Segunda, 05 de Fevereiro de 2018 - 11:30

Luis Ganem: Os oráculos de nada com coisa alguma

por Luis Ganem

Luis Ganem: Os oráculos de nada com coisa alguma
Foto: Emmanuel Carneiro / Ag Haack / Bahia Notícias

Todo mundo do meio artístico que encontrei neste ultimo mês, de um jeito ou de outro, resolveu falar da morte do Carnaval. E olha que tentei de todas as maneiras falar somente das ações que o sujeito desenvolvia no meio, sem instigar qualquer expansão nos limites da conversa, mas, parecia gripe. Vacilava estava lá o "enigmático" com olhos esbugalhados e cara de assustado falando que o Carnaval tinha acabado. Sobressaltados e com ar de tristeza – todos eles – os já saudosistas enfatizavam com veemência que percebiam agora que o fim realmente está decretado. Lógico, tal qual videntes e anunciadores do caos, os entendedores (não confundir com entendidos) me diziam isso ao tempo em que lançavam descrédito em suas próprias falas, quando defendiam: “Só não iria acontecer o fim se algo fosse feito”. E aí está, minhas senhoras e meus senhores, a parte forte da profecia do sujeito conversador mais esperto do mundo, falando de algo que nem o mais renomado dos oráculos veria: SÓ NÃO IRIA ACONTECER, SE ALGO FOSSE FEITO.

 

Agora, parando pra pensar: vai acontecer ou não? O que não dá é dizer que vai acontecer e colocar um "senão" no meio do caminho. Fico eu imaginando: o que leva um sujeito, normalmente sem análise profunda ou evidência concreta nenhuma – neste caso do próprio Carnaval – ficar levantando poeira, apenas para tentar vender a sua teoria do caos fajuta – penso eu, somente com o intuito de parecer estar certo em sua tese. E quando você tenta construir algo que possa afirmativamente desenvolver um raciocínio logico, para tentar construir uma possível tese sobre o assunto, o oráculo de meia tigela, desprovido da capacidade de promover um debate de ideias (eu disse debate de ideias? Putz, risos!), encerra o assunto, proferindo sua frase apocalítica na certeza inconteste de que é única e verdadeira: “depois não diga que eu não avisei”, ou então algo mais pitoresco como “fiquem vocês na sua ilusão que eu estou fora, pois, o Carnaval já morreu!”. Rapaz, confesso toda vez que acontece isso, fico esperando o som de música de suspense vindo de algum lugar, acompanhado de relâmpagos e trovões. Fico mesmo. 

 

Mas olhe, seu moço, dona moça, o desplante está tamanho, que nem pra vender o diacho do caos o povo se dá mais ao trabalho de desenvolver uma tese. O que se tenta vender é barro na parede. Se colar colou. Fora isso, nem uma linha de algo que possa ser assimilado e, que dirá, levado a sério. 

 

Pra se falar um pouco do que acontece no Carnaval – e aí é importante listar alguns aspectos para termos um entendimento de como anda o mercado ultimamente – é preciso contar uma pequena história, que remete a outra, e que remete a outra e por aí vai, para que se possa começar a ter um raciocínio lógico sobre o todo.

 

O Carnaval de Salvador, da forma comercial, feito para blocos obterem lucros para os seus sócios, na forma atual que conhecemos, só começou em verdade a partir dos anos 1980. Antes disso – já disse aqui em outros textos – era somente uma farra como outra qualquer de amigos que se reuniam e manifestavam a sua alegria em grupos ou não, sem essa premissa de ganhar dinheiro. Tanto que a maioria dos blocos ou quase todos, revertiam seus lucros para a melhoria da agremiação e para a compra de assessórios para sair no ano seguinte. 

 

Bem. Dito isto, é importante lembrar que passamos a década de 1980, a de 1990, adentramos o século XXI e chegamos à década de dez deste novo século, com a música do axé em alta. Ou seja, foram mais de trinta anos ininterruptos de fama, sucesso e dinheiro a rodo. E junto com o sucesso da música, a bolha carnavalesca veio forte, majorando tudo a sua frente. Todo mundo que tinha um dinheirinho e achava que conhecia de carnaval resolveu montar seu bloco. Resultado, como nem todo mundo cabia nos dias oficiais, o dia alternativo foi criado na Barra, os dias de festa aumentaram ao ponto de termos setes dias e o resto da historia todo mundo já conhece.

 

Meu espaço é pequeno e a história é imensa, sendo que dentro dela existem outras histórias. Mas nosso maior problema talvez tenha sido a falta de união que, inclusive, até hoje persiste, diga-se de passagem.

 

Mas isso é um outro texto pra um outro dia. Nesse aqui só restaria pedir aos oráculos de plantão para, quando encontrarem comigo, além de ficarem me vendendo teses sem fundamentos me passassem também os seis números da Mega, por favor.

 

A todos os leitores do Bahia Noticias um feliz carnaval, e caso encontre ou tenha no seu círculo social algum amigo "sabe tudo", saia fora que é encosto (cara chato, mala sem alça, faroleiro). Risos!

 

Como dizia Millor Fernandes, “quem sabe tudo, é porque anda muito mal informado”.

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