Segunda, 11 de Setembro de 2017 - 09:30

Luis Ganem: O som dazamigas

por Luis Ganem

Luis Ganem: O som dazamigas
Foto: Camila Serejo / GShow

E comecei a ouvir o som "dazamigas". Não! Relaxe que não fiquei burro, nem nada do tipo. Falei dessa forma, pois quando postei na minha rede social que estava ouvindo a nova música de Ivete Sangalo e a de Claudia Leitte, um amigo – penso eu – perguntou, em mensagem privada, se o termo usado: "dazamigas", era uma ironia ao fato de saber que tenho uma excelente relação de amizade com Ivete, a quem conheço desde a adolescência do Edifício Sparta, que fica ali na Rua Bahia, uma transversal da Avenida Manoel Dias da Silva, no Bairro da Pituba, mas também por saber que com Claudia Leitte a coisa já não era dessa forma, e que talvez ou meu termo: “azamigas” fosse uma grande gozação da minha parte.

 

Foi até bom o inepto ter perguntando isso, pois é importante ressaltar que, diferentemente do que foi pensado pelo meu “amigo”, meu gesto no uso da linguagem coloquial “azamigas” se deu lá no Instagram e aqui, pelo manifesto feito por parte da cantora no carnaval que passou, com uma saudação e palavras bastante singelas a minha pessoa, no que entendi como uma bandeira de boa vontade, e de tentar colocar um ponto final em algo que ultrapassou, em muito, os muros da sensatez, e da prática salutar da boa convivência. Daí, o uso do termo advém da vontade – a partir daqui – de ambas as partes. E como não tive oportunidade de falar ainda na festa, e agradecer as palavras proferidas na ocasião, quando comecei a ouvir as duas cantoras e suas novas músicas, fiz a referência usando o termo.

 

Mas, voltando ao propósito desta coluna, faz duas semanas que parei para ouvir o que estava sendo feito pelas duas artistas, nessa nova etapa da música baiana cheia de Reggaeton (estilo musical com raízes na música latina e caribenha) e efeitos de Sampler. Passei quase todo o tempo que tive livre, ouvindo-as quase à extrema exaustão dos meus tímpanos, a ponto de literalmente saber letra, arranjos, detalhes, tudo que envolva as duas músicas. E foi a partir dessas repetitivas audições, que consegui entender o direcionamento lógico das duas com suas novas músicas de trabalho. Lógico, isso tudo dentro da minha ótica, que é apenas mais uma em relação às muitas devem existir por aí. 

 

Percebi que enquanto Ivete aparentemente vem com um propósito apenas de "ser feliz", e traz na sua música a participação de Wesley Safadão – a figurinha da vez em duetos –, é fato por trás dessa tranquilidade ver a genialidade da artista. Se pararmos para pensar, nos últimos tempos a moda musical do ritmo axé, e consequentemente do que saía da Bahia, foi ditada por Ivete. 

 

Sempre na contramão do que estava em voga, dona Maria – como Saulo carinhosamente a chama – induziu de forma salutar e positiva, seu entendimento do novo, a sua percepção dos caminhos, deixando para trás a mesmice e o repetitivo. E é isso que ela agora faz de novo. "À vontade", sua nova música de trabalho, expõe essa sua ótica perfeccionista e ao mesmo tempo com um quê de “displicência” de fazer valer o novo, mas sem afetar o que já existe. Os elementos usados para construir sua nova canção, desde a caixa de bateria quase sem efeito na primeira parte da música – tanto dela, quanto na de Safadão – ao uso dos elementos percussivos básicos do ritmo axé, como o bumbo de marcação, o bongô, passando pelos efeitos de sampler do maestro Radamés, ou ainda pelas frases de arranjos do Baixista Gigi, remetem mais uma vez a envolver quem escuta sua música de forma paulatina, sem pressa, sem pressão.

 

Claudia propõe uma música mais cosmopolita. É perceptível uma busca por parte da artista de algo que possa mesclar a sua condição de cantora de um ritmo forjado em cima de um trio elétrico e que tem como sua principal referência a espontaneidade, com algo que possa transcender essa linha. Para tanto, em seu novo trabalho, a mesma traz a opção de não usar os argumentos percussivos baianos – ao menos na música lançada "Baldin de gelo" – que normalmente fazem parte assinatura do ritmo. Lógico, isso em tese nada significa, pois isso pode ser parte da estratégia da artista, já que a qualquer tempo, pode vir a usar esses elementos, como por exemplo nas apresentações em shows. Em principio e daí usando o “talvez”, a ideia de fazer valer em outros mercados ou outros nichos de mercado, explique a inexistência do símbolo percussivo, e a falta do mesmo seja um fator a mais para diminuir a ideia de ritmo regional ou música latina, o que diminuiria as chances por exemplo se a ideia for ganhar o mercado norte-americano.

 

O mais certo nisso tudo é que as duas artistas, diferentemente de como tem se comportado o mercado, colocaram o “bloco” na rua corajosamente e bem mais cedo do que qualquer outro artista de primeira grandeza do axé. Suas apostas, por mais que sejam distintas, ressonam nas entrelinhas um entendimento único que na crise ou na guerra, recuar nunca é a melhor opção. 

 

Ganha com isso o mercado e os que gostam da música baiana, pois a tendência de mais músicas, normalmente, acontece quando seus principais artistas lançam seus trabalhos, e sugerem novas tendências ao mercado.

 

Mas, antes que o filho do cascudo resolva me perguntar qual música é mais simpática aos meus ouvidos, vou logo dizendo o seguinte: eu tenho pra ofertar uma garrafa de champanhe com "baldin de gelo" pra todo mundo ficar "à vontade".

 

Fui...

 

 

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