Terça, 18 de Setembro de 2012 - 10:45

Jair Rodrigues sobre Lei Antibaixaria: 'É preciso se fazer isso em todo o Brasil'

por Marília Moreira

Jair Rodrigues sobre Lei Antibaixaria: 'É preciso se fazer isso em todo o Brasil'
Com mais de 50 anos de carreira, Jair Rodrigues, "pai do rap", de Jair Oliveira e de Luciana Mello, esbanjou energia em entrevista ao Bahia Notícias. O cantor veio a Salvador na semana passada fazer duas apresentações: uma foi a participação no show do seresteiro Tony Brandão, no bar B-23, no Itaigara, e outro em comemoração ao aniversário do Mercado do Peixe, no Rio Vermelho. "Ligado no 220", como se costuma dizer, Jair deixou o "deixa isso pra lá" e falou sobre temas controversos como a qualidade musical do que é produzido atualmente, a Lei Antibaixaria e a relação entre pais e filhos da música, comentando, especificamente, sobre o novo trabalho de Maria Rita em homenagem à mãe, Elis Regina, sua saudosa amiga. Confira a entrevista:
Bahia Notícias –  Como surgiu o convite para participar do show de lançamento do CD de Tony Brandão, um seresteiro? Já conhecia o trabalho dele?
 
Jair Rodrigues – Juruna [produtor], que foi quem me convidou para fazer a participação nesse show, me entregou o CD do Tony Brandão e eu estou aqui. 
 
BN - E o repertório vai ser algo mais voltado para a seresta?
JR - Comigo graças a Deus nunca houve problema de repertório e creio que nem vai haver, pois são 53 anos de carreira, então eu já gravei de tudo nesse Brasil de meu Deus. Porque eu fui crooner, cantava na noite. Antes de gravar o meu primeiro disco, em 1962, eu já cantava, já tinha um respaldo de noite de uns cinco ou seis anos na noite – eu cantei dez anos na noite. Então, a partir do primeiro disco que eu fiz, fui fazendo essa diversificação. Então, eu gravei músicas de diversos estilos do Brasil, né? Cheguei até a gravar algumas coisas italianas, japonês, francês. Mas eu adoro mesmo é a música do meu país e é aqui onde está tudo de bom dentro da música. Os discos meus que mais vendem até hoje foram os três discos de seresta: um de 1979, outro de 1981 e outro de 1983. O disco que eu gravei com a Elis, saudosa e inesquecível amiga, Elis Regina, “Dois na Bossa”, também é um disco de sucesso. Então, por todo esse país, em todos os lugares que a gente chega, a gente faz esse tipo de viagem musical, então não tem problema.
 
BN - E o show no Mercado do Peixe? 
JR - É, eu já conheço o Mercado do Peixe. Mesmo sendo um lugar aberto, um ambiente popular, eu tenho sambas conhecidos no mundo inteiro. Eu estava falando para um músico meu que eu fiz muito sucesso aqui com um samba tipo capoeira, tocado a ritmo de berimbau, chamado “São Salvador, Bahia”. A primeira vez que eu vim aqui em Salvador foi em 1962, 1961, e eu já me sinto em casa aqui na Bahia, de um modo geral. Eu sou um paulibano. Metade paulista, metade baiano.
 
BN – E você fala isso em qualquer lugar que você chega ou é um paulibano autêntico?
JR – [risos] Quando eu chego no Rio, eu sou paulioca, metade paulista, metade carioca. Se eu chego em Minas Gerais, eu sou Paulineiro, metade paulista, metade mineiro [risos]. Onde eu chego, eu invento logo uma coisa.
 
BN – Nesses 53 anos de carreira você produziu muita coisa, como você mesmo disse, seu repertório é muito variado. Mas o que é que você ouve dos outros?
JR – Ah, eu escuto... Desculpa não sou um pai coruja não, não estou falando como corujismo, mas eu escuto muito os meus filhos, tanto o Jairzinho, o Jair Oliveira, quanto a Luciana Mello, mas eu vejo coisas do Rappin Hood, do Emicida.
 
BN – Você gosta de rap? O seu título de “autor do primeiro rap do Brasil” faz jus?
JR - Você sabe que o rap surgiu aqui, no Brasil, em 1964, com o “deixe que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá”? Então essa moçada que faz o rap de hoje entende mesmo que eu sou o precursor do rap no Brasil, que não nasceu nos Estados Unidos, não nasceu na Europa, nem no Japão. Nasceu aqui, em 1964 e quem me deu essa notícia primeiro foi o Herbert Vianna, em 1987. Nós estávamos juntos, fazendo um show no Festival de Montreaux, na Suiça, e ele me deu essa notícia. Só que ele me deu essa notícia assim: “Ô Cachorrão [meu apelido, né?!], você sabe que a gente ia fazer uma pesquisa de onde tinha surgido o rap e, de repente, a gente descobriu que você é o pai do rap”. Aí eu falei “Não, eu sou o pai do Jairzinho e da Luciana, não fica inventando mais filho pra mim não”. Aí ele explicou que o rap não é só por causa da mistureba de ritmos, mas pelo fato de os versos serem feitos em cima deles. E na época, não tinha aquela falação, era cantado. E eu gosto de ouvir esses novos meninos, pra ver o que eles estão fazendo. Gosto muito também de escutar aquele que é um dos maiores compositores e que exalta e sempre exaltou muito a Bahia, o meu amigo, o meu compadre Edil Pacheco. Já passou da hora de esse menino receber uma comenda aqui como um dos grandes compositores.  Ele até falou que mais tarde passa aqui, porque eu estou fazendo um novo trabalho, um projeto que o Jairzinho está produzindo e dirigindo: “Jair Rodrigues Samba Mesmo”. Vamos fazer uma série de shows, vai sair em disco também e, talvez, em um DVD no ano que vem. E o Edil Pacheco vem aqui mais tarde para me entregar várias músicas, que eu pedi a ele. Músicas alegres, que tenham letra, que tenham melodia, não essas coisas que fazem apologia ao besteirol, como tantas por aí, que fazem gestos pornográficos também. Outra coisa que adorei e que aconteceu aqui na Bahia foi o lançamento da lei que proíbe esse tipo de coisa.
 
BN – A Lei Antibaixaria...
JR – É, eu achei genial! Poxa, é preciso se fazer isso em todo o Brasil. Aqui na Bahia, como é que você esquece do Dorival Caymmi, do João Gilberto, Batatinha, do próprio Edil Pacheco, Gil, Caetano e tantos e tantos nomes que praticamente fizeram proliferar o bom nome da música popular brasileira, sendo a Bahia uma das precursoras desse trabalho? De repente, sem fazer um negócio desses, todo dia você escuta um palavrão na televisão. Esse pessoal da nova geração é bom, mas ficam dando preferência a fazer essas coisas, esses gestos obscenos, isso é horrível. É preciso um abrir de olhos. Eu não faço isso por mim não, porque graças a Deus eu já tenho uma carreira consolidada, 53 anos de carreira, 73 anos de idade, então a gente luta em prol dessa nova geração que está vindo aí. Porque a minha geração dos anos 60 é a mesma do Caetano, é a mesma do Gil, é a mesma do Chico, da Elis, do Wilson Simonal, Jorge Bem Jor, Marinho da Vila, Paulinho da Viola, Alcione, Beth Carvalho e tantos outros, Tim Maia, Raul Seixas. Então, a nossa geração foi muito feliz, pois foi assentada na trajetória de Carmen Miranda, de Dorival Caymmi, de João Gilberto, de Elizeth Cardoso, do rei da voz Francisco Alves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Dalva de Oliveira e tantos e tantos outros. Então nós aprendemos muito com essas pessoas e essa geração de agora não tem muito a quem recorrer.  Parabéns para quem propôs isso!
 
BN – O nome da deputada é Luiza Maia
JR - Parabéns a ela! Porque isso mexe com a cabeça do jovem, que pensa “pô, espera aí, nós estamos denegrindo o bom nome musical da nossa queria Bahia, vamos dar continuidade ao que estava sendo feito de bom”.
 
BN – Conte-nos mais sobre esse novo projeto, “Jair Rodrigues Samba Mesmo”.
JR - Este é o título, não significa que o projeto irá se restringir somente ao samba. Eu vou dar continuidade a um trabalho que eu sempre faço. Sempre faço um trabalho diversificado e como o título é “Samba Mesmo” vou procurar sambas da melhor qualidade, inéditos ou não. Mas eu também posso pegar outra coisa, transformar um bolero em samba [risos]. Não sei se o projeto vai ser lançado ou gravado esse ano, mas também não estou preocupado com isso. Estou preocupado em quando eu tiver um repertório, chegar à conclusão do que é que eu quero gravar e começar.
BN - Para além dessa nova geração que está nesse ritmo de produção, há muita gente fazendo coisa interessante por aí. Na sua época, os grandes festivais de TV e os programas de calouros eram grandes vitrines, mas hoje, falta espaço para essa nova geração mostrar o que tem feito?
JR - Eu acho que sim. O próprio rádio deveria dar esse espaço, como antigamente acontecia. A televisão, voltar a transmitir esses grandes festivais, já que tem muita gente boa espalhada por todo esse país. Fazer uma brasilidade com música de qualidade.  Já está mais do que na hora de fazer um festival que abranja todo o país. Os festivais que eu participei, incluindo o mais importante deles, em 1966, quando eu defendi duas músicas, uma de Paulinho da Viola e Capinam, chamada “Canção pra Maria”, que ficou em terceiro lugar, e depois “Disparada” de Geraldo Vandré e Theo de Barros, que empatou no primeiro lugar com “A Banda”, interpretada pelo Chico Buarque e pela saudosa Nara Leão, ao mesmo tempo em que você ouvia uma bossa nova, logo em seguida você escutava uma música sertaneja, você escutava um forró, vários gêneros, você sabia de tudo. É preciso que essa nova geração conheça tudo isso. Pouca gente conhece. Os meus filhos conhecem. Volta e meia eu os flagro mexendo em minha discoteca, que eu tenho ainda os “bolachões”, vinis, 78 rotações, compacto simples, compacto duplo. Hoje quando se fala dos compositores dessa velha guarda os caras só se lembram de dois ou três, Nelson Cavaquinho, Cartola e depois vacilam nos outros nomes. Tudo bem que se goste de rock, e eu também gosto. Quem falou que eu não gosto de rock?! Eu adoro! Hoje se se falar de Bill Halley e Seus Cometas... Hoje os caras quando falam de rock só falam do Michael Jackson e do Elvis Presley e mais uns dois ou três e se esquecem dos grandes roqueiros que nós tivemos aqui.
 
BN - Você e seus filhos costumam fazer shows juntos. Como é para conciliar, dentro de uma hora e meia de show, repertórios e preferências musicais tão distintos?
JR - Quando a Luciana está fazendo um show sozinha é  1h10, 1h15. Quando o Jairzinho está fazendo show sozinho é também 1h10, 1h15. Eu também quando estou fazendo show sozinho é neste mesmo tempo. Porque o nosso negócio é cantar. Tem muito artista que chega, canta uma música e fica falando dez, vinte minutos e o cara fala “Canta, porra!”, começa a vaiar, e a gente não deixa isso acontecer. Então quando fazemos um show juntos, a Luciana canta seis ou sete músicas, entra o Jairzinho canta seis ou sete músicas e eu chego canto umas oito músicas e depois a gente encerra juntos, com um samba lá pra cima. O cara compra o show dos três, mas não entram os três de cara.

 
BN – E como foi a coisa de vocês parodiarem o vídeo da família do “Para a Nossa Alegria”, que se transformou em um viral da internet?
JR - A gente fez isso porque iríamos fazer o show no Cine Joia, lá em São Paulo. O Cine Joia era um cinema e estava começando a receber shows no início do ano. Então, nós fomos contratados para fazer um show lá. Foi o Jairzinho quem trouxe o vídeo no celular e disse que deveríamos fazer um trabalho de divulgação próximo àquele que a mãe e os filhos do “Para Nossa Alegria” estavam fazendo. Aí ele explicou, eu topei e a gente gravou. Ou seja, uma besteira, mas que tem tanto acesso. Até eu falei: “Que gozado, né Jair, a gente joga tanta coisa bonita na internet e ninguém vê, de repente você faz um trem desses e dá centenas de acesso”. Para nosssaaaa alegriiiiaaaa, a Luciana desafinando, um horror!
 
BN – Falando de pais e filhos, você, que foi muito amigo de Elis Regina, vê como a investida de Maria Rita em relembrar a mãe com a turnê “Redescobrir”?
JR - Eu assisti à estreia de Maria Rita logo após ela ter gravado o primeiro disco. Era uma coisa gozada, porque você fechava o olho e parecia que estava ouvindo a Elis. Ela sacou os trejeitos da mãe e acho que não foi adiante com a Maria Rita. Claro que ela procura dar uma diferenciada, mas esse trabalho que ela faz agora não pega muito bem para carreira dela. Ela deveria ter feito isso antes, e antes ela negava, não queria fazer. Agora a carreira dela para deslanchar vai demorar um pouco, porque quando se fala em Maria Rita hoje só se lembra de Elis. Mas tudo bem! Não deixa de ser uma menina que tem um musical grande, que pode deslanchar, mas tem de sair dessa de Elis Regina, sair dessa da mãe.  Já fez esse trabalho, agora não dá esse sequencial não. Como o Wilson Simoninha, que, Nossa Senhora, é tudo do velho e saudoso pai. Tem que procurar também um estilo, mas ele encontra porque ainda está em tempo. Agora o Jair Oliveira e a Luciana Mello, desde cedo, não quiseram esse lance de ficar na do pai. Eles mesmos procuraram os caminhos deles e encontraram. Outro também que é um dos grandes cantores, mas que falta um repertório que faça ele arrebentar a boca do balão, é o Pedro Mariano, que eu considero, desses todos aí, o melhor.
 

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