos porque as conseqüências dessas mudanças vão começar a aparecer agora. Espero que seja benéfico, mas a rapidez e a falta de conhecimento de muitos que foram ali me incomodou, porque eles estavam sabendo que estavam ali como papagaio de pirata.

CH - Então, a seu ver, a interferência de um órgão governamental no Ecad será prejudicial?

MG -
 Sim. É assim no mundo todo. Acho que o governo tem que interferir nas obrigações de qualquer nação, como saúde, educação, segurança, acesso a cultura. Estabelecer regras de cobrança de direitos autorais via governo representa estatizar o que é de propriedade intelectual individual. Não é uma manifestação cultural pública. O governo fiscalizar será um atraso, um retrocesso.
 

 
CH - Agora que não toca mais no Jammil, como será o carnaval de Manno Góes?

MG - 
Depois de mais de 20 anos de carreira, eu pretendo ter o primeiro carnaval como folião. Aliás, eu comecei a amar o carnaval como folião atrás do trio do Asa de Águia. No carnaval, eu serei um pouco folião e um pouco profissional, porque pretendo acompanhar Battata, caso ele toque em Salvador, o Jammil, no Bloco Praieiro, e vou ao nosso camarote. Devo aceitar os convites para ficar no camarote de amigos e também fui chamado para apresentar projetos meus em camarotes. Eu torço muito para que o carnaval da Bahia volte a ter aquela irreverência e condição de referência no mundo inteiro como grande festa popular.

CH - Falando em carnaval, eu entrevistei Daniela Mercury e ela falou sobre crise no mercado criativo e disse que os artistas baianos só deixam transparecer que está tudo muito bem e não mostram o quanto é difícil botar um bloco na rua e montar um camarote (leia aqui). Qual sua opinião sobre isso?

MG -
 Daniela sempre se manifesta espontaneamente e com muita propriedade. Eu sou um grande admirador de Daniela e geralmente eu concordo muito com ela. Eu acho que os artistas se manifestam de forma muito discreta com relação aos nossos problemas. Os grandes empresários de carnaval estão percebendo que a festa passa por uma grande crise. Essa crise do carnaval é reflexo da própria cidade. Nós tivemos uma administração tosca, com oito anos sem investimento na área de cultura, nem de teatro, cinema e carnaval, que é um cartão postal da nossa Bahia. Aliás, a Bahia saiu um pouco de moda e isso foi péssimo para nós. A Bahia sempre vendeu essa questão da dança, alegria, sensualidade. Os artistas também sempre venderam muito bem Salvador, mas deixamos de ter a confirmação disso. A gente chegava lá fora e dizia que Salvador era a cidade mais linda do mundo, alegre, com praias lindas. Mas, o turista chegava aqui encontrava uma praia suja, sem lazer, sem barracas. A gente vendia uma imagem que deixou de existir e isso criou um constrangimento na música. Conseqüentemente, nosso carnaval foi deixando de ter a relevância que tinha e perdemos espaço para Rio e Pernambuco. O fortalecimento de Salvador será muito importante para o fortalecimento da música baiana. Os dois caminham juntos. A música que fazemos é uma representatividade da cidade, do povo, das ruas.

CH - A mudança de gestão com a saída de João Henrique e a entrada de ACM Neto na prefeitura pode reoxigenar o carnaval e a cultura soteropolitana?

MG -
 ACM Neto tem uma visão empresarial muito mais abrangente. Ele sabe da importância cultural, de nossa música e do turismo. Apesar de todas as dificuldades, penso que essa nova gestão já está dando uma oxigenada. A cidade empobreceu e o Brasil empobreceu. Nós temos um problema de gestão grave no estado e isso afetou em cheio a cidade. Não acho que Neto vai fazer nenhum milagre, mas ele está pontuando questões importantes; levantando bandeiras, ouvindo as pessoas e gerando discussões. Espero que ele continue provocando a retomada de investimentos no lazer, em cultura, e tente apaziguar os ânimos de nossa cidade, que está tão triste, violenta e tão diferente do que a gente tenta retratar em nossas músicas.

CH - Voltando um pouco aos projetos, fale um pouco sobre o "À La Vonté".

MG -
 O "À La Vonté" nasceu após conversas minhas com Andrezão Simões e Jonga Cunha. A gente sempre falava sobre como era bom encontrar com amigos músicos e tocar em pequenos lugares, sem o estresse e necessidade e grandes multidões. Formamos um grupo de artistas que já encontraram seu espaço dentro da música baiana e vamos tocar. É uma brincadeira que estamos doidos para por em prática. Teremos Durval Lélys, Ricardo Chaves, eu, Denny, Magary e Ramon Cruz nessa banda. Vai ser uma forma de a gente fazer música baiana, reviver momentos que nós construímos, dividir emoções e sentimentos. A ideia é ficar solto e se divertir mais, sem tanto comprometimento com regras e repertórios.
 

CH - E o projeto “As canções que eu fiz”?

MG -
 É um projeto de músicas que eu compus durante minha carreira. Quero pegar isso e formatar um show com instrumentos e sonoridade diferentes. Já estou vendo datas e locais para esse show. A ideia é reviver músicas e dar novas roupagens.

CH - Falando em composição, eu queria que você desse uma fórmula para emplacar músicas em novelas da Globo.

MG -
 (Risos) A gente tem, desde 2006, quando entramos na Som Livre, uma convivência muito boa com a Rede Globo. Para você ter uma ideia, de 2007 para cá, todo ano a gente emplaca música em novelas. Começamos em 2007, com “As canções que eu fiz”, em Malhação; em 2008, teve “A fórmula do amor”, também em Malhação; em 2009, foi “Tempo de estio”, em uma novela das sete; em 2010, entrou “Simples”, em Araguaia; em 2011, foi a vez de “Colorir Papel”, em Fina Estampa; em 2012, foi “Celebrar” e esse ano foi “Dançando na Garoa”. São sete anos consecutivos emplacando música em novelas. Ter esse espaço é muito importante para qualquer artista. Nós sempre circulamos muito bem no sudeste do país isso facilitou nosso ingresso nas rádios do Rio e de São Paulo, onde geralmente só toca Jammil, Claudinha e Ivete. Isso proporciona maior visibilidade e, daí, entramos em programas de TV e em novelas. A “Dançando na Garoa” entrou de supetão, de última hora, através de um pedido do Wolf Maia. Mas, música em novela não significa que vai ser um grande sucesso. A música ganha um grande potencial de virar sucesso por causa da exposição nacional, mas depende muito de como a canção se encaixa na novela e de como ela vem a ser executada em rádio.

CH - É verdade que você está preparando um livro?

MG -
 Quando eu estava vindo para cá, eu estava lendo um post no Facebook de um primo meu, que é editor na Carta Capital. Eu sempre gostei de escrever textos, crônicas e livros. Tenho muitas coisas escritas e guardadas. Ele teve acesso a isso e escreveu para que eu lançasse. Mas, o livro que eu devo lançar primeiro é com fotografias relacionadas a músicas. Será também ligado a ONGs. Vamos falar sobre reciclagem. Na verdade, terá um link social muito grande.

CH - Fale um pouco sobre o projeto social que você encabeça no Nordeste de Amaralina.

MG -
O Músico Cidadão surgiu como ideia, em 2005, e, em 2007, foi colocado em prática na Casa dos Praieiros, em parceria com o Projeto Axé. É interessante você ver como tem criança talentosa querendo ter acesso à música, aos instrumentos e danças. O projeto tenta proporcionar justamente isso. Logo depois do carnaval, quando conversei com Paulo (Borges) que eu estava querendo sair da banda, tive a ideia de retomar o projeto. É legal oferecer nossa experiência a pessoas que querem ter acesso a isso e não têm oportunidade. O Músico Cidadão já funciona no Nordeste de Amaralina. O diretor artístico é Thiaguinho Trade, baterista do Cascadura. Ele e mais três professores dão aulas. Eu não dou aula, sou só a parte do lobby, da captação. Eu ajudo oferecendo meu conhecimento e cara de pau de ligar para as pessoas e pedir ajuda. Tudo é feito em parceria com os líderes comunitários do Nordeste de Amaralina. São 150 alunos tomando aula. Eu fui lá e fiquei encantado. Queremos estender para Cajazeiras e Itapuã no próximo ano.

CH - Vamos finalizar falando sobre sua estreia como colunista de esportes no jornal A Tarde.

MG -
 Futebol é uma paixão minha. Foi um convite bem inesperado e muito gentil. Eu sempre posto textos em meu Facebook e Twitter brincando com o lance do futebol, do Bahia, do Vitória. Viram e me convidaram para escrever da forma como faço nas redes sociais. Não queríamos nada técnico, como análise tática. Eu quero escrever para pessoas que não necessariamente gostam ou entendem de futebol. Estou pegando o timing. A coluna vai ser dia de quinta-feira e estou me divertindo com esse novo desafio. Eu gosto dessa nova forma de me comunicar com as pessoas.

Fotos: Cláudia Cardozo // Bahia Notícias

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