Terça, 22 de Janeiro de 2013 - 11:40

Ellen Oléria fala sobre sucesso, vida pessoal e diz que não teme ser esquecida

por Marcela Gelinski

Ellen Oléria fala sobre sucesso, vida pessoal e diz que não teme ser esquecida
Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias
Com um jeito manso, Ellen Oléria vai mostrando que é uma artista nata. Formada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília, a música entrou na sua vida desde cedo, por influência do pai e dos irmãos músicos. Desde então, mesmo quando não apostava no som como uma carreira profissional, a música nunca mais a deixou. O sucesso chegou antes do The Voice Brasil, mas foi o programa que deu a projeção que Ellen precisava. Mesmo com a fama repentina, ela mantém os pés no chão. Prefere acreditar que isso é uma oportunidade, mas que terá que batalhar para fazer valer a pena o esforço. Esquecimento? Não, ela não tem medo, pois sempre esteve “na pista para jogo” e continua trabalhando muito. Da equipe do baiano Carlinhos Brown, Oléria conta que Salvador mora no seu coração e que ela já se sente parte do cenário da cidade. Nesta entrevista, ela contou um pouco mais de sua trajetória, pretensões, desejos, expectativas. Falou também sobre a homossexualidade, o passado e a fama.
 

Fotos e vídeo: Tiago Melo / Bahia Notícias
 
Bahia Notícias - Você começou sua carreira musical com 16 anos. Você teve influência de quem?
 
Ellen Oléria - Acho que o cenário todo acaba influenciando. Além da própria música em si mesma, que sempre foi uma parte muito presente do meu dia a dia - tenho um pai músico, meu irmão é músico, minha irmã é cantora também. Então, além da música que chega pelo rádio, pelos vizinhos, pelas vizinhas, o povo dentro de casa sempre foi muito da produção musical.
 
BN - Você teve dificuldade para começar sua carreira? Como você começou a cantar profissionalmente?
 
EO - Foi uma coisa muito natural. A partir do momento em que a gente entende que a produção da gente pode ser um meio de subsistência também, a gente começa a pensar em fazer disso o nosso dia. Mas de fato eu fugi muito de pensar a música como profissão. Demorei muito mesmo. Inclusive pensei em tudo, menos isso. Sempre achei que eu podia levar a música como algo paralelo. Mas a música, desde que chegou para mim, nunca me abandonou. Mesmo quando eu pensei em fazer cinema e não tive possibilidades, porque não tinha um curso de cinema em universidade pública na minha região e se fosse pago a gente não tinha condição de fazer, eu procurei artes cênicas para ficar dentro da música. E a música acabou acompanhando essa minha trajetória, mesmo em espetáculos teatrais. Quando a gente ia circular com um espetáculo, nas horas vagas, depois de um dia de função, eu dava canjas nos bares e restaurantes onde a gente estava. A música acabou falando muito alto e atendi a essa demanda também, porque nunca deixei de tocar. Só comecei a trazer isso para outras esferas mesmo, que foi efetivamente pensar isso como uma profissão.
 
BN - Você fez parte de duas bandas, a Pret.utu e a Soatá. Você continua ou pretende continuar a dar seguimento a esses projetos?
 
EO - Na verdade é assim. A Pret.utu é a banda que acompanha meu projeto autoral. Então, eu, como Ellen Oléria, me apresento desde 2005 acompanhada da banda Pret.utu. O Pedro Martins na guitarra, o Célio Maciel na bateria, Felipe Viegas no teclado, Leo Barbosa na percussão e hoje nós estamos com Sandro Jadão no baixo, porque a nossa baixista Paula Sindres está de licença maternidade. Ela acabou de ter um bebezinho, o Camilo, e não veio para Salvador. O Sandro Jadão é nosso parceiro também há algum tempo. A banda Soatá já é uma outra relação. Eu sou a cantora da banda, toco instrumentos de corda, de percussão. Somos uma banda que mistura ritmos amazônicos com rock 'n' roll. E sim, espero que a gente tenha a possibilidade de continuar nesse laboratório. Desde 2006 nós estamos juntos. A gente gravou um disco que está em fase de pós-produção, estamos mixando, vamos masterizar logo. Acho que é bacana a gente ter espaços para explorar a nossa diversidade musical.
 

 
BN - Você já era conhecida antes do The Voice Brasil. Chegou a fazer show de abertura de grandes cantores como Milton Nascimento e Lenine. Como foi a decisão de entrar no programa?
 
EO - Na verdade, a carreira de quem vive de uma maneira independente do grande mercado fonográfico, de uma cena underground, tem se deparado com essa instabilidade na carreira. É um mês em que dá tudo certo e três meses de seca. Eu nunca fiquei sem trabalho, mas muitas vezes fiquei sem recurso. Sempre tive muito trabalho para fazer. Fui, durante esse tempo todo, a gestora do meu projeto autoral. Fiquei pensando mesmo, não nas facilidades, porque acho que a gente não espera isso no caminho. A gente sabe que a vida é dura para todo mundo em qualquer segmento. A gente precisa batalhar. Mas a minha ideia era pensar isso como uma grande vitrine, uma possibilidade de mostrar [o trabalho] para um público maior, de uma maneira mais imediata, e acho que o papel da TV é esse mesmo, atualizar imediatamente de uma maneira massiva informações, tradições, contradições. A minha ideia era essa, chegar em um grande público e mostrar a música. Acabei sendo agraciada no percurso com a vitória dentro do processo, apesar de acreditar mesmo que ninguém saiu derrotado do processo, porque todo mundo teve a oportunidade de mostrar seu projeto, seu trabalho no The Voice. Mas fui agraciada em dinheiro, além do carro que recebi ou virei a receber (risos). Acho que esse é o grande ponto do programa, ter encontrado pessoas. Acredito que a rede também é muito importante. Sempre pensei a música dentro desse partilhamento de economia solidária. A gente não anda só. Precisa mesmo se articular, precisa da ajuda das pessoas pra botar a música na estrada e mantê-la na estrada. Eu acho que o programa deu pra mim o que eu fui procurar, que é essa visibilidade. 
 
BN - Você foi escolhida pelos quatro técnicos. Os quatro viraram a cadeira para você e aplaudiram de pé sua audição às escuras. Por que você escolheu Carlinhos Brown? Foi por ter um estilo parecido com o dele ou pela capacidade artística?
 
EO - Cada artista ali tem a sua impressão digital na música popular brasileira. Cada um, cada uma, com seu jeitinho. Acho que eu venho também com o meu tempero próprio. Mas sim, de fato acho que esteticamente, até pela trajetória também, me identifico muito com Carlinhos Brown. E já por ter apreciado a produção dele de uma maneira muito intensa em outras épocas da minha vida, achei que ia ser um encontro bem bacana. Mas de fato, vou dizer pra você que acho que estaria muito bem acompanhada por qualquer uma daquelas figuras ali. Daniel é um gentleman, um doce. O Lulu, eu acho que é mesmo um dos grandes representantes da nossa música pop. E a Claudinha arrebanha multidões por onde ela passa. Acho que estaria muito bem acompanhada e cada um deles teria algo muito magnífico para compartilhar comigo e vice-versa. Acho que fui bem feliz na escolha do Brown porque saí vitoriosa nesse sentido. Estive com ele no Sarau du Brown agora e a cada dia que passa eu vejo que ele é essa figura que se apresenta mesmo a primeira vista. Um cara apaixonado pelo que faz. 
 

 
BN - Como vencedora do The Voice, você irá ser contratada por uma grande gravadora. Você acha que isso poderá mudar de alguma forma o seu estilo musical?
 
EO - Não, eu acho que a música não pode ser vista com rigidez. Eu acho que a gente precisa mesmo a cada momento se flexibilizar. Eu acho que a música tem a ver com isso, flexibilidade mesmo. Não posso engessar a minha produção ou achar que o que fiz até agora na minha caminhada é determinante e definitivo para o que vem. Estou super disponível para escutar as vozes dessas pessoas que eu sei que são qualificadas para me assessorar, me orientar. Vou escutar. Acho que é tempo de experimentar também. Não estou com o coração fechado para nada. Acho que estou na pista para jogo. Vamos ver o que dá. Vamos conversar, vamos produzir, vamos criar. E acho que estou muito bem acompanhada mesmo, bem assistida. 
 
BN - A Globo, na sua participação do The Voice, assumiu diante das câmeras a relação entre duas mulheres. Se referiam como “a namorada de Ellen”. Você acha que a sua participação foi importante para ajudar o brasileiro a ver essa relação com maior naturalidade?
 
EO - Acredito que as instituições, todas elas, existem para nos atender e não o contrário. A gente não existe para atender as instituições, elas estão para nos atender, nos representar. Acredito que toda instituição é feita por pessoas e eu sou mais uma. Estava de passagem, com data marcada para sair da instituição. Eu acredito que as pessoas da instituição espelham também os seus lugares, as pessoas com quem se articulam. Fui tratada com muito respeito pelos profissionais que encontrei dentro do processo. De fato, acho até interessante que tenha havido toda essa repercussão do que para mim é, de fato, algo natural. Acho que todo mundo se relaciona afetivamente. Acho que nada foi feito de uma maneira inadequada. Acho que tudo foi muito pontual e atendeu e espelhou a realidade. Acho que me vejo assim também, naturalmente. 
 
BN - Você pretende se engajar futuramente em alguma causal homossexual?
 
EO - Acho que sou engajada no sentido de ser e representar o que sou, tudo o que sou. Então trago comigo essas marcas no meu corpo. São várias marcas, como as rugas que já começam a desenhar o meu rosto. Essas são marcas também que me significam como pessoa, como ser vivente. Eu falei da passagem pela instituição e estou de passagem também pela vida. Espero que nessa passagem eu possa fazer o melhor possível. Então se é para o bem, espero estar sempre engajada positivamente. 
 

 
(A entrevista é interrompida pela cantora e também participante do The Voice Brasil Maria Christina. Ela estava no hotel para fazer uma participação no show de Ana Carolina à noite, no Festival de Verão. “Mentira, venha me dar um beijão”, disse Ellen, super animada com a surpresa. As duas se abraçaram e aproveitaram para tirar fotos e registrar o momento).
 
BN - Agora, você tem uma relação forte com Salvador, já veio aqui algumas vezes desde que saiu vencedora do programa. Como começou isso, como é o sentimento com a cidade?
 
EO - Ah, tenho uma paixão por Salvador, pela terra  que me recebe generosamente desde a primeira vez que eu vim. Acho que eu vim pela primeira vez em 2010, 2009, talvez. Mas cheguei muito bem recebida pelo poeta que eu acho que já também se considera baiano. Ele é nascido em Curitiba, mas vive seus dias já há algum tempo aqui na Bahia. Nelson Maca, o nome dele. Tive uma passagem pelo bloco Afro Cambi também. Me sinto parte da paisagem daqui. Me sinto em casa quando chego. Amo muito a Bahia, amo Salvador. Todo mundo que eu conheci na minha caminhada daqui me traz esse respiro, esse oxigênio que eu acho que é típico daqui, do lugar. Desse litoral fantástico, que também tem um jeito muito louco de receber as pessoas que vêm de outros países. Então sempre vejo uma presença colorida e diversa aqui na cidade. Acho que gosto disso também.
 
BN - O The Voice foi muito relacionado ao Fama, pela semelhança de ser um programa musical. Diferentemente do Fama, o The Voice foi um sucesso estrondoso. Você até comentou que as pessoas que não saíram vencedoras, venceram de alguma forma. No caso do Fama, poucas pessoas despontaram após o programa. Até os vencedores caíram no esquecimento. Você tem medo que isso aconteça?
 
EO - Não! Não tenho, não. Acho que a luta continua independentemente dos processos que a gente escolhe acessar na nossa caminhada, independentemente do nome que o reality leva, a gente continua tendo que sair e investir, criar estratégias para continuar trabalhando. Acho que isso é parte da vida de todo mundo que se considera trabalhador ou trabalhadora. Nesse país a gente precisa continuar na luta. Acho que não posso hierarquizar esses processos e dizer que um programa foi melhor que o outro. Acho mesmo que eles têm um recorte similar. A gente está falando de estrada, de música. Mas acho que cada tempo é um tempo e espelha uma realidade do país. Acho que tive sorte de escolher integrar esse processo. Eu podia ter participado de outros recortes também, tive a oportunidade de me inscrever, mas escolhi não fazê-lo. Não acredito que passar por um reality show na TV é uma solução ou o único caminho para a gente que está batalhando. A gente sabe disso. Existem vários outros caminhos possíveis para se fazer música. Esse é só um. E acho que é isso. Não tenho medo do meu caminho, não. Sempre tive na pista pra jogo e continuo trabalhando bastante.
 

 
BN - O que mudou da Ellen Oléria de antes e depois do The Voice? Com relação à fama, porque todo lugar que você chega agora causa o maior alvoroço.
 
EO - Acho que o que muda são as oportunidades, as portas abertas. Eu costumo dizer e tenho dito que o The Voice Brasil foi um portal e atrás desse portal mágico eu encontrei portas abertas, várias portas abertas. Acho que isso muda e é muito bom pra gente que busca isso, que está querendo mostrar o nosso som, fazer o nosso trabalho honestamente e compartilhar o que a gente tem recebido. Isso mudou as possibilidades de lugares onde eu posso apresentar o meu som.
 
BN - No Carnaval, você volta para Salvador?
 
EO - Espero que sim! Tenho um convite da Ludmillah Anjos para subir no trio elétrico, tem o convite renovado do bloco Afro Cambi também. Acho que tem outras coisas também tramitando e assim que a gente tiver notícias disso, eu posso confirmar. Mas acredito que a gente passa por aqui, sim. 

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